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sábado, agosto 02, 2025

menos padres para fazer o mesmo

Segundo os dados publicados pelo Observatorio Demográfico do Centro CEU 'Demografía de la Iglesia Católica’, na vizinha Espanha, a idade média do clero é superior a 65 anos, em comparação com a média de 35 anos em 1960. No ano lectivo de 2023-2024, entraram no Seminário em todo o país 143 jovens e foram ordenados 79 novos padres, quando seriam necessários por ano mais de 300 para compensar perdas e mortes. Em 1965, havia mais de 8.000 seminaristas maiores, e hoje são 950. A realidade em Portugal, da qual desconheço dados, deve andar por números similares. Só este ano, na minha diocese deixaram de ser párocos 8 padres, porque já haviam ultrapassado em muito os 80 anos e já não tinham capacidade e saúde para animar uma comunidade. No entanto, não houve nenhuma ordenação para este ministério. Para mim, o problema não é sermos menos padres, mas fazermos ou tentarmos fazer o mesmo que se fazia quando os padres eram em maior número e tinham a seu encargo muito menos paróquias. Ocupamo-nos com celebrações para alimentar a fé de pessoas que, na maioria, ainda não despertaram para ela. Por isso nos queixamos das igrejas vazias. E esquecemos que a missão dos discípulos de Jesus, a começar pelos que foram chamados ao sacerdócio ministerial, é, acima de tudo, evangelizar, isto é, anunciar a Boa Nova da Salvação.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O assunto era padres"

Dados e foto retirados de um artigo em Religión Digital

segunda-feira, maio 19, 2025

As opiniões sobre o Papa

Vai ser um Papa social. Vai ser um continuador de Francisco. Vai estabelecer pontes. Vai fazer união dentro da Igreja. Vai estar atento aos pobres. Vai ser e fazer isto e aquilo e aqueloutro e mais não sei o quê. Quase toda a gente sabe que o Papa vai ser qualquer coisa. Assim temos as opiniões e os comentadores a ver qual delas ou qual deles é mais original ou acrescenta algo mais. E é quase sempre mais do mesmo. O que é preciso é preencher o espaço público com opiniões, porque hoje vive-se mais de opiniões do que de factos, isto é, as pessoas gastam mais tempo a ouvir o que os outros pensam sobre os factos do que em lidar com eles. Por isso alimentamos uma sociedade de opinion makers e influencers. Por isso a objectividade perde espaço para a subjectividade, e a verdade para o relativismo. Claro que também eu vou formulando uma opinião sobre o Papa Leão XIV e procurando intuir nas linhas e entrelinhas qual o rumo que a Igreja vai seguir. Acho natural que o Papa esteja sob o escrutínio de crentes e não crentes. Acho natural que as pessoas se expressem e se possam expressar. Mas, às vezes, também se torna cansativo estar rodeado de tantas opiniões cheias de razões e juízos de valor que parecem querer ser mais do que aquilo que são: meras opiniões. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A sociedade irritada IV"

quarta-feira, maio 07, 2025

Não há clones ou fotocópias de papas.

Por muito que haja quem se tenha identificado com o Papa Francisco por causa da sua simplicidade, proximidade e humanidade, é bom recordar que não há pessoas iguais e que, por esse tão básico motivo, o próximo Papa não será igual a Francisco. Quando, em 1958, se elegeu o cardeal Angelo Roncalli, que assumiu o nome de João XXIII, muitos interpretaram a escolha, por causa da idade dos 77 anos, como a escolha de um Papa de transição. No entanto, foi ele que convocou o grande Concílio Vaticano II. A sua morte em junho de 1963 deixou em risco o futuro do concílio que convocara. Sucedeu-lhe Giovanni Montini, o Papa Paulo VI, que não só continuou, como deu prioridade e direcção ao Concílio. A ele se deve a consistência e clareza que este acabaria por ter, embora ainda tenham ficado algumas pontas soltas. Parece-me, no entanto, que ele foi o Papa que o Concílio precisava. Não abordo o breve pontificado de Albino Luciani, que assumiu os nomes dos seus antecessores, João Paulo I, numa íntima ligação com estes, nem o longo pontificado de Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II, eleito na busca de alguma moderação depois de uma votação renhida entre dois candidatos, um da ala progressista e outro da ala conservadora. Mas recordo a renúncia de Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, homem de clareza doutrinal e teológica que sucedera naturalmente a João Paulo II e sentira que tinha de dar lugar a outro. O cardeal Jorge Mario Bergoglio veio do “fim do mundo” e, de todos os papas pós-concílio, foi o que mais o tentou levar à operatividade, sobretudo com a Igreja em saída missionária e com a Igreja sinodal. Não há clones ou fotocópias de papas. Não se espera que haja um novo Jorge Mario Bergoglio. Espera-se que venha um Francisco II, um Paulo VI, um João XXIV, um João Paulo que seja, ou simplesmente o Papa que a Igreja precisa neste tempo e que Deus lhe há-de dar. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os papas são homens?"

terça-feira, maio 06, 2025

Entramos em conclave

Entramos em conclave. Digo “entramos” porque estou convencido que entra a Igreja toda, que entramos cada um de nós que somos Igreja. Digo-o não porque pense que os cento e trinta e três cardeais nos representam ou que todos entramos porque o nosso pensamento foca-se, por estes dias, na capela Sistina. Digo-o porque acredito que a Igreja tem no conclave a voz do Espírito da Igreja, a voz do Espírito Santo. Digo-o porque acredito que a presença da oração é tão ou mais forte que a presença física. Digo-o porque defendo que a Igreja é de Deus e não dos papas, dos cardeais, dos bispos ou dos padres. A Igreja de Deus é de todos. Por isso vejo o acto de eleição de um Papa como um acto eclesial da Igreja como um todo.
Não contesto que a eleição do próximo pontífice ocorra através de cardeais. Se me perguntassem se concordo que a escuta e o discernimento deveria ser feito por mais pessoas, por fiéis católicos que também têm o sensus fidei, eu responderia afirmativamente, pois creio que o Espírito Santo não se representa apenas nos cardeais eleitores. Aliás, alguns deles geram em mim uma série de resistências, quer por posturas ou ideologias com as quais não me revejo ou que me parecem longe do Evangelho, quer por condicionantes humanas que me parecem questionáveis ou por coisas que se vão ouvindo e que geram em nós dúvidas. Mas a Igreja não é de perfeitos e os cardeais também não têm de o ser, assim como o Papa não tem de ser. A Igreja é de Deus e quero crer que o próximo Papa será o que Deus quiser. O próximo Papa será o que a Igreja de Deus precisa.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja que não é de um Papa"

segunda-feira, março 03, 2025

Às vezes não sei quem é que anda mais doente

O Papa está doente. A aspiração que lhe fazem de vez em quando por causa do muco acumulado e que causa insuficiência respiratória transporta-me para os dias em que assistia o meu pai, os dias em que o aspiravam pelo mesmo motivo. Fico duplamente triste porque me traz à memória a dor de meu pai que se prolongava na minha e porque desejo no mais íntimo da minha fé que o Papa se aguente o tempo suficiente para alguns passos que tem dado e me parecem pendentes. Deus é que sabe tudo e também é Ele que sabe se há ou não assuntos pendentes, é certo, mas toda esta situação me faz rezar. E faz rezar o mundo ou parte dele. Faz rezar a Igreja ou parte dela. Infelizmente, nem toda a Igreja reza pelo Papa. Ainda hoje me contaram de alguns colegas que não conheço e que manifestaram publicamente que não rezavam pelo Papa porque, diziam, ele era comunista. Ele há cada uma! Só faltava rezarem para que ele vá depressa ver o Pai. Às vezes não sei quem é que anda mais doente. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

sexta-feira, fevereiro 21, 2025

Viver o hoje de Deus

Muito se tem especulado estes dias sobre a saúde do Papa, sobre a sua proximidade com a morte, sobre uma eventual renúncia e sobre a sua sucessão. Desde a sexta-feira passada, 14 de fevereiro, data em que o Papa Francisco foi internado com dificuldades respiratórias, que a comunicação social espera e desespera por novidades do hospital Gemelli. Sabe-se que entrou no hospital com uma bronquite causada por uma infecção polimicrobiana que resultou numa pneumonia bilateral. Pouco mais se sabe e quem sabe pouco acrescenta. No entanto, toda a praça pública sabe muita coisa. Os médicos falam, os políticos falam, os padres, os bispos e os cardeais falam. Falam sobretudo os jogadores de bancada que são sempre a maioria dos jogadores. Dizem que nos bastidores não param as movimentações. Dizem tudo e não dizem nada. Certo é que o Papa vai resistindo. Afinal, sempre foi um resistente! Também já pensei no assunto. Já o rezei. E tenho rezado pelas suas melhorias porque me parece que ainda há passos pendentes que ele está a dar e não gostaria que ficassem eternamente pendentes. Mas também confio que o mais importante é viver o hoje de Deus. Seja ele qual for, o hoje de Deus é que é o verdadeiro hoje.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja que não é de um Papa"

quinta-feira, janeiro 09, 2025

Os funerais religiosos do futuro

O padre que presidiu ao funeral faz muitos funerais. A terra não tem muita gente, mas já teve e é hábito regressarem à terra para se despedirem dela. O falecido, depois das cerimónias religiosas, ia ser cremado. Cada vez é mais comum a cremação. De entre as cerca de trinta pessoas presentes, só uma sabia as respostas da missa. Os outros assistiam sem abrir a boca. Não havia ninguém para ler e o padre viu-se obrigado a fazer apenas a proclamação do evangelho. Muito menos havia quem cantasse. Nem o padre tem voz para tanto. Para comungar apenas uma pessoa se aproximou. Era a colaboradora da paróquia que prepara as coisas para a missa e que respondia aos diálogos. O padre, que não conhecia senão a colaboradora, foi empático tanto quanto possível. Embora tenha sentido falta de alguma fé na celebração, ao menos rezou pelo falecido e encomendou a sua alma. Cumpriu o seu papel de funcionário do religioso.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os funerais fazem-me dor de estômago"

sexta-feira, janeiro 03, 2025

A filha que berra

Tem cinco filhos e já não sai da cadeira de rodas sem ajuda. Embora esteja muito consciente de tudo, ali fica à mercê de quem a ajude. Não é muito velha. Apenas tem uma doença que a impede de fazer as coisas mais básicas sem ajuda. Tem cinco filhos, todos eles muito bons, senhor padre. É o que me diz. Só se queixa de uma filha. Diz que ela é uma força da natureza e é quem cuida de mim, senhor padre. Mas também diz que ela tem um feitio muito difícil. Os outros quatro não. No entanto, quando lhe pergunto se os outros eram capazes de estar ali com ela diariamente a cuidar das suas necessidades, a tratá-la, olha para mim com olhos de quem está a pensar no assunto pela primeira vez e diz que, na realidade, é capaz de ser muito difícil. Ora, portanto, a filha que vive sempre preocupada com ela e que a cuida, é a mesma que, às vezes, lhe berra porque não tem paciência quando a mãe não faz o que lhe pede. É certo que, às vezes, a ameaça de a colocar num lar. Mas também é aquela que está sempre ali e que a mãe tem de ouvir. Porque está ali. Porque se esforça. Porque se preocupa. Porque, com certeza, a ama. Olhe, sugeri, diga-lhe muitas vezes que a ama.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A pequena Sónia e a sua mãe doente, em Fátima"

sexta-feira, novembro 08, 2024

Outra celebração litúrgica pouco sinodal

No dia 4 de novembro, uma semana depois de concluída a segunda assembleia do sínodo sobre a sinodalidade, houve, em Roma, uma celebração de sufrágio pelos cardeais falecidos este ano que passou. Para concelebrar com o Papa, somente foi dada autorização aos cardeais, arcebispos e bispos. Não sei se é a opção mais acertada, mas também não tenho autoridade para a contestar. Não obstante, o que mais me chamou a atenção é que, na hora da comunhão, foram chamados ao altar uns padres que estavam vestidos de batinas pretas, revestiram-se com uma estola vermelha, sem mais, e foram eles distribuir a comunhão pelos presentes. Não podiam concelebrar, mas depois eles é que tiveram de ir distribuir a comunhão. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Porque é que Deus precisa dos padres?"

segunda-feira, novembro 04, 2024

A celebração litúrgica pouco sinodal

Acabou a segunda assembleia do sínodo sobre a sinodalidade. As expectativas estavam e ainda estão ao rubro. Comentadores, teólogos e jornalistas de âmbito religioso com os holofotes apontados para o seu encerramento e o documento final. Este último vai ser o principal documento tradutor do trabalho de três anos de sínodo, pois o Papa não vai fazer, como tem sido hábito, uma exortação apostólica pós-sinodal. Gostava que o fizesse, mas é um gesto com sabor a sinodalidade. E agora precisavam-se mais gestos. Muitos mais gestos. E mais do que gestos, precisavam-se atitudes, compromissos e práticas. No entanto, depois dos membros da assembleia terem estado misturados na aula Paulo VI, em mesas redondas, durante os trabalhos de reflexão, não se entende o que aconteceu na eucaristia de encerramento em que, mais uma vez, o hierárquico sobressaiu em desfavor do horizontal ou comunional. O Papa num patamar central, como presidente da celebração, rodeado dos cardeais por ordem de importância, seguidos dos arcebispos, depois os bispos, os padres e, por último, os leigos e religiosos não clérigos. Não gostei. Não gostei nada disto. Foi um mau sinal e espero que não seja um presságio. Talvez tenha sido neste mesmo sentido que os membros sinodais sugeriram, no ponto 27, do documento final, o aprofundamento da “ligação entre liturgia e sinodalidade” para “adoptar estilos celebrativos que manifestem o rosto de uma Igreja sinodal”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma comissão pouco sinodal"

quarta-feira, setembro 20, 2023

A generosidade dos pobres

Esteve em Roma o tempo suficiente para conhecer algumas ruas de cor e alguns dos seus habitantes. Naturalmente que ia algumas vezes à Praça de São Pedro. Ali perto, encontrava sempre um casal sem-abrigo, ele sentado numa cadeira de rodas, ela sentada a seu lado, muitas vezes a fazer tricô. Saudavam-no sempre que passava. Buongiorno, padre. Reconheciam-no no meio dos transeuntes, porque ele também os saudava. Uma manhã, ao passar junto deles, a senhora pediu-lhe uma ajuda diferente da moedinha habitual. Que ajudasse o marido a levantar-se do seu cobertor estendido no chão e o colocasse na sua cadeira de rodas. Nem o cheiro do descuido o impediu de se dispor prontamente a levantá-lo e a ajustá-lo na cadeira. No final, delicada e muito agradecida, a senhora perguntou-lhe se aceitava um café, que ela teria todo o gosto em oferecer-lho.
 

terça-feira, julho 11, 2023

Doze funerais por semana

Doze funerais são os funerais que um colega amigo teve numa semana destas. Doze funerais são, no mínimo, trinta horas de trabalho doloroso, entre os minutos da celebração, do acompanhamento, da cerimónia no cemitério, da preparação da homilia, da viagem para as comunidades onde se realizam os funerais, e eventualmente de algum momento no velório ou no acompanhamento personalizado com os familiares. Acresce ainda a intensidade emocional de uma celebração de despedida. Doze funerais é quase uma semana de trabalho de um trabalhador comum. Acresce ainda a desorganização do que já estava organizado na vida ministerial do padre. Doze funerais são doze oportunidades de encontro com o Senhor através do limite da vida e da dor. Mas doze funerais também são o cansaço dos padres e a morte das paróquias.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha avozinha"

sexta-feira, março 03, 2023

o obrigado

Passara um ano desde que, como me recordou, estivera a desabafar comigo por causa de um grande problema que, na altura, estava a viver. Na ocasião, entrara na sacristia, acompanhada das lágrimas, para uma palavra que se transformou em muitas palavras. Entrara com o peso da dor e precisava dividi-lo com alguém. Hoje regressara, porque viera a uma missa pela intenção especial de uma amiga que falecera, entretanto. Vinha de braço dado com a filha, a dor que ela precisara desabafar há um ano. Cruzámo-nos no final da missa e, já na rua, veio ao meu encalço para perguntar se me recordava de há um ano a ter acolhido na dor. Naturalmente que eu já não lembrava pormenores, mas ela lembrava cada atenção, cada olhar, cada palavra, cada segundo que eu investira nela. E por isso, dizia, venho agradecer-lhe. Ainda não tinha tido oportunidade de o fazer. E insistia. Padre, tenho tanto que lhe agradecer. A filha interrompeu-a, para concordar com ela. Respondi que eu era somente um instrumento de Deus. Que lhe agradecesse a Ele. Porque era Ele que fazia tudo. É Ele que faz tudo. Nós somos apenas seus instrumentos. Apesar de até concordarem comigo, ambas referiram que então eu era um bom instrumento de Deus. E repetiram. Obrigada. Foi bom ouvi-lo nestes tempos constrangedores e confrangedores. Obrigado. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Padre com fé"

segunda-feira, fevereiro 13, 2023

as lágrimas do Isidoro e as lágrimas do padre

O Isidoro é um homem de fé, que não falta nunca à missa e ajuda no que pode. A idade começa a notar-se, mas não desiste de dar o seu contributo na comunidade cristã. Digamos que é tímido e discreto, mas conversamos o suficiente. Para além disso, vai conhecendo o seu pároco e sabe que ele procura estar atento aos seus, sobretudo os doentes. As suas homilias falam muitas vezes do sentido da vida e do sofrimento, da morte como caminho da ressurreição e das forças que brotam da fé. E o senhor Isidoro adoeceu. De um momento para o outro, aquilo que parecia uma dor de estômago, passou a ser um caso complicado de cirurgia urgente. Ele já tinha tido a sua dose de sacrifício e dor em outras operações. A operação não correu mal, mas o recobro foi muito difícil. Segundo me contou, viu a morte várias vezes. Até porque estava quase pele e osso. Mas, sabe, padre, houve uma noite que sonhei consigo. E as lágrimas caíram-me. Não era por medo. Era por me lembrar de tantas coisas que o senhor fala e que eu precisava ouvir novamente. Naquela noite, desejei muito ouvir novamente o senhor e reconhecer em si, como instrumento de Deus, a força que eu precisava. O Isidoro contava isto, entre soluços. E a mim vieram a correr duas pequeninas lágrimas de comoção. É que Deus faz coisas através de nós que nem nós sabemos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

quinta-feira, dezembro 22, 2022

O cansaço da hora

A hora ia adiantada. A conversa também. Dois colegas falavam coisas de padres. Um deles perguntava porque é que o assaltava tantas vezes a vontade em largar tudo. Já se está a ver que mais do que uma pergunta, era um desabafo, e mais do que um falar para o outro, era um falar para se escutar no que falava. Dizia que lhe assaltava muitas vezes esta vontade de deixar tudo para trás, tal como deixara tudo quando aceitara dar o passo da ordenação, mas agora em sentido inverso. Estava cansado do clima de suspeição que vive diariamente, tal como todos os outros padres. A Igreja encontra-se sob a lente de uma comunicação social e de uma sociedade bastante ideológica, com interesses em a descredibilizar, é certo. E doi. Mas também nas suas comunidades sente que as pessoas estão convencidas que o padre só quer é dinheiro e que a Igreja é muito rica. E também se avolumam as tentativas inglórias para propor a fé. E os esforços por ajudar a compreender a verdade nos sacramentos. 
Ele não faz parte do grupo daqueles que têm nostalgia do passado e a ele querem regressar. Aliás, sonha com uma Igreja mais humanizadora e mais próxima das pessoas, mesmo que em menor relevância na sociedade e na cultura. Não quer nada com a Igreja jurídica, sacral e burguesa. Ele quer identificar o seu sacerdócio com a Igreja dos peregrinos, dos que caminham e que, muitas vezes, nem contam. Mas estava cansado. Pensava em deixar o ministério, não como um acto de fraqueza, mas como um acto de franqueza. Não como uma acto de decisão, mas como um acto de vocação. A validação, diante dele mesmo e do próprio Deus, de que há uma náusea, uma solidão, uma ausência, um vazio, uma paixão que é uma cruz desamarrada. É sincero. É autêntico este padre, que apenas quer ser padre para servir e não sabe suportar este cansaço que vem mais de fora dele que de dentro, mas que se entranha.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Há-de ser o que Deus quiser"

quarta-feira, novembro 02, 2022

Conheço um leigo que faz funerais

Numas localidades não muito remotas, onde o colega padre concentra o cuidado de mais de uma dezena de paróquias com uma população bastante envelhecida, muitos dos funerais são presididos por um senhor a quem o bispo da diocese pediu que auxiliasse este sacerdote. O senhor deve ser idóneo, pela formação que já teve e porque, dizem-me, é muito bom cristão. O colega padre não consegue estar em todo o lado ao mesmo tempo e são raras as semanas que não tenha mais de cinco funerais. Claro que a necessidade obriga a mudanças que em tempos eram impensáveis. Claro que não basta justificar esta mudança com a necessidade. Claro que ainda não é muito comum este procedimento, porque as mudanças têm custos. Claro que há um longo caminho a percorrer. Mas o caminho está ai, aberto. A abrir-se.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Custa tanto ser padre nestas ocasiões..."

quinta-feira, março 10, 2022

Se as mulheres parassem, a Igreja parava.

Não era uma campanha feminista ou coisa do género. Era um diálogo um pouco surdo, ou em surdina, entre duas gerações de mulheres que se dedicam com alma à Igreja, na comunidade onde vivem e celebram a fé. O diálogo ocorreu na minha presença. Uma presença discreta, a minha, que as deixou falar à vontade. 
Uma das mulheres, a mais velha, está habituada a servir o marido e todos os demais à sua volta. Fá-lo com uma generosidade ímpar. A outra, a mais nova, gasta-se a servir como se a sua missão lhe viesse de uma vontade de ser útil, estar presente, ser uma voz entre iguais, fazer o que tem de fazer porque entende que vive numa sociedade e numa Igreja que precisa dela e do seu carisma. A segunda exaltava o papel das mulheres. A primeira apagava o papel das mulheres. Uma esgrimia argumentos a dizer que elas eram imensamente importantes na Igreja. A outra esgrimia poucos argumentos. Ouvia mais que falava. Gostava do que ouvia, mas não precisava disso para fazer o que fazia na comunidade. Era uma mulher submissa. Talvez ainda haja mulheres que sentem ou vivem a palavra “submissão” como subjugação, dependência, servidão, subordinação, sujeição, vassalagem. Eu prefiro entender a palavra como entrega humilde, como disponibilidade. Mas entendo que seja uma palavra difícil, tanto de entender como de usar. Estava interessante a conversa daquelas duas mulheres. Eu gostava do significado das palavras, inclusive dos silêncios e das pausas. Daqueles dois exemplos de fé professada, celebrada e vivida. Na primeira pessoa, ou na segunda ou na terceira. Dava igual. 
Sem as interromper, anotei. Se as mulheres parassem ou fizessem greve nas comunidades cristãs, a Igreja parava. De facto. As mulheres são quem mais trabalha nas comunidades cristãs, quem mais ocupa ministérios litúrgicos e pastorais, quem está mais presente, quem mais se dedica à Igreja. Ei-las no coro, no ambão, no zelo dos altares, na catequese, nos grupos de oração, nos encontros espirituais, na acção socio-caritativa, e por aí fora… Apesar da  hierarquia da Igreja ser constituída só por homens, atrevo-me a dizer que cerca de 95% das comunidades cristãs, no seu todo e no seu particular, são asseguradas por mulheres.
Mais depressa a Igreja parava sem as mulheres que sem os homens. Se as mulheres parassem, a Igreja parava. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

terça-feira, julho 20, 2021

contributos a meio por inteiro

Nasci no local, nas circunstâncias e na família que Deus quis. Repito isto até à saciedade para, no meu inconformismo, aceitar que as muitas coisas para as que gostaria de ainda contribuir, podem não estar nos desígnios de Deus a meu respeito. Sinto que o meu contributo vai a meio. No entanto, o que para mim é o meu meio, talvez seja o inteiro para Deus. Não sei. O que sei é que as medidas de Deus nunca são as nossas. E o que Ele nos pede nem sempre coincide com aquilo que gostaríamos de dar. Pede-nos que nos demos por inteiro, mas o que é esse inteiro? Como se mede? Como se quantifica? Queixo-me para dentro e tento sossegar o meu querer. Nada depende de ti, digo. Deus é que sabe. Se assim é, é porque tem de ser. O que Deus espera de ti é a santidade e não a glória. É a felicidade e não o sucesso. Ele quer-te mais a ti que ao teu contributo. 
Sobra-me aquele afã de outros tempos, os tempos da juventude, em que uma barreira era um trampolim. Não é uma desculpa, mas a maturidade ensina-nos que a vida é efémera e que as marcas que permanecem são apenas as de Deus. Não são as nossas. Que as nossas serão sempre efémeras. É bonito ansiar por mais e aceitar o menos. É bom descobrir que os desígnios de Deus são insondáveis e que o que nos ultrapassa há-de ter sentido um dia! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o 'tem de'"

domingo, julho 12, 2020

O ministério sacerdotal não é um privilégio

Estava ordenado há pouco tempo e fora enviado pelo seu bispo a estudar em Roma. Numa daquelas universidades famosas no meio eclesiástico. Encontraram-lhe alojamento num típico colégio de estudantes que eram, ao mesmo tempo, sacerdotes. Independentemente das virtudes deste jovem sacerdote, oriundo de um país de missão ad gentes e que não conheço nem quero ajuizar, contaram-me que, como no colégio se organizavam por grupos para executar algumas tarefas, e que lhe tocara levantar, com outros, as mesas do almoço e jantar de uma semana em cada mês, este sacerdote se dirigira ao director do colégio para lhe manifestar que não faria aquele serviço, porque, e cito: “isso colocava em causa a sua dignidade sacerdotal”. Claro que, à distância da realidade e das palavras no tom em que foram usadas, facilmente abrimos a mão para apontar com o dedo indicador. Mas depois descobrimos os restantes dedos, o médio, o anelar e o mínimo, a apontar para nós. Como de facto. 
Parece-me muito fácil que nós, os consagrados, por nos termos entregue a Deus de uma forma total, ou quase total, caiamos na tentação de pensar que isso nos traz uma dignidade que Deus não concede aos outros. Ou que nos devem respeitar, não pelo que somos e porque somos, mas pela dignidade do nosso múnus sacerdotal. Ou, num extremismo despropositado, chegar a pensar que a Igreja, no seu conjunto e no povo que é de Deus, nos tem de agradecer porque já nos entregámos a Deus. Que tolice! 
O ministério sacerdotal não é um privilégio. É uma forma de vida e missão. É uma vocação para os outros e não para nós. É um serviço. Nós é que temos de agradecer a quem nos dá a possibilidade de viver essa missão.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer vir jantar connosco?"

segunda-feira, abril 27, 2020

A Igreja que está para vir

Há um abalo em tudo à nossa volta. Mesmo na Igreja. Tanto no seu todo como na sua hierarquia. Faço figas, porém, para que seja um abalo positivo. Rezo todos os dias com essa intenção. E há, de facto, algo positivo que tenho vindo a descobrir. Cresce pouco a pouco, mas cresce. É a "Igreja doméstica"! A Igreja dos primeiros tempos do cristianismo. Uma Igreja que se reunia em casa e onde as celebrações eram presididas pelo dono do lar. 
O problema é que, ao longo dos tempos, o clero foi-se apoderando ou apropriando da Igreja e dos sacramentos, mesmo que o tenha feito sem intenção, transformando a Igreja de Cristo numa Igreja piramidal, vertical, clerical. E habituou os crentes a esse modelo. Um modelo de Igreja dependente dos bispos e dos seus padres. Por isso, talvez muitos crentes tenham perdido o foco e se tenham sentido algo desamparados nestes tempos de difícil acesso aos seus padres. Pelo menos o acesso presencial. 
É claro que precisamos de uma “ordem”, como dizia Anselmo Borges numa entrevista que me fez pensar. Por isso precisamos de ministros ordenados. Precisamos de “organizar”. Mas não podemos fazer depender deles a Igreja que é de Cristo e de todos.
Será que a Igreja que está para vir vai ser mais laical e menos clerical?! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"