22 janeiro 2006

e os meus princípios, onde ficam?

Quem me conhece sabe que eu sou um tanto que ecológica, me preocupo com o meio-ambiente, tento ao máximo respeitar todos os seres-vivos do planeta.
Quem me conhece, sabe também que hoje em dia eu trabalho para uma firma produtora de equipamentos médicos.

Esses equipamentos salvam vidas. Isso é verdade e eu acredito neles. Mas para que um médico possa usar os equipamentos, eles precisam ser treinados na implantação e utilização dos equipamentos.

E aqui começa meu dilema. O treino teórico é normalmente seguido por um treino prático, feito num animal. Seria não-ético fazê-lo em seres humanos, isso é verdade. Me pergunto: é ético fazê-los em animais?

Desde novembro todos os funcionários estão sendo treinados nas mais diferentes áreas e como eu trabalho no departamento de desenvolvimento de produtos, meu treinamento incluí a implantação das bombas cardíacas que produzimos.

Passei a noite de quinta para sexta quase sem dormir, preocupada, pois teria na sexta um treino prático. Não, eu não iria implantar, porém iria acompanhar pela primeira vez o treinamento de um cirurgião que estaria implantando quatro bombas diferentes num animal.

Qual o meu espanto ao chegar no laboratório da universidade e perceber que estávamos numa sala de cirurgia, com um "paciente" coberto e anestesiado, como se fosse um ser humano. Duas médicas veterinárias acompanhavam a cirurgia e monitoravam os equipamentos. Todos os presentes estavam altamente concentrados, ninguém fazia piadas ou via o animal como obejto ou mesmo "lixo" e sim como um ser vivo que estava ali prestando um grande serviço para todos nós.

O médico deu-nos aula de anatomia e fisiologia. Fiz até o papel de assistente cirúgica num determinado momento. E fiquei fascinada com tudo o que vi, aprendi e senti. Ao final de seis horas, sai da sala e pedi perdão por ter feito um ser vivo sofrer.

Mas desde então questiono-me onde foram parar meus princípios? De onde veio a euforia e o fascínio? Esqueci das coisas nas quais acredito? Ou foi mais uma vez uma maneira de aprender, de forma até dolorosa, que nada é como sempre achamos?