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Confecção de um poema esfarrapado























confessou: «sou uma aranha preguiçosa.» na época eu representava, p’ra mim mesmo, o papel de andarilho-pedinte. gostei da única teia daquela aranha - ia de encontro à minha ideia de desobjecto. era uma teia muito rota, tinha mais buraco que fio: «é p’ra poupar baba», explicou a aranha, enquanto arrastava um pouco mais a posição. «você gosta de fazer poemas?, leve essa teia consigo. ela apanha mais pessoas que moscas. e responde bem a desejos idiotas.» quis agradecer à aranha, mas ela: «agora desvie-se do caminho do sol.»
hoje em noite imito a aranha preguiçosa: por vezes deixo essa teia aberta no meio de nenhuma tarde. por vezes estendo a teia numa madrugada brilhante. de manhã encontro na teia fiapos inexplicáveis da natureza e da natureza das pessoas. guardo sempre no bolso um pouco da baba que essa aranha me ofertou. com fios dessa baba faço remendos nesses fiapos, tal igual a tia maria fazia aquelas almofadas bonitas na sala da nossa infância. a confecção de poemas a partir de fiapos inconcretos é uma arte diferente da feitura de almofadas, até porque as almofadas podem ainda ter utilidade apalpável.
tenho pena que a tia maria não tenha cruzado a berma da estrada desta aranha. incríveis almofadas teriam ornamentado a nossa infância...




Ndalu de Almeida

Grande ardósia


























um homem triste sabe guiar-se nos labirintos da grande ardósia. um poeta ilumina as suas lágrimas com a escuridão do universo. na baba mais suja de uma lesma aparecem reflexos leves de estrelas ascendentes. havia um velho muito velho que falava assim: «a grande ardósia é o verdadeiro telhado do mundo.» as lágrimas das pessoas tristes, inundadas de coisas profundas, são por vezes chamadas de estrelas. [esse velho lhes chama «acesas janelas».]
é preciso ter calos nas mãos para afagar a grande ardósia. ou muita doçura campestre. alguns humanos teimam em chamar «universo» à grande ardósia. [ela nunca se ofendeu.]




Ndalu de Almeida