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sábado, novembro 01, 2025

A formação nos Seminários

A tradição tridentina dos seminários modelou uma geração de sacerdotes separados do mundo e do Povo de Deus. Com razão, o concílio de Trento insistiu na necessidade de formar os padres porque estes tinham uma formação muito frágil. No entanto, o afastar os seminaristas da realidade em que vivem e hão-de um dia servir, gera uma tendência ao clericalismo, ao espírito de castas e eleitos, promovendo a sensação de superioridade em relação ao Povo de Deus. A figura do sacerdote reveste-se, deste modo, de uma sacralidade excessiva que, mesmo sem querer, o vai afastando da realidade que é o mundo. Os seminários não podem formar presbíteros distantes, autorreferenciais ou rígidos. Devem formar pastores verdadeiramente humanos e próximos das pessoas. Devem formar acompanhadores dos fiéis e não ministros do culto. 
Com frequência a formação nos seminários tem privilegiado a separação, a sacralização da figura clerical e o autoritarismo, em vez de formar para o serviço, a humildade e a proximidade com o Povo de Deus. Depois de um concílio Vaticano II pendente, parece que volta esse estilo de formação, ou melhor, de candidatos que buscam esse tipo de formação. Temos de rezar mais pelos seminários, pelos seminaristas e seus formadores, pelos candidatos ao ministério ordenado e pelos responsáveis da pastoral vocacional, para que se procurem e encontrem caminhos que formem ministros da humanidade e do amor de Deus, e não tanto ministros do culto, sem mais.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As perguntas que hoje faço"

quarta-feira, setembro 24, 2025

O multiculturalismo eclesiástico

O multiculturalismo chegou à hierarquia eclesiástica. Um em cada dez padres em Espanha vem de outro país. São oriundos, na sua maioria, da América Latina. Em Portugal a percentagem ainda não chegou a estes números, mas vai-se impondo a mesma realidade. Na minha diocese já se incardinaram alguns e aumenta o número dos que vão chegando, sobretudo de países lusófonos. Todos eles vão chegando com a sua bagagem vital e espiritual para acompanhar comunidades bem diferentes daquelas que conhecem. Não entendem determinadas devoções enraizadas e tentam introduzir costumes das suas terras. Têm dificuldade em se relacionar com o presbitério nativo e, não raras vezes, também são olhados com alguma desconfiança. Não se sabe ao certo se vêm em missão ou por uma oportunidade. Mas a realidade impõe-se. 
As novas edições do Anuário Pontifício de 2025 e do Anuário Estatístico da Igreja com dados relativos a 2023, editados pelo Departamento Central de Estatísticas Eclesiásticas da Secretaria de Estado do Vaticano, dão conta que o número de sacerdotes diminuiu ligeiramente (-0,2%), sendo a Europa a detentora da maior diminuição (-1,6%) e África (+2,7%) e Ásia (+1,6%) os continentes com maior aumento. Quanto ao número de seminaristas, entre 2022 e 2023 registou-se uma quebra de 1,8%, numa diminuição que se estende a todos os continentes, com excepção da África, onde os seminaristas aumentaram 1,1%. Se a Europa levou a Boa Nova a países que foi designando de países de missão, agora é desses países que a Europa vai recebendo clérigos. É o que Zygmunt Bauman chama de era das diásporas no que se refere à migração em geral. 
A aceitação da diferença num mundo global é altamente positiva e um anseio verdadeiramente cristão. Mas veremos se o multiculturalismo eclesiástico não redunda em multicomunitarismo eclesiástico, um fenómeno que, segundo o mesmo sociólogo, em termos gerais, se refere às pessoas que vivem umas ao lado das outras, mas se fecham e barricam na sua comunidade ou modo de vida. A Europa é hoje local de missão. Mas estará a Igreja preparada para este fenómeno religioso? 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como será a Igreja daqui a vinte ou trinta anos?"

quarta-feira, maio 07, 2025

Não há clones ou fotocópias de papas.

Por muito que haja quem se tenha identificado com o Papa Francisco por causa da sua simplicidade, proximidade e humanidade, é bom recordar que não há pessoas iguais e que, por esse tão básico motivo, o próximo Papa não será igual a Francisco. Quando, em 1958, se elegeu o cardeal Angelo Roncalli, que assumiu o nome de João XXIII, muitos interpretaram a escolha, por causa da idade dos 77 anos, como a escolha de um Papa de transição. No entanto, foi ele que convocou o grande Concílio Vaticano II. A sua morte em junho de 1963 deixou em risco o futuro do concílio que convocara. Sucedeu-lhe Giovanni Montini, o Papa Paulo VI, que não só continuou, como deu prioridade e direcção ao Concílio. A ele se deve a consistência e clareza que este acabaria por ter, embora ainda tenham ficado algumas pontas soltas. Parece-me, no entanto, que ele foi o Papa que o Concílio precisava. Não abordo o breve pontificado de Albino Luciani, que assumiu os nomes dos seus antecessores, João Paulo I, numa íntima ligação com estes, nem o longo pontificado de Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II, eleito na busca de alguma moderação depois de uma votação renhida entre dois candidatos, um da ala progressista e outro da ala conservadora. Mas recordo a renúncia de Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, homem de clareza doutrinal e teológica que sucedera naturalmente a João Paulo II e sentira que tinha de dar lugar a outro. O cardeal Jorge Mario Bergoglio veio do “fim do mundo” e, de todos os papas pós-concílio, foi o que mais o tentou levar à operatividade, sobretudo com a Igreja em saída missionária e com a Igreja sinodal. Não há clones ou fotocópias de papas. Não se espera que haja um novo Jorge Mario Bergoglio. Espera-se que venha um Francisco II, um Paulo VI, um João XXIV, um João Paulo que seja, ou simplesmente o Papa que a Igreja precisa neste tempo e que Deus lhe há-de dar. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os papas são homens?"

segunda-feira, abril 21, 2025

Agradeçamos

"Abençoe-vos Deus Pai Todopoderoso: Pai, Filho e Espírito Santo". A conclusão ordinária de cada celebração ganhou ontem, na celebração de Domingo de Páscoa, em Roma, um alcance maior, porque foram as últimas palavras públicas que se escutaram da voz em dificuldade do Papa Francisco. Hoje o mundo, em geral, e a Igreja, em particular, acordaram com a notícia dolorosa da sua partida para a Casa do Pai. Curioso como Francisco parte na segunda-feira de Páscoa, depois de celebrarmos a Ressurreição do Senhor. A vida é um caminho peregrino para esta meta e, às vezes, o caminho culmina com um calvário. No caso do Papa, desde 14 de fevereiro que se foi avizinhando este momento que a grande maioria dos crentes não queria que chegasse por tanta coisa pendente que ele vinha fazendo desde 3013, desde o início do seu pontificado. Mas isso compete a Deus, porque a Igreja é sua e não dos Papas. Confiemos que os 135 cardeais eleitores façam a escolha do Espírito Santo para o Papa que a Igreja de hoje precisa. Entretanto, que a Igreja entre por inteiro em acção de graças pelo dom da vida e missão deste Francisco que nos trouxe de volta o Francisco que há 800 anos também operou uma revolução no íntimo da Igreja. 

Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que recusou a grandeza, escolheu a simplicidade, trocou o poder pela proximidade, preferiu não ser príncipe para ser servo e pastor, e por isso foi luz de um Deus que é sempre misericórdia. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa das periferias, dos pobres, dos recasados, dos abusados, dos esquecidos, dos últimos, de todos. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da evangelização sempre nova e dos discípulos missionários, da Igreja em saída missionária e em estado de missão, da Igreja sinodal como Povo de Deus peregrino e da Igreja como hospital de campanha, de portas abertas. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que resgatou o Concílio Vaticano II e que deu impulso a uma Igreja mais corresponsável, participativa, ministerial e sinodal. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da reforma da Cúria, assim como da colegialidade e da descentralização. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa dos pastores com cheiro a ovelha e que caminham à frente, ao lado e atrás. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que valorizou os leigos e as mulheres. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da Casa comum que é urgente cuidar e da Fraternidade universal que não se pode esquecer. 
Agradeçamos pelo Francisco que Deus nos deu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

quinta-feira, agosto 29, 2024

Como será a Igreja daqui a vinte ou trinta anos?

Temos assistido a um declínio acentuado na frequência dos sacramentos e das celebrações de culto em geral. Cada vez mais os baptizados, apesar de terem recebido o sacramento, vivem como se a Igreja não lhes dissesse nada. A acção pastoral era iminentemente paroquial, mas as paróquias não só têm vindo a definhar, como o número de vocações ao sacerdócio ministerial tem vindo a diminuir. Com o fim da cristandade, aos poucos, a Igreja vai deixando de ser uma maioria. A teologia destes dois últimos séculos e o magistério da Igreja, especialmente graças ao Concílio Vaticano II, fez-nos perceber que o objectivo da evangelização não é impor uma cultura cristã, mas convidar à fé. Ser cristão é muito mais que uma questão cultural. Vivemos, pois, numa fase pós-cristandade, onde o que conta não é o número, mas a autenticidade da fé. O grande esforço de hoje é repensar a nossa acção eclesial e pastoral para chamar à fé, iniciá-la, aprofundá-la e alimentá-la. Não está fácil deixar cair o “sempre se fez assim” para nos tornamos uma Igreja verdadeiramente missionária. Com o ritmo da “manutenção”, falta-nos tempo para pensar seriamente sobre como queremos a Igreja daqui por uns vinte ou trinta anos.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Este é o tempo da desgraça ou da graça?"

segunda-feira, junho 10, 2024

Os novos missais

Também tive resistências em mudar o meu e o hábito das pessoas com o novo missal que, em Portugal, foi preparado e aprovado pela Conferência Episcopal Portuguesa a 19 de Novembro de 2019, validado pelo Papa Francisco e confirmado pela Santa Sé a 13 de Outubro de 2021 e que entrou em vigor a 14 de Abril de 2022. Recordo a dificuldade que tive em aceitar a mudança e as justificações que fui arranjando para adiá-la. Percebi em pouco tempo que, mesmo que não concordasse com algumas das alterações a nível metodológico, teológico e litúrgico, fazia sentido dar esse passo, sobretudo em razão e em nome da comunhão que defendo na Igreja. 
Entretanto, para meu espanto, passados estes dois anos, nalgumas paróquias - pelos vistos bastantes - continua-se a usar o missal antigo e alguns colegas pouco ou nada fazem para usar o novo. Ainda há dias um deles me dizia que não mudava porque não gostava da linguagem de algumas orações. Naturalmente que estranhei a justificação, uma vez que ele ainda não manuseava o novo missal. Também não deve ter sido muito diferente quando, em 1969, Paulo VI promulgou o novo missal romano, fruto da determinação do Concílio Vaticano II. As mudanças custam sempre. Mas se não existissem, não sairíamos do passado e nunca seria presente. Valha-nos ao menos que, por este andar, em Portugal os novos missais serão sempre novos.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre não é bom da cabeça"

quinta-feira, setembro 01, 2022

Um concílio desconhecido

Já não é a primeira vez que falo do Concílio Vaticano II nas homilias. Os meus paroquianos hão-de saber, ao menos, que existiu algo tão importante que mudou substancialmente o rumo da Igreja, que passou a ser um pouco mais comunhão que elite, um pouco mais aberta ao mundo que fechada em si, entre outras tantas ‘revoluções’ que pediram uma Igreja mais humanizadora, aberta, participativa, corresponsável e missionária. 
Contudo, as senhoras da paróquia não sabiam o que isso era. Não sabemos nada dessas coisas dos concílios, diziam. Claro que não sabem, porque ainda somos fruto de uma Igreja que não ensinava senão a moral e os costumes. Somos fruto de uma Igreja de promessas, devoções, procissões e sacramentos para assinalar estados de vida. As homilias são, muitas vezes, o único momento de formação dos nossos cristãos. E são também, outras tantas muitas vezes, um espaço de palavras piedosas sem mais. Embora elas devam ser uma actualização da Palavra de Deus nas nossas vidas, não chega fazer homilias piedosas. É preciso ajudar as pessoas a entender a essência do cristianismo, pois só assim se consegue entende o que é ser cristão. Por isso perguntei a uma destas senhoras boas da paróquia, uma daquelas que a idade já marcara, se tinha memória da missa passar a ser dita em português, na língua vernácula. Ah isso, sim. E de o padre deixar de celebrar de costas para o povo. Ah isso também. Ora, essas mudanças, e muitas outras similares, foram operadas a partir deste concílio. Ah, então esse concílio deve ter sido uma coisa muito boa, senhor padre. Pois foi, pois foi.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja formatada"