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segunda-feira, fevereiro 23, 2026

A Igreja fácil

Vivemos num tempo do fácil. Tudo tem de ser fácil, de fácil acesso, de fácil consumo, sem dificuldades, adversidades, contratempos, sacrifícios ou compromissos. Sem um não aos nossos desejos e vontades. Neste contexto, a Igreja tem-se tornado um espaço ou um lugar onde o fácil também acontece. Ou, para sermos mais honestos, um espaço onde os seus principais agentes facilitam para se tornarem populares de forma mais fácil. Infelizmente, quando um padre exige alguma coerência entre o sacramento que se exige como um direito e a vida que lhe deve corresponder, está a alterar as regras deste tempo. Li algures a um outro colega, referindo-se a este tipo de situações, que “o consumidor não quer ser discípulo; quer ser cliente”. Concordo. Por isso se não há nesta loja, vai-se à loja do vizinho. Procura-se o padre facilitador, aquele que, como referia esse colega, “por preguiça pastoral ou medo de ser impopular, ‘despacha’ sacramentos”. E depois este padre é que é bom e aquele é que é mau. Mede-se o padre pelo facilitismo com que ele se presta a ser um comerciante do sacramento. Este é que é o padre porreiro. O outro é o padre que afasta as pessoas da Igreja. Como se estas pessoas não estivessem já afastadas e não quisessem manter-se nesse afastamento. Vivemos num tempo do fácil e, muitas vezes, por causa do porreirismo, a Igreja vai-se transformando, muitas vezes, numa Igreja fácil.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma conversa de acolhimento e imposições"

quarta-feira, junho 25, 2025

A catequista intercessora

Estavam a um mês do Crisma na paróquia. No início do ano pastoral tinham aberto inscrições para adultos que pretendessem fazer uma formação para esse efeito, e os jovens que concluíam este ano a catequese de infância e adolescência tinham sido convidados a fazer a sua inscrição e a reunir os documentos necessários para a sua realização. Para espanto do pároco, uma catequista da paróquia contactou-o, através de uma rede social - com o peso que tem cada um destes dados -, a interceder para que aceitasse um jovem que se queria crismar porque queria ser padrinho. Foi essa a sua justificação. No meio do pedido, como se as sessões ou encontros de catequese fossem aulas, como se o sacramento não precisasse senão de duas ou três horitas de preparação e como se não tivesse qualquer relevância a injustiça que se cometeria para com aqueles que andaram dez anos na catequese, sugeria que se aceitasse com “duas ou três aulas de preparação”. Foram essas as suas palavras. Ao pároco custou a entender o pedido no contexto em que foi feito e por quem foi feito. Respondeu-lhe, com amabilidade, que já não seria possível, mas que poderiam ver a situação concreta do jovem e procurar uma solução futura. Pois a sua resposta não se fez esperar e, a acrescentar ao que já o tinha incomodado por vir de quem vinha, a resposta deixou-o à beira de não sei o quê e de palavras que prefiro não dar-lhe som: acho que lhe fica muito mal como padre dificultar a vida das pessoas.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Fazer catequese para se crismar"

sábado, fevereiro 01, 2025

não se perde aquilo que já está perdido nem se afasta aquilo que já está afastado

A nossa sociedade fomenta clientelismos e compadrios ao ponto de que qualquer cidadão se habituou a conseguir atingir os seus objectivos, contornando esquemas com base em cunhas, jeitos e compras. Quando não consegue por estes meios, usa-se o sistema pressing ou o sistema comparison. O primeiro usa-se sobretudo com ameaças de que se não for assim, acontece assado, se não for deste modo, eu vou dizer. O segundo usa-se para tentar rebaixar o alvo em comparação com aqueles que são permissivos e que, como tal, são os designadamente bondosos. O senhor não faz, mas eu sei quem faz. O senhor é que não quer, porque outros fazem. O problema é que aqueles que estão habituados a estes sistemas para satisfazerem os seus desejos e necessidades são os mesmo que vão à Igreja pedir coisas com o mesmo tipo de vontade e hábitos. Cansa. Cansa mesmo. Mas a gente vai amadurecendo. E quando me dizem que vão fazer, tal como querem, a outro lado, porque o padre tal é que é bom porque faz as vontades, eu sou o primeiro a dizer-lhes que vão e que aproveitem. Ou quando me dizem que assim é que a Igreja perde as pessoas ou que assim é que as pessoas se afastam, eu recordo-lhes que não se perde aquilo que já está perdido nem se afasta aquilo que já está afastado.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A propósito de cunhas, vou meter uma cunha a Deus"

sábado, agosto 17, 2024

As leis que não são minhas

Há muitos padres que vivem facilitando a vida àquelas pessoas que fazem pedidos fora das normas, fora do Direito Canónico, fora da doutrina e, muitas vezes, longe do Evangelho e longe da fé. São, de certo modo, padres merceeiros que fazem da Igreja um supermercado e fazem das paróquias uma agência de produtos sagrados “fast food” para atrair clientes. Evito julgá-los, porque quero crer que não o fazem com má intenção. Talvez o façam porque não têm a força e coragem necessária para responder com um Não. Talvez. Talvez. Há que dizer, no entanto, que são motivo de grandes sofrimentos a outros colegas que, tentando ser honestos com a sua missão, procuram ser correctos e coerentes o mais possível com as orientações, regras e leis que também eles devem cumprir. Quando me fazem alguns pedidos a que tenho de responder Não, é meu costume recordar, a quem me faz o pedido, que as leis não são minhas. Tanto as têm de cumprir eles como as tenho de cumprir eu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não deitar lixo no cemitério"

quarta-feira, outubro 05, 2022

os crismas e as diferenças

A Cristina é uma jovem da paróquia que, depois de ter concluído dez anos de catequese, está a finalizar a preparação próxima para realizar o sacramento do Crisma. O João é de uma outra paróquia, que dista uns dois quilómetros desta, e deixou a catequese há muitos anos, logo que fez a Primeira Comunhão, pois não queria mais andar na seca da catequese. Entretanto, aquela paróquia deixou de organizar a catequese paroquial. A Cristina vai a crismar em breve nesta paróquia. O João crismou-se no ano passado na outra paróquia. São colegas na escola. Numa conversa de recreio, a Cristina contou ao João que ainda tinha uma série de encontros para o Crisma. Ela e mais alguns, como ela, estavam a fazer uma síntese da fé com a catequista, iam preparar algumas dinâmicas e animações para a celebração e parece que ainda teriam uma vigília de oração com o senhor padre. O João respondeu que apenas tinha tido uma reunião para se crismar. E bastara. O João gozou com a Cristina. A Cristina ficou triste. O João achou que o padre da paróquia dele é que era fixe. A Cristina não soube o que pensar. Não é que não gostasse do seu pároco, mas também gostava de ficar em casa em vez de ir aos encontros. Também não é que os encontros fossem propriamente uma seca, mas estava-se melhor sem eles. O João ficou na mesma, e a Cristina ficou a pensar. O João crismou-se para poder ser padrinho de papel. A Cristina é bem capaz de também se tornar apenas madrinha de papel. O João não teve oportunidade para o não ser. A Cristina está a ter essa oportunidade. Foi isso que lhe disse.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer ser padrinho"

quarta-feira, agosto 10, 2022

Assim é que querem que os jovens vão à igreja?!

Já não via há bastante tempo a cara daquela mãe. Não tem aparecido na missa nem outros actos comunitários. E também não nos temos cruzado na rua. Mas, porque se o filho tivesse concluído a catequese sem faltar poderia crismar-se no final do ano, veio ter comigo à sacristia para dialogar sobre a possibilidade deste fazer o crisma juntamente com os colegas que foram assíduos à catequese, nunca disseram, como ele, que preferiam não ir à catequese e nunca responderam mal à catequista quando esta perguntara porque faltara. Agora o discurso, pelos vistos, mudara. E a mãe que, segundo me disse, não sabia de nada e, tal como era previsível, a culpa era da catequista que nunca lhe dissera nada, agora estava preocupada. Há cerca de um ano que o filho não quer saber da catequese nem a mãe saber se o filho ia à catequese. Mas agora estava preocupada porque achava injusto o filho não fazer o crisma. Claro que lhe foram sugeridas várias soluções, mas ela só queria a que tinha na cabeça: fazer já... porque para o ano ele desiste. Como se ele não tivesse já desistido. Entretanto, para conseguir os seus intentos e porque tardava em consegui-los, achou que chantagear com a típica frase “Assim é que querem que os jovens vão à igreja?!” era o último recurso. Enganou-se, porque nem ela nem o filho vão à igreja. E por isso foi fácil perguntar-lhe qual seria a diferença entre estar crismado e não estar crismado para o filho e sua mãe irem à igreja.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

sábado, junho 04, 2022

A idoneidade do padrinho

interrogação?
Segundo o Código de Direito Canónico, no cânon 874, considera-se idónea para ser padrinho de um baptismo aquela pessoa que tenha sido escolhida pelo que vai ser baptizado, pelos pais ou, em último caso, pelo pároco ou o ministro, tenha 16 anos e maturidade suficiente, seja católico, tenha recebido o Sacramento da Eucaristia, esteja confirmada, leve uma vida coerente com a fé e com a missão que vai assumir, não seja o pai ou a mãe do que vai ser baptizado, além de que não pode estar afecta por qualquer impedimento legal da Igreja. Vale o que vale. Eu sei que são leis e normas, e o homem não vive para elas. São, no entanto, referenciais para que a missão do padrinho seja autenticamente a missão de padrinho. 
Por isso não faz sentido que alguém venha pedir uma declaração de idoneidade para que um adolescente de 12 anos, sem maturidade e sem ter o sacramento da confirmação, com uma vida de fé que podemos designar de afastada, ainda que frequente a catequese, possa exercer a missão de padrinho. Mas a mãe do adolescente pede, quase exige, porque o pároco do local onde vai ser baptizado aceita, desde que apresente uma declaração de idoneidade, sabendo este colega, à partida, que o adolescente não possui a tal idoneidade. Passa a bola para canto. Lava as mãos como Pilatos. Sossega-se e à sua consciência, na esperança de que outros decidam por ele, a favor ou a desfavor. E lá vamos nós ao mesmo de sempre, desbaratando sacramentos. Na verdade, eu não sou ninguém para garantir ou não garantir a idoneidade de alguém. Nem as leis o podem garantir. Porém, ao menos que este sacerdote assumisse a decisão, por uma questão de assumir uma coerência. Por isso é que sou de opinião que, se não se consegue proceder com autenticidade nesta matéria, que se reveja a necessidade da figura do “padrinho”. Ao menos, deixamos de fazer de conta…

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Um dia os baptismos ainda hão-de ser baptismos"

segunda-feira, novembro 08, 2021

O senhor padre não me deixa

Deixou a catequese no último ano do itinerário proposto. Deixou porque quis ir estudar para outras paragens. Para outras oportunidades. Na altura o assunto da catequese ficou encerrado. Não se pensou em alternativas à catequese. Não mais houve preocupação com estas coisas, até agora. Agora que há crisma, abriu-se de novo. Argumento principal: tive de sair para estudar fora. Não pensou foi que era nessa altura que se deveria ter tratado o assunto. Mas agora o senhor padre é que não deixa fazer o crisma. Ou seja, ele fez as opções que quis e como quis, não deu importância à catequese que lhe faltava. Sabia os requisitos. Ele não os tinha todos. Mas nunca pensou em dizer às pessoas que gostam imenso de falar na vida alheia que não podia crismar-se porque, afinal não tinha todos os requisitos necessários, em comparação com os seus antigos colegas que cumpriram o itinerário da Catequese. Só se lembrou de dizer e repetir que o senhor padre não o deixava. Como se eu tivesse alguma coisa a ver com o assunto. Eu queria muito que ele se crismasse. Não sei é se ele queria tanto como eu!