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Friday, April 17, 2026

dos «Pórticos»

«Sentíamo-nos encarcerados e, no silêncio da cumeeira, onde ninguém nos perturbava a cisma infantil, o próprio voo das aves serranas nos fazia sofrer, porque dava uma sensação de liberdade que não tínhamos, a liberdade que havíamos de amar, depois, ao longo de toda a nossa vida.»  A Volta ao Mundo (1940-44)

«No começo do Verão, antes de demandar os altos da serra, ovelhas e carneiros deixavam, em poder dos donos, a sua capa de Inverno. Lavada por braços possantes, fiada depois, a lã subia, um dia, ao tear. E começava a tecelagem.» A Lã e a Neve (1947)

«Um dia, porém, o correio trouxe-nos uma carta. Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro pediam-nos uma peça para o Teatro Nacional, que eles, então, dirigiam. Sem o saber, reparavam um velho sonho perdido, uma melancolia longínqua, pois fora justamente a um concurso aberto por aquele teatro, quando era outra a sua direcção, que tínhamos enviado uma peça no amanhecer da nossa vida literária -- uma peça que não fora representada.» A Curva da Estrada (1950)

Monday, February 02, 2026

dos pórticos

«Mas para bem se compreender as obras de arte da antiguidade, que documentam a evolução do homem e a civilização por ele penosamente criada, para extrair das suas formas, por vezes tão rudes e ingénuas, um motivo de admiração, é imensamente útil não só conhecer-lhes a história, mas também a terra onde se geraram e voltar a examiná-las depois, quando já pudermos integrá-las no seu meio original.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«E desta feita buscou pacientemente, nos antigos livros daquele escritório que tinha dois belos crótons bicolores em frente da janela e estava ainda como eu o havia frequentado, a minha conta ali, entre as de outros párias, a minha vida sintetizada em algarismos,. como é bom e corrente uso no mundo em que vivemos; neste caso poucas cifras, pois eu ganhava dez tostões por dia.» O Instinto Supremo (1968) 

«Sabe-se que os nossos actos são fragmentos do todo que é a vida e do que nela persiste de herdado, folhas novas que não carecem de Primavera para suceder às velhas nos troncos e nos ramos onde circula a seiva vital. E neste caso fragmentos da minha vida literária, laudas adormecidas há muitos lustros e a amarelecer como as madeiras há muito cerradas.» Os Fragmentos (póst., 1974)

Thursday, December 04, 2025

dos Pórticos

«Atrai-nos, porém, o confronto entre aqueles a quem as ilhas tornam inquietos até a neurastenia, aos grandes desesperos íntimos e os que vivem apáticos, há muitos séculos, nos fundões dos continentes, que herdam a resignação, como se fosse uma tara, e parecem não atentar, sequer, no limite do seu muindo terreno. Para isso, e sem dar por isso, criaram um mundo psíquico particular, que nem sempre se revela ao primeiro contacto, mas que persiste, bem singular e nítido, para quem o analise com aguçadas pupilas.» Terra Fria (1934)

«São numerosas as folhas dobradas, duas pilhas quadrilongas, que guardam ainda, nos seus contornos, a forma dos estreitos albergues que as recolheram durante tanto tempo. Não ignoro, porém, que dentro de alguns dias, de todas elas restarão muito poucas. Quatro ou cinco anos sobre um trabalho meu bastam para me tornar o mais impiedoso, o mais exigente e implacável crítico de mim próprio.» Os Fragmentos (1974)

«Ninguém melhor do que você, que viu, com os seus próprios olhos, algumas das cenas a que me refiro, poderá dizer se vale ou não a pena publicar os meus apontamentos. No caso afirmativo, dou-lhe inteira liberdade para suprimir o inútil, afeiçoar o aproveitável e tornar compreensível tudo aquilo que eu não consegui, talvez, exprimir nitidamente.» O Intervalo (1936/1974)

Friday, October 24, 2025

dos Pórticos

«Mais tarde, numa das suas deslocações sobre as veias da Amazónia, cujo mistério renasce logo após cada violação, como ressurge o do nosso corpo a seguir ao trânsito dos Raios X, você tornou a desembarcar no seringal Paraíso, pensando de novo em mim.» O Instinto Supremo (1968)

«Este livro explicar-te-á, porém, o nosso drama. É a nossa história que eu te ofereço aqui, a história de todos nós, que queremos ser eviternos e temos de morrer, que queremos ser felizes e nunca o somos, integralmente.» Eternidade (1933)

«Alguns, porém, não se resignam facilmente. A terra em que nasceram e que lhes ensinaram a amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes, existe apenas, como o resto do Mundo, para a fruição de uma minoria.» Emigrantes (1928) 

Tuesday, September 16, 2025

dos Pórticos

«Era o nosso interesse pelo próprio homem, pelo seu drama biológico, pela inquietude do seu espírito e pelo seu progresso num planeta sempre hostil, que nos impelia a nós, que amamos a luz, as cores da vida ao ar livre e, sobretudo, o futuro, para essas soturnas galerias do passado onde se expõem, em vários museus do Mundo e num ambiente de mausoléu, as esculturas mesopotâmicas e egípcias, com o seu quê de vultos de pesadelo, mágicos e imobilizados, na penumbra que os cerca.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«Quando um final de infância agitado me levou ao Amazonas, a minha aldeia nativa, aqui, em Portugal, de tão distante e envolta na nostalgia, parecia-me uma ilusão. Só os carimbos das cartas que eu recebia me traziam a certeza de que não fora apenas sonho a minha vida até esse momento -- de que o berço existia, florido, atraente, para além da selva, para lá do Atlântico.» A Selva (1930)

«No corpo pequenino, os nossos olhos, que haviam de ficar sempre tristes, esqueciam-se horas a fio, a sonhar com a distância infinita, ante essa linha verde-azul do Oceano longínquo. Tudo quanto existia para lá da nossa vista nos parecia fabuloso e nos fascinava irremediavelmente.» A Volta ao Mundo (1940-44)

Monday, August 25, 2025

dos «Pórticos»

«Nas margens do Nilo, o felá, desgraçado campónio, trabalhava a gleba, no país onde a miséria e a servidão imperam e o chicote do árabe forte é, ainda hoje, o argumento contra o patrício débil.» A Tempestade (1940)

«O homem viera para ali há muitos séculos, mas poucos tinham sido e poucos eram ainda os que levantavam o seu abrigo de granito nos sítios mais propícios; e quando o faziam, achegavam-se uns aos outros, como se se quisessem defender da bruteza circundante. Os génios da montanha e as fúrias do céu possuíam, assim, quase toda a majestosa extensão da serrania, ermáticos domínios onde podiam transitar com passos de fantasmas ou bramir livremente.» A Lã e a Neve (1947)

«O papel escrito desceu para a gaveta e o tempo continuou a sua rota. / Em 1931, quando a República ocupou o trono de Espanha, várias artes e mutações ali operadas fizeram-nos pensar de novo na velha peça inacabada. Mas nessa época já se havia desvanecido o nosso interesse juvenil pelas fulgurâncias dos tablados.» A Curva da Estrada (1950)

Wednesday, August 13, 2025

dos «Pórticos»

«Papéis que jaziam no fundo, submersos pelos mais recentes, estão agora à flor dos outros; a cronologia restabeleceu-se e eles falam-me dos anos em que fui obrigado a vigiar o comportamento das palavras para além das suas imposições estéticas, nesta mesma secretária de onde eles deviam erguer voo, direitos à luz exterior, e quedaram afinal na escuridão das gavetas, como na de um túmulo.» Os Fragmentos [1974] 

«Havia-a pedido a outrem, mas foi-me remetida por si, depois de encontrar a minha carta solicitante olvidada entre as folhas de velho dicionário, amarelecida pela luz a extremidade deixada à vista; por si, que já nesse tempo entregava, perdulária e amorosamente, a sua vida e a sua paixão de biólogo, de etnógrafo e de etnólogo ao estudo das expressões físicas e humanas da floresta imensa; por si, caro Nunes Pereira, que eu não conhecia ainda.» O Instinto Supremo (1968)

«O nosso interesse pelas criações artísticas da Suméria, de Babilónia, da Assíria, do Egipto, de tantos outros povos que durante milénios se sepultaram na memória das gentes e só há pouco ressuscitaram sob as enxadas dos arqueólogos, taumaturgos dos nossos dias, não provinha apenas dessas obras de arte, mas da superação humana que elas já representavam em tão longínquos tempos.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Friday, July 18, 2025

dos «Pórticos»

Não chegámos a rematar o último acto, porque outra peça, escrita anteriormente, nossa frágil asa de esperança, classificada muito embora num concurso, não conseguira céu aberto para voar. A juventude que então arvorávamos não convencia ninguém e uma timidez desprotegida impedia-nos todos os passos em direcção aos empresários.» A Curva da Estrada (1950)

«A solidão enchia-se dos seus uivos e a neve reflectia a sua temerosa sombra. A serra, porque só a pé ou a cavalo se podia vencer, parecia incomensurável, muito maior do que era, e de todos os seus recantos, de todos os seus picos e refegos brotavam superstições e lendas -- histórias que os pegureiros contavam, ao lume, a encher de terror as noites infindas.» A Lã e a Neve (1947)

«Desse bravo sítio, onde desejamos repousar para sempre, face ao sol e ao fulgor das estrelas, via-se, lá em baixo, branquejar a casita nativa, quase a entestar o afogado vale; e, da banda oposta, outras várzeas, outros povoados, outros cerros, maravilhosa sucessão de planos, formas e cores, tudo laborado pela mão do Homem. Ao fundo, esboçava-se o grande sortilégio, o Mar, o imã que nos atraía ali.» A Volta ao Mundo (1940-44)  

Friday, June 06, 2025

dos «Pórticos»

«Um vaporzito, com graciosidade de gaivota e calentura de de forno, largou de ao pé da "Kars-en-Nil" e, apitando aqui e ali, que o tráfego fluvial era grande em frente da cidade, começou a subir o rio sagrado.» A Tempestade (1940) 

«Soube que você tinha estado na Praça da Macarena, entre os jornalistas, quando do bombardeamento do "Colmado del Salvador"; que observou as principais fases da greve e trilhou grande parte da Andaluzia, para averiguar "como as coisas se passaram". Por tudo isso me dirijo a si, mandando-lhe estes cadernos onde narro uma parte da minha vida. Se me autorizar, outros irão depois, à medida que os for escrevendo.» O Intervalo (1936/1974)

«A nostalgia deve ter nascido numa ilha e só numa pequena ilha se compreende, integralmente, o subtil significado da distância. Essa sufocação que dá a terra sem continuidade, como se o aro líquido que a estrangula se viesse fechar também em volta da nossa garganta, desperta constantes rebeldias e constantes impotências, acorda mil sentimentos ignorados, remexe, tortura, cava fundo na alma até o momento de esta se submeter por falta de mais energias.»  Terra Fria (1934)

Thursday, February 27, 2025

dos pórticos

«A nossa vida está pletórica de iniquidades, de misérias, de renúncias e de sofrimentos -- e nós, apesar disso, não queremos morrer. / Tu, meu irmão longínquo, que já mataste a morte, que já criaste um novo mundo sobre o mundo em que vivemos, que já tens uma outra noção do Homem e do Universo, dificilmente compreenderás como nos foi difícil viver assim.» Eternidade (1933)

«Mas só a memória responde. Com ela, agora e logo, ressuscita também um longínquo estado da sensibilidade, um pormenor que não teve valia momentânea, mas que ficou em relevo, com a sua luz própria e o seu verdadeiro aspecto.» A Selva (1930)

«Uns resignam-se logo à situação de elementos supérfluos, de indivíduos que excederam o número de seres que o são apenas no sofrimento, no vegetar fisiológico de uma existência condicionada por milhentas restrições. Curvam-se aos conceitos estabelecidos de há muito, aceitam por bom o que já estava enraizado quando eles chegaram e deixam-se ir assim, humildes, apagados, submissos, do berço ao túmulo -- a ver, pacientemente, a vida que vivem outros homens mais felizes.» Emigrantes (1928) 

Monday, January 20, 2025

dos pórticos

«Volto  as gavetas sobre a minha mesa de trabalho, como se nela virasse o açafate doméstico, contendo apenas as migalhas dos dias vividos, de que se aproveitam somente as aspirações e os sonhos. Sonhos e aspirações que continuam vivos e ardentes e se realizarão inevitavelmente, mas talvez só quando eu já estiver morto.» Os Fragmentos -- Um Romance e Algumas Evocações (1974) 

«Meu amigo: / Um dia, já não sei há quantos anos desaparecido, mas certamente há mais de vinte, chegou, enfim, a mancheia de terra do longínquo seringal onde vivi; chegou numa caixita de papelão, que a viagem maltratou e eu conservo ainda, um pouco a modo de relíquia.» O Instinto Supremo (1968)

«Depois de havermos trilhado a velha Mesopotâmia, as suas estepes rechinando ao sol, que poeiras ardentes percorriam também e nos queimavam o rosto como enxames de faúlhas, depois de termos auscultado esses largos desertos de onde a nossa civilização lançou os primeiros clarões sobre um mundo espiritual ainda em trevas, voltámos a entrar nas salas de antiguidades orientais do Louvre, que tanto frequentáramos antes de partir.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Thursday, December 05, 2024

dos «Pórticos»

«Foi numa peça de teatro, pobre massa embrionária, que colocámos pela primeira vez, tínhamos nós vinte e dois anos, a interrogação que constitui a trave mestra deste livro. Em França, em 1848, um homem, que havia sido republicano durante a Monarquia, tornara-se monárquico logo que a Segunda República alvorecera e disparara a combater esta e a defender aquela com os mesmos ardorosos modos com que antes fazia o inverso.» A Curva da Estrada (1950)

«Pequeno, dez, onze anos melancólicos e tímidos, subíamos ao cume da serra que padroa a casa onde nascemos e ali, entre urzes e pinheiros nos quedávamos a contemplar vizinhas terras. Sete quilómetros, apenas, havíamos percorrido do Mundo em que vivemos; o que hoje se ergue perto parecia-nos a nós distante, mas nós já sonhávamos ir muito mais longe ainda.» A Volta ao Mundo (1940-44)

«Os primeiros teares criaram-se, em já difusos e incontáveis dias, para a lã que produziam os rebanhos dos Hermínios. O homem trabalhava, então, no seu tugúrio, erguido nas faldas ou a meio da serra. No Inverno, quando os zagais se retiravam das soledades alpestres, os lobos desciam também e vinham rondar, famintos, a porta fechada do homem.» A Lã e a Neve (1947)

Friday, October 25, 2024

dos «Pórticos»

«Meu amigo: // Há anos, o acaso reuniu-nos num hotel do Cairo e você, afectuoso sem grandes gestos, amável sem palavras farfalhantes, uma constante sombra de melancolia no sorriso e nos olhos, quis servir-me de piloto durante uma das minhas peregrinações na terra egípcia, já sua conhecida.» A Tempestade (1940)

«A FERREIRA DE CASTRO // Não o conheço pessoalmente, mas sei que o seu espírito se interessa por todos os grandes problemas da Humanidade e que assistiu a vários acontecimentos em que eu mesmo tomei parte.» O Intervalo (1936/1974)

«Nem eu sei quando nasceu no meu espírito este amor pelos povos minúsculos, pelas repúblicas em miniatura, por todos os que vivem isolados no planeta. / As pequenas ilhas, sobretudo, fascinam-me, porque permitem observar melhor o homem entregue a si próprio, fechado sobre si mesmo, e, simultaneamente, disperso no infinito, entre mar e céu, -- inconsciente até do labor psíquico por ele realizado perante o eterno limite.» Terra Fria (1934)

Thursday, October 10, 2024

dos «Pórticos»

«Nós não queremos morrer! Nós não queremos morrer! / Meu irmão longínquo que te perdes na hipótese, sobre o curso de todos os séculos vindouros, escuta! Escuta o nosso desespero de seres efémeros, esta ansiedade infinita que nos tortura há muitos milénios, este grito doloroso e impotente: Nós não queremos morrer!» Eternidade (1933)

«É bem certo que conduzimos ao longo da vida muitos cadáveres de nós próprios. Não somos hoje o total que fomos ontem, nem teremos àmanhã, integràlmente, o nosso mundo de agora. Eu sinto isto muitas vezes, num apelo ao meu "eu" de outrora, numa busca minuciosa entre os escombros do que fui e os pilares que ficaram de pé, a sustentar o que sou.» A Selva (1930)

«Os homens transitam do Norte para o Sul, de Leste para Oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor. / Nascem por uma fatalidade biológica e quando, aberta a consciência, olham para a vida, verificam que só a alguns deles parece ser permitido o direito de viver.» Emigrantes (1928)

Tuesday, October 17, 2023

da arte de expor

«[A FERREIRA DE CASTRO/ Não o conheço pessoalmente, mas sei que o seu espírito se interessa por todos os grandes problemas da Humanidade e que assistiu a vários acontecimentos em que eu mesmo tomei parte. » do "Pórtico" de  O Intervalo (1936/1974) / «Meu amigo: / Há anos, o acaso reuniu-nos num hotel do Cairo e você, afectuoso, sem grandes gestos, amável, sem palavras farfalhantes, uma constante sombra de melancolia no sorriso e nos olhos, quis servir-me de piloto durante as minhas peregrinações na terra egípcia, já sua conhecida.» do pórtico de A Tempestade (1940) / «Nem eu sei quando nasceu no meu espírito este amor pelos povos minúsculos, pelas repúblicas em miniatura, por todos os que vivem isolados no planeta.» do "Pórtico" de Terra Fria (1934)

Sunday, February 19, 2023

da arte de expor

«É bem certo que conduzimos ao longo da vida muitos cadáveres de nós próprios.» do "Pórtico" de A Selva (1930) «Nós não queremos morrer! Nós não queremos morrer!»  do "Pórtico" de Eternidade (1933)  «Os homens transitam do Norte para o Sul, de Leste para Oeste, de país para país, em busca de pão e de um futuro melhor.»  do "Pórtico" de Emigrantes (1928)