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Monday, April 27, 2026

outras palavras

«Mas, logo que chegaram, meteram-se na sua toca. Só o Arturinho passeou ao fim da tare, na estrada, em frente da venda, o sobretudo novo. / A esta hora, cada um pensa especialmente nos seus. Quase todos pobres, não têm remorsos de comer mais do que os outros.» «O Natal em Ossela» (1932/1974) 

«A terra nativa parecia-me defeituosa por não ter as correntes de vento necessárias para elevar a "estrela" multicolor. Contudo, eu mentia, afirmando que já um dia um "papagaio" meu subira tão alto que eu chegara a não o distinguir no espaço. Repetia muito essa minha fantasia, mas, ao recordar-me da verdade, sentia um vácuo na alma.» «Memórias», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

«O seu convívio valia mais do que um curso de Bondade. / Era homem e, como homem, tinha, naturalmente, as suas preferências ideológicas. Mas a sua alma branca tudo absolvia, a todos procurava compreender e justificar.» «Delfim Guimarães» (1934) 

Wednesday, February 04, 2026

outras palavras

«Inventei também umas andas, que eu escondia no monte, a meio do caminho da escola e sobre as quais regressava, radiante, a minha casa. Construí, com alguns condiscípulos, uma bicicleta de madeira, e desesperava-me pelos meus "papagaios" não subirem tão alto como um que eu vi na praia do Furadouro.» «Memórias» (1931)

«Junto deste homem de rosto longo, com uma barba romântica -- uma barba que parecia recortada duma personagem de velho romance francês -- uns olhos sempre congestionados e uma boca sempre ofegante -- já que o coração o matava sob todos os aspectos -- aprendia-se a ser bom.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Veio, este ano, o António da Zefa, que anda no peixe, em Lisboa; veio o Arturinho, que está de caixeiro no Porto, e veio o filho do Soares lavrador, que estuda, em Coimbra, para que a freguesia tenha a honra de dar também um doutor a Portugal.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)  

Wednesday, December 10, 2025

outras palavras

«Mas entre tanta gente, de tão diferentes atmosferas morais, afectivas e mentais, poucos tenho encontrado como Delfim Guimarães. Junto deste homem de forte estatura, com um físico propício a esses lutadores que desejam triunfar esmagando tudo e todos, aprendia-se a não esmagar ninguém, a não triunfar à custa do sacrifício de alguém, a respeitar tudo e todos.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Apesar disso, deixei-me fascinar por um jogo infantil e roubei em casa uma colecção de botões, que era de grande estimação e que me valeu um severo castigo, logo repetido quando comecei a vender, ocultamente, para comprar fogos de S. João, várias lunetas que estavam guardadas na nossa velha escrivaninha.» «[Memórias]» (1931)

«O fiel amigo, com couves e batatas, é da tradição; quem tem mais posses frita, também, a sua rabanada. O vinho corre, rosado, transparente, sobretudo à hora do magusto, quando as castanhas estalam no fogo. / Cada lar parece viver isolado do mundo, sozinho no mundo, como se para lá das paredes negras de fuligem nada mais existisse.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)

Tuesday, November 04, 2025

outras palavras

«Eu era um bom aluno. Tinha, porém, uma vida triste e afastava-me quase sempre dos meus condiscípulos. Certos episódios, que os deixavam indiferentes, faziam-me sofrer o dia inteiro, sobretudo na solidão que eu buscava.» [«Memórias»] (1931)

«Nas velhas cozinhas, em redor da mesa e ao fulgor da lareira, agrupa-se a família. Os velhos e as velhas, remotas esculturas enegrecidas e cariadas pelo tempo; os filhos que estavam ausentes e que puderam vir e os que ainda andam fraldiqueiros a crescer.» «O Natal em Ossela» (1932-1974)

«Delfim Guimarães fazia parte desse pequeno número. Ele sabia criar um lugar de especial ternura na alma de todos aqueles que se lhe acercavam. / Tenho conhecido muita gente. Uns, mascarados, às esquinas da vida; outros, colocados ao sol, espírito aberto à compreensão, que tudo justifica e tudo absolve, à solidariedade humana, ao amor pelos que sofrem e até por aqueles que parecem não sofrer...» «Delfim Guimarães» (1934)

Monday, September 29, 2025

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«Nem da coruja que mora na igreja velha, escorropichadora de lâmpadas há um ror de anos, ele deixa hoje ouvir o sinistro uuu-gru-gru-gru. O vento domina tudo. O vale inteiro está transido pelo seu uivar. Quem ousa pôr a cabeça fora de porta numa noite destas, que é, ademais, para ser vivida em casa?» «O Natal em Ossela» (1972-1974)

«Mas, de tantas, só algumas saem da sombra onde jazem aqueles que conhecemos e se perderam de nós, levados pelas circunstâncias do destino. Só algumas, presentes ou ausentes, adquirem lugar próprio, convívio permanente com a nossa alma, criando uma amizade singular dentro do amor plural por toda a Humanidade.» «Delfim Guimarães» (1934) 

«Veio, depois, a inveja, a única que tive na minha vida: a de não ser igual aos outros, a de não possuir o seu à-vontade, a de não ter o sangue frio de que eles dispunham e graças ao qual brilhavam nas lições mais do que eu, embora soubessem muito menos.» [Memórias] (1931)]

Monday, July 14, 2025

outras palavras

«Não é preciso, sequer, ser muito velho para, semicerrando os olhos, ver passar intérmino e esfumado cortejo de figuras que, um dia, se projectaram em determinado estado da nossa existência. Mas, de tantas, ficam muito poucas gravadas no coração.» «Delfim Guimarães» (1934)

«Eu sentia um respeito enorme por tudo aquilo e estava envergonhado. Sentei-me a uma das carteiras e, não tendo coragem de levantar os olhos, fixei-os no abecedário, que crescia e se deformava constantemente. Nesses primeiros dias, a minha única distracção era seguir as moscas que passeavam no sujo rebordo do tinteiro.» [Memórias] (1931) 

«Lá em baixo, corre o Caima, mas também a ventania lhe assimila o rumor da água nas suas quedas e serpenteios, por entre pedras limosas, enormes como ovos de ave mitológica. / Só o vento existe. Anda a bramar nos pinheiros das declividades, nos castanheiros da Felgueira, nos rochedos, nas locas, por toda a parte.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)

Monday, June 16, 2025

outras palavras

«Mas lembro-me, nitidamente, da minha entrada na escola. Lá estava, ao fundo, à secretária instalada sobre um estrado, o sr. professor Portela. Era gordo e de cara muito branca e fofa. No primeiro plano, as carteiras com os alunos chilreantes. Alguns conhecia-os eu cá de fora. Mas tomavam ali, para a minha timidez, o papel de inimigos.» [Memórias] (1931)

«De onde seria o ramo que ia em procura do tronco familiar? De Castelões? Da Gandra? De Arouca? Viria do Porto, de Estarreja, de Lisboa? Em todo o vale flutuava, então, o segredo. Hoje, com os automóveis, quem passa, passa; a sua vinda não lembra sacrifício; tudo vai depressa, já não há distâncias e anda-se pouco ao frio.» «O Natal em Ossela» (1932/1974)

«Uns, não voltamos a encontrá-los jamais; outros, um dia, ao dobrarmos um dos ângulos do mundo, topamos com eles e, por pequeno que haja sido o convívio, a nossa emoção é tão grande como se em vez duma vida alheia encontrássemos um trecho pretérito da nossa própria vida -- vida que vivemos outrora e da qual já não somos mais do que uma precária lembrança.» «Delfim Guimarães» (1934)

Monday, April 21, 2025

outras palavras

«Antigamente os carros, puxados por cavalos, tinham outro mistério. Ouvia-se à distância o seu rodar e só se deixava de ouvir quando já iam muito longe. De passagem, se o vento não era forte, enchiam de ecos o vale. E enquanto se escutava o ruído das ferraduras nas pedras da via e a cantilena das rodas, ficávamos todos a pensar na figura que alarmava a noite, muito embrulhada e metida no canto do "coupé".» «O Natal em Ossela» (1932/1974)

«Passa tanta gente, tanta! Passa tanta gente nos caminhos do planeta, tanta gente que conhecemos ao longo da vida! Uma mão que se apertou, umas palavras que se trocaram, uma amizade que aflorou, aqui, ali, a norte, a sul, neste e naquele país, neste e naquele continente.» «Delfim Guimarães» (1934)

«É esta a minha primeira recordação. E foram de ódio e de sofrimento as primeiras sensações que a vida me deu. Eu tinha quatro anos e meio. Aos seis fui para a escola. Era de inverno. Ia de chancas, friorento, enroupadito. Creio que foi minha mãe quem me acompanhou até meio-caminho. Não me recordo bem.» [Memórias] (1931)

Thursday, July 10, 2014

uma + uma antologia de Cabral do Nascimento sobre a Madeira

Com o mesmo excerto de Eternidade: "As levadas".


NASCIMENTO, Cabral do, Lugares Selectos de Autores Portugueses que Escreveram Sobre o Arquipélago da Madeira, Lisboa, Delegação de Turismo da Madeira, 1949; Tipografia Ideal, Lisboa; 277 págs.; 19,2x13,6x3 cm.; broch.
Género: Antologia. Autores antologiados: António Feliciano de Castilho, D. António da Costa, Travassos Valdez, Bulhão Pato, Garcia Ramos, Júlio Dinis, M. Teixeira-Gomes, Brito Camacho, P.e Fernando da Silva, Raul Brandão, J. Reis Gomes, Virgínia de Castro e Almeida, Luzia, Sousa Costa, Julião Quintinha, Norberto de Araújo, Assis Esperança, Henrique Galvão, Ferreira de Castro, Sant’Ana Dionísio, João Ameal, Luís Teixeira, Hugo Rocha, Luiz Forjaz Trigueiros, Cabral do Nascimento.



 [ actualização]NASCIMENTO, Cabral do, A Madeira, Lisboa, Livraria Bertrand, s.d.; colecção: «Antologia da Terra Portuguesa» #2; impressão: Imprensa Portugal-Brasil, Venda Nova; 166 págs.; 17,5x12x1,3 cm; broch.
Género: Antologia. Autores antologiados: Luís de Camões, Manuel Constantino, Manuel Tomás, Medina e Vasconcelos, Francisco Álvares de Nóbrega, António Feliciano de Castilho, Francisco Maria Bordalo, D. António da Costa, Francisco Travassos Valdês, Bulhão Pato, José Ramos Coelho, Visconde de Ervedal da Beira, Acúrsio Garcia Ramos, Júlio Dinis, Manuel Pinheiro Chagas, Gomes Leal, Pedro Ivo, Mariana Xavier da Silva, M. Teixeira-Gomes, João Augusto Martins, Brito Camacho, José Cupertino de Faria, António Nobre, Raul Brandão, J. Reis Gomes, Delfim Guimarães, Virgínia de Castro e Almeida, Luzia, Sousa Costa, João Gouveia, António Sérgio, Jaime Cortesão, Oldemiro César, António Ferreira, Julião Quintinha, Norberto de Araújo, Assis Esperança, Henrique Galvão, António Montês, Cabral do Nascimento, Ferreira de Castro, Ernesto Gonçalves, J. Vieira Natividade, José Osório de Oliveira, Norberto Lopes, Vitorino Nemésio, João Ameal, Sant’Ana Dionísio, José Loureiro Botas,  Luís Teixeira, Hugo Rocha, Ricardo Jardim, Joaquim Paço d’Arcos, João de Brito Câmara, Pedro de Moura e Sá, António Ramos de Almeida, Miguel Trigueiros.