| Sebastião Salgado |
Monday, May 26, 2025
na morte de Sebastião Salgado (1944-2025)
Monday, March 05, 2018
castrianas: Jorge Amado sobre Ferreira de Castro
Tuesday, July 07, 2015
castrianas: A SELVA em referência de António Quadros numa visão de conjunto do romance brasileiro
Numa excelente conferência sobre «O romance brasileiro actual», proferida no início dos anos sessenta, António Quadros, já em balanço final e referindo-se à tradição portuguesa da ficção narrativa do Brasil, associa o portuguesíssimo e universalista escritor português sem outra razão aparente que não seja a de evocar o poderoso romance que tem por cenário a magnitude vegetal amazónica, ora edénica ora -- as mais das vezes -- infernal, descrita como nenhum brasileiro o fizera.
« Vincadamente de tradição portuguesa, ainda quando formalmente pareça seguir outros modelos e estruturas, é uma literatura aberta à razão cósmica, que a assume e revela, que quereria ser a voz dos próprios paradoxos e das próprias contradições, que surpreende o homem, não como conceito, não sequer como substância, mas como puro movimento, como movimento infinitamente disponível, potencialidade constantemente a actualizar-se e a formar-se sob a reacção de novos estímulos e solicitações. Este carácter é evidentemente mais visível na tradição que designadamente passa por José Lins do Rego, Gilberto Freyre, Dinah Silveira de Queiroz e Guimarães Rosa, que visionam o homem em união mais íntima com a natureza e as forças nuas do sentimento, da raça, do inconsciente, da inefável alma do universo, mas não deixa de aflorar num Aluízio de Azevedo, num Raúl Pompeia, num Machado de Assis, num Erico Veríssimo, numa Lígia Fagundes Teles, num Ferando Sabino, na medida em que as suas personagens reflectem o tumulto, a inquietação, a gratuita liberdade do urbanismo brasileiro, crescendo com o vigor cósmico de uma selva, aquela selva que Ferreira de Castro tão vigorosamente soube pintar em sua majestade irracional e misteriosa.»
in O Romance Contemporâneo, Lisboa, Sociedade Portuguesa de Escritores, 1964.
Wednesday, January 07, 2015
Tuesday, September 18, 2012
A NARRATIVA NO MOVIMENTO NEO-REALISTA -- AS VOZES SOCIAIS E OS UNIVERSOS DA FICÇÃO, de Vítor Viçoso (26)
(texto lido na apresentação do livro no Café Saudade, Sintra, em 21 de Outubro de 2011)
(imagem)
Friday, September 14, 2012
Jorge Amado e o episódio do Aeroporto de Lisboa referidos no Brasil
Friday, May 18, 2012
Ferreira de Castro e Jorge Amado, no Dia Internacional dos Museus
Monday, March 26, 2012
História e Memória: Uma leitura de Os Fragmentos (4)
Tal não sucedeu. Ou, melhor, sucedeu parcial e fragmentariamente ao longo so seu percurso de escritor.
(2) Proposto em 1951 e 1968, a segunda conjuntamente com Jorge Amado.
Língua e Cultura II Série, #7/8, Lisboa, Sociedade da Língua Portuguesa, 1998.
Thursday, January 12, 2012
100 CARTAS A FERREIRA DE CASTRO (3)
Tuesday, January 25, 2011
Um medo frio - Breve nota sobre a memorialística castriana (3)
Sol XXI #38/39, Carcavelos, 2003
Sunday, December 12, 2010
22 sugestões de leitura...
Wednesday, May 12, 2010
testemunhos #9 - Jorge Amado
Wednesday, November 04, 2009
Prémio da Latinidade
Saturday, July 11, 2009
testemunhos #5 - Jorge Amado
Sunday, March 08, 2009
Nova edição de JUBIABÁ, de Jorge Amado
Thursday, September 25, 2008
Neo-realismo: contributo para dificultar um problema (1)
Wednesday, December 19, 2007
Ferreira de Castro e o seu tempo - o ano de 1898 (#1)
O método de postagem será fragmentário e não-linear, o que significa que não haverá um grande respeito cronológico...
Para futura orientação, recomendo a consulta dos marcadores, no final de cada post.
Contexto - 9/II - Concessão de Hong Kong aos ingleses, por 99 anos.
A baía de Hong Kong (1939).
Foto FCastro/Elena Muriel, in A Volta ao Mundo, Lisboa Empresa Nacional de Publicidade, 1939
Castro sobre Hong Kong - Antes mesmo de pisar terra, quem arriba surpreende, no porto, espectáculo bem oriental. No meio dos navios fundeados há uma incontável multidão de juncos [...]. Cerca de 100 000 chineses vivem, permanentemente, com as mulheres e os filhos, nestas embarcações. [...] No estreito convés realizam todos os actos da vida doméstica. [...] não falta, sequer, um galinheiro à popa. [...] Rechonchudas crianças, de dois ou três anos, andam tranquilamente no rebordo dos barcos, ali onde qualquer de nós teria de fazer, para não cair, equilíbrios de homem em corda bamba. As mães destes pequeninos chineses usam calças e exibem o tronco em plena nudez, as tetas caídas e queimadas pelo sol. Como as de terra, estas mulheres a tudo se sacrificam, resignadamente. Elas acorrem a todas as necessidades da meia dúzia de tábuas oscilantes que o destino lhes deu para patíbulo da sua vida e, quando pretendem deslocar-se, agarram-se às extremidades dos enormes remos e remam que nem antigos escravos de galera. / Atrás desta população boiante ergue-se a famosa Hong Kong, também Cidade da Vitória chamada. Três ruas compridíssimas, apenas três ruas, ligadas por outras transversais, a constituem. Majestosos edifícios ocupam a primeira parte destas grandes artérias. É o mundo dos negócios, onde imperam ingleses e americanos. Bancos, companhias de navegação, outras empresas, dão a este trecho da cidade o mesmo pesado orgulho dos bairros comerciais de Londres. Tudo se apresenta com modernidade e soberbia. [...] Mas, em breve, as três longas ruas perdem a sua feição ocidental e se metamorfoseiam em rumoroso e pitoresco bairro chino. É já outro comércio, um comércio miúdo de comestíveis, de sedas e de obras de arte. A Volta ao Mundo, vol. III, s.ed., Lisboa, Guimarães & C.ª, s.d., pp. 62-63.
Pintura de 1898 - Arnold Böcklin, A Praga
Castro sobre Böcklin - Agradar parecia ser o único objectivo da sua arte e isso proporcionou-lhe um êxito fácil. As Maravilhas Artísticas do Mundo, vol. III, s.ed., Lisboa, Guimarães & C.ª-Editores,1971, p. 328.
Museu de Belas-Artes, Basileia
Poesia de 1898 - Ó árvores, irmãs de todos nós, um dia / Há-de esta alma reunir-se à vossa alma dormente... Júlio Brandão, «Árvores»,
Música de 1898 - Grieg, Danças Sinfónicas.
Escritores de 1898 - José Dias Sancho, ficcionista, poeta, polemista, desenhador e jornalista, em São Brás de Alportel (m. Faro, 1929); Federico García Lorca, poeta e dramaturgo, 5/VI (19/VIII/1936). Morrem em 1898 - Joaquim da Costa Cascais, dramaturgo, em Lisboa, 7/III, Lisboa (n. Aveiro, 29/X/1815); Stéphane Mallarmé , em 9/IX (n. 18/III/1842).
Ecos de 1898 - Lisboa, 24/V. Eça de Queirós a sua mulher, Emília de Castro, dando conta de exigência da Revista Moderna: «depois de me ter dado tempo largo para enviar Ramires, agora o exige à pressa e à lufa-lufa.» Correspondência, vol. II, leitura, coordenação, prefácio e notas de Guilherme de Castilho, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1983, p. 451.
Castro sobre Eça - (comparando com Fialho) - Eça era tapete de milionário, Fialho tapete de burocrata. Eça era fino e subtil como um tapete da Pérsia, Fialho duro e grosseiro: -- daqueles «Faz favor de limpar os pés». Mas... A ironia é a arma do fraco contra o Forte. Do vencido contra o Vencedor. [...] O eterno sorriso dos irónicos é o eterno desejar dos despeitados. «Pedras ao poço», Mas..., Lisboa, edição do Autor, 1921, p. 18; Ao lermos Eça, temos a sensação de que a sua secretária estava erguida sobre uma cidade que se relacionava já com o mundo pela T.S.F. A secretária de Fialho, ao contrário, estava situada numa aldeia. «Regionalismo e internacionalismo - Resposta a José Dias Sancho», A Batalha, n.º 98, 12/X/1925. - (comparando com Camilo) - [...] por temperamento, escola literária, orientação de cultura e até pela vida, tão diversa, que cada um levou, Eça compreendia o homem muito melhor do que Camilo. Este via, quase sempre, as suas personagens unilateralmente, pelo amor, pelo ódio, pelo sarcasmo, pelo bem ou pelo mal. Preocupava-se, acima de tudo, com o ruído do relógio, ao passo que Eça gostava de desmontar o relógio peça por peça. De certa maneira, para Camilo, cada personagem representava um sentimento, para Eça representava todos ou quase todos os sentimentos. Camilo aliava ao seu grande talento uma forte cultura sobre a vida nacional, inclusive sobre genealogia, coisa completamente inútil para um romancista que não escreva romances históricos. Parece, porém, que nunca se preocupou de modo profundo com a filosofia. Eça, pelo contrário, captara as inquietudes filosóficas do século XIX e as suas experiências psicológicas, valores perante os quais Camilo reagia, muitas vezes, pelo desdém. Daí os habitantes da obra de Eça serem mais ricos de conteúdo, mais variados, mais verdadeiros psicologicamente, mesmo quando o romancista os deformou com demasiados traços caricaturais... «Ferreira de Castro -- o mais universal dos romancistas portugueses -- fala da universalidade de Eça de Queirós» [entrevista a Jaime Brasil], O Primeiro de Janeiro, «Das Artes e das Letras», 1/11/1944.
actualizações: 19, 20,21/X/2007
Monday, April 23, 2007
«Bibliofilia e livros russos»: a propósito de «A Lã e a Neve»
A Lã e a Neve, ao relatar a proletarização nas fábricas têxteis da Covilhã de Horácio, um pastor da serra da Estrela que pretendeu melhorar a vida, após ter tomado contacto com outras realidades durante o serviço militar, entusiasmou muitos dos neo-realistas. Era aliás citado por Álvaro Cunhal, no célebre artigo «Cinco notas sobre forma e conteúdo» (1955), dando-o como exemplo literário de «arte ascendente», ao lado de Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes e de Fanga, de Alves Redol. (3) Exemplo, aliás, repetido no seu ultimo ensaio, A Arte, o Artista e a Sociedade (4).
Apenas, que eu saiba, Mário Dionísio viu, logo em 1947, numa extensa recensão na Vértice, que nem Castro nem A Lã e a Neve em particular podiam ser considerados «neo-realistas», pelo menos de um ponto de vista ortodoxo. Isto é, se a superação da realidade existente fosse advogada de outro modo que não o da luta organizada do proletariado enquadrada no Partido que se reivindicava como sendo o seu, não podia uma obra, de acordo com o futuro poeta de Terceira Idade, ser qualificada como tal. (5)
Esta questão, sobre se ao neo-realismo subjaz uma linha "oficial" e uma dogmática, não era consensual, e ainda hoje o não é. Há quem considere, como Urbano Tavares Rodrigues, que outras visões de transformação do real e da luta de classes podem coexistir dentro do que se convencionou designar por «neo-realismo». (6)
Ferreira de Castro sempre fora um público e notório autor libertário, um comunista libertário de inspiração kroptkiniana. A Lã e a Neve, que tem como grande figura moral a personagem central do velho anarquista Marreta, esperantista e vegetariano, que apresenta o patrão, contra quem os operários fazem greve, como uma figura inevitavelmente revestida de humanidade e não como um simples arquétipo negativo e que finalmente aponta a concretização de uma sociedade nova para uma etapa posterior da vida colectiva, pouco definida, mas conquistada não só pela luta de classes -- que sempre esteve presente nos romances de Castro --, como pela alteração das mentalidades e da própria ontologia do ser humano, eram naturalmente ideias passíveis de conflituar com as que defendiam a conquista do poder pela vanguarda da classe operária organizada em partido.
Nada enfim que levantasse obstáculos ao seu velho amigo Amado, para quem, no fim da década, Castro faria o prefácio da primeira edição portuguesa de Gabriela, Cravo e Canela...
(1) In Quirino TEIXEIRA, Na Bahia com Jorge Amado, Lisboa, Centro Nacional de Estudos e Planeamento, 1985, p. 59.
(2) Jorge AMADO, Conversas com Alice Raillard, tradução de annie Dymetmann, Porto, Edições Asa, 1992, p. 200.
(3) António VALE [pseudónimo de Álavaro Cunhal], «Cinco notas sobre forma e conteúdo», Vértice, vol. XIV, n.º 131-132, Coimbra, Ag.-Set. de 1954, p. 481.
(4) Álvaro CUNHAL, A Arte, o Artista e a Sociedade, Lisboa, Editorial Caminho, 1999, p. 99.
(5) Mário DIONÍSIO, «A Lã e a Neve por Ferreira de Castro», Vértice, vol. IV, n.º 49, Coimbra, Agosto de 1947, pp. 302-307.
(6) Urbano Tavares RODRIGUES, Um Novo Olhar sobre o Neo-Realismo, Lisboa, Moraes Editores, 1981, pp. 14-15.