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Thursday, April 23, 2026

nas palavras dos outros

Mário Gonçalves Viana: «O objectivo deste formosíssimo e incomparável romance -- incontestàvelmente um dos mais belos que se tem escrito na língua portuguesa -- define-o o próprio autor no Pórtico: "é a conquista do pão, a miragem do ouro -- um ouro negro que é miséria, sofrimento e quimera com que os pobres se enganam."» «"A Selva", uma obra-prima"»,  Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Jacinto do Prado Coelho: «Daí o desalento que invadiu os companheiros ao verem o local onde fora sepultado Felício: a plantaria tudo desfigurara: "Não demoraram a partir, amofinados, silenciosos com aquela imagem que parecia lançar raízes desde os olhos até os canais respiratórios, dificultando-lhe o acesso do ar; aquela imagem que a floresta devoraria também em breve, transfigurando-a totalmente." (p. 139)» «"O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)  

Agustina Bessa Luís: «Imagens, reinos da memória, deliberação do próprio sentido da vida, tudo isso nesse momento percebi. Escrevi livros, encontrei muita gente; mas ninguém soube até hoje distinguir, como Ferreira de Castro distingue, entre o cansaço inóspito da terra, a ternura de uma estradinha clara, perdida no desenho de um velho mapa da infância, ali ao pé de nós e tão antiga.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Tuesday, February 03, 2026

nas palavras dos outros

Jacinto do Prado Coelho (1976): «O autor, porém, não a sente acolhedora e materna, criação ou reflexo de Deus: é uma força monstruosa e adversa, empenha-se em destruir o que o Homem constrói; entre o Homem que, entregue a si mesmo, realiza a História, e a Natureza bruta, de vitalidade inexaurível, trava-se uma luta incessante.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966): «Desejaria compensá-lo do desencanto que lhe proporciono nalgumas páginas dos meus livros, com o sincero aplauso pela sua obra, digna de reconhecimento, da glória de que desfruta e doutras maiores homenagens que o tempo lhe prepara. Lembro-me sempre, como duma coisa excelente na minha carreira, daquela leitura de A Selva na sala grande, os estores despedaçados pelo sol velando a explosiva audácia de eu me reconhecer também escritora.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Obra Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Mário Gonçalves Viana (1930): «Ferreira de Castro, que logrou alcançar no ano findo um êxito de que raros justamente se podem orgulhar, pois viu traduzido para espanhol e italiano os Emigrantes, prova evidente de que o sucesso daquele soberbo romance ultrapassou as fronteiras do nosso país, Ferreira de Castro -- íamos dizendo -- sem se acolher à sombra dos louros ganhos, acaba de produzir um trabalho verdadeiramente assombroso de realismo, de emoção e de beleza!» «"A Selva", uma obra-prima», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Monday, February 02, 2026

dos pórticos

«Mas para bem se compreender as obras de arte da antiguidade, que documentam a evolução do homem e a civilização por ele penosamente criada, para extrair das suas formas, por vezes tão rudes e ingénuas, um motivo de admiração, é imensamente útil não só conhecer-lhes a história, mas também a terra onde se geraram e voltar a examiná-las depois, quando já pudermos integrá-las no seu meio original.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

«E desta feita buscou pacientemente, nos antigos livros daquele escritório que tinha dois belos crótons bicolores em frente da janela e estava ainda como eu o havia frequentado, a minha conta ali, entre as de outros párias, a minha vida sintetizada em algarismos,. como é bom e corrente uso no mundo em que vivemos; neste caso poucas cifras, pois eu ganhava dez tostões por dia.» O Instinto Supremo (1968) 

«Sabe-se que os nossos actos são fragmentos do todo que é a vida e do que nela persiste de herdado, folhas novas que não carecem de Primavera para suceder às velhas nos troncos e nos ramos onde circula a seiva vital. E neste caso fragmentos da minha vida literária, laudas adormecidas há muitos lustros e a amarelecer como as madeiras há muito cerradas.» Os Fragmentos (póst., 1974)

Thursday, January 29, 2026

dos romances

«Ele olhava e cada vez parecia mais perplexo. Por fim, voltou-se, como para se convencer de que não havia errado no caminho. Lá estava a praça larga e deserta, com um pequeno jardim na extremidade e o posto do correio, à esquerda. Lá estava a velha igreja que padroava o vale sobre o planalto -- lá estava.» A Experiência (1954)

«-- Vai pau! -- Num instante, a frase humanizara aquela alegoria de desvario. Todas as lâmpadas se apagaram, menos a do homem que a proferira. Mas logo outras três se reacenderam, à volta da árvore que ia tombar, e por ela os seus focos subiram até a copa, onde se fixaram como se pretendessem sustê-la com essas débeis escoras de luz.» O Instinto Supremo (1968)

«A ele, pele de cabrito não deixava mais de vinte tostões; ao Sarzedas, era o que se via! Já alargara a casa e toda a gente dizia que aferrolhava bom dinheiro. E tudo por causa do perneta do Jerónimo, pois seria capaz de jurar que fora ele quem andara com enzonices junto de Iglésias. Mas ai, se ele, um dia, tivesse a certeza! Nem os ossos se lhe aproveitariam!» Terra Fria (1934)

Wednesday, December 17, 2025

dos romances

Subi à casa do Rebelo e leccionei-o sobre a forma de ele pôr a bom recato o nosso material. De armas e dinamite não tinha o Governo urgência alguma e a nós, futuramente, far-nos-iam falta; além disso, era escusado ele ir malhar com os ossos na cadeia.» O Intervalo (1936/1974) 

«Pouco depois, aqui, ali, mais além soavam os golpes dos machados, na noite já toda nervosa. Lâmpadas dispersas, iluminando os pés dos troncos, quase estáticas, dir-se-iam detidas para dar tempo a decifrar uma remota inscrição. Não se enxergava quem as sustinha, nem os homens que cortavam; só se viam os machados e as mãos, ora a sair, ora a mergulhar na sombra, como os insectos chamados ao farol que os matará.» O Instinto Supremo (1968)

«Porto Santo avolumara-se, revelando-se à curiosidade fugidia e perdendo em mistério o que dava em relevo orográfico. As suas casitas estendiam-se junto à riba, branquejando entre a paisagem e sugerindo uma vida tão plena de claridade quanto modesta; mas haviam crescido em número, sim, pois Juvenal pudera contar muitas mais do que na época, já distante, em que viera com a família passar o Estio na vila Baleira.» Eternidade (1933)

Tuesday, December 09, 2025

nas palavras dos outros

Agustina Bessa Luís (1966): «Eu aprendi, porém, que o valor dos homens de raça não é senão orgulho que acrescenta os nossos direitos a seguir-lhes os passos. Em muitas coisas me repreende Ferreira de Castro as zarandas da arte a que me conduz a consciência e a própria índole.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Mário Gonçalves Viana (1930): «Se há livros que mereçam a classificação de notáveis, A Selva é, incontestavelmente, um deles. Pode mesmo afirmar-se que esta obra constitui o maior acontecimento literário desta temporada. «"A Selva", uma obra-prima», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931) 

Jacinto do Prado Coelho (1976): «A função da Natureza é dupla. Fonte de emoção estética, deslumbra e intimida, ressoam nela vozes ancestrais, profundas, enigmáticas: ao cair da noite, "sobre ela parecia baixar, vinda dos tormentos iniciais do Universo, uma poesia épica, soturna e densa, que aguardaria apenas a hora de poder exprimir o inefável, de exprimi-lo dramaticamente, em vozes ou em ritmos como jamais alguém ouvira" (p. 143).» «O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro 

Tuesday, October 28, 2025

nas palavras dos outros

Nogueira de Brito (1929): «Prestar, pois, homenagem a Ferreira de Castro, é encarecer, alentar uma corrente literária que, estando dentro dos moldes contemporâneos, como estética e realização espiritual, prepara um ambiente moral de que irão aproveitando os que lêem a sua interessante produção.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Jacinto do Prado Coelho (1976): «Bem diferente do heroísmo da epopeia literária, amplificante, era este "heroísmo nos factos necessários, sem contágios excitadores, mesmo se a naturalidade que os três homens aparentavam fosse premeditada, mesmo que a sua audácia não se tivesse consumado sem largas e ferventes apreensões." (p. 158)» O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966):  «Quando escrevemos sobre um camarada das letras, quase sempre exigimos que o que pode haver de triunfal na vida não se nos depare como conselho da inveja. Por isso só sabemos louvar os vivos com brandura, não aconteça acordarmos os nossos próprios corcéis competidores.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro - 1916/1966 (1967)

Friday, October 24, 2025

dos Pórticos

«Mais tarde, numa das suas deslocações sobre as veias da Amazónia, cujo mistério renasce logo após cada violação, como ressurge o do nosso corpo a seguir ao trânsito dos Raios X, você tornou a desembarcar no seringal Paraíso, pensando de novo em mim.» O Instinto Supremo (1968)

«Este livro explicar-te-á, porém, o nosso drama. É a nossa história que eu te ofereço aqui, a história de todos nós, que queremos ser eviternos e temos de morrer, que queremos ser felizes e nunca o somos, integralmente.» Eternidade (1933)

«Alguns, porém, não se resignam facilmente. A terra em que nasceram e que lhes ensinaram a amar com grandes tropos patrióticos, com palavras farfalhantes, existe apenas, como o resto do Mundo, para a fruição de uma minoria.» Emigrantes (1928) 

Friday, September 19, 2025

nas palavras dos outros

Jacinto do Prado Coelho (1976): «São heróis de carne e osso, homens com as suas fraquezas, os seus desânimos, os seus impulsos instintivos, e cuja própria grandeza se insere na mediania do quotidiano. "Tudo parecia estranhamente natural, quotidiano, acto comum. Nimuendaju, Raimundo e Carolina subiam agora a ribanceira, tranquilamente, como se viessem duma pesca mediana, nem farta em capturas, nem gorda em decepções."» O Instinto Supremo: quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

Agustina Bessa Luís (1966): «Depois distanciamo-nos noutros enlevos do género literário, noutras predicações e várzeas frias do conhecimento; mas a essência da voz humana que ressoa numa e noutra obra é a mesma. Vemos de súbito que ela se reconhece naquele encontro, num caminho poeirento e silencioso.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

Nogueira de Brito (1928): «É uma obra feita de justeza, de equilíbrio, de calma e objectivação e dela fica a semente a lançar à terra em futuras colheitas de análise sentimental, em próximas depurações de psiquismos e de vibracionismo íntimo.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Tuesday, August 26, 2025

dos romances

«Os dois detiveram-se no corredor. Paco comentava os numerosos palacetes que estavam a ser construídos em San Rafael, para os elementos do Partido Radical. / Soriano ouvia, com interesse, o filho, enquanto utilizava a língua como palito, ora empolando a face direita, ora a esquerda.» A Curva da Estrada (1950) 

«Mas já se ouvia uma voz de mando, a de Amaro, baixa e curta. E rapidamente brilharam as lâminas dos terçados, seguindo as indicações das lâmpadas e rasgando as primeiras sendas, que lembravam minas a furar a tremenda espessura da brenha.» O Instinto Supremo (1968)

«Logo, metendo a direita no bolso, onde guardava o revólver, estendeu a esquerda e ajudou-o. / Lá de cima, alguns dos presos, lavrados de curiosidade e de comentários sarcásticos, viram-nos principiar a andar -- um atrás do outro. Marchavam com naturalidade, nem depressa, nem devagar, no ritmo de funcionários que chegam a horas ao seu emprego.» A Experiência (1954)

Wednesday, August 13, 2025

dos «Pórticos»

«Papéis que jaziam no fundo, submersos pelos mais recentes, estão agora à flor dos outros; a cronologia restabeleceu-se e eles falam-me dos anos em que fui obrigado a vigiar o comportamento das palavras para além das suas imposições estéticas, nesta mesma secretária de onde eles deviam erguer voo, direitos à luz exterior, e quedaram afinal na escuridão das gavetas, como na de um túmulo.» Os Fragmentos [1974] 

«Havia-a pedido a outrem, mas foi-me remetida por si, depois de encontrar a minha carta solicitante olvidada entre as folhas de velho dicionário, amarelecida pela luz a extremidade deixada à vista; por si, que já nesse tempo entregava, perdulária e amorosamente, a sua vida e a sua paixão de biólogo, de etnógrafo e de etnólogo ao estudo das expressões físicas e humanas da floresta imensa; por si, caro Nunes Pereira, que eu não conhecia ainda.» O Instinto Supremo (1968)

«O nosso interesse pelas criações artísticas da Suméria, de Babilónia, da Assíria, do Egipto, de tantos outros povos que durante milénios se sepultaram na memória das gentes e só há pouco ressuscitaram sob as enxadas dos arqueólogos, taumaturgos dos nossos dias, não provinha apenas dessas obras de arte, mas da superação humana que elas já representavam em tão longínquos tempos.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Wednesday, July 23, 2025

nas palavras dos outros

(Agustina Bessa Luís, 1966): «Eu disse para mim: "Também escreverei; em breve escreverei um livro". Não sei de maior força que possa ter um autor, do que esse impulso que toca o espírito dos criadores obscuros, que nele encontram revelação e uma espécie de protecção à sua vontade e ao seu ermo.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

(Nogueira de Brito, 1928): «Em Ferreira de Castro não há a elevação "estudada" do sentir afeiçoado à exigência da efabulação, a rebuscada irradiação de emotismo coado pela oportunidade mais ou menos feliz: há, sim, a espontaneidade que nasce da cena real da existência, sem qualquer assomo de artifício, sem clangores de retumbâncias festivas, nem estilizações frívolas de colorismos doentios e insinceros.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

(Jacinto do Prado Coelho, 1976): «Minúcia na descrição, própria de quem viu com seus próprios olhos, quer se trate da Natureza amazónica, esmagadora, quer dos trabalhos e preocupações quotidianas em tais regiões longínquas. E verdade humana no modo como os "heróis" se definem, tanto através de flashes retrospectivos, que os individualizam,  como pelas formas de comportamento durante a expedição.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária» In Memoriam de Ferreira de Castro (1976) 

Friday, June 13, 2025

nas palavras dos outros

(Nogueira de Brito, 1928)  «Carácter e individualidade, moral e temperamento, tendências e atavismos, andam na obra de Ferreira de Castro como coisa existente, a valer, sem deformação, sem tintas esmorecidas, antes com um vinco de beleza moral e uma característica de perfeição honrosa que impressionam.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

(Jacinto do Prado Coelho, 1976) «É narrativa de acção, relato duma luta e duma vitória final, novela animada de espírito épico -- mas a epopeia surge aqui humanizada, o livro é também "realista", prende-se ainda à tradição portuguesa daquela literatura de informação sobre terras desvendadas que remonta ao século XVI.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária» In memoriam de Ferreira de Castro (1976)

(Agustina Bessa Luís, 1966). «Quando eu li A Selva eu tinha dezasseis anos. Estava no Douro, eu era como um búzio da praia onde se ouve uma ameaçadora informação da vida; ameaçadora, mas restrita à sua lonjura. A Selva pareceu-me uma obra-prima, a obra de alguém que tivera experiência sem perder uma nobre ciência da juventude, que é a esperança.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro - 1916/1966 (1967)

Thursday, March 06, 2025

nas palavras do outros

(Jacinto do Prado Coelho, 1976) «Mais uma vez, na pena de Ferreira de Castro, a literatura apontou um caminho e exaltou grandes valores morais. / / O Instinto Supremo conta a história simples dum punhado de homens que se propõem, arriscando a vida, trazer uma tribo de índios ao seio da civilização. Persuadi-los a, de livre vontade, quebrar uma atitude hostil e deixar o estado selvagem.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

(Agustina Bessa Luís, 1966) «Era um dia quente e sem brisa, o espírito não contava pois com o ligeiro sopro das ribeiras; apagavam-se os verdes ao sol de Agosto. No entanto, Ferreira de Castro, sem esmorecer de atenção, disse: "Valeu a pena vir aqui ver esta estradinha... É maravilhosa..." Todos os anos passados eu levara a percorrer a pequena estrada branca, de noite, com luares circundados da piedade humilde dos pinhais, de dia ouvindo o cachoar da água, o mistério da água correndo absorta, a água matemática dos campos da minha terra -- tudo se voltou para mim do seu sequestro na memória e no hábito. E eu vi que sim, a estrada era maravilhosa.» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

(Nogueira de Brito, 1928) «Os tipos, que a sua obra incarna, são exemplos da vida, e não há um gesto, um vinco de fisionomismo que não atinjam uma verdade irrefutável, um sentido de exactidão a que não está acondicionado o género novela, tão escassamente conseguido.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária»Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

Monday, February 24, 2025

dos romances

«Ao fundo, cortando o declive, estendia-se a linha avermelhada dum valado, que cedia terreno e entrincheirava a multidão cerrada dos pinheiros adolescentes e mui viçosos -- a prole que os velhos não quiseram cobrir com as suas asas seculares.» Emigrantes (1928)

«Só depois de dobadas várias décadas sobre o dia em que Zarco se apossara da terra ignorada, é que o Atlântico se tornara, para os lusos, ser feminino -- Atlântida legendária e de novo virgem, que eles iam deflorando a pouco e pouco, sob o impulso da ambição e da glória. / Mas, com o mar colérico ou tranquilo como agora, ventasse rijo ou corresse, à tona, ligeira brisa, o espectáculo seria sempre de surpreender e extasiar, após a viagem desoladora.» Eternidade (1933)

«Então novas lâmpadas se acenderam e os seus focos inquiridores foram riscando o grande emaranhado, onde os grossos fios de lianas cosiam, uns aos outros, arbustos, plantas, árvores, e os velhos troncos de pele esbranquiçada pareciam, quando a luz por eles subia, a modo de réptil transparente, de contornos imprecisos, querer assustar os homens com a lividez de cadáver que a sua casca, de súbito, tomava.» O Instinto Supremo (1968)

Thursday, January 23, 2025

nas palavras dos outros

(Agustina Bessa Luís) «O caminho branco com os lódãos enflorados de vinha, deu-lhe a atmosfera inteira desses lugares. E eu vi que só um homem que tivesse o talento de assumir a natureza das coisas, sem as alterar na sua originalidade, podia assim reconhecer a magnificência desse toucado dos violáceos festões de "português azul".» «Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916/1966 (1967)

(Nogueira de Brito) «O que caracteriza a literatura de Ferreira de Castro é a incidência do bom gosto estético na observação filosófica dos factos e dos indivíduos, levada a um grau de conclusão e apuro exactos, que faltam à maioria dos escritores que trilharam o caminho por onde ele segue, sem um desvio, sem uma tergiversação, sem uma "falha".» «Ferreira de Castro e a sua obra literária» [1929], Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

(Jacinto do Prado Coelho) «Ferreira de Castro -- quem o não sabe? -- pertenceu à segunda categoria. E O Instinto Supremo, sua última obra, confirmava naturalmente a clara, nobre vocação de escritor humanista. Do "Pórtico", em que o Autor se dirige a um velho amigo, se infere que o "romance" (talvez melhor "novela", apesar das suas dimensões) nasceu da convergência com o contacto pessoal com a Amazónia, ponto de partida d'A Selva, e da adesão profunda ao ideal humanitário que norteou Rondon e os seus sequazes na pacificação dos Índios do Brasil.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária", In Memoriam de Ferreira de castro (1976)

Monday, January 20, 2025

dos pórticos

«Volto  as gavetas sobre a minha mesa de trabalho, como se nela virasse o açafate doméstico, contendo apenas as migalhas dos dias vividos, de que se aproveitam somente as aspirações e os sonhos. Sonhos e aspirações que continuam vivos e ardentes e se realizarão inevitavelmente, mas talvez só quando eu já estiver morto.» Os Fragmentos -- Um Romance e Algumas Evocações (1974) 

«Meu amigo: / Um dia, já não sei há quantos anos desaparecido, mas certamente há mais de vinte, chegou, enfim, a mancheia de terra do longínquo seringal onde vivi; chegou numa caixita de papelão, que a viagem maltratou e eu conservo ainda, um pouco a modo de relíquia.» O Instinto Supremo (1968)

«Depois de havermos trilhado a velha Mesopotâmia, as suas estepes rechinando ao sol, que poeiras ardentes percorriam também e nos queimavam o rosto como enxames de faúlhas, depois de termos auscultado esses largos desertos de onde a nossa civilização lançou os primeiros clarões sobre um mundo espiritual ainda em trevas, voltámos a entrar nas salas de antiguidades orientais do Louvre, que tanto frequentáramos antes de partir.» As Maravilhas Artísticas do Mundo (1959-63)

Friday, December 20, 2024

dos romances

«Quando os homens chegaram, enfim, ao cimo da declividade, lá de onde o céu era vasto e dir-se-ia mais claro, deram com enorme parede vegetal, quase sem espaço para os seus corpos nesse chão plano, que eles sabiam ser imenso e ali vinha desbordar.» O Instinto Supremo (1968)

«O sol, já quase horizontal, com seus raios a morrerem no gume das montanhas, recortava-lhe a figura, sobre a pileca. Nem alto, nem baixo, mas tão forte que o doutor Cardoso, cacique de Montalegre, vira-se em dificuldades para o livrar do serviço militar, as pernas, se se arqueassem mais, tocariam calcanhar com calcanhar sob o ventre do cavalo.» Terra Fria (1934)

«Em algumas fábricas, os operários tinham já regressado, cabeça tão baixa que nem a dele, "Lagarto", corcunda desde que se conhecia, havia cavado tal ninho entre os ombros. / Após estes desenganos, os membros do "Comité" resolveram separar-se. Combinámos, rapidamente, futuros enlaçamentos e, sacudido o Algodres que dormitava na cadeira, com as façoilas negras de barba, nos beiços um fio de baba e mais de vinte pontas de cigarros aos pés, largámos.» O Intervalo (1936/1974)

Wednesday, December 11, 2024

dos romances

«Mas a lâmpada de bolso, de alguém ainda sentado numa das popas, estoqueou de repente a obscuridade, abrindo um caminho de luz, estreito e oscilante, na terra que trepava do rio para a floresta, gretada na parte alta, que mal se via.» O Instinto Supremo (1968)

«Juvenal Gonçalves já o surpreendera, assim, de outras vezes.  Mas nunca, como agora, o emocionara tanto, fazendo-o reviver a sensação que deviam ter fruído, outrora, os descobridores, ao ver surgir o arquipélago. Até então, o Atlântico ainda era para os portugueses um elemento masculino, fero e enigmático.» Eternidade (1933)

«Os caules nus, quase negros, assimétricos, eram colunas de um templo bárbaro, em cuja cúpula transparente o sol ia tecendo prateada e fantasiosa malha. Por vezes, o tecido incorpóreo esfarrapava-se e descia, em fluidos caprichosos, até os galhos, formando pulseiras, ou até o chão, onde coagulava em jóias bizarras.» Emigrantes (1928)



Capa da 1.ª edição: Bernardo Marques (1933)


Tuesday, December 10, 2024

nas palavras dos outros

(Nogueira de Brito) «O escritor que deu ultimamente às letras portuguesas um formoso livro, "Emigrantes", é, antes de tudo, um emotivo severo, pautado, sem arremedos de sentimentalismos pueris, nem devaneios lânguidos de compressão de sentimento ou de ternura.» «Ferreira de Castro e a sua obra literária», Ferreira de Castro e a Sua Obra (1931)

(Jacinto do Prado Coelho) «Escritores de torre de marfim, ou então demoníacos, malditos. Outros, porém, fazem literatura possuídos da consciência de um dever para com o próximo, a escrita é para eles veículo de uma mensagem, obedecem a uma vocação que é simultaneamente literária e cívica, são, através da palavra, através da ficção, construtores de homens, pedagogos.» «"O Instinto Supremo": quando a ética se torna humanitária», In Memoriam de Ferreira de Castro (1976)

(Agustina Bessa Luís) «Um dia eu disse a Ferreira de Castro: "Venha ver a minha terra e a casa onde eu nasci." E ele foi sem rogos, porque o seu coração tem a debilidade dos lugares modestos onde se come o primeiro pão e se forma a alma de saudades esquivas e dolorosas.» Ferreira de Castro», Livro do Cinquentenário da Vida Literária de Ferreira de Castro -- 1916-1966 (1967)