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sábado, abril 04, 2026

Jesus está em silêncio

Por favor, paremos. Jesus está em silêncio. Jesus não se calou, mas está em silêncio. O tempo parou. O véu do templo rasgou-se em dois. O seu corpo está frio. Está frio mas o coração não regelou. O mundo está em silêncio. As palavras vão e vêm no meio do silêncio. E eu digo: faça-se silêncio no nosso coração para que entre a palavra da Verdade. Já basta de palavras ao vento, de verdades que são mentiras ou meias-verdades, de verdades que são apenas opiniões e transformamos em Verdade. Queremos apenas a verdadeira Verdade! Por favor, paremos o ruído da rua e o ruído do nosso coração. Hoje somos convidados a olhar, a escutar, a meditar, a rezar a morte de Jesus em silêncio. Um silêncio de espera. Um silêncio de quem sabe que depois da morte vem a ressurreição. Por isso, hoje, Senhor, quero subir contigo ao calvário e, depois, baixar também contigo ao túmulo vazio para neles encontrar a Esperança! Nunca te cales, Senhor, neste silêncio que tanto me diz.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Ficamos 'bem mas bem'"

sexta-feira, abril 03, 2026

porque me abandonaste?

É verdade que até para ti não foi fácil. Também recordo que morreste a rezar aquela pergunta in-finita que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Procuro uma explicação para ela. Parece não fazer sentido vinda da boca de um Deus que não precisa de nada e tudo pode. É difícil entender que também tu tens dificuldade em abraçar a dor, em te sentir só e abandonado no sofrimento. Só lhe encontro uma explicação: uniste-te a nós não só na dor como na dificuldade em aceitar a dor. E isso só prova que tu não amas por metade. Não amas só por uma razão. Amas por todas. Amas por inteiro.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Entrego-te"

terça-feira, março 31, 2026

As mulheres

Contaram-me que, enquanto passavas com a cruz aos ombros, algumas mulheres gritavam para dentro o sufoco da dor. Ouviam-se os seus gemidos e lágrimas como uma música de embalar no meio de uma multidão que estava ali para ver o espetáculo! No meio da algazarra do tumulto em volta do espectáculo, os seus gritos mudos em nada sobressaíam, mas tu deste conta. Voltaste-te para elas com a mesma ternura com que as tinhas olhado sempre e disseste: “Não choreis por mim, chorai por vós mesmas e pelos vossos filhos”. Agora que penso nestas tuas palavras, bato no peito, choro por mim, choro pelos nossos filhos, choro em nome desta multidão que está agora à volta do teu corpo frio... e nú.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

quinta-feira, março 26, 2026

Sepultar à pressa

Há quem te queira depositar no túmulo à pressa. Tudo tem de ser à pressa porque toda a gente tem mais que fazer: Vamos, depressa, façamos tudo rápido, que temos de ir para casa fazer a festa comercial, cultural e mediática da Páscoa. Não ouves? Se és Deus, porque não vais por teu próprio pé para o túmulo?! Já vimos o que tínhamos a ver. Já batemos as palmas e já deixámos cair umas lágrimas no meio do furor da emoção. Temos muito que fazer. Temos sempre muito que fazer aquilo que não está feito e que sempre estará por fazer. Corremos loucamente atrás de uma vida, fugindo, sem querer, dela. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Deus baixíssimo

O Altíssimo abaixou-se para ser o Baixíssimo. Assumiu a carne frágil da humanidade. Depois subiu novamente. Mas subiu para o lugar da morte, a cruz. Subiu para baixar ainda mais. Para baixar aos mais periféricos dos periféricos, os criminosos. Devo dizer que me custa imenso pensar num Deus que se deixa associar aos criminosos! Não há baixeza maior! O Deus que tudo pode, baixa-se como nenhum de nós se baixa. Basta pensar nas vezes em que buscamos algum tipo de superioridade em relação ao nosso próximo, em relação ao nosso semelhante. Apesar de ser um gesto que se tem vindo a perder, mesmo nos momentos mais íntimos da liturgia, ainda há quem se ajoelhe diante de Deus. Pergunto-me, no entanto, se não será um rito sem verdade quando não aprendemos a baixar-nos de verdade. O Papa Francisco dizia que a única ocasião em que devíamos estar acima de alguém era quando estendíamos a mão para levantar essa pessoa. Infelizmente, mais rápido nos achamos mais superiores que os outros e os tentamos abaixar a nós. Deus baixíssimo nos ajude! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Indizível amor"

quinta-feira, outubro 02, 2025

e cansado

Estava cansado e farto de tudo. Farto das incompreensões e decisões do bispo. Farto dos colegas que só pensam neles. Farto dos paroquianos que vivem a exigir coisas que ele não consegue dar. Farto e cansado de tudo e de todos. Quando amanhecia, tinha vontade que a noite regressasse depressa para tomar o comprimido de dormir. Fazia o que tinha para fazer como qualquer máquina onde se coloca uma moedinha. Andava pela paróquia e pela vida de cabeça erguida e ombros levantados. Fazia lembrar o cavalo elegante com os antolhos para não ver senão o que está a sua frente para ser feito. Chegado a casa, o seu corpo transformava-se, tolhia-se, encurvava-se, amarelecia. Pegava no livro da liturgia das horas e rezava palavras sem dialogar com Deus. Sentia que a sua espiritualidade se esvaía por entre os dedos. Tentava segurá-la como se segura a água numa mão. Ficava apenas um resto de humidade que rapidamente secava. Era como se a fonte tivesse secado. Como se Deus o tivesse abandonado à sua sorte. Entrara no seminário de armas e bagagens, como se costuma dizer, entusiasmado porque ia mudar o mundo, ia ajudar as pessoas a encontrar-se com Cristo. Mas a realidade impôs-se. Era mais forte do que ele e do que todo o entusiasmo que alimentara em tempos de seminário. Sentia-se sozinho. Não tinha com quem partilhar os sucessos e as derrotas. Só as paredes da casa paroquial sabiam a verdade do seu coração, e a almofada que recolhia as lágrimas antes do comprimido fazer efeito. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o tem de"

domingo, setembro 07, 2025

o suicídio e o padre que é um ser humano

Segundo informações da agência UcaNews, a Igreja católica na Índia deparou-se, nos últimos cinco anos, com o suicídio de, pelo menos, treze padres, o que dá uma média de um suicídio a cada seis meses. Segundo dados apresentados pelo padre Lício de Araújo Vale, de agosto de 2016 a junho de 2023 tinham-se suicidado no Brasil quarenta padres. Em março de 2023 o jornal Correio da Manhã dava conta do suicídio de treze padres em Portugal. Sabe-se que a sociedade hodierna potencia personalidades fragmentadas, depressivas e emocionalmente débeis. No entanto, torna-se difícil entender que alguém que vive do sagrado e de uma fé que está enraizada na esperança da ressurreição se deixe apanhar numa rede de desespero que conduz ao suicídio. Torna-se difícil aceitar que alguém que descobriu a vida como um dom de Deus decida, em desespero, terminar com esse dom. 
Vários estudos apontam para factores de risco como o stresse, a solidão e a cobrança desmedida. Dos padres quase toda a gente espera a perfeição, a presença constante, uma vida exemplar. Ainda há quem pense que um padre deve ser infalível, impecável, imperturbável, um super-homem protegido pela fé ou um anjo travestido de ser humano. Os padres são seres humanos e, como tal, com fragilidades, limites, necessidades, desejos de pertença e de compreensão. Se é certo que precisam de alimentar uma vida espiritual intensa que ilumine a sua vida e missão, também é verdade que isso não os isenta da sua condição humana e das mesmas lutas emocionais do ser humano. Num tempo em que se espera que um número mais reduzido de padres faça o mesmo que se fazia há dezenas de anos e, consequentemente, com o multiplicar de solicitações, é normal que também eles se deixem enredar na trama do stresse, restando pouco tempo para tratar da sua vida pessoal e saúde mental. Ainda por cima, a sociedade continua a exigir-lhes uma perfeição que não existe e não têm companhia nem encontram facilmente ombros amigos com quem desabafar e partilhar a sua vida diária, preocupações e dificuldades. O padre é um ser humano!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A síndrome de Burnout e os padres"

sexta-feira, agosto 15, 2025

Quem te desceu da cruz

Não fui eu quem te desceu da cruz. Não fui eu quem deixou o teu corpo cair e repousar sobre o meu, buscando amparo. O teu corpo estava, de facto, desamparado e, por pouco, quase não tinhas onde ser sepultado. Fizeste-me lembrar tanta gente que morre sem um funeral, sem uma sepultura e sem nome. Surgiu então, do meio da multidão, um homem de Arimateia, um homem rico, um ilustre do sinédrio, que tinha por ali perto, situado num horto, um túmulo que ainda não havia sido usado, e pediu para abrigar teu corpo frio e inerte naquele lugar. Ainda hoje penso nas pessoas que se cruzaram contigo no caminho e aprenderam a fazer o bem, sem esperar nada em troca. Muitos deles eram e são, como este homem, gente ilustre e rica, mas gente com um pedaço do coração de Deus. Na verdade, não importa o que se tem, mas o que se faz com o que se tem. São homens e mulheres onde entraste um dia e nunca mais morreste neles.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

terça-feira, maio 06, 2025

Entramos em conclave

Entramos em conclave. Digo “entramos” porque estou convencido que entra a Igreja toda, que entramos cada um de nós que somos Igreja. Digo-o não porque pense que os cento e trinta e três cardeais nos representam ou que todos entramos porque o nosso pensamento foca-se, por estes dias, na capela Sistina. Digo-o porque acredito que a Igreja tem no conclave a voz do Espírito da Igreja, a voz do Espírito Santo. Digo-o porque acredito que a presença da oração é tão ou mais forte que a presença física. Digo-o porque defendo que a Igreja é de Deus e não dos papas, dos cardeais, dos bispos ou dos padres. A Igreja de Deus é de todos. Por isso vejo o acto de eleição de um Papa como um acto eclesial da Igreja como um todo.
Não contesto que a eleição do próximo pontífice ocorra através de cardeais. Se me perguntassem se concordo que a escuta e o discernimento deveria ser feito por mais pessoas, por fiéis católicos que também têm o sensus fidei, eu responderia afirmativamente, pois creio que o Espírito Santo não se representa apenas nos cardeais eleitores. Aliás, alguns deles geram em mim uma série de resistências, quer por posturas ou ideologias com as quais não me revejo ou que me parecem longe do Evangelho, quer por condicionantes humanas que me parecem questionáveis ou por coisas que se vão ouvindo e que geram em nós dúvidas. Mas a Igreja não é de perfeitos e os cardeais também não têm de o ser, assim como o Papa não tem de ser. A Igreja é de Deus e quero crer que o próximo Papa será o que Deus quiser. O próximo Papa será o que a Igreja de Deus precisa.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja que não é de um Papa"

domingo, abril 20, 2025

Vivo em mim

Toco uma última vez o teu corpo inerte e frio. De tanto te agarrar na mão, ela começa a aquecer. Ou é ela que me traz a percepção do calor. Começo, na verdade, a sentir uma leve brisa de calor e de vida a acontecer. Sei que ainda faltam três dias para chegar a Ressurreição, mas eu já sinto o teu sangue a correr-me nas veias e a acalentar-me o coração. É tão estranho este sentir diante do teu corpo morto. Sinto que estás vivo em mim.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não quero as tuas cruzes"

sábado, abril 19, 2025

Não menos que isso

O momento da tua crucifixão é inesquecível. Enquanto os soldados te iam cravando no madeiro, dizias: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. E não sabemos mesmo. Mas tu perdoas. Perdoas tantas vezes quantas as necessárias. Mesmo que te levemos ao matadouro. Mesmo que cuspamos no teu rosto ensanguentado. Mesmo que te batamos com um chicote para descarregar a raiva da nossa humanidade. Mesmo que te carreguemos com o peso do madeiro que é o peso das nossas vidas. Perdoas infinitamente porque só sabes amar infinitamente. Não menos que isso.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

sexta-feira, abril 18, 2025

O teu corpo não mexe

O teu corpo não mexe, Senhor. Estás morto? Precisamos de ti vivo! Toco-te e não tenho muitas palavras para descrever a sensação do teu corpo frio. Choro. São lágrimas de amor que fazem o caminho até chegarem ao peito, o lugar onde o amor acontece. Choro porque não entendo a morte, esse mistério que ultrapassa os mortais. Porque não te levantas? Porque não te ergues e ergues contigo o mundo sofrido, o mundo que precisa tanto da esperança? Eu sei que morreste com os braços abertos para amar. Sei que nesse abraço te uniste a todos os que sofrem e os abraçaste. Mas nós precisamos de ti vivo. Precisamos de ti vivo naqueles que amaste até ao fim. Porque te deixaste morrer como um criminoso? Como é que tu, sendo Deus, te humilhaste a esse ponto? Eu também fui daqueles que bateram as palmas quando te aclamaram como Rei. Também levei meu ramo para que o benzesses e, nele, me benzesses a mim. A tua coroa, porém, não era de ouro. Era de espinhos. O teu trono não era uma poltrona. Era uma cruz. As tuas vestes não eram de linho e seda. Eras somente tu num corpo desnudado. E assim se começou a construir um reinado sem fim.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amontoado de cruzes"


terça-feira, junho 04, 2024

Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor

Arrepiei-me ao ver, num pequeno vídeo, o modo como o padre Pio olhava fixamente a hóstia consagrada em suas mãos. Quase me vieram umas lágrimas ao rosto. Assim também no vídeo, após um longo momento detido com o olhar em Jesus sacramentado, o padre Pio teve de usar um pano para limpar as lágrimas, tão emocionado estava. Já sabia que ele tinha um profundo amor à Eucaristia, mas agora via-o com os meus próprios olhos. Fiquei embaraçado. Envergonhei-me das muitas vezes em que me distraio a celebrar a Eucaristia. Na verdade, muitas vezes o meu pensamento voa para as preocupações da vida, para as inquietações do ministério sacerdotal, para as decisões pastorais, para os problemas das pessoas que também me apoquentam. Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor. Que vergonha! Dás-me a graça de te poder olhar a um palmo de distância, de poder usar as tuas palavras da Última Ceia, de poder estar contigo suspenso nas minhas indignas mãos, e perco-me na minha limitada condição existencial e sacerdotal. Li, em tempos, que o padre Pio afirmara: “Que a sua primeira eucaristia e a última tenham o mesmo amor e o mesmo ardor”. Peço-te perdão, Senhor, pelas vezes em que não tenho presidido à Eucaristia como devia. Sei que te tornas presente em cada Eucaristia, independentemente de quem a preside e do modo como é presidida. Mas, por favor, faz-te presente também em mim sempre que eu celebre a Eucaristia. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não falo não falo e não falo"

terça-feira, novembro 21, 2023

procuro a fé…

imagem de benzoix no Freepik
Penso muitas vezes a fé. A fé vive-se, mas também se pensa. Pensa-se para se descobrir e para se encontrar as razões dela. E procuro-a entre a razão e a vida. Procuro-a e gosto de não a encontrar. Para andar sempre à sua procura. Vivemos num tempo em que a fé é chamada, como dizia Hallík, a sair da casa das certezas em que sempre viveu. Eu sei que a fé é um dom de Deus, pois começa n’Ele. Gosto, porém, da inquietação que ela gera em nós. E as dúvidas, as incertezas. A vontade de ir sempre mais longe e mais profundo, até ao lugar maior do coração de Deus. Também as crises de fé são ou podem ser um estímulo da fé. Sei que tenho fé ou essa qualquer coisa que mexe comigo e sei que tem a ver com um coração a querer juntar-se ao coração de Deus. Chamemos-lhe fé. E eu chamar-lhe-ei Amor. Chamemos-lhe ‘mistério’ e eu chamar-lhe-ei ‘procura’. Quanto mais desvelo a fé, mais me apetece procurá-la. Só se procura aquilo que já se encontrou, mas se quer encontrar mais e melhor. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Obrigado pela fé que me deste"

sexta-feira, julho 28, 2023

Sou um privilegiado de Deus

Quando se fala pessoalmente da fé, corremos sempre o risco de não saber dizer a verdade dela, porque a verdadeira fé não tem medida nem peso nem forma. Embora muitas palavras e gestos a transpareçam, ela não tem palavras ou factos que a provem. E eu até tenho receio de dizer o que penso quando penso na minha fé. Contudo, faço esforço para ser autêntico com ela. Trato-a por tu, meio a medo ou com receio. Parece-me algo tão belo e tão inexplicável ao mesmo tempo, que tento encontrar as palavras certas e não sei se as encontro. Mas sei que sou um privilegiado de Deus na fé que tenho. Foi assim que o afirmei num encontro com jovens. Não sei se o pensaram, mas eu pensei pela cabeça deles que deveriam estar a pensar, do género, ‘olha-me este que se acha mais que os outros’. Por isso achei que devia explicar. O facto de ser padre e quase toda a minha vida girar à volta de Deus, com as celebrações que tenho de preparar, com as homilias que tenho de fazer, com os momentos de oração que tenho de proporcionar, com a reflexão que tenho de fazer, com os estudos e leituras que faço, com a entrada recorrente em espaços sagrados, a minha vida é um constante estar com Deus. Nisso sou um privilegiado. Creio que qualquer padre é um privilegiado. Porque os nossos afazeres, o nosso trabalho, é um constante estar com ou em Deus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não sei o que é não ter emprego"

sexta-feira, junho 09, 2023

jeito de amar sem jeito

Às vezes falta-me a coragem de te olhar olhos nos olhos, Senhor. Tu sabes tudo, tu sabes que te amo, embora o meu amor seja tão pequeno quanto o tamanho da minha pequenez diante de ti. Sabes que ele é pequeno, mas é sincero. Sai de mim como sou. E volta a mim para sair sempre em tua busca. Quando me deito nem sempre te entrego a minha noite. Quando me levanto nem sempre te entrego o meu dia. Praticamente só me lembro de ti quando me cruzo com as tuas coisas e nisso agradeço-te o meu sacerdócio, porque me faz pensar em ti nas muitas coisas que tenho de fazer em cada dia. Tu sabes tudo, tu sabes que te amo deste jeito sem jeito. Deste jeito mal organizado e pouco racional. Mas também creio que é por isso que ainda aqui estou, mesmo sem a coragem de te olhar olhos nos olhos, com receio de ficar preso ao teu olhar sem fim.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como te amo, Senhor?"

sábado, junho 03, 2023

o padre tem de ser um homem de relação

A fé define-se como uma relação com Deus através de Cristo com a força do Espírito Santo, mesmo num mundo de frágeis relações e de redes virtuais. A fé vive-se no encontro e na relação. Por isso o padre tem de ser um homem de relação. E é paradoxal, por um lado, porque os padres trabalham cada vez mais sozinhos e, por outro, não estão a ser formados em relações. Têm vários anos de formação no seminário, fazem cursos de teologia e de pastoral, mas falta-lhes a formação das relações. O risco é tornamo-nos homens de relações, mas que vivem a relacionalidade de forma muito solitária e autorreferencial. Às vezes, de forma desequilibrada. Fala-se muito de sinodalidade e de comunhão, elaboram-se muitos documentos a falar disto, mas depois, na prática, os padres estão cada vez mais isolados e ensimesmados.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre que morava sozinho"

sábado, maio 27, 2023

espiritualidade como caminho a andar

A sociedade secularizada em que vivemos reclama dos padres uma maior formação. Contudo, a formação que os padres mais necessitam é a formação espiritual. Precisamos saber os nomes das coisas, mas os desígnios das coisas só a intimidade com Deus no-los ajuda a vislumbrar. Ou melhor, a desvelar. Porque ficará sempre muito por encontrar. E é bom que assim seja, para que a nossa vida seja um eterno buscar. Um padre que busca não é sempre um padre que encontra, mas é um padre que caminha para encontrar.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O assunto era padres"

domingo, abril 30, 2023

buscar Deus que nos buscou

Só se pode buscar a Deus com Deus. E só se procura o que já se encontrou, mas se precisa encontrar mais. E melhor. Só podemos encontrar Deus porque Ele já nos encontrou. Ou melhor, entrou no nosso espaço para se encontrar. A procura da dúvida é apenas a permanência na dúvida. A procura do que se experimenta, é a procura da verdade. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ontem foi assim"

sexta-feira, abril 07, 2023

aquela agonia

Veio-me ao pensamento aquele momento da tua agonia. Não o sei descrever nem sei imaginar. Sabias o que te ia suceder, mas não sabias das forças para tal. É tão estranho ver Deus sem saber das forças, tal como nós. E depois os teus amigos. Onde estavam? Porque dormiam? Porque nada faziam para te aliviar o peso do sofrimento? Os evangelhos dizem que eles te seguiam para todo o lado. Andáveis sempre juntos. Aprendiam a vida contigo. Pousavam e repousavam em ti, nos teus conselhos, nos teus milagres, na tua segurança. Mas não estavam acordados naquela hora. Soube-se depois que, mais tarde, se esconderam com vergonha e com medo, quando tudo aconteceu, ultrapassando o seu entendimento. Ficaste sozinho, como nós ficamos tantas vezes metidos para dentro dos nossos sofrimentos, sozinhos, mesmo no meio de multidões de pessoas que ainda há pouco nos aplaudiam de pé. Veio-me ao pensamento aquele momento em que pediste ao Pai que, se pudesse, afastasse de ti aquele cálice, aquela cruz, aquele sangue, aquele peso insuportável de não saber se terias forças. A tua encarnação foi autêntica. E perceber que não tinhas a certeza das forças, dá-me muita força.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Via Sacra de um simples discípulo"