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Friday, November 08, 2024

dos romances

«Os seus toscos sapatos de borracha, com o feitio exacto das peúgas, semienterravam-se no tijuco ribeirinho e mais facilmente as pernas se desprendiam de dentro deles, do que eles se libertavam dessa lama pegajosa, quase tão voraz como as areias movediças.» O Instinto Supremo (1968)

«O polícia, que vinha sentado junto do motorista, chupou, quatro vezes seguidas, a ponta mungida do cigarro, atirou-a fora -- e desceu. Sentindo os olhares despejados lá de cima, que davam maior vaidade aos seus gestos, ladeou a furgoneta e, atrás, abriu a porta, que era chapeada e sólida como a dum cofre.» A Experiência (1954)

«O edifício, velho e longo, muito longo e de um só piso, parecia querer mostrar que a sua missão, justamente por ser celeste, devia agarrar-se à terra, estender-se bem na terra, para extrair a alma dos homens que nela viviam.» A Missão (1954)



Capa da 1.ª edição, desenho de Artur Bual (1968)


Wednesday, October 03, 2012

incidentais #5 -- do escrúpulo do romancista diante de livro novo

(o último romance de Ferreira de Castro, publicado, em 1968)

do «Pórtico»:

* Castro dirige-se ao etnógrafo Nunes Pereira, grande figura da vida cultural, científica e política da Amazónia. O mesmo que em tempos lhe mandara terra do seringal Paraíso -- que se encontra em exposição no Museu, em Sintra --, fotografias do que restava do acampamento, e que pesquisara nos arquivos do escritório o que ficara anotado dos proventos do jovem Zeca Castro (13 anos incompletos quando lá chegou, em 1911) nos livros do deve & haver: «[...]a minha vida sintetizada em algarismos, como é de bom e corrente uso no Mundo em que vivemos; neste caso poucas cifras, pois eu ganhava dez tostões por dia.»

* A evocação do terror infantil da possibilidade de um ataque dos Parintintins , tribo temível com um longo historial de conflitos com os seringueiros, e cujas notícias da prática da decapitação das vítimas não contribuiriam, decerto, para grande sossego do rapaz... Castro nunca se terá deparado com eles (assim o crê Bernard Emery), nem há notícia de que alguma vez tenha ocorrido uma incursão, o que não invalida que a ameaça permanente que pendia sobre as suas cabeças (pelo menos assim percepcionada), que, já velho, quase seis décadas mais tarde escrvesse: «Eram o meu terror esses índios».

* A forma (aparentemente) destemida como quotidianamente os seringueiros se embrenhavam floresta adentro, desfrutando do pavor do menino, fez nascer neste uma admiração pela bravura desses homens rudes -- um pouco como veremos suceder n'A Selva com Alberto e Firmino, uma irmanação progressiva que depois se alargará, vencidos os preconceitos, aos restantes homens.

*Livro prometido a Cândido Rondon (retratado na capa por Artur Bual), «numa hora porventura leviana», promessa recordada pelo general Jaguaribe de Matos -- cartógrafo que acompanhou Rondon -- em 1959, quando da visita de Castro ao Brasil. Apesar de em fim de percurso (e que percurso!), a circunstância de apresentar um romance no mesmo cenário de A Selva trazia o receio de que pudesse ser acusado de explorar um filão que granjeara a maior fortuna crítica e a grande adesão do público. «Vexava-[o]» -- mesmo que se tivessem passado quase 40 anos sobre a primeira edição daquele romance...: «[...] sempre preferi um novo território literário para cada novo romance. Seduz-me auscultar os caminhos que ainda não trilhei, estudar as atmosferas que a minha pena ainda não captou, desvelar o que é inerente a cada terra; atraem-me as próprias dificuldades e assusta-me a eventualidade de repetições.» Quem lhe conhece a obra, sabe que foi assim.

Monday, February 02, 2009

Os retratos de Castro por Nobre (1)

Publicado em Vária Escrita, n.º 8, Sintra, Câmara Municipal, 2001
A Elena Muriel Ferreira de Castro,
com profunda admiração e amizade
«Vêmo-lo muito jovem e bonito, uma cabeça
quase de adolescente, com o rosto a exprimir
plena confiança em si mesmo.»
Ferreira de Castro
Ao longo de mais de meio século de vida literária, Castro foi alvo da atenção de muitos artistas que lhe fixaram o rosto no retrato, na pintura, na gravura, na escultura, na fotografia [e na caricatura]: Eduardo Malta, Stuart Carvalhais, San-Payo, Baltasar, Elena Muriel, Santana, Manual Cabanas, Luís Jardim, António Duarte, Anjos Teixeira, Artur Bual, Júlio Pomar e João Abel Manta, entre outros -- só para falarmos de autores portugueses que, na sua maioria com felicidade, fixaram a «máscara e a alma» de uns alegados «traços duma ancestralidade eslava» (1). Mas ninguém o retratou tantas vezes como Roberto Nobre. (2)
(1) Jaime BRASIL, «notas biográficas e bibliográficas», VV. AA., Ferreira de Castro e a Sua Obra, Porto, Livraria Civilização, 1931, p. 7.
(2) Sobre o relacionamento de ambos, ver a nossa introdução a Ferreira de CASTRO / Roberto NOBRE, Correspondência (1922-1969), Lisboa, Editorial Notícias e Câmara Municipal de Sintra, pp. 7-13.
(continua)

Sunday, April 29, 2007

Uma capa de Bual

O Instinto Supremo
Lisboa, Guimarães Editores, 1968