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terça-feira, maio 17, 2022

Boa tarde, meus andores e minhas andoras

igrejas cheias...
A igreja engalanara-se para a festa. Estava engalanada por todos os cantos e buracos. Mal se lá cabia. Passados dois anos sem festa por causa da pandemia, a vontade avolumara-se. Os cuidados sanitários e a segurança passaram para segundo ou terceiro plano. Ainda sugeri aos mordomos que colocassem os andores, com as respectivas imagens, na rua, junto à Igreja, de modo que a assembleia coubesse em segurança e distância. Mas qual quê! Os santinhos é que tinham de estar na Igreja, que é lá o lugar deles. No meio das flores e dos andores, para serem admirados. A festa é deles. Nem que se limitasse o número de pessoas na missa! Onde já se viu os andores na rua? Perguntou uma senhora mais atrevida, com ar de afirmação. E tinha razão. Os andores não é para andarem na rua, não senhora. Onde é que já se viu! Claro que eu também não fiz disto um cavalo de batalha. A maturidade vai-nos ensinando pelo que vale a pena lutar. E assim lá estávamos nós na Igreja engalanada por todo o lado. Pessoas de um lado e andores do outro. Metade metade. Muita gente na rua. A maioria com vontade de estar na rua. A missa começou com o habitual acolhimento. E o simpático do senhor padre começou por cumprimentar os presentes. Boa tarde, meus senhores e minhas senhoras. Boa tarde, meus andores e minhas andoras... 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "santinhos e missinhas"

domingo, março 06, 2022

menos catequese

Neste último período mais difícil da pandemia, a paróquia teve de suspender a catequese presencial, que está agora a retomar. Durante dois anos, ora há catequese ora não há. Os itinerários têm sido interrompidos ou intermitentes. Os catequistas bem tentam manter uma presença através de outros meios não presenciais. Contudo, na maioria das vezes, é apenas isso, uma presença. E embora eu sinta, tal como já o afirmei aos catequistas, que é ou pode ser uma oportunidade para tornarmos a nossa catequese mais kerigmática e menos doutrinal, a verdade é que a catequese intermitente é como uma fé intermitente. Não agarra. Não compromete. Não fomenta caminho. Ainda assim, agora que estamos a retomar as sessões presenciais, uma mãe veio ao meu encalço a pedir se a catequese poderia ser menos vezes. Ó senhor padre, assim só de quinze em quinze dias. É bem capaz de ter razão aquela mãe. Também a vida da fé deveria ser só de quinze em quinze dias. Ou até menos. Quanto menos, melhor, Senhor. Menos catequese, por favor! Menos… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nem Pai-Nosso nem Avé-Maria"

quarta-feira, fevereiro 16, 2022

A pandemia está a retirar-nos alguns bairrismos escusados

Uns dizem que a pandemia está a acabar e outros que está para durar. Uns dizem que a vida tem de continuar e outros ficam a vê-la passar. E algo similar se passa dentro da Igreja, onde se dá conta de uma série de mudanças que a pandemia tem desvelado e de uma série de mudanças que se têm tornado ainda mais urgentes. Diz-se que o mundo não mais será o mesmo depois desta pandemia. Eu digo que a Igreja ou a sua acção não voltará a ser igual. Tenho pensado muito nisto. Tenho reflectido e amadurecido algumas posturas e pastorais. E reconheço que, quase naturalmente, alguns pequenos processos vão-se tornando parte de uma grande conversão. Pelo menos nas comunidades que, pastoralmente falando, coordeno. Dou alguns exemplos. 
Nalgumas das minhas comunidades mais pequenas, a missa destes últimos tempos tem sido quando é possível, ou seja, quase sempre fora do fim-de-semana. Não têm reclamado não terem missa no Domingo e aceitam a possibilidade que lhes é oferecida. Talvez tenham aprendido que o Domingo é o dia do Senhor, mas que em qualquer dia podemos celebrar a Páscoa do Senhor. 
Nalgumas das comunidades maiores, as pessoas vão-se sentando, à medida que entram na igreja, nos lugares que lhes são indicados pelos ministros do acolhimento, e não no lugar a que se habituaram e que preferiram ou a que se acomodaram durante anos como um direito adquirido. 
Há paroquianos que, cada vez mais, começam a ir à Eucaristia da paróquia maior, porque sabem que ali há sempre eucaristia. A mobilidade que usam para o comércio, usam agora para a celebração da fé. 
A comunicação saiu da Igreja, para além do púlpito, e começou a ser mais usual e visível em outros âmbitos, sobretudo as plataformas virtuais e digitais. Dizem-me que a comunicação está muito melhor e menos fechada. 
Dá-me a sensação de que os ritmos e hábitos dos fiéis estão a ser reconfigurados com uma certa naturalidade. A pandemia está a retirar-nos alguns bairrismos escusados. E está a alargar os nossos horizontes.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A pandemia descristianizante"

terça-feira, janeiro 11, 2022

Deus não podia ter criado o covid-19

Uma senhora devota, em resposta ao padre que dissera na televisão que Deus, às vezes, manda uma doença como a covid-19 para que as pessoas se convertam e mudem de vida, estava muito zangada numa rede social a queixar-se do padre. Como poderia ele pensar que Deus cria um mal – pois que o vírus é um mal – para o homem?! 
Embora a senhora tenha boa intenção e tenha uma imagem de Deus muito boa, como um Pai que ama sem medida e tudo faz de bem pelos seus filhos, a verdade é que ela também se aproxima de uma heresia, pois parece dar a entender a existência de uma outra entidade criadora para além de Deus. Os vírus, tal como as bactérias fazem parte da natureza. Assim como as minhocas, os mosquitos, os elefantes, e demais seres vivos. Assim como os vulcões, os terramotos e as inundações, e demais fenómenos naturais que causam aflição, destruição e mortes. Contudo, o facto de o mundo criado por Deus ser assim, não quer dizer que Deus seja mau ou que crie e proceda com maldade. Apenas diz de um mundo transitório como este, no qual nos é dada a oportunidade de nos superarmos, por dentro e por fora, num caminho que não é feito só de rosas. O que nos acontece de mal, embora doloroso, às vezes até é uma oportunidade. Uma oportunidade de fazer escolhas, de estar atento ao mais necessitado, de sermos maís fraternos uns com os outros, e com todos os seres criados, de tomarmos consciência da nossa finitude e humanidade frágil. 
 

sexta-feira, janeiro 07, 2022

Deus mandou o covid-19 para que as pessoas se convertam

Deus, às vezes, manda uma doença como a covid-19 para que as pessoas se convertam e mudem de vida. Foi mais ou menos isto que um jovem padre disse numa televisão. Não sei qual é a formação teológica ou a ideologia que está por detrás desta afirmação, mas é do mais contrário que pode haver ao Evangelho. Afinal, Jesus veio para curar ou para adoecer? Jesus veio para curar doenças e não para provocar doenças de modo a alcançar a conversão das pessoas. Isso seria uma chantagem e Deus não faz chantagem. Deus ama e quem ama não chantageia. Tampouco se impõe. Antes se propõe. O Deus a quem Jesus chamou Pai e que nos ensinou igualmente a chamar Pai, não faz uma coisa destas. O jovem padre tem uma imagem de Deus errada. Como se fosse um castigador, sem olhar a meios e sem escrúpulos. O jovem padre da televisão pode até ter uma relação com Deus, mas é uma relação através do medo e não através do amor. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Os filhos do pecado"

sexta-feira, dezembro 24, 2021

Natal da Esperança

O nascimento de Jesus, já lá vão mais de dois mil anos, não ocorreu em circunstâncias muito cómodas e favoráveis. Dizem as Sagradas Escrituras que nasceu num estábulo porque não havia lugar para ele nas hospedarias. O cheiro nauseabundo do estrume e as palhas da manjedoura serviram o nascimento de Deus entre os homens. As poucas visitas que teve imediatamente a seguir ao nascimento, são de pastores que por ali andavam a trabalhar. Não teve festa nem holofotes. Aliás, não demorou muito para que os seus pais, procurados pelas autoridades policiais do tempo, tivessem de fugir com ele, clandestinos, cruzando fronteiras, para se colocarem a salvo. Se fosse filho do imperador e nascesse nos palácios do reino, no meio das centenas de criados e escravos, não seria uma boa notícia num mundo em que os fracos são vítimas de todos os tipos de abuso! 
Embora na sociedade e época em que vivemos, o Natal possa parecer um conto de fadas alimentado com muitas luzes, canções festivas, manjares suculentos e prendas à mistura, a verdade é que Deus encarnou num ambiente paupérrimo, sem parteiros, desalojado pela sociedade, acompanhado apenas por alguns dos seres mais periféricos, os pastores e os animais. Mas é o Salvador de que precisamos. Nele se instaura a esperança de uma vida com sentido, apesar da debilidade e das adversidades. 
Hoje, mais do que nunca, no meio de tantas crises sociais e de uma crise sanitária sem precedentes, vale a pena recordar como Deus veio ao Mundo para que a nossa esperança fosse a verdadeira Esperança! Voltemos às raízes da nossa fé. Busquemos a Deus onde ele encarnou. Num mundo em desesperança, aí encontraremos a Esperança! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nasceu numa humilde casa"

sexta-feira, julho 02, 2021

preocupado com a eucaristia

Num diálogo sobre estes tempos de pandemia e pós-confinamentos, um colega mostrava a sua preocupação com a frequência ou participação nas eucaristias. Tinha-lhe sido pedido que falasse sobre as suas dificuldades paroquiais e falava com paixão e, ao mesmo tempo, com alguma tristeza, sobre os dados. Contudo, não falou senão sobre as eucaristias. Como se o anúncio da Boa Nova da Salvação se resumisse à Eucaristia e a fé se medisse por este sacramento. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Todas as semanas têm um domingo"

terça-feira, junho 01, 2021

A esperança é a última a morrer

A expressão “a esperança é a última a morrer” incomoda-me, porque a verdadeira esperança está muito para além de nós. E é essa que pode dar sentido à nossa vida e à nossa mortalidade. Temos de viver em confiança. Mas em confiança da realidade. Temos de viver em esperança. Mas em esperança do que há-de vir e que Deus nos tem preparado. O João, em poucos dias, em poucas semanas, regrediu na doença que pensara ter superado há uma década. Agora anda de médico em médico e de exame em exame, assustado. E dizia-me que a esperança era a última a morrer. Como se a esperança fosse a última coisa a morrer nele ou morresse ele primeiro que ela. 
Apesar de não gostar muito da expressão também eu a usei e continuo a usar muitas vezes. Mas agora, e no meio desta pandemia que nunca mais parece querer deixar-nos, começo a não gostar muito de frases feitas que me parecem um kitsch. E esta tem esse sabor agridoce de quem quer dizer a alguém que a coisa está mal, mas que não se deixe levar pela coisa. E cada vez mais penso que a verdadeira esperança só pode brotar da realidade, isto é, a esperança surge em nós, no meio das dores da vida, tanto quanto consigamos encarar com naturalidade a vida tal como ela nos é dado viver em cada momento e tal como quem a criou a projectou. Não será uma esperança balofa. Será uma esperança ancorada na certeza de que Deus tem, não só um projecto de vida magnífico para nós vivermos, como uma vida eterna de amor à nossa espera. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "É que me lembrei da esperança"

sábado, fevereiro 27, 2021

ver a missa

Recebo diariamente notificações de alguns órgãos de comunicação social no computador, sobretudo de cariz religioso. Como um que, desde o início deste novo confinamento, envia diariamente uma notificação a dizer: “veja a missa diária em…”. Não sei se a escolha do verbo usado é de propósito ou não. Mas há dias estacionei os olhos nessa notificação e dei por mim a concordar com ela. Porque, nestes moldes, é mais verdade dizer que se vê a missa do que dizer que se participa nela, por mais boa vontade que as pessoas tenham, por mais que a eucaristia seja fulcral na vida dos cristãos e por mais que estas celebrações sejam as celebrações eucarísticas públicas possíveis nestes tempos confinados. 
Para valorizar de verdade as igrejas domésticas que são as famílias, tenho-me esforçado, em conjunto com alguns colegas, por providenciar aos meus paroquianos, semanalmente, uma celebração familiar dominical, em linguagem acessível e o menos clerical possível, com o essencial de uma celebração da Palavra, comunhão espiritual e um gesto para vivenciar um compromisso. 
Sou de opinião que, nestes momentos em que nos encontramos privados da eucaristia comunitária presencial, mais importante que assistir passivamente à missa, seja na rádio, na televisão ou nas plataformas digitais, muitas vezes em zapping, é participar presencialmente numa celebração da Palavra ou outra oração similar, sobretudo em família. Devíamos aproveitar esta oportunidade para transformar os nossos lares em igrejas, pois a comunidade paroquial é uma família feita de várias famílias, é uma Igreja feita de várias Igrejas domésticas. 
Se já antes era mais cómodo assistir à eucaristia presencial do que participar activamente nela, agora ainda se tornou mais cómodo fazê-lo do sofá, e não acho possível celebrar a fé como quem assiste. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "a senhora vai à missa"

terça-feira, fevereiro 23, 2021

em parte sim e em parte não

Um colega padre queixou-se publicamente da proliferação de transmissões digitais da Eucaristia Dominical, nomeadamente no Facebook e no Youtube. Dizia que bastavam as eucaristias transmitidas pela televisão, e que estas, sim, deveriam ser mais valorizadas. Que andar a celebrar missas em cada capelinha, quase como se fosse à la carte, para já não falar na busca de likes e seguidores, era um contrassenso com a “comunhão” que tanto se ouve nas bocas dos “pastores” e com o sentido da Igreja que dizemos ser “católica”. 
Mas, se por um lado, ele tinha razão, por outro, também era capaz de não a ter. Foi assim que um outro colega começou a falar perante o raciocínio que o primeiro expôs. Em parte tem razão e em parte não, comentou. Se assim fosse também não precisaríamos de ter 4.000 paróquias. Bastava Fátima. Ou 5.000 dioceses. Bastava Roma. Ou 400.000 padres. Bastava o papa. A igreja é, e sempre foi, uma comunidade de pequenas comunidades. E nem Jesus queria que as multidões andassem atrás dele: “Vai para casa, para junto dos teus, e conta-lhes o que Deus fez por ti!”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "As missas ou missinhas"

domingo, fevereiro 21, 2021

tanta falta nos faz a missa

Liguei, que ela não sabe ler mensagens. Por isso não tinha lido a mensagem que eu enviara. Como enviara para muitos outros paroquianos neste domingo, dia do Senhor, dia em que, se pudéssemos, nos reuníamos em comunidade a rezar e a celebrar a nossa fé. Ficou quase engasgada pela lembrança. Pelo telefonema. Agradecia e repetia insistentemente que a aldeia, sem o senhor padre, parece uma aldeia fantasma. Depois dizia que nos domingos era uma tristeza. A missa na televisão não é a mesma coisa. Faz-nos falta o nosso padre. Ai ora eu, ora eu. O que nos havia de calhar. E tanta falta nos faz a missa. Tanta falta, senhor padre.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

sexta-feira, fevereiro 12, 2021

as vacinas do poder

Segundo informações de um jornal da praça pública, mais de 800 padres em Portugal foram vacinados na primeira vaga de vacinas anti-covid que eram destinadas para os prioritários dos prioritários. Os dados fizeram-me pensar, embora o jornal em causa seja um órgão de comunicação social pouco credível e eu deseje crer que, se calhar, muitos desses padres apenas se deixaram levar na onda da vacinação que estava ao virar da esquina e à mão de semear, na IPSS que dirigem ou que algum amigo dirige ou que frequentam sistematicamente. Quero crer que não foram vacinados por chico-espertismo. E por isso evito julgar cada caso, porque cada caso será um caso. Mas quero pensar na generalidade. E a situação, a meu ver, tem no plano eclesiológico, ao nível hierárquico, ao menos, duas frentes de observação. 
Em primeiro lugar, a facilidade com que uma situação destas ocorre, realça que, para além de vivermos num tipo de sociedade que se alimenta de aproveitamentos e cunhas, é uma sociedade em que isso se tornou tão banal e natural que, pelos vistos, nem o clero lhe parece imune, mesmo que ética e moralmente tivesse um certo dever de lhe ser imune.
Por outro lado, esta vacinação menos devida ou claramente indevida, parece também demonstrar como ainda existe dentro do clero quem use o lugar que ocupa, não como um serviço, mas como um poder. Não digo que seja radicalmente aquele tipo de poder que gosta de mandar em tudo. Mas aquele tipo de poder que se acha no direito de poder. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O padre é o 'tem de'"

sábado, fevereiro 06, 2021

A Betinha e a Senhora

A avó ofereceu à Betinha uma Nossa Senhora de Fátima. É uma imagem muito branquinha. Fica bem com o rosto níveo e pequenino da Betinha que fez há pouco tempo cinco aninhos. 
A ‘Senhora’, como a trata habitualmente, está na sua mesinha predilecta. Elogia-lhe a coroa e ai de quem lha tirar. Ninguém lhe pode mexer. Mesmo quando a mãe vai limpar o pó, não se livra de ouvir os cuidados que deve ter com a ‘Senhora’. Passa horas a conversar com ela. Neste tempo da pandemia conversa seriamente com ela sobre o que vai ouvindo a propósito do coronavírus que tem levado os velhinhos todos para o céu. Ela sabe que Jesus está lá no céu, mas era melhor a ‘Senhora’ ajudar as pessoas. 
Embora menos, às vezes também a trata por ‘Maria’. Sabes, Maria, eu vejo pessoas sem máscara, velhinhos e novos também. Eles são teimosos. Diz ao Jesus para lhes dizer que não estão a fazer bem. Eu sou pequenina e ponho. O bicho não se vê. Sopra-lhes ao ouvido. E, depois deste diálogo, reza sempre uma Ave-maria.
Nos dias mais frios coloca a ‘Senhora’ por detrás da foto dela, que também está na mesinha, e diz que assim a ‘Senhora’ não se constipa. Mais curioso é que, quando estão a rezar lá por casa e a irmã de três anitos diz que não quer ouvir, a Betinha diz “ai se a ‘Senhora’ sabe fica triste... Tu só fazes isso porque ainda não foste batizada e não descobriste que tens uma pessoa, que não vês, que te adora”. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Chama-se Jesus"

terça-feira, fevereiro 02, 2021

paróquias com seguidores

Esta pandemia causada pelo novo coronavírus tem feito aumentar a presença das comunidades cristãs nas redes sociais. Com tudo o que isso possa trazer de bom e de questionável. Eu sou de opinião que é uma presença credível e oportuna. Em muitos casos poderá ser o modo mais viável de os agentes pastorais dessas comunidades prosseguirem a sua acção junto dos restantes elementos da comunidade. Poderá ser um modo excelente de alimento da fé. E embora a celebração da eucaristia na web seja mais uma transmissão que uma celebração, não discordo completamente de que possa ser momento de oração e de uma certa celebração. Portanto, a presença das paróquias ou unidades pastorais nas redes sociais torna-se cada vez mais uma oportunidade. Eu mesmo faço uso desta ferramenta. 
Contudo, algo no meio desta situação me tem intrigado. Sobretudo porque tenho recebido vários convites para seguir páginas de facebook de paróquias e comunidades cristãs que desconheço. Que não têm nenhum tipo de proximidade comigo para além da fé que nos une. Não sei porque os recebo. Mesmo tendo em conta que as partilhas possam ser úteis, que conhecer e acolher outras realidades é sempre positivo, e que a comunhão da Igreja está muito para além das minhas comunidades ou das comunidades que me são próximas. Fiquei a pensar se não seria, mais uma vez, aquela obsessão típica destes tempos em que vivemos, aquele modo de viver que se gasta a procurar seguidores, visualizações e likes. 
 

sábado, janeiro 30, 2021

legalizar a eutanásia

No meu país está de moda o progressismo ideológico. Está de moda o que parece bem a uma civilização dita moderna. Mas confundem-se os conceitos. A maioria dos cidadãos nem sabe bem o que significa ser uma sociedade moderna. E tanto o sistema como o anti-sistema, aliados ao mundo prolífero dos milhares de opinadores sem argumentos que temos em cada computador ou telemóvel e que o mundo virtual potenciou, fazem deste meu país um país do um certo faz de conta. É um país que não se capacita o suficiente para melhorar as condições sociais, sanitárias e humanas dos cidadãos, mas está disposto a favorecer-lhes a morte. 
Estamos, ao momento, a lidar com uma situação sem precedentes numa luta contra uma pandemia que nos colocou na cauda do mundo, e no parlamento português a preocupação dos deputados é a legalização da eutanásia, que aprovou ontem, para se tornar o quarto país na Europa e o sétimo no Mundo a fazê-lo. 
E se alguém manifesta a sua discordância, porque tem tanto direito como aqueloutro que defende o contrário, é logo apelidado, por uma certa opinião pública, de conservador e de juiz da vontade dos outros. Como se o contrário não fosse exactamente um juízo sobre a vontade dos outros e como se defender a vida fosse ser antiquado.
Todos somos frágeis e cometemos erros. Cada um de nós comete erros e vive no meio de fragilidades. Portanto, todos devemos usar e usufruir da misericórdia e do perdão quando fazemos opções erradas com a nossa vida. Mas um estado, uma sociedade, este modo organizado de vida uns com os outros, deve procurar a defesa da vida e não a defesa da morte, sempre e a todo o custo. É a principal garantia que se deve dar a cada indivíduo. 
Além disso, na constituição do meu país, no número 1 do artigo 24, pode ler-se que “a vida humana é inviolável”. Ou os deputados deste meu país também vão rever este artigo para justificar a sua decisão? O referido artigo não diz que o direito à vida é inviolável, mas que a vida é inviolável. Neste momento, o Estado não está a ter a capacidade de garantir a vida a quem quer viver, mas quer ter o poder de conceder a morte a quem quer morrer. 
Estou triste e estou a fazer um esforço para não gritar contra quem não quer que eu dê minha opinião, mas quer que eu aceite a sua. E ainda aproveitam a ocasião para denegrir a Igreja. Sim, porque sempre que um padre fala sobre este assunto, atacam-no como Igreja e não como a pessoa que tem uma opinião diferente e que tem tanto direito como o oponente a dar a sua opinião. Ou como se a Igreja, mesmo que frágil, não pudesse emitir a sua opinião ou defender uma causa.
Estou consciente do quão difícil é sofrer e ver sofrer alguém que amamos. Não me podem contradizer como se não o soubesse na primeira pessoa. Estou convencido, porém, que o sofrimento não se combate com a morte, mas com soluções que minimizem o mesmo sofrimento. Legalizar a eutanásia é a oportunidade para um Estado se demitir de encontrar ou reforçar soluções como os cuidados paliativos e os cuidados continuados, entre outras similares. 
Estou convencido que, mesmo no maior sofrimento, ninguém quer morrer. O que essa pessoa pretende é não sofrer. E era aqui que o meu país devia gastar as suas energias num tempo em que todos, de um modo ou de outro, estamos a sofrer.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Dona da minha vida"

domingo, janeiro 03, 2021

A pastoral das mensagens

O Bispo disse isto. O bispo falou de. O bispo escreveu uma carta pastoral. O bispo redigiu uma nota. Na mensagem do primeiro dia do ano o bispo afirmou. Na de Natal pediu. Ou alertou. Na homilia tal referiu que. E por aí fora, num rol de notícias ou ocorrências que mais não são que dizeres e mensagens. Ou seja, a pastoral que fazemos parece, muitas vezes, reduzir-se a notas, cartas pastorais, mensagens e similares. 
Sem desprimor do conteúdo desses conjuntos de palavras, acaba por se tornar cansativo ler tanta coisa que se diz e se repete, quase como que a ver quem diz primeiro aquilo que toda a gente já sabe que vai ser dito. Não digo que não seja importante, mas acaba tornando-se muito cansativa tanta leitura ou mensagem que se consome por estes dias. Ainda por cima, a pandemia causada pelo novo coronavírus e as condicionantes pastorais que trouxe consigo, vieram acicatar esta como que necessidade de se dizerem coisas. Vieram fomentar a necessidade de nos fazermos escutar e de manifestarmos uma presença. 
Este proceder é, de certo modo, consequência de uma sociedade líquida e pós-moderna, em que tudo é volátil e há uma necessidade constante de ter uma palavra e preencher o vazio do silêncio. Contudo, pessoalmente acho que o silêncio da intimidade com Deus é capaz de ser escutado com mais intensidade que as muitas palavras proferidas. E sou de opinião que a melhor acção pastoral são as obras. 
Por isso, ao ver alguns canais de comunicação da nossa Igreja, canso-me de tanta mensagem que pouco acrescenta ao que já foi dito noutras mensagens. Quando a mensagem é só uma. Quando o mensageiro é só um. A mensagem da Igreja é a Boa Nova da Salvação. E o seu mensageiro é Cristo. Assim o dizem os documentos da Igreja e assim o creio também. Mesmo que as centenas de mensagens sejam valiosas e importantes, a nossa Igreja deveria dar mais espaço à Mensagem.  
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As mensagens de natal ou que tal"

terça-feira, dezembro 29, 2020

o inimaginável Deus vulnerável

O Deus que encarnou e se fez menino foi acomodado em palhas, numa manjedoura, sob os olhares de vacas, burros e ovelhas. Não sob o olhar de holofotes e de câmaras de televisão e jornais. Não teve as melhores condições sanitárias para vir ao mundo. Não teve direito nem a clínicas privadas nem a hospitais públicos. Não teve sequer lugar numa hospedaria. Encarnou junto dos animais, na solidão dos homens e sob a ameaça de um genocida. Nasceu na maior humildade e fragilidade da natureza humana. 
Deus quis entrar na nossa história anónimo e escondido, frágil e pobre, um deus vulnerável. O inimaginável Deus vulnerável! 
O Natal é a memória da vinda de Deus entre nós, na carne frágil, vulnerável e mortal que nós somos. A partir daquele dia, não se pode mais dizer Deus sem a humanidade, nem a humanidade sem Deus! A partir daquele dia, o sofrimento, a morte e o mal não terão mais a última palavra. 
Há que dizer, portanto, que, apesar dos tempos em que vivemos, nada nem ninguém nos tira o Natal, porque o verdadeiro Natal acontece nos nossos corações! É lá que Deus quer encarnar! É lá que Deus quer habitar! Talvez assim consigamos olhar o mundo e todas as adversidades do mundo com um novo olhar que brota de um coração cheio de Deus! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Há gente para quem o Natal é só uma data"

sábado, dezembro 05, 2020

Mãos ao alto

Uma paroquiana que é funcionária na escola e que tem a responsabilidade de fazer com que os meninos, à entrada, desinfectem as mãos, contou-me que aproveitava a ocasião para lhes ensinar a por as mãos ao Senhor. Mão direita sobre a esquerda. Alcool Gel e esfrega. Agora volta as mãos para o alto e agradece a Jesus o dom da vida. E não é que os pequenitos fazem os gestos, olham para o alto, e esboçam uma oração!? 
Lá está, não precisamos de grandes planos e programas de pastoral e de evangelização. O que precisamos é de cristãos que diariamente, mesmo em pequenos gestos, falem de Jesus e, mais ainda, testemunhem Jesus. Mãos ao alto, por favor! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Obrigado pela fé que me deste"

segunda-feira, novembro 16, 2020

Doer sem tempo para doer

Morre-se mal nestes tempos. Muito mal. Nos funerais em tempo de pandemia morre-se por fora e por dentro. Um pedaço enorme de nós seca. Seca curiosamente diante das despedidas reduzidas a lágrimas. Sim, na maior parte dos funerais, a despedida é feita quase exclusivamente de lágrimas. Que nos secam por dentro. 
E hoje sei na primeira pessoa que assim é. Quando não foi possível despedir-me como queria do meu cunhado mais velho. Ou seja, do meu irmão mais velho. Sem o ver. Quase sem tempo de velório. Na ansiedade de autopsias e testes covid, porque assim tem de ser para quem morre na via pública. Cinco dias disto. Cinco dias a segurar lágrimas às escondidas da minha irmã. Pois que as suas eram mais abundantes e mais constantes. Na verdade, serviu para amadurecer a dor. Para escolher bem as leituras e a homilia. Graças a Deus que foi possível celebrar a missa com a família, porque em muitos casos e zonas nem é possível. Nem a missa nem o velório. Tudo se reduz a uns quinze minutos no cemitério com poucas presenças. Vem-me constantemente à ideia as centenas de amigos que ficaram sem se despedir, porque não cabiam na despedida. 
A nossa despedida foi muito digna. Foi uma festa linda. Entregámos tudo a Deus e respondemos à dor com a fé. É o que resta. É o que vale. Senti, porém, que estes funerais são como uma ferida que tem de sarar por si mesma, numa imunidade forçada sem remédios. Uma dor sem tratamento. As perdas deixam cicatrizes. Sem tempo para a despedida, para o luto da despedida, a ferida fica escondida. E dói mais. É quase como doer sem tempo para doer. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Levar com alegria o sofrimento?"

quarta-feira, novembro 11, 2020

parece que nos estamos a despedir de criminosos

Há vários dias consecutivos que um colega tem feito funerais de pessoas que foram vítimas do novo coronavírus. Ao momento que redijo este pequeno texto, já lá vão uns cinco. E amanhã vai outro a sepultar. E contava. As minhas celebrações exequiais – que são no cemitério, recordo - estavam a durar apenas uns quinze minutos. Agora não chegam a dez! Tenho pena desta gente. Às vezes parece que nos estamos a despedir de criminosos. Completava, depois, com muita mágoa nas palavras. Deus nos ajude a ser instrumentos de esperança e conforto na dor de quem chora. 
 
 A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Funerais a fugir"