Showing posts with label amizade. Show all posts
Showing posts with label amizade. Show all posts

Sunday, October 14, 2012

"a capacidade de admirar" - duma carta de José Bacelar (24-VII-1935)

[agradecendo a carta que Castro lhe enviara, a propósito de Revisão -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana, Lisboa, Portugália Editora, 1935]

[...] Mas aquilo que de maneira nenhuma eu esperava é que seria tão generosamente recompensado desse tratamento com cartas tão humanamente amigas, como o é por exemplo aquela que me escreveu. Através duma existência sem grandes benefícios e com algumas amarguras -- como quase todas as existências -- julgo ter pelo menos conservado intacta uma coisa de que, devo confessá-lo, me orgulho um pouco, porque ela nos faz talvez sentir que a nossa alma não está completamente abastardada. E se aqueles a quem admiro se lembram de me dar um apoio tão leal e tão nobre como é o seu, considerar-me-ei plenamente pago dum esforço cujo único valor está na boa vontade, e mesmo das consequências que para mim podem advir desse mesmo esforço. [...] (1)

(1) Em Revisão 2 -- Anotações à Margem da Vida Quotidiana, Lisboa, Portugália Editora, 1936, pp.  190-19, Bacelar escreveu: «A necessidade de admirar é um sentimento nobre porque é o daqueles que não se contentam com as vulgaridades que a vida vulgar lhes dá. Admirar não é mais do que criar autores dignos de si. É a necessidade de elevar os outros até si mesmo -- para fugir à solidão.»

«Cinco centenários -- Cartas inéditas de José Bacelar, Fernanda de Castro, Castelo Branco Chaves, José Gomes Ferreira, José Osório de Oliveira e Ferreira de Castro», Vária Escrita #7, Sintra, Câmara Municipal, 2000.


Friday, August 10, 2012

Jorge Amado, CANTIGA DA AMAZÔNIA (1938)


NEM O MISTERIO DOS RIOS SE RENOVANDO,
NEM LA TERRA NINA NASCENDO A CADA MOMENTO NO PRINCIPIO DO MUNDO DA [AMAZONIA,
NEM O PITORESCO DOS LIRICOS NAVIOS ATRAZADOS,
NEM A FLORESTA DE TODAS AS ALUCINAÇÕES,
NEM O PAGÉ, O BOTO, A COBRA GRANDE,
NEM MESMO OS CABELOS DA ULTIMA YARA, DE OCULOS AZUES, VOGANDO NO RIO [DE MISTERIO EM LANCHA-AUTOMOVEL,
TÃO POUCO EL DOLOR E LA SANGRE DE LOS INDIOS DE RIVERA,
DOS CEARENCES DE FERREIRA DE CASTRO,
NENHUM MOTIVO ETERNO NA MINHA CANTIGA DO AMAZONAS.

APENAS O LOUVOR DO AMIGO:
O CIVILIZADO QUE PAROU NA SELVA,
FILHO DAS GLORIAS DUMA RAÇA FORTE,
MÃOS CHEIAS DE CULTURA E DE BOM GOSTO,
AQUELE PARA QUEM A HUMANIDADE NÃO É UMA PALAVRA VÃ,
GRANDE DA BONDADE,

PORTUGUEZ!

A CERTEZA DE PODER DIZER NA HORA DA MAIS DENSA ANGUSTIA:
EMIDIO VAZ D'OLIVEIRA, AMIGO,
AMIGO!

Estrada do Mar (1938)

Friday, May 18, 2012

Ferreira de Castro e Jorge Amado, no Dia Internacional dos Museus


ou a celebração de uma amizade impecável, ao longo de 40 anos (1934-1974), e cujos ecos se prolong(ar)am ainda para além da morte do primeiro. A partir de hoje, no Museu Ferreira de Castro.


Sunday, March 04, 2012

As «Notas Biográficas e Bibliográficas» de Jaime Brasil (1931) (1)

Jaime Brasil está omnipresente neste blogue, que também lhe é dedicado. O primeiro dos castrianos, por mais de quarenta anos deu testemunho de amizade e comunhão pessoal e ideológica ao autor de A Lã e a Neve; testemunhos por vezes afectados pela extreme admiração que lhe votava, e que não fugia à polémica vigorosa -- feição de carácter que o marcava, e género literário e estilístico de que foi um dos mais acabados cultores no seu tempo.

Wednesday, July 14, 2010

Matilde Rosa Araújo e Ferreira de Castro, na evocação de José Carlos de Vasconcelos

[...] em 1966, já em Lisboa, tive mais contacto com a Matilde por ser uma das promotoras, com Álvaro Salema, de uma homenagem nacional a Ferreira de Castro, na qual me convidaram para falar, em represetação dos jovens escritores. / O autor de A Selva, sobre ser então o mais famoso, nacional e internacionalmente, escritor português, era também um certo símbolo da luta pela democracia e a favor dos deserdados que povoam os seus romances. Conheci então a mulher e a escritora de uma exemplar fidelidade ou até devoção aos seus amigos, não só capaz de uma grande admiração como gostando de admirar e com um agudo sentido da homenagem: a Matilde generosa que todos que a conheceram sabem foi assim ao longo de toda a vida. [..]

José Carlos de Vasconcelos, «O "retrato" da bondade», JL-Jornal de Letras, Artes e Ideias, #38, Lisboa, 14 de Julho de 2010.
Foto de Matilde, não datada, no JL hoje.
Na estante, A Selva, edição Pomar, 1974.

Friday, November 27, 2009

Roberto Nobre - Uma vida por imagens (2)

Devo dizer que cheguei a Roberto Nobre através de Ferreira de Castro, que com Assis Esperança [1892-1975] e Jaime Brasil (1896-1966) formaram um núcleo duro de amigos ligados por laços fraternos de mundividêcia comum, de comunhão ideológica e afinidades estéticas. Também por essa razão o autor de A Selva estará tão presente neste opúsculo. Mas não só: a amizade entre ambos foi de tal modo intensa e fraternal que deverei repetir o que escrevi na apresentação da sua Correspondência: «muito do que é obra acabada de ambos adquiriu a forma que eles nos legaram, em parte pela fraternidade pessoal, exemplo ético e discussão estética que um deu ao outro.» (1)

(1) Ferreira de Castro e Roberto Nobre, Correspondência (1922-1969), introdução, leitura e notas de Ricardo António Alves, Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, 1994, p. 13.

Roberto Nobre -- 1903-1069, São Brás de Alportel, Câmara Municipal, 2003, pp. 11-12.

Sunday, October 04, 2009

testemunhos #7 - Manuel Pinto Ferreira de Sousa

(foto)
O meu primeiro encontro com Ferreira de Castro deu-se em Julho de 1966, no Grande Hotel da Torre (Entre-Os-Rios). Costumava ele vir aí, desde 1956 aproximadamente, na época de veraneio para descanso e tratamento. À medida que ia estabelecendo diálogo com ele, fixei nas folhas modestas do jornal «O Penafidelense» (1), as descoloridas impressões, que colhi do seu contacto amigo. Nunca se discutiu, nem de religião, nem de política. Nunca lhe captei qualquer assomo ou ânsia metafísica. Apenas os seus passeios pelas terras de Penafiel, as conversas com o povo, os monumentos da região, os assuntos da natureza, da história e pré-história, e do trabalho de cada um alimentavam o tema espontâneo das entrevistas. Não olvidava os bons amigos seus. Para alguns deles abriu-me caminho cultural e correspondência epistolar, a qual guardo em escrínio precioso. Entre outros escritores nomeio Jaime Lopes Dias (2) e os brasileiros Homero Homem (3), Gondim da Fonseca (4)*, Carlos de Araújo Lima (5), aos quais tive a oportunidade de me referir publicamente.

(1) Vide «O Penafidelense» de 30-7-68, 2-11-68, 14-10-69, 19-1-71, 2-2-71, 16-2-71, 10-10-72, 2-10-73, 9-7-74 e 19-11-74.
(2) Vide «Etnologia -- Etnografia -- Folclore», em «Mensário das Casas do Povo», n.º 304 -- Outubro, 1971, e em «O Penafidelense», de 10-6-1969, onde faço referência à sua vasta cultura. As cartas, que me dirigiu, documentam a honrosa amizade do exímio escritor.
(3) Vide «Um poeta brasileiro», em «O Penafidelense» de 28-9-1971.
(4) vide «Camões e os Lusíadas», em «O Penafidelense», de 23-10-1973. Dele conservo cartas, que me dirigiu7 de excelente amigo e homen de letras.
* No artigo surge "Godim".
(5)Este colega e distinto Advogado enviou-me, como oferta gentil, a sua prestimosa separata do «Jornal de Letras», do Rio de Janeiro, «Com Ferreira de Castro no Minho» -- 1972.

Manuel Pinto Ferreira de Sousa, Encontros e Cartas de Ferreira de Castro, separata do Boletim da Biblioteca Pública Municipal de Matosinhos, n.º 25, Matosinhos, 1981, p. 3.

Saturday, July 11, 2009

testemunhos #5 - Jorge Amado

No Cais de Lisboa, em Janeiro de 1966, amigos brasileiros e portugueses acenavam para o navio espanhol onde havíamos embarcado na Bahia, Zélia, Paloma e eu -- João Jorge fora de avião. Reconheci Odylo Costa, filho, Luiz Henrique Dias Tavares, Álvaro Salema, Fernando Namora, Francisco Lyon de Castro -- o primeiro a subir a escada foi Ferreira de Castro, com a notícia de que poderíamos saltar em Lisboa, a interdição fora suspensa. O grande escritor português, naquele então o principal entre todos os que escrevíamos em língua portuguesa, não podia conter a alegria. Durante todos os longos anos de convivência, de amizade fraterna que nos ligou, Ferreira de Castro sempre foi o arauto de boas novas, mão solidária, palavra acolhedora.

«Notícia de Ferreira de Castro», Vária Escrita, n.º 3, Sintra, Câmara Muncipal, 1996, p. 15.