19 maio 2010

os céus...

 

Minha mãe diz que eu nasci com o bumbum virado para a lua. Não sei de onde veio esta expressão para explicar que alguém tem sorte.

Esta estória deu-se início num sábado, logo após o vulcão islandês de nome estranho (Eyjafjallajokull) ter sido a causa do fechamento da maioria dos aeroportos da Europa.

Eu estava saindo de casa para encontrar com meu marido, quando o telefone tocou. Era meu cunhado, que também tinha ficado ilhado, e estava à caminho de casa, numa viagem de 3 dias de carro. Ele ligou para mim e perguntou: Você conhece alguém em Sao Paulo? É que a filha da melhor amiga de uma amiga minha está ilhada em Guarulhos. Ela tem 17 anos, não tem cartão de crédito, está sem celular e sem dinheiro, pois ela estava em La Paz, Bolívia, e o vôo deveria ter sido direto para a Alemanha.

Como ela estava sem cartão de embarque, ela teve que desembarcar em Guarulhos, pegar as malas e fazer o check-in para a Alemanha. Foi azar talvez, eu não sei. Acho que foi propositalmente, pois o vôo para a Alemanha não iria sair mais naquele dia. A companhia aérea poderia tê-la deixado em La Paz, onde ela estava com o irmão. Mas caiu dela ficar em Guarulhos, perdida, sem falar português e com só 15 dólares no bolso.

E lá fui eu, ligar para minha mãe, ligar para meu primo, ligar para a mulher do meu primo, ligar para a irmã da minha cunhada que mora em Sampa, para a mãe da menina ilhada em Sampa. Depois de gastar muita saliva ao telefone, ouvi uma mãe aliviada por saber que sua filha, menor de idade, estava sã e salva no burburinho chamado São Paulo, graças à ajuda de desconhecidos. Sandra e Lázaro, meu primo, mesmo estando de mudança, correram ao aeroporto para socorrer uma pessoa estranha. Ao telefone, Sandra me disse que quase chorou ao ver a expressão de alívio no rosto da menina-ilhada-em-Sampa.

Alguns dias depois, com o auxílio de uma pessoa que trabalha numa companhia aérea alemã a menina conseguiu voltar ao seio de sua família alemã. Mais telefonemas para agradecer à mim, emails para a mulher do meu primo e mil preces de agradecimento à minha mãe, que ajudou dando os números de telefone.

Bem, passou, todos alegres e satisfeitos, aeroportos reabertos e todos felizes de volta aos seus afazeres. E segunda-feira lá fui eu bater papo com uma conhecida numa ótica, perto do meu antigo apartamento. Quando eu estava saindo, entrou um rapaz que é entregador de encomendas do correio e me disse:

Eu tenho um pacote para você no meu carro. O pacote está endereçado errado. Eu sei que você mora agora no bairro XY, porém não tenho seu endereço novo. Meu chefe queria mandar de volta para o remetente, mas eu te vi por aqui com sua filha* já algumas vezes e fiquei na esperança de te encontrar ainda esta semana.

* ele me viu levando Clara para o grupinho uma vez!!!

O pacote continha três garrafas de vinho, um livro, um cartão de agradecimento e uma foto da "menina-que-tinha-ficado-ilhada" ao chegar em sua casa na Alemanha.

E assim são aos acasos da vida, só as forcas do céu explicam!

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18 maio 2010

na fonte


Ela estava compenetrada, brincando com a água gélida da fonte. O sol refletiu exatamente no nariz do boneco, deixando da impressão de cabeças encostadas.

Alguns momentos antes, nós tinhámos conseguido um lugar ao sol em frente a um café badalado desta cidade. Apesar de estar lotado a garçonete foi muito simpática e paciente. Clara pediu: "eu quero sorvete de manga com uma pá verde". E para evitar confusão, eu comecei a explicar, que a pá provavelmente viria de outra cor, pois não era possível escolher a cor da pá naquela situação.

E apesar do café lotado, com gente esperando por mesas, outros esperando para pagar, na confusão normal de um dia de sol nesta cidade fria, ela foi atendida. A tal pá está na foto com ela. E entrou para o acervo de pás de sorvete desta casa.

Porque será que criança adora colecionar coisas, heim? Pás de sorvete, pedrinhas variadas, galhinhos, flores murchas, papel de bombom... é uma trabalheira danada convencê-la a jogar estas coisas fora.

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