Thursday, January 29, 2026

dos romances

«Ele olhava e cada vez parecia mais perplexo. Por fim, voltou-se, como para se convencer de que não havia errado no caminho. Lá estava a praça larga e deserta, com um pequeno jardim na extremidade e o posto do correio, à esquerda. Lá estava a velha igreja que padroava o vale sobre o planalto -- lá estava.» A Experiência (1954)

«-- Vai pau! -- Num instante, a frase humanizara aquela alegoria de desvario. Todas as lâmpadas se apagaram, menos a do homem que a proferira. Mas logo outras três se reacenderam, à volta da árvore que ia tombar, e por ela os seus focos subiram até a copa, onde se fixaram como se pretendessem sustê-la com essas débeis escoras de luz.» O Instinto Supremo (1968)

«A ele, pele de cabrito não deixava mais de vinte tostões; ao Sarzedas, era o que se via! Já alargara a casa e toda a gente dizia que aferrolhava bom dinheiro. E tudo por causa do perneta do Jerónimo, pois seria capaz de jurar que fora ele quem andara com enzonices junto de Iglésias. Mas ai, se ele, um dia, tivesse a certeza! Nem os ossos se lhe aproveitariam!» Terra Fria (1934)

Tuesday, January 27, 2026

correspondências

Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928) .../... «Voluntariamente exilado na província, acompanho com o coração nas mãos os seus triunfos, a sua gloriosa carreira de homem de letras. E a cada livro seu que vejo anunciado, sucedem-se dias de impaciência febril pela chagada do carteiro, que mo trará, tenho a certeza, hoje ou amanhã, com uma dedicatória toda estima, uma dedicatória fraternal, uma dedicatória-recordação de saudosos tempos, que infelizmente já não voltarão.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007) 

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): «Lx.ª 19 Set 1929 // Meu querido Castro: Recebi o seu postal, e apresso-me a responder-lhe, pedindo mais uma vez desculpa da minha falta involuntária; mas, como já lhe disse, adoeci em meados do mês findo, e continuo em tratamento. Para mais, o Lança adoeceu também, e eu fiquei só na secção, trabalhosa, como V. muito bem sabe.» .../... Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1925): .../...«Quanto ao Suplemento ainda não falei com o Pinto Quartim, que o dirige. Mas estou certo que ele aceitará também a sua colaboração. / Adeus, meu amigo. Escreva-me, mande os desenhos do A.B.C. -- depois, v. tratará directamente com o secretário da redacção, que lhe enviará os trabalhos e a "massa" -- e diga-me coisas... Um grande abraço do amigo que tem que lhe dar uma grande sova por esse isolamento que é quase uma renúncia (ou não?) // JM Ferreira de Castro» Correspondência (1922-1969) (1994)

Thursday, January 08, 2026

errâncias

«A estação do caminho-de-ferro e umas minas próximas sugerem, com as suas torres metálicas, os seus fios, as suas placas, a terra mexicana de onde se extrai o petróleo. / Informo-me sobre o caminho para Andorra. Vou, enfim, saber como posso atingir o original país, que novo paraíso deve ser pela dificuldade em o encontrar.»  Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38) - «Andorra» [1929]

«Duas centenas de metros e o presente faz uma aparição fugidia, um corte brusco no cenário, assim como se dividíssemos, de repente, o corpo vivo duma mulher correndo entre velhas estátuas, numa galeria que tivesse por fundo a luz e o colorido dum parque.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Com a manhã nascida, extintas, ao longe, as lumieiras de Cádis e dobrada a porta de Trafalgar, metemos ao canal que separa a Europa da África. Dum lado e outro, na terra alta, cortada quase a prumo, canhões espanhóis, de longo alcance, espreitam, de suas luras, quem entra e quem sai. É a entrada do Mediterrâneo que eles visam e o penhasco de Gibraltar, agora ao alcance destas bocarras de fogo.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Sunday, January 04, 2026

traduções - CANÇÕES DA CÓRSEGA

«Chants de Corse»: «Mesdames, / Messieurs // En février de cette année, je me suis retrouvé brûlant de curiosité dans un froide glacial, à San Petru de Venacu, au coeur de la Corse. / Je m'étais rendu sur l'île avec l'intention d'oberver les coutumes et, si possible, la psychologie de ses habitants.» - trad. Eugène F.-X. Gherardi, Mondes en Petit et Vieilles Civilizations (Corse, 1934) (2023) 

Canções da Córsega: «Minhas Senhoras, / Meus Senhores: // Em Fevereiro deste ano* eu encontrava-me, com muito frio e muita curiosidade, em S. Pierre de Venaco, no coração da Córsega. / Tinha ido àquela ilha com a pretensão de observar os costumes e, se fosse possível, a psicologia do seu povo.» (1936)

* 1934.

Wednesday, December 17, 2025

dos romances

Subi à casa do Rebelo e leccionei-o sobre a forma de ele pôr a bom recato o nosso material. De armas e dinamite não tinha o Governo urgência alguma e a nós, futuramente, far-nos-iam falta; além disso, era escusado ele ir malhar com os ossos na cadeia.» O Intervalo (1936/1974) 

«Pouco depois, aqui, ali, mais além soavam os golpes dos machados, na noite já toda nervosa. Lâmpadas dispersas, iluminando os pés dos troncos, quase estáticas, dir-se-iam detidas para dar tempo a decifrar uma remota inscrição. Não se enxergava quem as sustinha, nem os homens que cortavam; só se viam os machados e as mãos, ora a sair, ora a mergulhar na sombra, como os insectos chamados ao farol que os matará.» O Instinto Supremo (1968)

«Porto Santo avolumara-se, revelando-se à curiosidade fugidia e perdendo em mistério o que dava em relevo orográfico. As suas casitas estendiam-se junto à riba, branquejando entre a paisagem e sugerindo uma vida tão plena de claridade quanto modesta; mas haviam crescido em número, sim, pois Juvenal pudera contar muitas mais do que na época, já distante, em que viera com a família passar o Estio na vila Baleira.» Eternidade (1933)

Friday, December 12, 2025

correspondências

Jaime Brasil a Ferreira de Castro (1929): .../... «Garditch lhe explicará melhor o que pode fazer e não estranhe os seus limitados conhecimentos de português, p.ª tradutor, pois tem amigos que o auxiliam nas traduções. Bastará, depois, passar à peneira [?] a prosa, p.ª q. fique escorreita. / Faça pelo nosso camarada o q. puder, como se o fizesse ao // seu camarada e admirador / mto obrigado / Jaime Brasil // Lx.ª 4/V/929» Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Ferreira de Castro a Roberto Nobre (1925): .../... «Para isso, talvez você se inspirasse lendo a própria Batalha... Legenda e assunto ao seu critério. Pagam quinze escudos por cada desenho. Agrada-lhe Roberto? Eu escuso de dizer-lhe que a mim agradava muito que V. principiasse a a surgir nos jornais de Lisboa.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994)

 Mário Lyster-Franco a Ferreira de Castro (1928): «Meu querido Ferreira de Castro // Recebi há dias -- há já bastantes dias mesmo -- o seu magnífico volume. E garanto-lhe que a satisfação que ele me trouxe está na razão inversa do tempo que eu tenho levado para, com um enternecido abraço, lho agradecer. Mas os afazeres são felizmente alguns, e esta tem sido a causa da demora, que lhe peço me perdoe.» .../... 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007)

Wednesday, December 10, 2025

outras palavras

«Mas entre tanta gente, de tão diferentes atmosferas morais, afectivas e mentais, poucos tenho encontrado como Delfim Guimarães. Junto deste homem de forte estatura, com um físico propício a esses lutadores que desejam triunfar esmagando tudo e todos, aprendia-se a não esmagar ninguém, a não triunfar à custa do sacrifício de alguém, a respeitar tudo e todos.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Apesar disso, deixei-me fascinar por um jogo infantil e roubei em casa uma colecção de botões, que era de grande estimação e que me valeu um severo castigo, logo repetido quando comecei a vender, ocultamente, para comprar fogos de S. João, várias lunetas que estavam guardadas na nossa velha escrivaninha.» «[Memórias]» (1931)

«O fiel amigo, com couves e batatas, é da tradição; quem tem mais posses frita, também, a sua rabanada. O vinho corre, rosado, transparente, sobretudo à hora do magusto, quando as castanhas estalam no fogo. / Cada lar parece viver isolado do mundo, sozinho no mundo, como se para lá das paredes negras de fuligem nada mais existisse.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)

Tuesday, December 09, 2025

nas palavras dos outros

Agustina Bessa Luís (1966): «Eu aprendi, porém, que o valor dos homens de raça não é senão orgulho que acrescenta os nossos direitos a seguir-lhes os passos. Em muitas coisas me repreende Ferreira de Castro as zarandas da arte a que me conduz a consciência e a própria índole.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Mário Gonçalves Viana (1930): «Se há livros que mereçam a classificação de notáveis, A Selva é, incontestavelmente, um deles. Pode mesmo afirmar-se que esta obra constitui o maior acontecimento literário desta temporada. «"A Selva", uma obra-prima», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931) 

Jacinto do Prado Coelho (1976): «A função da Natureza é dupla. Fonte de emoção estética, deslumbra e intimida, ressoam nela vozes ancestrais, profundas, enigmáticas: ao cair da noite, "sobre ela parecia baixar, vinda dos tormentos iniciais do Universo, uma poesia épica, soturna e densa, que aguardaria apenas a hora de poder exprimir o inefável, de exprimi-lo dramaticamente, em vozes ou em ritmos como jamais alguém ouvira" (p. 143).» «O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro 

Thursday, December 04, 2025

dos Pórticos

«Atrai-nos, porém, o confronto entre aqueles a quem as ilhas tornam inquietos até a neurastenia, aos grandes desesperos íntimos e os que vivem apáticos, há muitos séculos, nos fundões dos continentes, que herdam a resignação, como se fosse uma tara, e parecem não atentar, sequer, no limite do seu muindo terreno. Para isso, e sem dar por isso, criaram um mundo psíquico particular, que nem sempre se revela ao primeiro contacto, mas que persiste, bem singular e nítido, para quem o analise com aguçadas pupilas.» Terra Fria (1934)

«São numerosas as folhas dobradas, duas pilhas quadrilongas, que guardam ainda, nos seus contornos, a forma dos estreitos albergues que as recolheram durante tanto tempo. Não ignoro, porém, que dentro de alguns dias, de todas elas restarão muito poucas. Quatro ou cinco anos sobre um trabalho meu bastam para me tornar o mais impiedoso, o mais exigente e implacável crítico de mim próprio.» Os Fragmentos (1974)

«Ninguém melhor do que você, que viu, com os seus próprios olhos, algumas das cenas a que me refiro, poderá dizer se vale ou não a pena publicar os meus apontamentos. No caso afirmativo, dou-lhe inteira liberdade para suprimir o inútil, afeiçoar o aproveitável e tornar compreensível tudo aquilo que eu não consegui, talvez, exprimir nitidamente.» O Intervalo (1936/1974)

Friday, November 14, 2025

errâncias

«Afinal demorou pouco. Mal esvaziamos a chávena fumegante, voltamos ao carro e mandamo-lo, enfim, correr para as grandes noites da espécie humana, que os homens contemporâneos não conseguiram ainda iluminar de todo.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Nós vamos erguer, pela segunda vez, a nossa tenda na Grécia, que da primeira não quisemos escrever e ajuizar sobre tão multiforme terra, com tantas galas vestida, sem a termos observado novamente. De caminho, porém, deter-nos-emos em Gibraltar, Argel e Palermo, ligeiros ante-rostos do Mundo que vamos trilhar.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«Arribo a Hospitalet uma hora depois. Lugarejo cor de lebre, com um pequeno hotel que desempenha ali, entre as patas das serranias, o papel das antigas mala-postas, tem um ambiente de Far-West, cenário de filme de aventuras americano.» (1929) Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

Tuesday, November 04, 2025

outras palavras

«Eu era um bom aluno. Tinha, porém, uma vida triste e afastava-me quase sempre dos meus condiscípulos. Certos episódios, que os deixavam indiferentes, faziam-me sofrer o dia inteiro, sobretudo na solidão que eu buscava.» [«Memórias»] (1931)

«Nas velhas cozinhas, em redor da mesa e ao fulgor da lareira, agrupa-se a família. Os velhos e as velhas, remotas esculturas enegrecidas e cariadas pelo tempo; os filhos que estavam ausentes e que puderam vir e os que ainda andam fraldiqueiros a crescer.» «O Natal em Ossela» (1932-1974)

«Delfim Guimarães fazia parte desse pequeno número. Ele sabia criar um lugar de especial ternura na alma de todos aqueles que se lhe acercavam. / Tenho conhecido muita gente. Uns, mascarados, às esquinas da vida; outros, colocados ao sol, espírito aberto à compreensão, que tudo justifica e tudo absolve, à solidariedade humana, ao amor pelos que sofrem e até por aqueles que parecem não sofrer...» «Delfim Guimarães» (1934)

Tuesday, October 28, 2025

nas palavras dos outros

Nogueira de Brito (1929): «Prestar, pois, homenagem a Ferreira de Castro, é encarecer, alentar uma corrente literária que, estando dentro dos moldes contemporâneos, como estética e realização espiritual, prepara um ambiente moral de que irão aproveitando os que lêem a sua interessante produção.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Jacinto do Prado Coelho (1976): «Bem diferente do heroísmo da epopeia literária, amplificante, era este "heroísmo nos factos necessários, sem contágios excitadores, mesmo se a naturalidade que os três homens aparentavam fosse premeditada, mesmo que a sua audácia não se tivesse consumado sem largas e ferventes apreensões." (p. 158)» O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966):  «Quando escrevemos sobre um camarada das letras, quase sempre exigimos que o que pode haver de triunfal na vida não se nos depare como conselho da inveja. Por isso só sabemos louvar os vivos com brandura, não aconteça acordarmos os nossos próprios corcéis competidores.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro - 1916/1966 (1967)

Monday, October 27, 2025

correspondências

(Ferreira de Castro a Roberto Nobre, 1925) .../... «Falei também com o Mário Domingues, que está dirigindo a edição da Batalha (diária). Aceita com muito prazer um boneco seu, para os domingos. Exige-se apenas uma condição: -- que o boneco  seja de acordo com o carácter do jornal, é dizer, que seja de crítica a qualquer facto da burguesia.» .../... Correspondência (1922-1969) (1994) 

(José Dias Sancho a Ferreira de Castro, 1927) .../... «Meu caro amigo, devo dizer-lhe que estou verdadeiramente encantado com o seu "Voo". / V. sabe como sou sincero nas minhas opiniões. / A psicologia daquela pobre rapariga da "cave" está traçada a primor / "A Reconquista da Juventude" é uma deliciosa blague. / E na complicada metamorfose da obra de arte, a que V. chama "do escultor", é assim mesmo. / Mais uma vez: um abraço! / E escreva mais livros como este! // Disponha do adm.or e am.º obscuro // José Dias Sancho» 100 Cartas a Ferreira de Castro (1992/2007) 

(Jaime Brasil a Ferreira de Castro, 1929) .../... «Ele poderia, por exemplo, traduzir-lhe p.ª lá qualquer novela do famoso escritor modernista russo Leonid Andréve, émulo de Dostoyevesky e de Gorki e a quem Kipling considera "o maior novelista dos últimos tempos". Esse homem tem as suas obras traduzidas em todas as línguas, menos, evidentemente, em português.» .../... Cartas a Ferreira de Castro (2006)

Friday, October 24, 2025

dos Pórticos

«Mais tarde, numa das suas deslocações sobre as veias da Amazónia, cujo mistério renasce logo após cada violação, como ressurge o do nosso corpo a seguir ao trânsito dos Raios X, você tornou a desembarcar no seringal Paraíso, pensando de novo em mim.» O Instinto Supremo (1968)

«Este livro explicar-te-á, porém, o nosso drama. É a nossa história que eu te ofereço aqui, a história de todos nós, que queremos ser eviternos e temos de morrer, que queremos ser felizes e nunca o somos, integralmente.» Eternidade (1933)

«Alguns, porém, não se resignam facilmente. A terra em que nasceram e que lhes ensinaram a amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes, existe apenas, como o resto do Mundo, para a fruição de uma minoria.» Emigrantes (1928) 

Wednesday, October 22, 2025

dos romances

«A pega, infatigável, ora procurando na terra, ora alçando-se à copa eleita, continuava a construir o ninho. Era já uma grande mancha, um grosso volume de pauzitos seguro entre os últimos ramos do pinheiro.» Emigrantes (1928)

«Os seus olhos evitavam encontrar o corpo adormecido de Cecília. Decidiu ir deitar-se na sala de jantar. Havia lá um velho divã e uma noite em qualquer parte se passava, sobretudo uma noite como aquela! Em seguida repeliu a decisão. "Devia proceder em tudo como de costume, senão a cabra, ladina como era, podia desconfiar. E, então, ele seria mais uma vez tomado por tolo."» A Tempestade (1940)

« -- Ao Chico de Baturité, a esse mulato mesmo sem vergonha, eu adiantei umas pelegas para ele se vestir e lhe tirei a barriga de misérias, porque aquela gente vive lá num chiqueiro. E foi assim que ele me pagou! O que vale é que o "Justo Chermont" larga amanhã. Porque se demorasse mais, o resto do pessoal era capaz de pôr-se também nas trancas.» A Selva (1930)

Wednesday, October 15, 2025

O(s) Egipto(s) de Eça de Queirós e Ferreira de Castro

 


O Egipto, civilização eterna fundada há cinco mil anos (!), que continua a suscitar tanto interesse em todo mundo, deixou também um legado ao estado que continua a ostentar o seu nome -- o Egipto contemporâneo, que, como ainda hoje mesmo as notícias nos recordam, persiste como um dos países mais importantes à escala global, por várias razões.

Eça de Queirós e Ferreira de Castro visitaram-no com décadas de intervalo e em séculos diferentes (1869 e 1935). Romancistas diferentes, com idades diferentes, tal como diversas foram as circunstâncias em que por lá andaram, deixaram o testemunho escrito, tanto acerca do tempo dos faraós, como aquilo que os seus olhos puderam observar no terreno.

Sobre as diferenças e semelhanças dos dois olhares irá constar minha conversa,  esta sexta-feira, 17 de Outubro, às 18 horas, no Museu Ferreira de Castro.


 

Monday, September 29, 2025

outras palavras

«Nem da coruja que mora na igreja velha, escorropichadora de lâmpadas há um ror de anos, ele deixa hoje ouvir o sinistro uuu-gru-gru-gru. O vento domina tudo. O vale inteiro está transido pelo seu uivar. Quem ousa pôr a cabeça fora de porta numa noite destas, que é, ademais, para ser vivida em casa?» «O Natal em Ossela» (1972-1974)

«Mas, de tantas, só algumas saem da sombra onde jazem aqueles que conhecemos e se perderam de nós, levados pelas circunstâncias do destino. Só algumas, presentes ou ausentes, adquirem lugar próprio, convívio permanente com a nossa alma, criando uma amizade singular dentro do amor plural por toda a Humanidade.» «Delfim Guimarães» (1934) 

«Veio, depois, a inveja, a única que tive na minha vida: a de não ser igual aos outros, a de não possuir o seu à-vontade, a de não ter o sangue frio de que eles dispunham e graças ao qual brilhavam nas lições mais do que eu, embora soubessem muito menos.» [Memórias] (1931)]

Tuesday, September 23, 2025

errâncias

«E, contudo, estende-se, lá fora, um luar sortílego e um mar calmo, numa noite de maravilha propícia a fazer-nos sonhar com as mais belas coisas da vida. Mas o navio está cheio dessa inquietação que, hoje, tortura os homens, no planeta inteiro.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«O carro desliza numa estrada branca, que ladeia, de quando em quando, o Ariège murmurante. A paisagem torna-se adusta. Começa a severidade das montanhas e os píncaros cobrem-se com grandes chapéus de bruma.» Pequenos Mundos e Velhas Civilizações (1937-38)

«Não lhe dizemos que a pressa nos percorre as veias e nos queima como o fogo dentro do rastilho, mas a nossa expressão deve trair-nos, porque ela logo nos adverte: / --É preciso fazê-lo. Demora alguns minutos. / Resignamo-nos, que remédio! Como podemos dar, com plena satisfação, o novo passo sobre o tempo, se nos acompanhar, seco e impertinente, o vício insatisfeito?» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)