Não saberia dizer quantos gatos vão à missa, mas sei que são muitos pelo ‘bichanar’ que se escuta naquela igreja durante quase toda a missa. São vozes de fundo de gente que gosta de rezar o que o padre está a rezar. Sabem a missa de cor, e tentam acompanhar em voz baixa, mas o suficientemente audível. Algumas delas têm o terço na mão e vão passando as contas. São ecos de oração bsch bsch bschee. E por mais que o padre da freguesia lembre que a eucaristia é feita de diálogos entre o presidente da celebração e os demais celebrantes ou que na eucaristia não se deve rezar o tercinho, elas continuam a fazer bsch bsch bsche... Ora o senhor padre, que é muito compreensivo mas risoteiro ao mesmo tempo, um dia destes interrompeu a missa para as escutar. Elas calaram-se assim que deram pelo silêncio. E o senhor padre lá explicou novamente que esses ruídos de fundo eram mais do tempo das missas em latim, quando não se entendia nada do que o padre dizia, mas que agora já não devia ser assim. A não ser que também não entendessem nada do que ele dizia. E na verdade, das duas uma: ou não entendiam mesmo ou então eram surdas. Porque mal o padre terminou a explicação, os gatos continuaram a ser chamados: bsch bsch bsche...
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sinto-me desumano"