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Wednesday, June 25, 2014

incidentais #21 -- fixar pela ficção

Ainda o «Pórtico» de Terra Fria:

*Referência a Andorra, e aos homens e mulheres que viu insulados por entre as montanhas, na viagem que fez em 1929. Neste romance de 1934, de novo a curiosidade pelas formas mais arcaicas de convivência. No Inverno e na Primavera de 1933, Castro deslocou-se ao Barroso com o intuito de fixar pela ficção a cultura daquele povo, os modos de viver e pensar, a mentalidade atávica duma sociedade comunitária e patriarcal, esquecida e deixada a si própria. Não por acaso, Castro olhava para este panorama social como "página viva de antropologia": os inquéritos feitos nessa década de 1930 à região barrosã coincidiam na qualificação de primitivismo.

* Essa avaliação levá-lo-á a rejeitar não apenas o pitoresco da pobreza como, anos mais tarde a equacionar o problema na própria Amazónia, com a chamada "pacificação" dos índios Parintintim (O Instinto Supremo, 1968).

Friday, February 22, 2013

incidentais #16 -- natureza austera e fragilidades humanas, ou remos para que te quero

*incipit: «Com os remos a chapejarem surdamente, cautelosos como os dos ladrões, nas proas um ruído fino, menor ainda que o dos botos cortando a tona da água, as canoas meteram a terra.»

*O romance começa com uma acção furtiva e nocturna, em elemento aquático, de um grupo de homens, não sabemos ainda quem. A referência a um boto, situa-nos na Amazónia; um pouco mais à frente,  identifica-se o Maici-Mirim, Um único nome, Amaro, que os dirige. Tudo o que tem de ser feito realiza-se apressadamente e com o menor ruído possível, mesmo que se trate de abrir uma clareira. E se falamos em Amazónia, por pequena que aquela seja, há-de custar limpar uma área onde a vegetação é densa -- como já havíamos aprendido no outro livro do autor, publicado havia 38 anos, A Selva; e ainda hoje -- agora mesmo --, podemos aferir em imagens de satélite.

* As árvores como elementos natural de grande nobreza, recorrente na obra castriana; as figuras de estilo, «a fusão do mundo físico com o mundo moral», como certeiramente viu Isabel Roboredo Seara, a propósito de A Lã e a Neve, surgem desde logo, em todo o esplendor:
«O machado voltou a insistir. O tronco foi-se inclinando, estalando pouco a pouco, ainda hesitante em obedecer ao desígnio dos seus algozes. E quando, enfim, se decidiu, os galhos dos vizinhos, a que se amparava e com brutalidade ia partindo, lançaram protestos mais ruidosos e aflitos do que ele próprio, que a esse apoio forçado ficou devendo poder morrer abafadamente, como se tivesse rolado de degrau em degrau, até à cova.»
«Dir-se-ia que as próprias árvores tinham abandonado o ar austero e imóvel, essa enigmática expectativa com que haviam recebido, pouco antes, aquele bando de demónios, que tudo assarapantava em seu redor.»

* A debandada quase ao raiar da aurora, a verdadeira fuga a que o grupo se entrega, um pavor gelado, umas asas nos pés, um turbo nos remos que ainda não existia -- e nos remos não existirá --, indicia um perigo iminente. Perigo esse que nos é dado pelo frenesim dos perpetradores de algo que ainda não sabemos bem o que é (um acampamento?), como pelos sons que surgem com a primeira luz, arrepiando esses audaciosos mas timoratos indivíduos que derrubam árvores em floresta alheia:
«De súbito, assustando a paz da manhã em desenvolvimento, revoaram até elas brados de guerra, estridentes e selváticos, através dos quais a morte parecia tomar, antecipadamente, uma voz de frenética alegria; brados de triunfo, alternando com gritos de dor, tão agudos, tão desesperados, como jamais os enormes troncos, nem mesmo os mais velhos, tinham ouvido naquelas solidões do Mundo.»

Wednesday, October 03, 2012

incidentais #5 -- do escrúpulo do romancista diante de livro novo

(o último romance de Ferreira de Castro, publicado, em 1968)

do «Pórtico»:

* Castro dirige-se ao etnógrafo Nunes Pereira, grande figura da vida cultural, científica e política da Amazónia. O mesmo que em tempos lhe mandara terra do seringal Paraíso -- que se encontra em exposição no Museu, em Sintra --, fotografias do que restava do acampamento, e que pesquisara nos arquivos do escritório o que ficara anotado dos proventos do jovem Zeca Castro (13 anos incompletos quando lá chegou, em 1911) nos livros do deve & haver: «[...]a minha vida sintetizada em algarismos, como é de bom e corrente uso no Mundo em que vivemos; neste caso poucas cifras, pois eu ganhava dez tostões por dia.»

* A evocação do terror infantil da possibilidade de um ataque dos Parintintins , tribo temível com um longo historial de conflitos com os seringueiros, e cujas notícias da prática da decapitação das vítimas não contribuiriam, decerto, para grande sossego do rapaz... Castro nunca se terá deparado com eles (assim o crê Bernard Emery), nem há notícia de que alguma vez tenha ocorrido uma incursão, o que não invalida que a ameaça permanente que pendia sobre as suas cabeças (pelo menos assim percepcionada), que, já velho, quase seis décadas mais tarde escrvesse: «Eram o meu terror esses índios».

* A forma (aparentemente) destemida como quotidianamente os seringueiros se embrenhavam floresta adentro, desfrutando do pavor do menino, fez nascer neste uma admiração pela bravura desses homens rudes -- um pouco como veremos suceder n'A Selva com Alberto e Firmino, uma irmanação progressiva que depois se alargará, vencidos os preconceitos, aos restantes homens.

*Livro prometido a Cândido Rondon (retratado na capa por Artur Bual), «numa hora porventura leviana», promessa recordada pelo general Jaguaribe de Matos -- cartógrafo que acompanhou Rondon -- em 1959, quando da visita de Castro ao Brasil. Apesar de em fim de percurso (e que percurso!), a circunstância de apresentar um romance no mesmo cenário de A Selva trazia o receio de que pudesse ser acusado de explorar um filão que granjeara a maior fortuna crítica e a grande adesão do público. «Vexava-[o]» -- mesmo que se tivessem passado quase 40 anos sobre a primeira edição daquele romance...: «[...] sempre preferi um novo território literário para cada novo romance. Seduz-me auscultar os caminhos que ainda não trilhei, estudar as atmosferas que a minha pena ainda não captou, desvelar o que é inerente a cada terra; atraem-me as próprias dificuldades e assusta-me a eventualidade de repetições.» Quem lhe conhece a obra, sabe que foi assim.