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segunda-feira, fevereiro 23, 2026

A Igreja fácil

Vivemos num tempo do fácil. Tudo tem de ser fácil, de fácil acesso, de fácil consumo, sem dificuldades, adversidades, contratempos, sacrifícios ou compromissos. Sem um não aos nossos desejos e vontades. Neste contexto, a Igreja tem-se tornado um espaço ou um lugar onde o fácil também acontece. Ou, para sermos mais honestos, um espaço onde os seus principais agentes facilitam para se tornarem populares de forma mais fácil. Infelizmente, quando um padre exige alguma coerência entre o sacramento que se exige como um direito e a vida que lhe deve corresponder, está a alterar as regras deste tempo. Li algures a um outro colega, referindo-se a este tipo de situações, que “o consumidor não quer ser discípulo; quer ser cliente”. Concordo. Por isso se não há nesta loja, vai-se à loja do vizinho. Procura-se o padre facilitador, aquele que, como referia esse colega, “por preguiça pastoral ou medo de ser impopular, ‘despacha’ sacramentos”. E depois este padre é que é bom e aquele é que é mau. Mede-se o padre pelo facilitismo com que ele se presta a ser um comerciante do sacramento. Este é que é o padre porreiro. O outro é o padre que afasta as pessoas da Igreja. Como se estas pessoas não estivessem já afastadas e não quisessem manter-se nesse afastamento. Vivemos num tempo do fácil e, muitas vezes, por causa do porreirismo, a Igreja vai-se transformando, muitas vezes, numa Igreja fácil.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Uma conversa de acolhimento e imposições"

sexta-feira, fevereiro 20, 2026

O Martim e o Miguel

O Martim é acólito. Ou melhor, é um quase acólito. Fica ao meu lado na missa, e vai ajudando quem ajuda à missa. Está a aprender e um dia destes vai ser acólito à séria. Porém, no dia da festa queria ficar ao pé do amigo Miguel. Olhe, senhor padre, hoje não vou para ao pé de si, pode ser? É que queria ficar ao pé do meu amigo Miguel. Estar com os amigos é uma ideia excelente, e é assim que somos Igreja. Por isso me congratulei com a ideia do Martim e decidi lançar-lhe um novo convite. Trazes o Miguel contigo para ao pé do altar e ficamos todos juntos. E assim foi. O Martim ficou feliz da vida e o Miguel da vida ficou feliz. O Martim aprendia e ensinava e o Miguel aprendia e sorria. Foi uma missa muito mais bonita.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Miguel e a guerra"

terça-feira, janeiro 27, 2026

nós não somos Igreja

Umas semanas após o início da catequese, reunimos aqueles que entraram pela primeira vez nesta caminhada de fé. Aquelas caritas entusiasmadas encheram a igreja. Era a primeira vez que eram o centro da comunidade. Havia uma festa para eles e o entusiasmo era tanto que nem sabiam como sossegar nos bancos. A homilia foi quase toda para eles. Falámos da Igreja, da importância da Igreja, do que era ser Igreja. Estiveram muito atentos a aprender tudo, até ao momento em que lhes disse que eles eram Igreja. A gargalhada foi geral. Pensavam que eu estava a brincar com eles. Por mais que insistisse que eles eram Igreja, não acreditavam. Ó senhor padre, como é que nós somos Igreja se não somos feitos de pedra, disse um garotito mais espevitado e atrevido. E todos riram à gargalhada.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

terça-feira, janeiro 20, 2026

A Joaninha

A Joaninha portara-se um bocadinho mal. Digamos que um bocadinho era favor, mas ela era uma querida e custa dizer que se portou mal próximo do muito mal. A mãe teve de intervir com algumas palavras duras e uns olhares reprovadores, mas a pequerrucha resistia com as suas razões de oito anitos. Não tardou muito em magoar a mãe. Por isso, esta teve de lhe lembrar uma coisa que a filha não podia esquecer. Joana Maria, tu não te esqueças que fui eu que te dei a vida. A Joaninha não desarmou e, tal como aprendera com a catequista Amália, respondeu prontamente. Isso não é verdade, mamã. Quem me deu a vida foi Jesus. A mãe teve de esconder o rosto da admiração e da vontade de sorrir. Pois, pois, Joana. Mas ele deu-te a vida através da tua mãe, que sou. A Joaninha tinha a sua razão e a mãe também tinha, e muito bem, a sua razão. Ainda assim, é bom ouvir pequerruchos a falar de Jesus desta maneira. Foi Jesus que me deu a vida, mamã.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A catequista e o menino"

quinta-feira, agosto 07, 2025

a bíblia triste

A catequese tem de mudar, dizia. Os pais não querem senão as festinhas lindas para os vestidos novos, as fotos e as comezainas. A catequista que dizia estas coisas estava muito triste, incomodada e quase zangada. Queria desabafar, mas não queria contar o verdadeiro motivo do desabafo. É catequista há muitos anos e sabe, na pele, as dificuldades existentes para conseguir fazer da catequese um itinerário que, mais do que para aprender coisas, conduza a viver a fé. Sabe igualmente que uma das maiores dificuldades está na família. Os pais não se interessam pela catequese, pela eucaristia ou pela participação na vida comunitária. Mas o que ouvira no supermercado ultrapassava tudo. Apesar de não querer, a necessidade de desabafar foi mais forte, e acabou por contar ao senhor padre, em voz baixa, o que ouvira no supermercado. A conversa passara-se entre duas mães que têm filhos na catequese numa etapa em que descobrem a Bíblia, como a manusear e como a interpretar. Por esse motivo, os pais tinham sido convidados a adquirir uma bíblia para os filhos. Uma das senhoras, sem se aperceber ou se importar da proximidade da catequista e de outras pessoas, disse, de modo brejeiro, o que ainda agora custa replicar e escrever: já viste que agora temos de comprar a filha da p... da bíblia e têm que aprender esta m...?

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As leituras da D. Constância"

quarta-feira, junho 25, 2025

A catequista intercessora

Estavam a um mês do Crisma na paróquia. No início do ano pastoral tinham aberto inscrições para adultos que pretendessem fazer uma formação para esse efeito, e os jovens que concluíam este ano a catequese de infância e adolescência tinham sido convidados a fazer a sua inscrição e a reunir os documentos necessários para a sua realização. Para espanto do pároco, uma catequista da paróquia contactou-o, através de uma rede social - com o peso que tem cada um destes dados -, a interceder para que aceitasse um jovem que se queria crismar porque queria ser padrinho. Foi essa a sua justificação. No meio do pedido, como se as sessões ou encontros de catequese fossem aulas, como se o sacramento não precisasse senão de duas ou três horitas de preparação e como se não tivesse qualquer relevância a injustiça que se cometeria para com aqueles que andaram dez anos na catequese, sugeria que se aceitasse com “duas ou três aulas de preparação”. Foram essas as suas palavras. Ao pároco custou a entender o pedido no contexto em que foi feito e por quem foi feito. Respondeu-lhe, com amabilidade, que já não seria possível, mas que poderiam ver a situação concreta do jovem e procurar uma solução futura. Pois a sua resposta não se fez esperar e, a acrescentar ao que já o tinha incomodado por vir de quem vinha, a resposta deixou-o à beira de não sei o quê e de palavras que prefiro não dar-lhe som: acho que lhe fica muito mal como padre dificultar a vida das pessoas.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Fazer catequese para se crismar"

sábado, maio 31, 2025

A minha entrada na fé

Quando entrou na escola, apesar de ainda não estar baptizada, os pais decidiram inscrevê-la na catequese da paróquia. Quase todos os colegas estavam inscritos. Os pais haviam decidido proporcionar-lhe a mesma oportunidade. A mesma oportunidade dos colegas e a mesma oportunidade que eles haviam tido quando eram crianças. Como depressa começou a gostar de conhecer Jesus, pediu aos pais para se baptizar. Portanto, quando se baptizou já tinha vontade própria suficiente para querer dar esse passo. E baptizou-se. Tive a alegria de poder presidir a este sacramento e de falar com ela sobre ele. Terminada a cerimónia, convidei-a, caso quisesse, a partilhar umas palavras com os seus convidados e demais presentes. Entre a timidez e a coragem, subiu o degrau da coxia, voltou-se para a assembleia e, deixando-nos todos de boca aberta, disse: “Obrigado por terem vindo ver a minha entrada na fé”.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Cerimónias para ver"

quarta-feira, março 12, 2025

A Primeira Comunhão sem catequese

A filha anda no terceiro ano da catequese e vai fazer a primeira comunhão. É de uma terra vizinha. Mas, como não há ali catequese, a mãe não se importa de fazer três quilómetros para que a filha participe na catequese e cresça na fé. Por estas bandas a única catequese de infância e adolescência organizada é aqui. Vêm várias crianças de muitas lados em redor. Algumas fazem dezenas de quilómetros. Muitas delas não são minhas paroquianas, mas vêm à procura da catequese onde ela existe. Mal ou bem, com boa intenção ou não, os pais destas crianças sacrificam-se para elas poderem fazer a catequese. Esta mãe, em concreto, não é minha paroquiana. Nem ela nem a filha, naturalmente. Na sua paróquia que, recordo mais uma vez, dista apenas três quilómetros daqui, o pároco, pelos vistos, decidiu aceder ao pedido de duas mães para que as filhas respectivas, que têm a mesma idade que a sua, fizessem agora a Primeira Comunhão na referida paróquia. Nunca tiveram catequese. Nunca quiseram ter catequese. O pároco também não se preocupou muito com isso. E agora vão fazer uma linda festa, dizem. Eu não quero discutir se é bem se é mal, se a opção pastoral é correcta ou incorrecta. Mas então não é que uma dessas duas mães foi ter com a mãe daquela criança que anda na catequese há três anos, dizendo-lhe que era uma burra, ipsis verbis, porque se preocupava para que a sua filha andasse na catequese, quando as delas nunca tiveram e agora iam fazer na mesma a festa da Primeira Comunhão. Aquela mãe ficou triste porque fazia sacrifício para que a sua filha andasse na catequese e agora, como se não bastasse cometer-se esta injustiça, ainda gozavam com ela. Assim vai a nossa Igreja. 
 

sábado, fevereiro 01, 2025

não se perde aquilo que já está perdido nem se afasta aquilo que já está afastado

A nossa sociedade fomenta clientelismos e compadrios ao ponto de que qualquer cidadão se habituou a conseguir atingir os seus objectivos, contornando esquemas com base em cunhas, jeitos e compras. Quando não consegue por estes meios, usa-se o sistema pressing ou o sistema comparison. O primeiro usa-se sobretudo com ameaças de que se não for assim, acontece assado, se não for deste modo, eu vou dizer. O segundo usa-se para tentar rebaixar o alvo em comparação com aqueles que são permissivos e que, como tal, são os designadamente bondosos. O senhor não faz, mas eu sei quem faz. O senhor é que não quer, porque outros fazem. O problema é que aqueles que estão habituados a estes sistemas para satisfazerem os seus desejos e necessidades são os mesmo que vão à Igreja pedir coisas com o mesmo tipo de vontade e hábitos. Cansa. Cansa mesmo. Mas a gente vai amadurecendo. E quando me dizem que vão fazer, tal como querem, a outro lado, porque o padre tal é que é bom porque faz as vontades, eu sou o primeiro a dizer-lhes que vão e que aproveitem. Ou quando me dizem que assim é que a Igreja perde as pessoas ou que assim é que as pessoas se afastam, eu recordo-lhes que não se perde aquilo que já está perdido nem se afasta aquilo que já está afastado.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A propósito de cunhas, vou meter uma cunha a Deus"

sexta-feira, setembro 20, 2024

A catequese que nunca lhe valera de nada

Num diálogo com jovens sobre opções e sobre a fé, fazia-se um balanço da caminhada espiritual que cada um estava fazendo. Todos iam falando, uns mais à vontade, outros mais a medo. A Maria, que terminara a catequese de infância e adolescência há três anos, falava sem rodeios. Não era rapariga de faltar às sessões da catequese. E não fazia parte do grupo dos mal comportados. Mas o seu interesse era diminuto, contou. A catequese nunca lhe valera de nada. Ia por ir. Fazia a vontade aos pais e não se importava de acompanhar algumas amigas. Ninguém a interrompeu enquanto falava estas coisas. O resto dos jovens presentes não esboçava sinais de admiração ou de condena. Muito menos eu. Apenas me intrigava que, apesar desse entendimento da catequese, ela estivesse agora ali, presente, por vontade própria, no seio de um grupo de jovens para dialogar e pensar a fé. Até que a Maria concluiu a sua intervenção dizendo: só mais tarde as coisas começaram a fazer sentido. Só algum tempo depois de ter deixado a catequese fui começando a entender como a catequese me fora importante.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A catequista e o menino"

sábado, agosto 03, 2024

A catequese dolorosa

Não quer voltar a dar catequese, porque está cansada. O marido concorda com ela, pois está farto de ver a cara com que regressa depois de dar catequese. Se os tempos não estão favoráveis para os professores, que têm formação pedagógica para dar aulas e podem penalizar os alunos com as notas, imagine-se como será para os catequistas. Não se entende como é que algo que deveria ser, à partida, um motivo de alegria, é um motivo de aflicção. Quando a catequista já vai em sofrimento para a sessão de catequese e a desejar que ela acabe depressa porque sabe que vai sofrer com o mau comportamento, desinteresse e indiferença dos catequisandos, que dizer ou fazer?! A catequese, tal como a educação, começa em casa. Mas...

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Catequese na piscina"

quinta-feira, junho 27, 2024

Os avós, esses evangelizadores modernos

Na França secular e descrente, alguns dados inesperados têm dado que falar aos diversos analistas. Na última vigília pascal, foram baptizados 7.135 adultos nas dioceses francesas, dos quais 36% tinham entre 18 e 25 anos, assim como 5.000 adolescentes ou jovens entre 11 e 18 anos. Mais de 12.000 no total e quase todos em idade da juventude. Dizem os analistas que se trata de 31% a mais que no ano passado e 120% a mais que há dez anos. Naturalmente que a pergunta surge: qual a origem desta mudança? E a resposta dão-na também os analistas: As avós. E, um pouco também, alguns avós. Dizem eles que estes aproveitam o maior contacto com os netos durante as férias de verão ou outros períodos de descanso onde podem estar com eles, para os aproximar da Igreja, para os acompanhar à missa, para lhes ensinar a rezar. 
Na sociedade do efémero, do voraz e do passageiro, é verdade que muitos pais se demitiram da educação dos filhos. Deixaram de ter tempo para eles. Deixaram de ter tempo para a fé. Deixaram de ter tempo para pensar a vida. Por outro lado, os avós têm todo o tempo do mundo, apesar de pouco tempo que lhes possa restar. E têm a fé que foram amadurecendo com o avançar da idade e com a história religiosa que os construiu. Os avós são hoje, em imensos casos e lugares, os maiores evangelizadores. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As 'avós da fé' ou 'catequistas dos tempos modernos'"

sexta-feira, novembro 10, 2023

Olha que Deus castiga

Quando a mãe, uma jovem dos seus trinta anos, disse ao filho rebelde de oito anos que, se ele não se portasse bem, Deus o castigava, não me contive. A catequista do filho contara-lhe como ele se comportara mal na catequese, e aquela mãe solicita achou que a melhor pressão era invocar o castigo de Deus. Creio que o disse sem pensar e tal como já o ouviu muitas vezes desde pequena. Mas assim é dificílimo que as crianças aprendam a gostar de Deus. Mais lhe terão medo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

quinta-feira, outubro 05, 2023

entrar na igreja

Uma catequista perguntou aos seus meninos do primeiro ano se conheciam como era uma igreja. Era uma pergunta de retórica, como se costuma dizer, porque estava convencida de que as respostas daqueles meninos que haviam entrado na catequese, pela primeira vez, seriam todas positivas. No meio da confusão natural destes miúdos e dos olhos arregalados daqueles que diziam que sabiam mais ou menos como era, um deles respondeu que nunca tinha entrado numa igreja. Simples, directo e genuíno. E a catequista ficou sem palavras. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os Paulitos de hoje"

quarta-feira, julho 19, 2023

Catequese para miúdos sem fé

Não rezam e não vão à missa. Não sabem estar na missa. Não se confessam nem se sabem confessar. São capazes de comungar só porque os outros também vão comungar. Não sabem o que é a oração da via-sacra e sobre o terço têm uma vaga ideia. Só ouvem falar de Deus na catequese, quando conseguem ouvir a catequista no meio da barulheira e da distração. Não se lembram de Deus. Passam-se dias e dias sem que Deus venha ao pensamento. Pouco mais sabem que o nome de Jesus. Não entendem o que é o Espírito Santo e confundem Deus com Jesus. Sabem que Nossa Senhora é a mãe de Jesus e os pais já os levaram algumas vezes a Fátima. Não faltam à festa religiosa da terra. Mas são capazes de gozar com as beatas. Sabem da existência do Natal e da Páscoa. O primeiro talvez mais pelas prendas e o segundo talvez mais pelos ovos de chocolate. E ambos pelas férias. Ouviram falar de advento e de quaresma, mas são nomes estranhos. São capazes de gostar de algumas coisas que se fazem na catequese ou nas festas da mesma. Todos têm fotos da Primeira Comunhão e da Profissão de fé. A maioria aguenta-se até ao crisma para poder se padrinho. E, no meio disto tudo, os nossos catequistas, grande parte deles não tão bem preparados pedagogicamente como era necessário, lá vão tentando fazer uma catequese que, a maior parte das vezes, é mais escolar que kerigmática, é mais passar conhecimentos que alimentar e ajudar a crescer a fé. Sei que estou a escrever uma hipérbole, e sei que a fé é muito mais que celebrações, sacramentos, credos e doutrinas. Mas parece-me que temos promovido uma catequese a pensar que os miúdos têm fé e não proporcionamos experiências de fé. No fundo, temos fomentado uma catequese para miúdos sem fé que dificilmente a irão ter.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Queria saber como posso ter fé"

quarta-feira, novembro 30, 2022

A primeira comunhão das últimas

Tinha terminado a celebração da eucaristia onde tinha sido baptizado e fizera a primeira comunhão com outros meninos. Estava engalanado e feliz, o Tomás. Toda a família em seu redor e a querer tirar fotos com ele. Mal se podia passar na coxia. A avó era, sem dúvida, a mais expressiva. Estava orgulhosa do neto e dos passos que acabara de dar. Era uma mulher de fé e de missa semanal. Por isso, ao cruzar-me com eles, nos cumprimentos e manifestações de alegria, a avó afirmou alto e bom som Senhor padre, agora já tenho quem me acompanhe à missa. E o pequeno Tomás, nos seus sete ou oito anitos, fez cara feia, do género de cara incomodada, e disse que não. Estava muito perto de mim e foi possível olhá-lo nos olhos e perguntar-lhe se não tinha intenção de voltar a comungar. Baixou os olhos e disse que não queria ir à missa muitas vezes. Era só aos domingos, insisti. Mas isso era muitas vezes para o Tomás. O irmão mais velho repreendeu-o dizendo que não devia dizer isto em frente ao senhor padre, e ria-se. Os pais também se riam, vá-se lá saber que graça tinha o que o petiz acabara de dizer, consolados pela festa, pelos fatos novos e o banquete para onde iam agora. A avó baixou o rosto envergonhada e eu segui o caminho coxia abaixo que a seguir tinha outra missa. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A comunhão do casamento"

sábado, novembro 05, 2022

o catequista que reza pouco

Pouco se esforça por ir à eucaristia e reza muito pouco. No entanto, gosta de ajudar e de dar o seu contributo à comunidade. Quando uma amiga, que é catequista, lhe lançou o convite, decidiu voluntariar-se com entusiasmo. Foi assim que descreveu a nova missão que queria abraçar. Ia dar um pouco de si na paróquia. O pároco agradeceu a nova catequista e, com alguma discrição, aproveitou a ocasião para recordar que a catequese serve não tanto para o catequista dar de si, mas para, passe a expressão, “dar” de Deus. Por isso recordou quão imprescindível era a oração. E prosseguiu. Assim como não há fé sem oração, é difícil falar de Deus sem ambiente de oração. Não são os dogmas, as normas morais ou as doutrinas que transformam as pessoas em crentes, mas o encontro, a proximidade e a intimidade com Deus. Também não se pode falar de Deus em abstracto, como teoria ou ideologia, pois isso apenas teoriza a existência de Deus e o mais provável é que o afaste da realidade do indivíduo. Nesse sentido, a evangelização ou a catequese têm de propor a oração e a contemplação. Viver dela. Por melhores, mais eficientes ou mais estudados que sejam os agentes de pastoral, em geral, ou os catequistas, em particular, o testemunho brota da oração. Fala melhor de Deus quem fala com Deus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Nem Pai-nosso nem Avé-maria"

quinta-feira, outubro 20, 2022

A educação na catequese

Entre os interessados no assunto, os agentes pastorais, os catequistas, falamos que é necessário revitalizar a catequese, para se tornar menos escolar e doutrinal, e mais kerigmática e testemunhal. Falamos que os esquemas e guiões actuais não funcionam, não correspondem às necessidades e expectativas das crianças e dos jovens, e se têm de remodelar itinerários que tenham em vista o amadurecimento da fé e não as festas e os sacramentos-festas. Mas falamos pouco da educação na catequese. Falamos pouco das crianças e dos jovens que vão à catequese e, com uma grande falta de educação e respeito, não permitem que as sessões de catequese decorram num ambiente adequado e necessário. A boa vontade dos catequistas, geralmente com fraca formação pedagógica, não chega para ultrapassar esta circunstância. Mesmo os mais formados têm enormes dificuldades. Dizia-me há dias uma catequista – por sinal uma das que já provou que consegue manter alguma autoridade nas sessões de catequese – que a falta de educação era tanta que, no seu grupo actual, não se coibiam de dizer carvalhadas na sala ou tratar-se mal diante do catequista. Embora não a maltratassem, nunca na sua vida tinha estado diante de um grupo tão mal-educado.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Esta Igreja é uma treta"

quarta-feira, outubro 05, 2022

os crismas e as diferenças

A Cristina é uma jovem da paróquia que, depois de ter concluído dez anos de catequese, está a finalizar a preparação próxima para realizar o sacramento do Crisma. O João é de uma outra paróquia, que dista uns dois quilómetros desta, e deixou a catequese há muitos anos, logo que fez a Primeira Comunhão, pois não queria mais andar na seca da catequese. Entretanto, aquela paróquia deixou de organizar a catequese paroquial. A Cristina vai a crismar em breve nesta paróquia. O João crismou-se no ano passado na outra paróquia. São colegas na escola. Numa conversa de recreio, a Cristina contou ao João que ainda tinha uma série de encontros para o Crisma. Ela e mais alguns, como ela, estavam a fazer uma síntese da fé com a catequista, iam preparar algumas dinâmicas e animações para a celebração e parece que ainda teriam uma vigília de oração com o senhor padre. O João respondeu que apenas tinha tido uma reunião para se crismar. E bastara. O João gozou com a Cristina. A Cristina ficou triste. O João achou que o padre da paróquia dele é que era fixe. A Cristina não soube o que pensar. Não é que não gostasse do seu pároco, mas também gostava de ficar em casa em vez de ir aos encontros. Também não é que os encontros fossem propriamente uma seca, mas estava-se melhor sem eles. O João ficou na mesma, e a Cristina ficou a pensar. O João crismou-se para poder ser padrinho de papel. A Cristina é bem capaz de também se tornar apenas madrinha de papel. O João não teve oportunidade para o não ser. A Cristina está a ter essa oportunidade. Foi isso que lhe disse.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quer ser padrinho"

segunda-feira, agosto 15, 2022

Passar de uma pastoral dedutiva a uma pastoral indutiva

A nossa acção pastoral tem partido, erradamente, do pressuposto divino para chegar ao homem, quando devia partir do pressuposto humano para chegar a Deus. No meio da secularização em que vivemos e no meio de um enorme desinteresse das coisas de Deus, pelo menos as que estão personalizadas numa Igreja que se tem tornado irrelevante às novas gerações, deveríamos, na minha humilde opinião, deixar a pastoral dedutiva para passarmos a uma pastoral indutiva. Deveríamos partir da experiência humana para a iluminarmos com a experiência divina e não ao contrário. Não falar do ser humano a partir das realidades religiosas, mas falar de Deus a partir do ser humano. Não deveríamos gastar as nossas energias em apresentar Deus de uma forma dogmática, moralista e sacramental, mas sim um Deus que constantemente se aproxima do homem na sua humanidade, entendida esta humanidade como forma natural de se viver. Nos tempos que correm, já ninguém aceita passivamente uma doutrina que nos ensina a existência e soberania de Deus, por mais que se diga que Ele é amor. Porque só se chega à fé através de uma relação com Cristo experimentada na realidade quotidiana.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Pastoral de gestação"