Da sala de cirurgia fui transportada para a "sala-de-estar", onde fiquei em observação por mais ou menos 4 horas.
Nossa felicidade era palpável. Meus sogros logo, logo chegariam, com flores, champanha gelada e um presente para mim. Claro, a champanha era para o pai e para eles. Eu estava me deliciando com um soro com novalgina e tramal (um derivado de ópio) e já estava pra lá de Bagdá.
Claro que o clima de festa continuou. Duas amigas do peito - Claudia Bier e Jutta - apareceram ainda antes dos meus sogros. Chegaram, choraram, deram um monte de presentes para Clara, tiraram fotos e foram embora. Meus sogros chegaram, choraram, beberam e ficaram bastante tempo comigo. Meu marido veio em casa pegar Sônia e meus sogros me levaram ao mini apartamento.
A política do hospital é "rooming-in" ou seja, as mães e bebês ficam junto num mesmo quarto. Claro que as enfermeiras ajudam no que for preciso e os bebês podem ficar à noite com elas. O quarto tem uma cômoda alta para troca de fraldas, bercinho, fraldas, roupinhas, toalhas e quase tudo o que é necessário para cuidar do bebê.
Logo que Peter chegou, meus sogros foram embora, e uma enfermeira veio pegar Clara para dar banho, medí-la e pesá-la. Eu entrei em greve. Finquei o pé e disse que o banho só comigo, que era importante para mim estar presente e que se eu não estivesse presente, nada de banho. Daí Peter levou Clara e uma enfermeira veio com uma cadeira de rodas me levar para a sala onde eles examinam e dão banho nos bebês. Eu queria ir andando, mas a enfermeira alegou que precisava de ajuda, caso eu passasse mal. Me prontive a ir de cadeira de rodas, mas levantei assim que cheguei na sala e ajudei a dar o primeiro banho. A enfermeira neo-natal, Andrea, explicou como cuidar do umbigo e outros cuidados. Voltei a pé para o quarto, para o grande espanto das enfermeiras. Peter carregou Clara no colo - o que também não é "normal", pois todo mundo vive transportando os bebês nos bercinhos. Levantei ainda duas vezes durante a noite para passear pelo corredor - como tinha sugerido minha médica.
A enfermeira do plantão noturno tirou o cateter da uretra e me orientou a usar sempre água para me lavar e trocar o absorvente todas as vezes que eu fosse ao banheiro. Os lóquios (ou seja o fluxo pós-parto) contém muitas bactérias e estas podem causar mastite, caso você pegue nos seios com as mãos sujas, e até mesmo causar infecçoes no bebê. A explicação é que mesmo seios aparentemente saudáveis tem micro-rachaduras na pele, por onde as bactérias podem entrar.
Na primeira noite Clara dormiu bastante, mamou duas vezes e eu descansei bastante.
De manha cedinho meu marido já estava conosco. Disse-me que estava com saudade de suas mulheres. Logo depois do café uma fisioterapeuta chegou para fazer uns exercícios comigo. Ela olhou minha ficha e me perguntou: tem certeza de que a cirurgia foi ontem?
Claro que eu sentia dor. A dor maior era dos lados do abdômen. Mas Dra. Wölfler me explicou que ela tinha cortado o tecido das operações antigas e feito uma espécie de plástica interna e que eu iria sentir muita dor nas laterais do abdômen. Mas dor é normal após o parto. E eu precisava me movimentar para voltar ao normal. Se você fica deitada, sua circulação não funciona direito e a cicatrização é mais demorada. Além do mais, o útero não contrai direito, podendo causar vários problemas à mulher. Tomei paracetamol intravenoso no final da tarde e passei a noite sem dor.
Clara perdeu cerca de 200 g nos primeiros dois dias. Mas no terceiro ela voltou a ganhar peso. Também, né, passou o dia todo mamando. No quarto dia o umbigo caiu e secou. E ela estava 10g acima do peso de nascimento. Andrea deu banho nela de torneira, na pia, e Clara adorou. Neste hospital eles dão banho após o parto só com água morna. E depois eles dão "banho de gato" até o umbigo cair. Disseram-me que pesquisas mostraram ser melhor assim.
Eu não tomei mais analgésicos após o segundo dia. A amamentação estava indo bem e as dores eram suportáveis. No terceiro dia Andrea colheu sangue do pé de Clara para fazer vários exames, dentre eles exames para verificar se ela tem mucoviscidose. Fiquei morrendo de pena de minha filha, que chorou muito durante a coleta, pois Andrea - a malvada - teve de furá-la umas cinco vezes para conseguir colher todo o sangue necessário!
No quinto dia tivemos alta. E chegamos felizes em nossa casa. Não sinto dor e sigo as recomendações de Dra. Wölfler: não ficar subindo e descendo escadas; colocar as pernas para cima sempre que possível; não carregar nada acima do peso do neném (neste caso é Clara ou a cadeirinha, mas nunca as duas juntas!); beber bastante líquidos; me alimentar direito; tomar minha injeção de Clexane di-a-ri-a-men-te; evitar estresse e curtir minha filha.
Eu me emociono quando digo: Tenho uma filha. Ou quando ouvi minha vizinha falar: Ah, a família H. está chegando. Filha, família... palavras carregadas de amor.