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quinta-feira, outubro 02, 2025

e cansado

Estava cansado e farto de tudo. Farto das incompreensões e decisões do bispo. Farto dos colegas que só pensam neles. Farto dos paroquianos que vivem a exigir coisas que ele não consegue dar. Farto e cansado de tudo e de todos. Quando amanhecia, tinha vontade que a noite regressasse depressa para tomar o comprimido de dormir. Fazia o que tinha para fazer como qualquer máquina onde se coloca uma moedinha. Andava pela paróquia e pela vida de cabeça erguida e ombros levantados. Fazia lembrar o cavalo elegante com os antolhos para não ver senão o que está a sua frente para ser feito. Chegado a casa, o seu corpo transformava-se, tolhia-se, encurvava-se, amarelecia. Pegava no livro da liturgia das horas e rezava palavras sem dialogar com Deus. Sentia que a sua espiritualidade se esvaía por entre os dedos. Tentava segurá-la como se segura a água numa mão. Ficava apenas um resto de humidade que rapidamente secava. Era como se a fonte tivesse secado. Como se Deus o tivesse abandonado à sua sorte. Entrara no seminário de armas e bagagens, como se costuma dizer, entusiasmado porque ia mudar o mundo, ia ajudar as pessoas a encontrar-se com Cristo. Mas a realidade impôs-se. Era mais forte do que ele e do que todo o entusiasmo que alimentara em tempos de seminário. Sentia-se sozinho. Não tinha com quem partilhar os sucessos e as derrotas. Só as paredes da casa paroquial sabiam a verdade do seu coração, e a almofada que recolhia as lágrimas antes do comprimido fazer efeito. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o tem de"

domingo, setembro 28, 2025

Não tinha medo de morrer

Os últimos cinco anos foram passados com a quimioterapia ao peito. No verdadeiro sentido da palavra, era frequente trazer um fio ao pescoço com a quimioterapia pendurada. O que mais estranhava neste colega presbítero era a alegria que, mesmo assim, também transportava. Algumas vezes não resisti em dizer-lhe como isso me fazia bem. E ele apenas respondia que não era nada. E ria-se. Era como se se risse do cancro que se apoderara dele. Nos últimos tempos, o bispo quis dispensá-lo dos serviços paroquiais que se tornavam cada vez mais difíceis. Não desistiu até ter de ser levado novamente ao hospital onde lhe detetaram uma série de metástases em locais do corpo onde já não era possível atacar o maldito cancro. Restava esperar. E foi o que fez, consciente de que não se tratava de esperar o fim, mas esperar em Deus. Dizia o seu irmão, por sinal, igualmente presbítero, que ele repetia constantemente que não tinha medo de morrer porque sabia que ia ressuscitar. Em tom de brincadeira, também ia dizendo que os “bichos” não haveriam de o vencer e levar a melhor, pois quando morresse eles deixariam de ter que comer e morreriam, enquanto ele haveria de ressuscitar. E assim foi… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte XI, outro jovem"

domingo, setembro 07, 2025

o suicídio e o padre que é um ser humano

Segundo informações da agência UcaNews, a Igreja católica na Índia deparou-se, nos últimos cinco anos, com o suicídio de, pelo menos, treze padres, o que dá uma média de um suicídio a cada seis meses. Segundo dados apresentados pelo padre Lício de Araújo Vale, de agosto de 2016 a junho de 2023 tinham-se suicidado no Brasil quarenta padres. Em março de 2023 o jornal Correio da Manhã dava conta do suicídio de treze padres em Portugal. Sabe-se que a sociedade hodierna potencia personalidades fragmentadas, depressivas e emocionalmente débeis. No entanto, torna-se difícil entender que alguém que vive do sagrado e de uma fé que está enraizada na esperança da ressurreição se deixe apanhar numa rede de desespero que conduz ao suicídio. Torna-se difícil aceitar que alguém que descobriu a vida como um dom de Deus decida, em desespero, terminar com esse dom. 
Vários estudos apontam para factores de risco como o stresse, a solidão e a cobrança desmedida. Dos padres quase toda a gente espera a perfeição, a presença constante, uma vida exemplar. Ainda há quem pense que um padre deve ser infalível, impecável, imperturbável, um super-homem protegido pela fé ou um anjo travestido de ser humano. Os padres são seres humanos e, como tal, com fragilidades, limites, necessidades, desejos de pertença e de compreensão. Se é certo que precisam de alimentar uma vida espiritual intensa que ilumine a sua vida e missão, também é verdade que isso não os isenta da sua condição humana e das mesmas lutas emocionais do ser humano. Num tempo em que se espera que um número mais reduzido de padres faça o mesmo que se fazia há dezenas de anos e, consequentemente, com o multiplicar de solicitações, é normal que também eles se deixem enredar na trama do stresse, restando pouco tempo para tratar da sua vida pessoal e saúde mental. Ainda por cima, a sociedade continua a exigir-lhes uma perfeição que não existe e não têm companhia nem encontram facilmente ombros amigos com quem desabafar e partilhar a sua vida diária, preocupações e dificuldades. O padre é um ser humano!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A síndrome de Burnout e os padres"

segunda-feira, abril 21, 2025

Agradeçamos

"Abençoe-vos Deus Pai Todopoderoso: Pai, Filho e Espírito Santo". A conclusão ordinária de cada celebração ganhou ontem, na celebração de Domingo de Páscoa, em Roma, um alcance maior, porque foram as últimas palavras públicas que se escutaram da voz em dificuldade do Papa Francisco. Hoje o mundo, em geral, e a Igreja, em particular, acordaram com a notícia dolorosa da sua partida para a Casa do Pai. Curioso como Francisco parte na segunda-feira de Páscoa, depois de celebrarmos a Ressurreição do Senhor. A vida é um caminho peregrino para esta meta e, às vezes, o caminho culmina com um calvário. No caso do Papa, desde 14 de fevereiro que se foi avizinhando este momento que a grande maioria dos crentes não queria que chegasse por tanta coisa pendente que ele vinha fazendo desde 3013, desde o início do seu pontificado. Mas isso compete a Deus, porque a Igreja é sua e não dos Papas. Confiemos que os 135 cardeais eleitores façam a escolha do Espírito Santo para o Papa que a Igreja de hoje precisa. Entretanto, que a Igreja entre por inteiro em acção de graças pelo dom da vida e missão deste Francisco que nos trouxe de volta o Francisco que há 800 anos também operou uma revolução no íntimo da Igreja. 

Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que recusou a grandeza, escolheu a simplicidade, trocou o poder pela proximidade, preferiu não ser príncipe para ser servo e pastor, e por isso foi luz de um Deus que é sempre misericórdia. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa das periferias, dos pobres, dos recasados, dos abusados, dos esquecidos, dos últimos, de todos. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da evangelização sempre nova e dos discípulos missionários, da Igreja em saída missionária e em estado de missão, da Igreja sinodal como Povo de Deus peregrino e da Igreja como hospital de campanha, de portas abertas. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que resgatou o Concílio Vaticano II e que deu impulso a uma Igreja mais corresponsável, participativa, ministerial e sinodal. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da reforma da Cúria, assim como da colegialidade e da descentralização. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa dos pastores com cheiro a ovelha e que caminham à frente, ao lado e atrás. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que valorizou os leigos e as mulheres. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da Casa comum que é urgente cuidar e da Fraternidade universal que não se pode esquecer. 
Agradeçamos pelo Francisco que Deus nos deu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

sábado, fevereiro 08, 2025

O empurrão

Desequilibrou-se, porque a doença que tem propicia desequilíbrios. Caiu e magoou-se. Não havia ninguém em casa, mas insiste que foi empurrada. Diz ela que foi empurrada por uma familiar que já faleceu há dezenas de anos. Era uma prima com quem se dava muto bem até passarem a dar-se muito mal. Estavam zangadas quando ela morreu. E como não fizeram as pazes, agora culpabiliza-a de tudo o que lhe acontece de mal. Caiu e magoou-se porque foi empurrada por ela e ponto final. Eu até posso compreender que a nossa cabeça possa ter deste tipo de associações. Afinal, sempre buscamos explicações para o que nos acontece. Mas o que a senhora Genoveva, que visitei há dias na sua casa de doente, não sabe, é que o problema está todo na sua cabeça e no seu coração. Como não resolveu esta situação em tempo útil e como ainda tem dentro dela esta mágoa, facilmente o seu pensamento vai para ali, para a relação sofrida que deixou por resolver há muito tempo. O empurrão que ela precisava era o empurrão do perdão.

A PROPÓPSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sabe o que é que ela me fez, padre?"

quinta-feira, janeiro 16, 2025

O último beijo

Lembro-me bem do teu último beijo. Foi o último dos teus murmúrios de beijo. Tirei-te a máscara de oxigénio, encostei a minha cara nos teus lábios e tu moveste-os na direcção dela. Só isso. Mas tanto e sem medida. Mentiria se não dissesse que guardava cada beijo com receio que fosse o último. Fazia por guardar cada milésimo de segundo do movimento de cada beijo em ralentando. Era a minha forma de lidar com o adeus a qualquer hora. É difícil desmistificar as partidas, desconstruir a vida humana num segundo de morte que se arrasta. É difícil viver a pensar nisso. E não obstante, é a sequência natural da vida. E depois lembro esse beijo. Lembro-o bem. Lembro que fechei os olhos ao aproximar-me dos teus lábios. Foi o gesto natural de quem queria encerrar o beijo por dentro para o poder ir buscar sempre que precisasse. Como agora. Na altura fui o filho mais feliz do mundo. Desde que ficaras a oxigénio que apertavam as saudades dos teus murmúrios de beijo. Por isso fui o mais feliz dos filhos. A felicidade não cabia em mim. Foi o último beijo. Tinha quase a certeza que o seria. E hoje fui buscá-lo. E de olhos abertos, cai uma lágrima, sem que a consiga guardar dentro de mim… como guardei esse beijo. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai" e "O beijo do meu pai"

sexta-feira, janeiro 03, 2025

A filha que berra

Tem cinco filhos e já não sai da cadeira de rodas sem ajuda. Embora esteja muito consciente de tudo, ali fica à mercê de quem a ajude. Não é muito velha. Apenas tem uma doença que a impede de fazer as coisas mais básicas sem ajuda. Tem cinco filhos, todos eles muito bons, senhor padre. É o que me diz. Só se queixa de uma filha. Diz que ela é uma força da natureza e é quem cuida de mim, senhor padre. Mas também diz que ela tem um feitio muito difícil. Os outros quatro não. No entanto, quando lhe pergunto se os outros eram capazes de estar ali com ela diariamente a cuidar das suas necessidades, a tratá-la, olha para mim com olhos de quem está a pensar no assunto pela primeira vez e diz que, na realidade, é capaz de ser muito difícil. Ora, portanto, a filha que vive sempre preocupada com ela e que a cuida, é a mesma que, às vezes, lhe berra porque não tem paciência quando a mãe não faz o que lhe pede. É certo que, às vezes, a ameaça de a colocar num lar. Mas também é aquela que está sempre ali e que a mãe tem de ouvir. Porque está ali. Porque se esforça. Porque se preocupa. Porque, com certeza, a ama. Olhe, sugeri, diga-lhe muitas vezes que a ama.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A pequena Sónia e a sua mãe doente, em Fátima"

domingo, dezembro 15, 2024

Chegou a Hora do meu pai...

Chegou a hora do meu pai. Chegou a hora de passar da condição mortal à condição de imortalidade na vida eterna. Quero dizê-lo com H grande e digo, aproveitando para colocar outra maiúscula no meu pai. Chegou a Hora do meu Pai. Não quero esconder os dias difíceis que atrasaram os meus afazeres, mas não atrasaram o meu coração. Muito pelo contrário. Acompanhei os últimos tempos do seu sofrimento, para que lhe pesasse um pouco menos. Ele ficava mais tranquilo quando eu estava, e estive tanto quanto me deixaram estar. E eu também tranquilizava. Esgotei-me por dentro e por fora. Porém, em tudo consegui ir vendo o dedo de Deus. A festa da partida foi muito bonita. Foi uma grande festa de acção de graças. Não tinha ainda contado aqui, mas meu pai era diácono permanente. Por isso, o meu bispo acabou por presidir à Eucaristia. A homilia foi minha. As leituras da minha família. O canto dos meus amigos. Igreja cheia. Cheia com antigos e novos paroquianos. Cheia de testemunhos de gente que, como diziam, fora meu pai que os levara à fé. Chorei tanto quanto consegui. E sorri ainda mais. Quem nos conhece e conhece a relação de pai e filho que tínhamos, sabe que éramos muito cúmplices. Sempre o fomos. Entretanto, a partida da minha mãe fez-nos viver estes vinte e três anos muito mais um para o outro. Até porque a fé e o modo de entender Deus nos unia imenso. Assim como o ministério ordenado. Diziam as minhas manas que quando lhe faziam uma proposta, obtinham sempre a mesma resposta. Tenho que falar com o vosso mano. Por isso não admira que tivéssemos passado juntos grande parte dos últimos dias antes da partida. Muito rezámos juntos também. Ou eu rezava e ele acompanhava-me. Eu rezava e ele tentava respirar a custo a minha oração. Devo-lhe a ele e à minha saudosa mãe, não só a vida, como grande parte da fé e da vocação. Só posso estar grato a Deus pelos pais que tive. Por isso foram muitas horas de acção de graças, que ainda se prolongam hoje. Para que meus paroquianos compreendam porque ando alegre, explico que não sou super-homem e que sofro como qualquer ser humano sofre na partida de quem ama. Mas a fé é muito mais forte que a dor. O meu pai partiu, mas vem constantemente ao pensamento. E eu sou feliz. Sou feliz pelo pai que tive na terra e que ainda tenho no coração.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Feliz dia do pai" e "Obrigado pela fé que me destes"

sábado, setembro 07, 2024

O milagre da morte

Ela queria um milagre. Diante do caixão com o filho de vinte e oito anos, ela repetia que esperava um milagre. O filho mais velho morrera há uns doze anos com sorte parecida, em idade mais jovem ainda. Este segundo filho estivera em sofrimento uns três anos e agora partira para o Senhor. Os pais não têm mais filhos para cuidar. Não têm mais filhos para esperar o seu futuro e sonhar com ele. Dá para imaginar o sofrimento, mas não dá para o medir. Era mais que visível, tanto no rosto pálido da mãe como no do pai, assim como nos seus corpos sem expressão, sem alento, sem força senão para estar ali e se puderem despedir do menino. Olha o teu pai e a tua mãe, dizia o pai. E a mãe desfalecia em gemidos. A Missa foi toda ela um gemido contido. A multidão dentro da Igreja era prolongada pela multidão fora dela. Não se cabia naquele sofrimento. A homilia foi pesada. Foi pesada no sentido de ser pesarosa, e foi pesada porque se pesou cada palavra. A certa altura, a mãe interveio, dizendo ao senhor padre que nunca perdera a esperança, porque esperava um milagre. Ainda bem, respondeu o senhor padre. Como dizia a primeira leitura que escutámos, “A esperança não engana porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações”. O padre cruzava os olhos com ela no primeiro banco da igreja, sofria com ela à sua maneira, e aproveitava as suas palavras para falar do verdadeiro milagre que estava a acontecer. Este mistério da morte, que é tão difícil, é, afinal, o maior milagre da vida. Morremos para vivermos eternamente, porque Deus nos ama para além da vida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As não respostas que são resposta"

domingo, maio 05, 2024

Também te amo

Basta-me o teu olhar. Basta-me o teu olhar para ter a certeza de que estás fixo em mim, e que essa fixação é estar comigo. Gostava muito de ter palavras tuas e de ouvir sons que construíssem palavras, mesmo que não fizessem sentido. A verdade é que cada vez tenho menos palavras tuas. Mas não tenho menos certezas. O teu olhar fixo em mim diz mais do que qualquer palavra pudesse dizer. E os teus beijos miudinhos parecem enormes. Têm um tamanho sem tamanho. Sempre que encosto a face nos teus lábios, esboças o beijo mais puro e o beijo que mais me importa. Além do teu olhar fixo, basta-me também um beijo, um pequeno murmúrio de beijo, para ter a certeza que o amor por inteiro está nele... e vem a mim. A tua vida prolongou-se na minha através do amor íntimo com a mãe. A tua vida vem a mim desde que me chamaste a ser. O amor gera sempre amor. E mesmo que estejas no lar, sem as capacidades que todos lá em casa gostaríamos que tivesses, não deixas de ter um amor por inteiro. E eu não deixo de o sentir em cada olhar fixo no meu olhar, em cada murmúrio de beijo na minha face. Também te amo, meu pai.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha mãe está viva"

Bom "dia da Mãe" a todos os pais também!

terça-feira, abril 09, 2024

A operação do Micael

O Micael é o terceiro filho de uma família que reza. É um pequeno que tem a especialidade de falar as coisas de um modo puro. Diz o que sente sem maldade e sem medir consequências. Tem a pureza das crianças de um modo muito apurado. E há dias precisou de uma intervenção cirúrgica. Não era complicada, mas tinha as suas exigências, cautelas e perigos. A mãe tentou explicar-lhe algumas coisas, mas a médica de serviço sentou-se na sua frente e dispôs-se carinhosamente a responder a todas as suas questões e dúvidas. O Micael não fez muitas. Parecia muito confiante. A conversa que, apesar de curta, foi sobejamente interessante, terminou com a médica a dizer-lhe que confiasse que tudo ia correr bem. Ao que o Micael respondeu que já o sabia. Sabia que tudo ia correr muito bem porque de manhã cedo todos tinham rezado por ela. Todos tinham rezado lá em casa pela médica que o ia operar. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A senhora vai à missa"

quarta-feira, fevereiro 28, 2024

Tê-lo cá para o ver e amar assim

O meu pai teve de ser levado, de ambulância, ao hospital e levar quatro pontos na nuca. A funcionária do lar não conseguiu segurá-lo para não cair. Com estas notícias fica-se com o coração a palpitar, embora se confie nas pessoas que cuidam dele. Como a sua saúde está frágil e o problema maior está situado no cérebro, com sucessivos ait’s, fica-se com o coração a palpitar nas mãos. Para tranquilizar as minhas irmãs, mas ao mesmo tempo porque é assim que penso estas coisas, ao informá-las da situação, disse-lhes e cito-me: O problema, penso eu, que não sei nada destas coisas, é que para a situação clínica do pai, estas coisas só pioram. Mas também sabemos que nada está nas nossas mãos. Nem podemos ser egoístas ao ponto de querer tê-lo eternamente connosco. É o que é ou o que tem de ser. Eu prefiro vê-lo e amá-lo assim do que não o ter cá para o ver e amar assim, mas a vida é isto. Somos frágeis e peregrinamos para um dia chegarmos plenamente a Deus!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai"

quinta-feira, novembro 02, 2023

Poderia ter sido mais moderado, padre

Diante do enigma e mistério da morte, estes dias de romagens ao cemitério, optei por ler aquela passagem em que Jesus diz ‘Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito’, e fazer alusão à diferença entre dia de ‘finados’, porque a palavra vem do latim ‘fine’ e aponta para o fim, e o dia de ‘fiéis defuntos’, porque a palavra defunto vem de ‘fungor’ e significa ‘cumprir’. Escolho a segunda para dizer que a vida dos que partiram ‘cumpriu-se’, chegou ao seu cumprimento aqui na terra peregrina e alcançou a eternidade. Por isso convido a fazer memória agradecida pelo dom da vida dos que amamos e já partiram. Agradecer por terem cumprido a sua missão. Agradecer mais ainda o dom das suas vidas nas nossas vidas. 
Mas ela não quer ouvir falar positivamente da morte. Não quer achar que as vidas se cumprem quando nós achamos que ainda nos fazem falta. E, por isso, no final, porque lhe custou a intensidade das palavras, veio dizer-me com amizade: o senhor padre poderia ter sido mais moderado. Viu o pai falecer há uns largos meses, mas o tempo insuficiente para fazer de conta que não lhe doi ou para atravessar a dor. Doi e fica-se na dor demasiado tempo. Ou fica demasiado tempo a fugir da dor. Vai serenando, mas não gosta de pensar que o pai realmente partiu. É como se, cada vez que pensa na realidade da partida, não quisesse pensar que é realidade. Disse ainda que me entendia, mas que achava que não devia ter falado como falei. Gostei da sua sinceridade. Contudo, ou a mensagem não passou tal como a idealizei, ou esta jovem é o claro fruto desta sociedade que tudo faz para esconder a dor ou evitar confrontar-se com ela.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Homilia para funerais ou fiéis defuntos"

sábado, maio 06, 2023

A visita do senhor e do Senhor

Os dias e os meses passaram entretanto. O marido estivera bastante doente, no hospital. Estivera à beira da morte, como ele dizia. Quando regressou a casa, todos os cuidados eram poucos. Não podia mesmo sair de lá. E a idade de ambos também não permitia descuidos. Por isso, quando os visitei foi uma enorme alegria. A visita do senhor foi muito boa, explicava a senhora. O meu marido até melhorou, senhor padre. Não sabe o bem que lhe fez. Mas o melhor mesmo, dizia ela, foi quando, dois ou três dias depois, recebemos o Senhor das mãos do ministro extraordinário da comunhão. Tinham ficado ambos muito contentes com a proposta que lhes fizera de comungarem em casa, e assim foi. E se a visita do senhor padre tinha sido excelente, pelos vistos não teve comparação com a visita do próprio Senhor! Nem imagina, senhor padre, como eu estava nesse dia, com dores de estomago. Acho que até tinha febre. Não sabia como havia de estar. As dores eram demasiadas. Contudo, quando a senhora da comunhão entrou em nossa casa e nos trouxe o Senhor, curiosamente, não sei como explicar, a dor até se foi embora. Nunca imaginara que o Senhor entraria em minha casa como entrou. Foi tudo tão bom, que não há palavras, senhor padre. Tão bom mesmo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não estás nunca sozinho"

terça-feira, abril 04, 2023

O Joaquim que gritava ao crucifixo que tinha desaparecido

O Joaquim tem um pequeno atraso. O seu grande corpo físico não corresponde ao tamanho das suas capacidades intelectuais. E estas ainda são diminuídas a cada dia pelo vício do álcool. É raro não andar bêbado. Não porque tenha muito dinheiro para alimentar o vício, mas porque muita gente lhe paga copos só para o ver tonto e a tombar! Os amigos do Joaquim são aquele tipo de amigos que merecem a verdadeira designação de ‘amigos dos copos’, sem mais amizade para além disso. No entanto, o Joaquim tem um amigo Grande, tão grande que não há dia nenhum que ele não o visite na igreja. É seu hábito ir lá fazer umas orações. Mas ontem estava muito zangado e gritava para o crucifixo que tinha desaparecido. O pároco tinha mandado tapar todas as imagens da igreja na semana santa. Todas, sem excepção. Foram todas escondidas com panos e colchas velhas. E o Joaquim não conseguia ver o seu Grande amigo do crucifixo: onde estás, Quem Te levou, Quem fez isso, Vou prendê-lo, Sai daí que eu estou aqui à Tua espera, Eles são doidos, São malandros, Deita isso fora, Vão pagar tudo, Vais ver! E não parava de gesticular, de esbracejar e de gritar a plenos pulmões. Na verdade, Deus ainda hoje gosta de falar pela boca dos que a sociedade chama tontos.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma certa liberdade"

domingo, abril 02, 2023

A avó que era uma santa e morrera santamente

Era muito boa a minha avó, senhor padre. Guardo-a no coração. Guardo-a como um coração dentro do meu coração. E então contou-me da fama que havia na terra de estar tudo bem em seu redor, de ela ver tudo com um olhar positivo, de estar sempre disponível e disposta para o que quer que precisassem dela. Falou também vagamente da doença que a acompanhou nos últimos dias da sua vida. Nada que a impedisse, porém, de ir à missa. Porque ela tinha algo especial com o Senhor. Ó senhor padre, era mesmo uma santa. Tão santa era que morreu de joelhos depois de comungar o Senhor. E contou que já não estava muito bem da sua saúde, mas que fora à missa acompanhada pelo marido e um outro familiar, que ela se deslocara, por seu próprio pé, à comunhão, que regressara ao seu lugar e se ajoelhara entre o marido e o outro familiar. Não mais se levantou, senhor padre. Quando a tentaram levantar, já tinha falecido. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A dona Olímpia e o menino Jesus da cabeleira"

sexta-feira, março 17, 2023

os problemas

O João tinha um problema e estava obcecado com ele. Deitava-se e levantava-se como se deitava, com esse problema. Que ele dormia pouco, porque o problema não dormia nele. Em conclusão, vivia pouco mais que esse problema. De facto, quando um problema nos preocupa, parece que a nossa vida é só esse problema. O problema acaba tomando conta de nós e pode anular-nos. Até esquecemos que muitos problemas já passaram nas nossas vidas e deixaram de ser problemas ou, pelo menos, deixaram de ser o problema. Assim como esquecemos os problemas que os outros têm, muitas vezes, bem maiores e mais dolorosos. João, olha que Deus não nos criou para vivermos os problemas, mas para vivermos com eles. Eles fazem parte da nossa condição humana, mas não nos impedem de estar vivos. E Deus não dorme. Mesmo que pareça não nos resolver o problema, dá-nos a mão e ajuda-nos a subir um degrau de cada vez, pois só assim se sobem as escadas. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A palavra difícil"

segunda-feira, fevereiro 13, 2023

as lágrimas do Isidoro e as lágrimas do padre

O Isidoro é um homem de fé, que não falta nunca à missa e ajuda no que pode. A idade começa a notar-se, mas não desiste de dar o seu contributo na comunidade cristã. Digamos que é tímido e discreto, mas conversamos o suficiente. Para além disso, vai conhecendo o seu pároco e sabe que ele procura estar atento aos seus, sobretudo os doentes. As suas homilias falam muitas vezes do sentido da vida e do sofrimento, da morte como caminho da ressurreição e das forças que brotam da fé. E o senhor Isidoro adoeceu. De um momento para o outro, aquilo que parecia uma dor de estômago, passou a ser um caso complicado de cirurgia urgente. Ele já tinha tido a sua dose de sacrifício e dor em outras operações. A operação não correu mal, mas o recobro foi muito difícil. Segundo me contou, viu a morte várias vezes. Até porque estava quase pele e osso. Mas, sabe, padre, houve uma noite que sonhei consigo. E as lágrimas caíram-me. Não era por medo. Era por me lembrar de tantas coisas que o senhor fala e que eu precisava ouvir novamente. Naquela noite, desejei muito ouvir novamente o senhor e reconhecer em si, como instrumento de Deus, a força que eu precisava. O Isidoro contava isto, entre soluços. E a mim vieram a correr duas pequeninas lágrimas de comoção. É que Deus faz coisas através de nós que nem nós sabemos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

domingo, fevereiro 13, 2022

“assassinado pela indiferença”

No centro de Paris, numa rua movimentada, no passado dia 18 de Janeiro, o fotógrafo René Robert, de 85 anos, depois de ter saído de casa, após o jantar, para um passeio, não se sabe ao certo como nem porquê, caiu inconsciente. Ali permaneceu caído cerca de nove horas, exposto ao frio numa noite em que as previsões meteorológicas apontavam para temperaturas de 3ºC. Levado para o hospital, depois que um sem-abrigo chamou os serviços de emergência, já pelas 6h30 da manhã, foi-lhe diagnosticado um traumatismo craniano e uma grave hipotermia como causa do óbito. Foi um desalojado da sociedade, um sem-nome, quem deu o alarme. Mais um dos que não conta. E um jornalista, amigo do fotógrafo, ao falar do assunto, intitulou-o de “assassinado pela indiferença”. Como de facto, assassinado por uma sociedade que tem opinião para tudo, mas que é indiferente a tudo. Uma sociedade que defende a diferença, mas não dá conta do outro. Uma sociedade formada por indivíduos que não se olham senão a si próprios. Paradoxalmente plural e individual como nunca na história do mundo. Uma sociedade em rede desligada. Uma sociedade feita de pessoas que vivem, sozinhas, ao lado uns dos outros!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O sacrário está vazio"

terça-feira, janeiro 11, 2022

Deus não podia ter criado o covid-19

Uma senhora devota, em resposta ao padre que dissera na televisão que Deus, às vezes, manda uma doença como a covid-19 para que as pessoas se convertam e mudem de vida, estava muito zangada numa rede social a queixar-se do padre. Como poderia ele pensar que Deus cria um mal – pois que o vírus é um mal – para o homem?! 
Embora a senhora tenha boa intenção e tenha uma imagem de Deus muito boa, como um Pai que ama sem medida e tudo faz de bem pelos seus filhos, a verdade é que ela também se aproxima de uma heresia, pois parece dar a entender a existência de uma outra entidade criadora para além de Deus. Os vírus, tal como as bactérias fazem parte da natureza. Assim como as minhocas, os mosquitos, os elefantes, e demais seres vivos. Assim como os vulcões, os terramotos e as inundações, e demais fenómenos naturais que causam aflição, destruição e mortes. Contudo, o facto de o mundo criado por Deus ser assim, não quer dizer que Deus seja mau ou que crie e proceda com maldade. Apenas diz de um mundo transitório como este, no qual nos é dada a oportunidade de nos superarmos, por dentro e por fora, num caminho que não é feito só de rosas. O que nos acontece de mal, embora doloroso, às vezes até é uma oportunidade. Uma oportunidade de fazer escolhas, de estar atento ao mais necessitado, de sermos maís fraternos uns com os outros, e com todos os seres criados, de tomarmos consciência da nossa finitude e humanidade frágil.