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sábado, novembro 01, 2025

A formação nos Seminários

A tradição tridentina dos seminários modelou uma geração de sacerdotes separados do mundo e do Povo de Deus. Com razão, o concílio de Trento insistiu na necessidade de formar os padres porque estes tinham uma formação muito frágil. No entanto, o afastar os seminaristas da realidade em que vivem e hão-de um dia servir, gera uma tendência ao clericalismo, ao espírito de castas e eleitos, promovendo a sensação de superioridade em relação ao Povo de Deus. A figura do sacerdote reveste-se, deste modo, de uma sacralidade excessiva que, mesmo sem querer, o vai afastando da realidade que é o mundo. Os seminários não podem formar presbíteros distantes, autorreferenciais ou rígidos. Devem formar pastores verdadeiramente humanos e próximos das pessoas. Devem formar acompanhadores dos fiéis e não ministros do culto. 
Com frequência a formação nos seminários tem privilegiado a separação, a sacralização da figura clerical e o autoritarismo, em vez de formar para o serviço, a humildade e a proximidade com o Povo de Deus. Depois de um concílio Vaticano II pendente, parece que volta esse estilo de formação, ou melhor, de candidatos que buscam esse tipo de formação. Temos de rezar mais pelos seminários, pelos seminaristas e seus formadores, pelos candidatos ao ministério ordenado e pelos responsáveis da pastoral vocacional, para que se procurem e encontrem caminhos que formem ministros da humanidade e do amor de Deus, e não tanto ministros do culto, sem mais.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As perguntas que hoje faço"

quinta-feira, outubro 02, 2025

e cansado

Estava cansado e farto de tudo. Farto das incompreensões e decisões do bispo. Farto dos colegas que só pensam neles. Farto dos paroquianos que vivem a exigir coisas que ele não consegue dar. Farto e cansado de tudo e de todos. Quando amanhecia, tinha vontade que a noite regressasse depressa para tomar o comprimido de dormir. Fazia o que tinha para fazer como qualquer máquina onde se coloca uma moedinha. Andava pela paróquia e pela vida de cabeça erguida e ombros levantados. Fazia lembrar o cavalo elegante com os antolhos para não ver senão o que está a sua frente para ser feito. Chegado a casa, o seu corpo transformava-se, tolhia-se, encurvava-se, amarelecia. Pegava no livro da liturgia das horas e rezava palavras sem dialogar com Deus. Sentia que a sua espiritualidade se esvaía por entre os dedos. Tentava segurá-la como se segura a água numa mão. Ficava apenas um resto de humidade que rapidamente secava. Era como se a fonte tivesse secado. Como se Deus o tivesse abandonado à sua sorte. Entrara no seminário de armas e bagagens, como se costuma dizer, entusiasmado porque ia mudar o mundo, ia ajudar as pessoas a encontrar-se com Cristo. Mas a realidade impôs-se. Era mais forte do que ele e do que todo o entusiasmo que alimentara em tempos de seminário. Sentia-se sozinho. Não tinha com quem partilhar os sucessos e as derrotas. Só as paredes da casa paroquial sabiam a verdade do seu coração, e a almofada que recolhia as lágrimas antes do comprimido fazer efeito. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o tem de"

domingo, setembro 28, 2025

Não tinha medo de morrer

Os últimos cinco anos foram passados com a quimioterapia ao peito. No verdadeiro sentido da palavra, era frequente trazer um fio ao pescoço com a quimioterapia pendurada. O que mais estranhava neste colega presbítero era a alegria que, mesmo assim, também transportava. Algumas vezes não resisti em dizer-lhe como isso me fazia bem. E ele apenas respondia que não era nada. E ria-se. Era como se se risse do cancro que se apoderara dele. Nos últimos tempos, o bispo quis dispensá-lo dos serviços paroquiais que se tornavam cada vez mais difíceis. Não desistiu até ter de ser levado novamente ao hospital onde lhe detetaram uma série de metástases em locais do corpo onde já não era possível atacar o maldito cancro. Restava esperar. E foi o que fez, consciente de que não se tratava de esperar o fim, mas esperar em Deus. Dizia o seu irmão, por sinal, igualmente presbítero, que ele repetia constantemente que não tinha medo de morrer porque sabia que ia ressuscitar. Em tom de brincadeira, também ia dizendo que os “bichos” não haveriam de o vencer e levar a melhor, pois quando morresse eles deixariam de ter que comer e morreriam, enquanto ele haveria de ressuscitar. E assim foi… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte XI, outro jovem"

quarta-feira, setembro 24, 2025

O multiculturalismo eclesiástico

O multiculturalismo chegou à hierarquia eclesiástica. Um em cada dez padres em Espanha vem de outro país. São oriundos, na sua maioria, da América Latina. Em Portugal a percentagem ainda não chegou a estes números, mas vai-se impondo a mesma realidade. Na minha diocese já se incardinaram alguns e aumenta o número dos que vão chegando, sobretudo de países lusófonos. Todos eles vão chegando com a sua bagagem vital e espiritual para acompanhar comunidades bem diferentes daquelas que conhecem. Não entendem determinadas devoções enraizadas e tentam introduzir costumes das suas terras. Têm dificuldade em se relacionar com o presbitério nativo e, não raras vezes, também são olhados com alguma desconfiança. Não se sabe ao certo se vêm em missão ou por uma oportunidade. Mas a realidade impõe-se. 
As novas edições do Anuário Pontifício de 2025 e do Anuário Estatístico da Igreja com dados relativos a 2023, editados pelo Departamento Central de Estatísticas Eclesiásticas da Secretaria de Estado do Vaticano, dão conta que o número de sacerdotes diminuiu ligeiramente (-0,2%), sendo a Europa a detentora da maior diminuição (-1,6%) e África (+2,7%) e Ásia (+1,6%) os continentes com maior aumento. Quanto ao número de seminaristas, entre 2022 e 2023 registou-se uma quebra de 1,8%, numa diminuição que se estende a todos os continentes, com excepção da África, onde os seminaristas aumentaram 1,1%. Se a Europa levou a Boa Nova a países que foi designando de países de missão, agora é desses países que a Europa vai recebendo clérigos. É o que Zygmunt Bauman chama de era das diásporas no que se refere à migração em geral. 
A aceitação da diferença num mundo global é altamente positiva e um anseio verdadeiramente cristão. Mas veremos se o multiculturalismo eclesiástico não redunda em multicomunitarismo eclesiástico, um fenómeno que, segundo o mesmo sociólogo, em termos gerais, se refere às pessoas que vivem umas ao lado das outras, mas se fecham e barricam na sua comunidade ou modo de vida. A Europa é hoje local de missão. Mas estará a Igreja preparada para este fenómeno religioso? 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como será a Igreja daqui a vinte ou trinta anos?"

domingo, setembro 07, 2025

o suicídio e o padre que é um ser humano

Segundo informações da agência UcaNews, a Igreja católica na Índia deparou-se, nos últimos cinco anos, com o suicídio de, pelo menos, treze padres, o que dá uma média de um suicídio a cada seis meses. Segundo dados apresentados pelo padre Lício de Araújo Vale, de agosto de 2016 a junho de 2023 tinham-se suicidado no Brasil quarenta padres. Em março de 2023 o jornal Correio da Manhã dava conta do suicídio de treze padres em Portugal. Sabe-se que a sociedade hodierna potencia personalidades fragmentadas, depressivas e emocionalmente débeis. No entanto, torna-se difícil entender que alguém que vive do sagrado e de uma fé que está enraizada na esperança da ressurreição se deixe apanhar numa rede de desespero que conduz ao suicídio. Torna-se difícil aceitar que alguém que descobriu a vida como um dom de Deus decida, em desespero, terminar com esse dom. 
Vários estudos apontam para factores de risco como o stresse, a solidão e a cobrança desmedida. Dos padres quase toda a gente espera a perfeição, a presença constante, uma vida exemplar. Ainda há quem pense que um padre deve ser infalível, impecável, imperturbável, um super-homem protegido pela fé ou um anjo travestido de ser humano. Os padres são seres humanos e, como tal, com fragilidades, limites, necessidades, desejos de pertença e de compreensão. Se é certo que precisam de alimentar uma vida espiritual intensa que ilumine a sua vida e missão, também é verdade que isso não os isenta da sua condição humana e das mesmas lutas emocionais do ser humano. Num tempo em que se espera que um número mais reduzido de padres faça o mesmo que se fazia há dezenas de anos e, consequentemente, com o multiplicar de solicitações, é normal que também eles se deixem enredar na trama do stresse, restando pouco tempo para tratar da sua vida pessoal e saúde mental. Ainda por cima, a sociedade continua a exigir-lhes uma perfeição que não existe e não têm companhia nem encontram facilmente ombros amigos com quem desabafar e partilhar a sua vida diária, preocupações e dificuldades. O padre é um ser humano!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A síndrome de Burnout e os padres"

sábado, agosto 02, 2025

menos padres para fazer o mesmo

Segundo os dados publicados pelo Observatorio Demográfico do Centro CEU 'Demografía de la Iglesia Católica’, na vizinha Espanha, a idade média do clero é superior a 65 anos, em comparação com a média de 35 anos em 1960. No ano lectivo de 2023-2024, entraram no Seminário em todo o país 143 jovens e foram ordenados 79 novos padres, quando seriam necessários por ano mais de 300 para compensar perdas e mortes. Em 1965, havia mais de 8.000 seminaristas maiores, e hoje são 950. A realidade em Portugal, da qual desconheço dados, deve andar por números similares. Só este ano, na minha diocese deixaram de ser párocos 8 padres, porque já haviam ultrapassado em muito os 80 anos e já não tinham capacidade e saúde para animar uma comunidade. No entanto, não houve nenhuma ordenação para este ministério. Para mim, o problema não é sermos menos padres, mas fazermos ou tentarmos fazer o mesmo que se fazia quando os padres eram em maior número e tinham a seu encargo muito menos paróquias. Ocupamo-nos com celebrações para alimentar a fé de pessoas que, na maioria, ainda não despertaram para ela. Por isso nos queixamos das igrejas vazias. E esquecemos que a missão dos discípulos de Jesus, a começar pelos que foram chamados ao sacerdócio ministerial, é, acima de tudo, evangelizar, isto é, anunciar a Boa Nova da Salvação.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O assunto era padres"

Dados e foto retirados de um artigo em Religión Digital

quinta-feira, julho 24, 2025

Os padres facilitistas

De vez em quando o assunto regressa ao meu coração e à minha irritação. Regressa sobretudo quando na comunidade temos baptizados e crismas, porque essas são as ocasiões em que os supostos crentes mais pedem facilitismos. Pedem que se aceite um padrinho sem os requisitos necessários. Pedem que se aceitem dezenas de padrinhos. Pedem que se aceite para crismar quem não fez catequese nenhuma, não tem preparação alguma, mas quer ser padrinho à pressão. Os pedidos de facilitismos são muitos e variados. Alguns, como se costuma dizer, “nem ao menino Jesus lembram”. Para obter os resultados pretendidos usam-se todo o tipo de estratégias, mas já se sabe que a mais comum é a chantagem. E há dois tipos de chantagem que sobressaem: a primeira é a que vem de argumentos comparativos, usando o exemplo de outros colegas padres que tudo facilitam; a segunda é a que atinge directamente o padre com o ataque pessoal porque não facilita a vida às pessoas e não é compreensivo. As pessoas esquecem que o padre não deve ser senão um facilitador da fé e do encontro com Deus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma palavra de acolhimento e imposições"

segunda-feira, julho 07, 2025

O padre idoso

Com a graça de Deus, cumpria-se naquele dia quase três dezenas de anos de sacerdócio ordenado. A gente olha para trás e não consegue deixar de agradecer o que o Senhor tem feito através do nosso ministério sacerdotal, apesar das nossas misérias e fragilidades. A data não passou despercebida nas comunidades que tiveram eucaristia naquele dia e, entre salvas de palmas, canto dos parabéns, textos que me deixaram à beira da comoção e outros pequenos gestos que me pareceram enormes, também houve alguns motivos para a risada ou a boa disposição. Numa delas, destacou-se o bom propósito do leitor que leu a oração dos fiéis e achou por bem acrescentar-me a uma das petições previstas, uma oração que, em concreto, pedia pelos padres idosos. Assim, entusiasmado pela ideia, ao ler “pelos padres idosos”, acrescentou “em especial pelo nosso padre tal e tal que hoje faz anos de ordenação sacerdotal”. Olha o que eu me ri. Só faltou mesmo a gargalhada. Ainda não tenho muitos cabelos brancos, mas seguramente que, com aquela oração, alguns estarão a despontar!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Trunfo é copas"

sexta-feira, maio 23, 2025

O colega cansado

Um colega queixava-se do cansado que estava porque no domingo celebrara nove eucaristias. A respiração das palavras até parecia ofegante e em volta dos olhos sobressaía o tom escuro das olheiras. Estava cansado o pobre padre porque passara o domingo, de manhã à noite, a celebrar missas. Devo dizer que tive pena dele. Tive mesmo. Mas, mais do que pelo seu cansaço, tive pena porque, como não tem coragem de dar alguns passos para que a sua missão seja mais evangelizadora que sacramentalizadora, para que seja mais pastoral que funcional, centra a sua tão bela missão na celebração de missas. Assim persiste numa Igreja de manutenção e não dá passos para uma Igreja missionária. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre Tiago diz que anda cansado"

quarta-feira, abril 02, 2025

O disfarce

Este padre já tem uma idade valente. Tem idade para ter muitos sobrinhos directos e sobrinhos netos. Não os vai visitar muitas vezes, que a vida e a idade não permitem. Mas há dias foi visitar uns sobrinhos directos com uns filhos pequenos, um deles de uns quatro ou cinco anos. Foi uma animação em casa, com os pequenos a querer saber coisas do tio-avô. Para se começar bem a semana, logo no primeiro dia da visita foi toda a gente à missa e o padre foi concelebrar, vestindo, por esse motivo, alva e estola. Uns dias depois, a família voltou novamente à missa, porém, desta vez, porque haviam chegado em cima da hora, o padre decidiu não concelebrar. Ficaram todos no mesmo banco da igreja e o petiz ao lado direito do padre. Ainda a missa pouco avançara quando o pequeno, em voz suficientemente audível, se voltou para o tio e perguntou: então, mas hoje não pões o disfarce? 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Senhor padre, estou sempre a pensar em Deus"

sábado, março 29, 2025

Os padres impecáveis não existem

Os padres não têm de ser melhores que ninguém. Têm de, como todos os cristãos, tentar ser melhores. Claro que isso não justifica nem desculpa os erros dos padres. Não desculpa as suas más opções pastorais ou eclesiais. Não desculpa as vezes em que usam a sua vocação como um trampolim para os seus interesses pessoais ou gerem as paróquias e os sacramentos em discordância com as leis da Igreja ou o Evangelho. Não desculpa quando não se esforçam por serem melhores pastores. Mas os padres são, antes de mais, pessoas. E são pessoas com contextos, circunstâncias e vivências das quais não se conseguirão distanciar nunca, porque são também fruto disso. E se é certo que muitos padres se estão a marimbar para o que os outros pensam, também há quem sinta nos ombros um peso e uma pressão que superam as suas forças. O modelo de perfeição evangélica que é exigido aos padres, como se tivessem sempre de estar disponíveis, preparados e dedicados, acaba por afogar as suas vidas. O padre não pode deixar de viver a sua vida e de fazer a sua caminhada de fé para se tornar um funcionário das coisas de Deus ou da Igreja. O padre tem de viver em Deus como é, como tenta ser, como se esforça por ser, mas não como todo o mundo lhe exige ou espera que seja. Os padres impecáveis não existem. Existem apenas os esforçados e os que não se esforçam. Existem, quando muito, os que não ligam a nada e os que, porque ligam a tudo, vivem o ministério como um peso. Repito. Os padres impecáveis não existem.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os padres impecáveis"

quinta-feira, janeiro 09, 2025

Os funerais religiosos do futuro

O padre que presidiu ao funeral faz muitos funerais. A terra não tem muita gente, mas já teve e é hábito regressarem à terra para se despedirem dela. O falecido, depois das cerimónias religiosas, ia ser cremado. Cada vez é mais comum a cremação. De entre as cerca de trinta pessoas presentes, só uma sabia as respostas da missa. Os outros assistiam sem abrir a boca. Não havia ninguém para ler e o padre viu-se obrigado a fazer apenas a proclamação do evangelho. Muito menos havia quem cantasse. Nem o padre tem voz para tanto. Para comungar apenas uma pessoa se aproximou. Era a colaboradora da paróquia que prepara as coisas para a missa e que respondia aos diálogos. O padre, que não conhecia senão a colaboradora, foi empático tanto quanto possível. Embora tenha sentido falta de alguma fé na celebração, ao menos rezou pelo falecido e encomendou a sua alma. Cumpriu o seu papel de funcionário do religioso.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os funerais fazem-me dor de estômago"

domingo, dezembro 15, 2024

Chegou a Hora do meu pai...

Chegou a hora do meu pai. Chegou a hora de passar da condição mortal à condição de imortalidade na vida eterna. Quero dizê-lo com H grande e digo, aproveitando para colocar outra maiúscula no meu pai. Chegou a Hora do meu Pai. Não quero esconder os dias difíceis que atrasaram os meus afazeres, mas não atrasaram o meu coração. Muito pelo contrário. Acompanhei os últimos tempos do seu sofrimento, para que lhe pesasse um pouco menos. Ele ficava mais tranquilo quando eu estava, e estive tanto quanto me deixaram estar. E eu também tranquilizava. Esgotei-me por dentro e por fora. Porém, em tudo consegui ir vendo o dedo de Deus. A festa da partida foi muito bonita. Foi uma grande festa de acção de graças. Não tinha ainda contado aqui, mas meu pai era diácono permanente. Por isso, o meu bispo acabou por presidir à Eucaristia. A homilia foi minha. As leituras da minha família. O canto dos meus amigos. Igreja cheia. Cheia com antigos e novos paroquianos. Cheia de testemunhos de gente que, como diziam, fora meu pai que os levara à fé. Chorei tanto quanto consegui. E sorri ainda mais. Quem nos conhece e conhece a relação de pai e filho que tínhamos, sabe que éramos muito cúmplices. Sempre o fomos. Entretanto, a partida da minha mãe fez-nos viver estes vinte e três anos muito mais um para o outro. Até porque a fé e o modo de entender Deus nos unia imenso. Assim como o ministério ordenado. Diziam as minhas manas que quando lhe faziam uma proposta, obtinham sempre a mesma resposta. Tenho que falar com o vosso mano. Por isso não admira que tivéssemos passado juntos grande parte dos últimos dias antes da partida. Muito rezámos juntos também. Ou eu rezava e ele acompanhava-me. Eu rezava e ele tentava respirar a custo a minha oração. Devo-lhe a ele e à minha saudosa mãe, não só a vida, como grande parte da fé e da vocação. Só posso estar grato a Deus pelos pais que tive. Por isso foram muitas horas de acção de graças, que ainda se prolongam hoje. Para que meus paroquianos compreendam porque ando alegre, explico que não sou super-homem e que sofro como qualquer ser humano sofre na partida de quem ama. Mas a fé é muito mais forte que a dor. O meu pai partiu, mas vem constantemente ao pensamento. E eu sou feliz. Sou feliz pelo pai que tive na terra e que ainda tenho no coração.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Feliz dia do pai" e "Obrigado pela fé que me destes"

terça-feira, novembro 12, 2024

A camisa de cabeção

Comprei a minha primeira camisa com cabeção no ano passado. Estava em Roma, ia cumprimentar o Papa e fez-me algum sentido a compra. Pelo menos, foi o que me disseram que devia fazer e eu anuí. Em Roma é raro entrar-se num meio de transporte onde não haja mais que um cabeção. É comum, normal e banal encontrar homens vestidos com cabeção ao pescoço. Curiosamente, ainda não voltei a vestir essa camisa. Não me ficava mal. Porém, sempre que penso em vesti-la, fico com a sensação estranha de que não define bem quem sou. Sei que a instituição hierárquica sugere que os ministros ordenados se vistam com discrição e, sempre que possível, com vestes clericais. Respeito quem o faz. Nem gosto nem deixo de gostar. Talvez acrescente algo ao meu ministério, mas não sei muito bem o quê. O que sei é que é uma tradição que remonta à Idade Média, quando os colarinhos, consoante a sua forma e cor, rendilhados e costurados, permitiam aos membros do clero, da nobreza e dos homens de ciência distinguirem-se do povo comum. Como havia necessidade de se distinguirem dos demais cristãos comuns, assim nasceram os colarinhos brancos, os clerigman, os cabeções. Um dia destes hei-de ganhar coragem e voltar a vestir a minha camisa de cabeção. Ao menos para me distinguir. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O colarinho branco"

quinta-feira, outubro 17, 2024

o pai do padre

Quando aos dezassete anos informou os pais que ia entrar no Seminário, ao pai só lhe apetecia bater-lhe, e a mãe continuou a esfregar a roupa no tanque, sem retirar os olhos dela. Rapidamente as lágrimas começaram a cair-lhe do rosto, mas quase não se notava porque as lágrimas se juntavam na água do tanque. Ele também não deu conta. Fechou os olhos para não ver. Foi desta maneira que o António disse aos pais, que eram mais ateus que outra coisa, que decidira ser padre. Não era gente má. Mas isso não fazia deles cristãos. Não iam à missa. Não queriam saber dos padres. O irmão mais velho é que se metera na Acção Católica e o mais novo, pelos vistos, sem que se adivinhasse, fora-lhe no encalço. Tão grande era o desplante, que no dia em que o filho fechou as malas e se despediu, o pai lhe disse, em tom de pai, que se cruzasse aquela porta, deixaria de ser seu filho. E o tempo passou. Pouco se falavam e, nas férias, as palavras pouco mais serviam do que para mostrar o desagrado. O filho ainda não era padre e ainda havia tempo de o demover de ideias tão ridículas. Onde já se viu um filho de gente que não é de Igreja se tornar um padre. Antes se tornasse um malandro das ruas. Não o pensava assim, mas verbalizava-o para que o filho pensasse bem no que fazia. E o tempo continuou a passar, como tudo na vida passa. Os anos foram calejando aquela família. Mas nem a ideia do filho nem a do pai desapareciam. Casmurros ambos. Ambos do mesmo sangue. Um mês antes da ordenação sacerdotal, o pai, sem que nem sequer a sua estimada esposa, que o acompanhava nas ideias e nas desideias, soubesse, foi visitar o padre da freguesia. Aquele a quem, pouco depois da primeira conversa do filho sobre a estranha decisão, acabaria por culpar e visitar com um pau na mão, pronto a ser usado se a ocasião fizesse o ladrão. Graças a Deus que o padre não estava só e a companhia o demovera. Agora a visita era por outro motivo. Talvez por ser um coração duro, tardou em abrir-se e a conversa demorou umas boas duas horas. Terminou com a absolvição. Nunca ninguém soube o teor da confissão nem o motivo da conversão. O pai mudou. O pai voltou a ser pai. O pai abraçou o filho na sua ordenação como se fosse a maior alegria que um pai pudesse ter. Perceber que a felicidade é um dom de Deus não é para todos. E o tempo passou. Mas, desta vez, foi apenas um mês. E o pai partiu para o outro pai. Foi de repente e os médicos não puderam fazer nada. O filho ainda hoje gostava de perceber, mas não percebe. Só sabe que os desígnios de Deus não se sabem de verdade. Só se acreditam… e se confiam. 
 
 A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A chorar durante a missa"

sábado, agosto 17, 2024

As leis que não são minhas

Há muitos padres que vivem facilitando a vida àquelas pessoas que fazem pedidos fora das normas, fora do Direito Canónico, fora da doutrina e, muitas vezes, longe do Evangelho e longe da fé. São, de certo modo, padres merceeiros que fazem da Igreja um supermercado e fazem das paróquias uma agência de produtos sagrados “fast food” para atrair clientes. Evito julgá-los, porque quero crer que não o fazem com má intenção. Talvez o façam porque não têm a força e coragem necessária para responder com um Não. Talvez. Talvez. Há que dizer, no entanto, que são motivo de grandes sofrimentos a outros colegas que, tentando ser honestos com a sua missão, procuram ser correctos e coerentes o mais possível com as orientações, regras e leis que também eles devem cumprir. Quando me fazem alguns pedidos a que tenho de responder Não, é meu costume recordar, a quem me faz o pedido, que as leis não são minhas. Tanto as têm de cumprir eles como as tenho de cumprir eu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não deitar lixo no cemitério"

segunda-feira, agosto 12, 2024

Conversa fiada

Quando chegou ao restaurante para comer e festejar com os pais da criança que baptizara há menos de uma hora, o único lugar vago era ao lado de uma familiar de idade algo avançada, uma senhora que parecia já ter dado muito à vida. As mãos mostravam a calosidade do trabalho de campo, assim como a tez morena. No trato fazia lembrar o mesmo tipo de figura. Tinha o marido ao seu lado, do outro lado, mas não se evitava de comentários jocosos ao senhor prior. Falava dos padres como quem sabe a história de cada um. Por isso, às tantas, no meio da conversa, um pouco atrevida, fez uma afirmação do tamanho da sua boca e da sua vida. Todos os padres têm uma amante. Mesmo que muitos padres tenham dificuldade em lidar com o celibato, a coisa, assim dita, suou excessiva e disparatada. Por isso a resposta não se fez esperar, e, diante do seu marido, o padre fez o mesmo tipo de afirmação, de boca cheia e sorriso nos lábios. Sabia que todas as mulheres têm um amante?!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A ideia que as crianças fazem dos padres"

segunda-feira, junho 10, 2024

Os novos missais

Também tive resistências em mudar o meu e o hábito das pessoas com o novo missal que, em Portugal, foi preparado e aprovado pela Conferência Episcopal Portuguesa a 19 de Novembro de 2019, validado pelo Papa Francisco e confirmado pela Santa Sé a 13 de Outubro de 2021 e que entrou em vigor a 14 de Abril de 2022. Recordo a dificuldade que tive em aceitar a mudança e as justificações que fui arranjando para adiá-la. Percebi em pouco tempo que, mesmo que não concordasse com algumas das alterações a nível metodológico, teológico e litúrgico, fazia sentido dar esse passo, sobretudo em razão e em nome da comunhão que defendo na Igreja. 
Entretanto, para meu espanto, passados estes dois anos, nalgumas paróquias - pelos vistos bastantes - continua-se a usar o missal antigo e alguns colegas pouco ou nada fazem para usar o novo. Ainda há dias um deles me dizia que não mudava porque não gostava da linguagem de algumas orações. Naturalmente que estranhei a justificação, uma vez que ele ainda não manuseava o novo missal. Também não deve ter sido muito diferente quando, em 1969, Paulo VI promulgou o novo missal romano, fruto da determinação do Concílio Vaticano II. As mudanças custam sempre. Mas se não existissem, não sairíamos do passado e nunca seria presente. Valha-nos ao menos que, por este andar, em Portugal os novos missais serão sempre novos.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre não é bom da cabeça"

terça-feira, junho 04, 2024

Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor

Arrepiei-me ao ver, num pequeno vídeo, o modo como o padre Pio olhava fixamente a hóstia consagrada em suas mãos. Quase me vieram umas lágrimas ao rosto. Assim também no vídeo, após um longo momento detido com o olhar em Jesus sacramentado, o padre Pio teve de usar um pano para limpar as lágrimas, tão emocionado estava. Já sabia que ele tinha um profundo amor à Eucaristia, mas agora via-o com os meus próprios olhos. Fiquei embaraçado. Envergonhei-me das muitas vezes em que me distraio a celebrar a Eucaristia. Na verdade, muitas vezes o meu pensamento voa para as preocupações da vida, para as inquietações do ministério sacerdotal, para as decisões pastorais, para os problemas das pessoas que também me apoquentam. Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor. Que vergonha! Dás-me a graça de te poder olhar a um palmo de distância, de poder usar as tuas palavras da Última Ceia, de poder estar contigo suspenso nas minhas indignas mãos, e perco-me na minha limitada condição existencial e sacerdotal. Li, em tempos, que o padre Pio afirmara: “Que a sua primeira eucaristia e a última tenham o mesmo amor e o mesmo ardor”. Peço-te perdão, Senhor, pelas vezes em que não tenho presidido à Eucaristia como devia. Sei que te tornas presente em cada Eucaristia, independentemente de quem a preside e do modo como é presidida. Mas, por favor, faz-te presente também em mim sempre que eu celebre a Eucaristia. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não falo não falo e não falo"

quinta-feira, maio 09, 2024

Leigos a presidir eucaristias?

Um bispo espanhol em Africa, para visitar uma das muitas comunidades que tem a sua diocese, tardou mais de uma hora para percorrer uma distância de 13 quilómetros, o que informa como é a estrada. Por isso não é de estranhar que, associado à falta de padres, a última eucaristia que aquela comunidade tivera fora há 8 anos. São duas ou três centenas de pessoas, a maioria cristãos. Não deixam propriamente de ter fé, mas têm imensa dificuldade em alimentá-la. A eucaristia não resume nem aglutina em si a vida da fé mas, se é o centro e o cume da vida do cristão, que dizer a estas duas ou três centenas de cristãos que não têm possibilidade de aceder à eucaristia? A acção da Igreja vai para além da eucaristia, porque a sua missão é evangelizar. No entanto, a realidade leva-nos, ao menos, a equacionar a hipótese da presidência da eucaristia ser feita por um leigo. A este propósito, Tomás Muro Ugalde publicou em 2020 um artigo na revista Scriptorium Victoriense “Sobre a presidência da Eucaristia”, onde faz a mesma pergunta recorrendo a grandes autores e teólogos. Sabemos que na origem da Igreja não existiam ministros ordenados e que o sujeito eclesial era a própria comunidade. Com a metamorfose constantiniana, cimentada pela Igreja da Idade Média, o sujeito eclesial passou a ser a hierarquia. Sei que é um assunto melindroso e também não tenho certezas. Assim como não pretendo ver nisto a solução para a falta de vocações ao sacerdócio ministerial. Talvez assim se recuperasse um pouco mais a comunidade como sujeito eclesial. Não precisamos de leigos clericalizados, mas a pergunta é pertinente. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"