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Friday, March 13, 2026

dos romances

«Mas já Mercedes saía do quarto, sempre com movimentos apressados. Tinha avivado o pó-de-arroz e dado um jeito mais gracioso ao seu cabelo; no braço trazia uma pele de raposa. / -- Vamos? -- disse, dirigindo-se a Paco. E, aproximando-se mais, beijou Soriano na testa. / Nos últimos tempos esta cena tornara-se quotidiana, pois Mercedes e o sobrinho saíam juntos todas as noites, para o teatro, para o cinema, para casa de um e de outro amigo» A Curva da Estrada (1950)

«Ele levantara os olhos devagar, num esforço, e fora então que as ancas da mulher, assim sentada,  lhe pareceram mais amplas do que quando ela estava de pé. Os seus olhos fugiram imediatamente do diabo que se escondia ali, sob as saias, redondo que nem uma abóbora; mas logo se enredaram no sorriso que a mulher luzia -- um sorriso brando e húmido.» A Missão (1954)

Wednesday, September 17, 2025

dos romances

«A mulher volvera à sua lembrança. Continuava a vê-la sentada ao sol, os pés sem tocar o chão, as pernas a badalar, a irem e virem sob o banco, como se estivessem num trapézio. Dir-se-ia que as suas pernas tinham, nessa hora, uma felicidade independente do tronco, todo um desejo de folgar que começava dos joelhos para baixo.» A Missão /1954)

«Idalina desviou ligeiramente os olhos para o cão e voltou a fixá-los na rocha, com aquele mesmo ar preocupado que tinha quando o bicho chegara. Houve um pequeno silêncio e Horácio volveu ao tom de voz anterior:» A Lã e a Neve (1947)

«Subitamente, porém, Januário deteve-se e ergueu a vista para o edifício que se levantava na sua frente. Os presos estavam lá, as mãos fechadas sobre as barras de ferro, mas ele mal os fixou. Os seus olhos percorreram a fachada clara, de janelas e portas emolduradas em cantaria branca, fresca, tudo lembrando construção recente, como se procurassem  alguma coisa que se não via com facilidade, alguma coisa que não se encontrava na frontaria do edifício, iluminada pelo sol, mas nas negras profundezas da memória.» A Experiência (1954) 

Monday, August 11, 2025

dos romances

«O "Bagatelle"deixou a lata, pousou uma das mãos sujas sobre a escada e olhou para o beiral: / -- Vou pintar a palavra "Missão" no telhado, por causa dos bombardeamentos... / -- Muito bem. É preciso -- apoiou Mounier, sempre com um tom descuidado e já a afastar-se.» A Missão (1954)

«Soriano contemplava-a com esse sorriso complacente e irónico de quem não está disposto a melindrar-se. Ela levantou-se da mesa e caminhou apressadamente para o seu quarto. / Soriano e o filho ergueram-se também. O taque-taque do relógio parecia mais nítido, mais corajoso, à medida que o iam deixando sozinho.» A Curva da Estrada (1950)

«Só então o amo deu por aquela presença. Ele regressara nessa tarde do serviço militar e, no entusiasmo de ver pai e mãe, os vizinhos e, sobretudo, Idalina, não se havia lembrado ainda do seu antigo companheiro. Agora, porém, afagava-lhe a cabeça e metia, enternecido, um parêntesis na narrativa que estava fazendo: / -- Olha o "Piloto"! O meu "Piloto"!» A Lã e a Neve (1947)

Tuesday, March 11, 2025

dos romances

«Mounier parou: / -- Bom dia! Então qual é hoje o trabalho? / Ele vinha a rememorar a influência maléfica  que uns quadris femininos podem ter, pelo facto de parecerem maiores do que efectivamente são quando o corpo está sentado, e perguntara aquilo distraidamente, muito mais por hábito de cortesia do que por força de curiosidade.» A Missão (1954)

«--É tudo uma malandragem! Ah, bom tempo em que havia relho e tronco! Então, esta canalha andava mesmo metida na ordem! Hoje, não se prende ninguém por dívidas e dizem que já não há escravos. E os outros? Os que perdem o que é seu? Vem um homem a fazer despesas, a pagar passagens e comedorias e até a emprestar dinheiro para eles deixarem às mulheres, e depois tem-se este resultado! Lhe parece bem? Ora diga, senhor Macedo: lhe parece bem?» A Selva (1930)

«["] Fora naquela mesma cama que ele tivera as núpcias com a sua primeira mulher, a santa que a morte levara, para desgraça dele. Fora ali, também, que a pobre morrera, lúcida, muito lúcida sempre preocupada, sempre a pensar no futuro dele e da filha, até o último instante. Ainda duas horas antes de expirar, obrigara-o a comer na sua frente, 'pois andava desconfiada de que, por causa dela, ele não comia.' Sofrera tanto com isso! ["]» A Tempestade (1940) 

Thursday, January 09, 2025

dos romances

«Em Espanha não só se come tarde, mas também se come demasiado. Provavelmente, o nosso carácter violento deve-se, em grande parte, ao excessivo trabalho que damos ao fígado... E é ver as nossas mulheres... Tão bonitas, tão sedutoras antes dos trinta anos! Mas, depois dos trinta, porque jantam tarde e se deitam, quase todas, em seguida ao jantar, começam a exibir umas ancas tão prósperas como se fossem mães de toda a Humanidade...» A Curva da Estrada (1950)

«Ao fundo, com uma árvore em frente, tão ramalhuda que quase a ocultava, erguia-se a capela, que, ligada embora ao edifício, avançava sobre o jardim, dando ao todo a forma dum grande L. / Ao entrar na cerca, Georges Mounier viu uma escada posta ao beiral. Junto dela, o «Bagatelle», homem de sete ofícios, pedreiro, pintor, até carpinteiro se fosse preciso, uma vez por outra trabalhando na Missão, ia remexendo com o pincel a tinta branca coalhada no fundo duma lata.» A Missão (1954)

«Avançava cautelosamente, inclinando a cabeça para não tocar no tecto. À medida que se acercava da claridade exterior, via-se que se tratava dum homem novo. O polícia sabia a sua idade exacta. Mas não era necessário ler o papel que o polícia trazia no bolso: Januário de Sousa, filho de Ana Maria e de pai incógnito, etc.; bastava deitar o rabo do olho à sua pele morena, lisa e macia que nem água passada a ferro na popa dos barcos, para se ver que ele não tinha mais de vinte anos, apesar de os seus olhos parecerem exaustos por não se sabia quantas madrugadas do princípio do Mundo.» A Experiência (1954) 

Tuesday, December 03, 2024

dos romances

«Vendo-a adormecida, neutra, Cecília pareceu-lhe menos odiosa. Dir-se-ia que a sua vida era protegida pela sua própria incapacidade de defender-se. Em frente da cama, ele principiou a despir-se, por hábito. A luz do corredor, ao filtrar-se pela bandeira da porta, destacava da obscuridade o vulto de Cecília sob os lençóis. Repugnava-lhe estender-se ao lado da mulher.» A Tempestade (1940)

«Que diria Juca Tristão, que o tinha por esperto e exemplar, quando ele lhe aparecesse com três homens a menos no rebanho, que vinha pastoreando desde Fortaleza? E o Caetano, que ambicionara aquele passeio por conta do seringal e assistira, roído de inveja, à sua partida? Rir-se-iam dele... Quase dois contos atirados por água-abaixo!» A Selva (1930)

«No telhado antigo, com o pó dos tempos fixado em crostas esverdeadas que nenhuma chuva conseguia lavar, os pardais faziam o ninho na Primavera. Em baixo, entre as paredes e as covitas que as goteiras, em horas pluviosas, abriam no solo, vicejavam lírios, roseiras trepadoras e tenros pés de salsa que o irmão hortelão não se dispensava de cultivar.» A Missão (1954) 



Capa da 1.ª edição: vinheta de Roberto Nobre (1954)


Friday, November 08, 2024

dos romances

«Os seus toscos sapatos de borracha, com o feitio exacto das peúgas, semienterravam-se no tijuco ribeirinho e mais facilmente as pernas se desprendiam de dentro deles, do que eles se libertavam dessa lama pegajosa, quase tão voraz como as areias movediças.» O Instinto Supremo (1968)

«O polícia, que vinha sentado junto do motorista, chupou, quatro vezes seguidas, a ponta mungida do cigarro, atirou-a fora -- e desceu. Sentindo os olhares despejados lá de cima, que davam maior vaidade aos seus gestos, ladeou a furgoneta e, atrás, abriu a porta, que era chapeada e sólida como a dum cofre.» A Experiência (1954)

«O edifício, velho e longo, muito longo e de um só piso, parecia querer mostrar que a sua missão, justamente por ser celeste, devia agarrar-se à terra, estender-se bem na terra, para extrair a alma dos homens que nela viviam.» A Missão (1954)



Capa da 1.ª edição, desenho de Artur Bual (1968)


Monday, June 08, 2020

da distracção

«Ele vinha a rememorar a influência maléfica que uns quadris femininos podem ter, pelo facto de parecerem maiores do que efectivamente são quando o corpo está sentado, e perguntara aquilo distraidamente, muito mais por hábito de cortesia do que por força de curiosidade.»


A Missão (1954; 11.ª ed., 2013)


Thursday, June 28, 2018

Ferreira de Castro em Teerão


Está em cena, em Teerão, uma adaptação de A Missão, por Kiomars Moradi.
Ver aqui, aqui e aqui.

Thursday, December 15, 2016

A MISSÃO em Tomar



É com grande expectativa que estarei no próximo domingo na Quinta da Granja, em Tomar, para assistir a mais uma adaptação de A Missão, por Carlos Carvalheiro, levado à cena pelo Fatias de Cá(Infelizmente, não vi a de Deolindo L. Pessoa, com o CITEC).
Às 18.18h estarei no Hotel dos Templários, com outros castrianos, para falar sobre a ficção de Ferreira de Castro.

Saturday, June 25, 2016

"Uma página de Ferreira de Castro"

Todos os anos, num fim-de-semana de Maio, o CEFC promove os Encontros Ferreira de Castro, que reúne estudiosos e leitores, em que às comunicações mais ou menos informais se seguem passeios e convívio por aquelas paragens de Ossela, Oliveira de Azeméis e Vale de Cambra.
Os encontros começam sempre nas sextas à noite na adega da casa onde o escritor nasceu. A partir deste ano, lançámos o desafio a cada um dos participantes a escolherem uma passagem, lendo-a aos restantes, seguindo-se um diálogo entre os presentes.
Houve dez que se chegaram à frente, tendo eu registado a origem das escolhas. Na ficção: Emigrantes (1), A Selva (2), Terra Fria (2), A Curva da Estrada (1), A Missão (1); não-ficção: Ecos da Semana, O Segredo das Nossas Derrotas -- Como eu fui preso no Limoeiro, Mensagem (1949).
Para o ano haverá mais.

Tuesday, April 07, 2015

Ferreira de Castro nos dicionários (11) - a Verbo Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura

Ao contrário da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, com vária colaboração republicana e oposicionista, a "Luso-Brasileira" da Verbo tem uma orientação vinculada à Igreja Católica, nomeadamente a Companhia de Jesus, pontificando os padres Manuel Antunes e João Mendes, mas também Vitorino Nemésio, entre outros.
Uma obra como a de Ferreira de Castro, de feição anarquista, ateia e, mitigadamente, embora, anticlerical, não podia ser entusiasticamente acolhida por aqueles lados.
O verbete é de F. Jasmins Pereira (vol. 4, 1966), autor, aliás, de um ensaio não despiciendo: Ferreira de Castro e a sua Obra (1956). É pena, porém, deixar-se condicionar pelo preconceito ideológico, de sentido contrário, de resto, ao que aponta a Ferreira de Castro.
Para Pereira, a pecha do nosso autor é um alegado "encerramento do seu universo romanesco a qualquer horizonte espiritual", restringindo essa espiritualidade à prática e crença religiosas, como se não houvesse metafísica, inquietação, mundo interior e transcendência fora da religião e da Igreja Católica em particular... É, por isso, muito crítico de livros como A Curva da Estrada  ou A Missão, por razões óbvias; apreciando, clara e curiosamente, romances subversivos como A Lã e a Neve ou A Experiência.
Em face de outras entradas que li nesta enciclopédia, esta até poderia ser uma das melhores. Foi pena.
Uma nota para a síntese excelente sobre Aquilino, de Taborda de Vasconcelos, os verbetes muito equilibrados de José Alves Pires  (Faculdade de Filosofia de Braga) sobre Manuel Ribeiro, José Rodrigues Miguéis, Alves Redol e Fernando Namora, e ao remoque não assinado no texto brevíssimo sobre Maria Archer (vol. 2), a propósito do "feminismo pretensamente evoluído" da autora.
Ao contrário do que sucede com a GEPB, esta não exibe qualquer retrato dos escritores referidos, com excepção de Júlio Dinis.

Wednesday, March 25, 2015

Bruno Vieira Amaral fala sobre A MISSÃO

«Ler Ferreira de Castro, 40 anos depois»
27 de Março, sexta-feira, pelas 19 h.
no
Museu Ferreira de Castro
tel: 219238828

Friday, March 28, 2014

Um acontecimento editorial: A EXPERIÊNCIA


Durante sessenta anos (desde 1954, data da primeira edição), A Experiência ficou escondida, no mesmo livro, entre a novela A Missão e o conto O Senhor dos Navegantes. A primeira, objecto também de edições à parte -- foi um dos volumes inaugurais da histórica colecção "Livros de Bolso Europa-América", e da própria editora original, a Guimarães, quando escolhido como um dos livros de leitura curriculares do então ensino unificado, na década de 1970. O Senhor dos Navegantes, em tempos gravado e dito por Ferreira de Castro, num disco editado pela Orfeu, em 1998, através da direcção avisada e culta de Vasco Graça Moura e António Mega Ferreira, foi também objecto de uma edição em separado, na colecção da Expo "'98 Mares".
E A Experiência, no meio da boa fortuna das outras duas narrativas, o único romance que integrava o volume A Missão?; essa história incrível de duas crianças de asilo, Januário e Clarinda, evoluindo para a marginalidade como se uma nuvem negra que sobre eles pairasse não lhes oferecesse outra saída?; essa narrativa modelar, moderna na sua estrutura, com vários planos espácio-temporais, mostrando que, como qualquer grande escritor, Ferreira de Castro não queria dormir à sombra dos louros conquistados, procurando superar-se de livro para livro?...
Foi preciso um editor culto, percebendo que tinha em mãos um romance notável, de grande mestria (um dos meus preferidos), para que A Experiência pudesse  sair da obscuridade a que não tinha direito. Sai, infelizmente, num tempo em que o detrito literário domina os escaparates, e o lixo quotidiano nos empesta a vida. Mas, ao contrário do que queria Ferreira de Castro, a grande literatura, aquela que experimenta e questiona, sempre esteve ao alcance de poucos. Podia ser outra coisa? Podia. Mas então Portugal não seria Portugal, mas outra coisa, menos rústica, menos suburbana.
A edição é cuidada, com referências bibliográficas diversificadas. Deixo duas, de conspícuos ensaístas e críticos, ideologicamente nos antípodas (Ferreira de Castro tem esse atributo dos grandes: seja qual for a nossa mundividência, encontramos sempre nos seus livros algo que nos emociona e faz sentido):

Óscar Lopes: «Ferreira de Castro foi o primeiro grande romancista português deste século [XX] que se determinou por problemas objectivos e não apenas por impulsos íntimos.»
e
Pinharanda Gomes: «Todas as situações são pontos limite, agonísticos, neste romance onde as personagens [...] bebem o cálice até à inverosímil agrura e, todavia, tudo é verosímil e, cotejado com a vida, é crível.»

Uma última palavra para Susana Villar, autora das capas dos livros de Ferreira de Castro na Cavalo de Ferro. Num autor que foi visitado pelos maiores capistas, de Stuart Carvalhais a Bernardo Marques, e até pelos maiores pintores, nas edições ilustradas de Portinari a Pomar, o óptimo trabalho de Susana Villar tem feito jus a também a esse legado.



Friday, January 31, 2014

A Missão

Recensão à nova edição de A Missão seguido de O Senhor dos Navegantes, aqui.

Tuesday, October 01, 2013

"a escolha moral" de Antony Beevor, a propósito da nova edição de A MISSÃO



Quem leu A Missão sabe que o cerne da novela reside no dilema moral que se depara  ao frade Georges Mounier, membro de uma comunidade religiosa na França em trânsito germânico para a ocupação (1940). Um dilema que é uma questão ética colocada ao superior, e depois aos restantes membros, reunidos em capítulo: a utilização do símbolo crístico no telhado do edifício defenderá este dos bombardeamentos aéreos, por convenção internacional. A contrapartida, porém, é a de indicar uma outra antiga, mas semelhante, construção religiosa, na mesma localidade, que havia sido reconvertida em fábrica, e que contribuía para o esforço de guerra francês: não apenas a fábrica e os seus operários ficavam em risco com a identificação da missão, mas também as famílias alojadas no bairro proletário que circundava aquela. O instinto vital, um dos temas persistentes da obra castriana, entra em conflito com a dimensão ética.
Ocorreu-me a entrevista que Antony Beevor deu a Cristina Peres num dos últimos Expressos («Actual», 21.IX.2013). Beevor que, enquanto historiador, estudou profundamente este período, diz, a certo passo: "[...] apercebi-me de que o elemento fundamental do drama humano é a escolha moral."
A Missão (acompanhado de O Senhor dos Navegantes) regressa às livrarias, agora com a chancela da Cavalo de Ferro, após 32 anos do mais estúpido desleixo do seu anterior editor.

Wednesday, March 27, 2013

incidentais #18 - O radical padre Mounier só levanta problemas

Por iniciativa própria, Mounier é recebido pelo Superior, para informá-lo que havia mandado o «Bagatelle» suspender a pintura da palavra MISSÃO no telhado: Breve encontro entre dois homens de fé e da Igreja, de 50 e 65 anos, respectivamente, em que a autoridade do segundo é posta em causa por um imperativo de consciência..
Ferreira de Castro dá-nos então, neste segundo andamento de A Missão, a timidez e mal-estar de Georges Mounier: " a sua voz parecia escorregar por um precipício"; "queria que aquela inexplicável dificuldade lhe desaparecesse da garganta"; "não encontrava o tom desejado"; ao mesmo tempo que o Superior, homem ponderado e experimentado, depara com a surpresa, tanto da atitude como do argumento ético que motivou a atitude do frade: assinalar o edifício pelo ar, para que fosse visto pelos bombadeiros alemães, salvaguardando-o assim, graças às convenções internacionais, equivaleria a denunciar o edifício semelhante (primitivamente um convento de freiras adaptado a fábrica que contribuía para o esforço de guerra francês), pondo em risco a vida dos operários e das famílias que viviam nas habitações em torno: «As mesmas letras que nos protegerem podem representar uma sentença de morte para os homens que ali trabalham.» Após o que (se) pergunta, retòricamente, se as vidas de pouco mais duma dezena de religiosos valerá mais do que as daqueles.
O instinto de conservação inato apanha o Superior em contrapé: : «A luz toldara-se e no bosque onde ele se extraviava não havia apenas uma sombra, mas diversas sombras, não havia uma só vereda, mas muitas veredas cruzadas.»; acrescendo o incómodo e a contrariedade de um radicalismo que lhe era antipático, detectado em Mounier.
Como escreveu João Palma-Ferreira (e cito de cor), Castro era exímio e destacava-se no panorama literário português de então em pôr-nos diante de situações dilemáticas, fazendo-nos, através das personagens, sopesar pró e contras.  E isto -- acrescento eu agora --, apesar de uma clara orientação ideológica,   é-nos dado sem maniqueísmo nem primário preto-e-branco -- antes com a a consistência de quem sabe que cada homem é vários, como eloquentemente já escrevera e mostrara no anterior A Curva da Estrada.
O Superior a decisão até ouvir a irmandade, reunida em capítulo.

Thursday, October 18, 2012

incidentais # 7 -- o estilo é o homem

* A Experiência é um romance de Ferreira de Castro, de certa forma secundarizado pelo próprio, ao metê-lo entre A Missão e O Senhor dos Navegantes (qualquer deles, novela e conto, já conheceram edições autónomas; A Experiência também, mas... na Argentina). 
* Uma história comovente de duas crianças desvalidas, Januário e Clarinda, meninos de asilo que desembocarão na marginalidade: ele ladrão, ela prostituta.
* Primeira parte «ELE» -- I A Entrada: «A furgoneta deteve-se.» [o incipit].
* Um estilo de extrema ductilidade e simultaneamente de grande intensidade psicológica, ambas características do escritor, que vai refinando de livro para livro: «[...] ele não tinha mais de vinte anos, apesar dos seus olhos parecerem exaustos por não se sabia quantas madrugadas do princípio do Mundo.» / «[...] os seus olhos volviam teimosos, ilegais, à fachada, à praça [...]».
* A repetição, figura de estilo que caracteristicamente usou com mestria:  «Lá estava a praça larga e deserta, com um pequeno jardim na extremidade e o posto do correio, à esquerda. Lá estava a velha igreja que padroava o vale sobre o planalto -- lá estava.»
* Uma chegada à prisão, um guarda convincentemente neutro, duro mas sem agressividade. O outro, o que representa a autoridade, a farda, a repressão -- dificilmente um guarda prisional terá outra conotação... -- não é, contudo, desprovido da sua humanidade. Para Castro, houve uma circunstância que fez dele um carcereiro, como de Januário um gatuno.