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sábado, novembro 01, 2025

A formação nos Seminários

A tradição tridentina dos seminários modelou uma geração de sacerdotes separados do mundo e do Povo de Deus. Com razão, o concílio de Trento insistiu na necessidade de formar os padres porque estes tinham uma formação muito frágil. No entanto, o afastar os seminaristas da realidade em que vivem e hão-de um dia servir, gera uma tendência ao clericalismo, ao espírito de castas e eleitos, promovendo a sensação de superioridade em relação ao Povo de Deus. A figura do sacerdote reveste-se, deste modo, de uma sacralidade excessiva que, mesmo sem querer, o vai afastando da realidade que é o mundo. Os seminários não podem formar presbíteros distantes, autorreferenciais ou rígidos. Devem formar pastores verdadeiramente humanos e próximos das pessoas. Devem formar acompanhadores dos fiéis e não ministros do culto. 
Com frequência a formação nos seminários tem privilegiado a separação, a sacralização da figura clerical e o autoritarismo, em vez de formar para o serviço, a humildade e a proximidade com o Povo de Deus. Depois de um concílio Vaticano II pendente, parece que volta esse estilo de formação, ou melhor, de candidatos que buscam esse tipo de formação. Temos de rezar mais pelos seminários, pelos seminaristas e seus formadores, pelos candidatos ao ministério ordenado e pelos responsáveis da pastoral vocacional, para que se procurem e encontrem caminhos que formem ministros da humanidade e do amor de Deus, e não tanto ministros do culto, sem mais.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As perguntas que hoje faço"

quinta-feira, outubro 02, 2025

e cansado

Estava cansado e farto de tudo. Farto das incompreensões e decisões do bispo. Farto dos colegas que só pensam neles. Farto dos paroquianos que vivem a exigir coisas que ele não consegue dar. Farto e cansado de tudo e de todos. Quando amanhecia, tinha vontade que a noite regressasse depressa para tomar o comprimido de dormir. Fazia o que tinha para fazer como qualquer máquina onde se coloca uma moedinha. Andava pela paróquia e pela vida de cabeça erguida e ombros levantados. Fazia lembrar o cavalo elegante com os antolhos para não ver senão o que está a sua frente para ser feito. Chegado a casa, o seu corpo transformava-se, tolhia-se, encurvava-se, amarelecia. Pegava no livro da liturgia das horas e rezava palavras sem dialogar com Deus. Sentia que a sua espiritualidade se esvaía por entre os dedos. Tentava segurá-la como se segura a água numa mão. Ficava apenas um resto de humidade que rapidamente secava. Era como se a fonte tivesse secado. Como se Deus o tivesse abandonado à sua sorte. Entrara no seminário de armas e bagagens, como se costuma dizer, entusiasmado porque ia mudar o mundo, ia ajudar as pessoas a encontrar-se com Cristo. Mas a realidade impôs-se. Era mais forte do que ele e do que todo o entusiasmo que alimentara em tempos de seminário. Sentia-se sozinho. Não tinha com quem partilhar os sucessos e as derrotas. Só as paredes da casa paroquial sabiam a verdade do seu coração, e a almofada que recolhia as lágrimas antes do comprimido fazer efeito. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre é o tem de"

domingo, agosto 24, 2025

as notas nos santos

A procissão ocorreu longe das minhas comunidades e da minha diocese. Por estas bandas, depois da insistência de um dos anteriores bispos e do esforço enorme de muitos padres, a prática de colocar notas penduradas nos andores ou imagens dos santos, foi amplamente superada. Conheço regiões do país onde isso ainda é prática corrente e onde até se tem de parar a procissão cada vez que alguém se lembra de colocar uma nota no andor. A necessidade de mostrar que se dá e quanto se dá esquece o paradigma evangélico do não saiba a tua mão direita ou que dá a esquerda. Mas a Igreja que repete as palavras do evangelho é a mesma que alimentou ou foi permitindo estas práticas. Sabe-se lá porquê. Ou até se sabe, mas é melhor não o dizer. A procissão, como referi, ocorreu longe das minhas comunidades, mais propriamente numa diocese onde o bispo e os colegas padres estão agora a tentar acabar com esta prática. O bispo, com argumentos teológicos, evangélicos, pastorais, cívicos, e outros que tais, decretara há uns meses a proibição de colocar notas nos andores e nas imagens dos santos. Ora, na referida procissão teve-se em conta o decreto do bispo. Contudo, como este não fez senão alusão aos andores e imagens dos santos, naquela procissão colocaram meninos vestidos de santos como antigamente, por causa da tradição, com fitas para as pessoas colocarem notas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os contactos do Vaticano"

segunda-feira, maio 19, 2025

As opiniões sobre o Papa

Vai ser um Papa social. Vai ser um continuador de Francisco. Vai estabelecer pontes. Vai fazer união dentro da Igreja. Vai estar atento aos pobres. Vai ser e fazer isto e aquilo e aqueloutro e mais não sei o quê. Quase toda a gente sabe que o Papa vai ser qualquer coisa. Assim temos as opiniões e os comentadores a ver qual delas ou qual deles é mais original ou acrescenta algo mais. E é quase sempre mais do mesmo. O que é preciso é preencher o espaço público com opiniões, porque hoje vive-se mais de opiniões do que de factos, isto é, as pessoas gastam mais tempo a ouvir o que os outros pensam sobre os factos do que em lidar com eles. Por isso alimentamos uma sociedade de opinion makers e influencers. Por isso a objectividade perde espaço para a subjectividade, e a verdade para o relativismo. Claro que também eu vou formulando uma opinião sobre o Papa Leão XIV e procurando intuir nas linhas e entrelinhas qual o rumo que a Igreja vai seguir. Acho natural que o Papa esteja sob o escrutínio de crentes e não crentes. Acho natural que as pessoas se expressem e se possam expressar. Mas, às vezes, também se torna cansativo estar rodeado de tantas opiniões cheias de razões e juízos de valor que parecem querer ser mais do que aquilo que são: meras opiniões. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A sociedade irritada IV"

quarta-feira, maio 07, 2025

Não há clones ou fotocópias de papas.

Por muito que haja quem se tenha identificado com o Papa Francisco por causa da sua simplicidade, proximidade e humanidade, é bom recordar que não há pessoas iguais e que, por esse tão básico motivo, o próximo Papa não será igual a Francisco. Quando, em 1958, se elegeu o cardeal Angelo Roncalli, que assumiu o nome de João XXIII, muitos interpretaram a escolha, por causa da idade dos 77 anos, como a escolha de um Papa de transição. No entanto, foi ele que convocou o grande Concílio Vaticano II. A sua morte em junho de 1963 deixou em risco o futuro do concílio que convocara. Sucedeu-lhe Giovanni Montini, o Papa Paulo VI, que não só continuou, como deu prioridade e direcção ao Concílio. A ele se deve a consistência e clareza que este acabaria por ter, embora ainda tenham ficado algumas pontas soltas. Parece-me, no entanto, que ele foi o Papa que o Concílio precisava. Não abordo o breve pontificado de Albino Luciani, que assumiu os nomes dos seus antecessores, João Paulo I, numa íntima ligação com estes, nem o longo pontificado de Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II, eleito na busca de alguma moderação depois de uma votação renhida entre dois candidatos, um da ala progressista e outro da ala conservadora. Mas recordo a renúncia de Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, homem de clareza doutrinal e teológica que sucedera naturalmente a João Paulo II e sentira que tinha de dar lugar a outro. O cardeal Jorge Mario Bergoglio veio do “fim do mundo” e, de todos os papas pós-concílio, foi o que mais o tentou levar à operatividade, sobretudo com a Igreja em saída missionária e com a Igreja sinodal. Não há clones ou fotocópias de papas. Não se espera que haja um novo Jorge Mario Bergoglio. Espera-se que venha um Francisco II, um Paulo VI, um João XXIV, um João Paulo que seja, ou simplesmente o Papa que a Igreja precisa neste tempo e que Deus lhe há-de dar. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os papas são homens?"

terça-feira, maio 06, 2025

Entramos em conclave

Entramos em conclave. Digo “entramos” porque estou convencido que entra a Igreja toda, que entramos cada um de nós que somos Igreja. Digo-o não porque pense que os cento e trinta e três cardeais nos representam ou que todos entramos porque o nosso pensamento foca-se, por estes dias, na capela Sistina. Digo-o porque acredito que a Igreja tem no conclave a voz do Espírito da Igreja, a voz do Espírito Santo. Digo-o porque acredito que a presença da oração é tão ou mais forte que a presença física. Digo-o porque defendo que a Igreja é de Deus e não dos papas, dos cardeais, dos bispos ou dos padres. A Igreja de Deus é de todos. Por isso vejo o acto de eleição de um Papa como um acto eclesial da Igreja como um todo.
Não contesto que a eleição do próximo pontífice ocorra através de cardeais. Se me perguntassem se concordo que a escuta e o discernimento deveria ser feito por mais pessoas, por fiéis católicos que também têm o sensus fidei, eu responderia afirmativamente, pois creio que o Espírito Santo não se representa apenas nos cardeais eleitores. Aliás, alguns deles geram em mim uma série de resistências, quer por posturas ou ideologias com as quais não me revejo ou que me parecem longe do Evangelho, quer por condicionantes humanas que me parecem questionáveis ou por coisas que se vão ouvindo e que geram em nós dúvidas. Mas a Igreja não é de perfeitos e os cardeais também não têm de o ser, assim como o Papa não tem de ser. A Igreja é de Deus e quero crer que o próximo Papa será o que Deus quiser. O próximo Papa será o que a Igreja de Deus precisa.
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja que não é de um Papa"

quinta-feira, maio 09, 2024

Leigos a presidir eucaristias?

Um bispo espanhol em Africa, para visitar uma das muitas comunidades que tem a sua diocese, tardou mais de uma hora para percorrer uma distância de 13 quilómetros, o que informa como é a estrada. Por isso não é de estranhar que, associado à falta de padres, a última eucaristia que aquela comunidade tivera fora há 8 anos. São duas ou três centenas de pessoas, a maioria cristãos. Não deixam propriamente de ter fé, mas têm imensa dificuldade em alimentá-la. A eucaristia não resume nem aglutina em si a vida da fé mas, se é o centro e o cume da vida do cristão, que dizer a estas duas ou três centenas de cristãos que não têm possibilidade de aceder à eucaristia? A acção da Igreja vai para além da eucaristia, porque a sua missão é evangelizar. No entanto, a realidade leva-nos, ao menos, a equacionar a hipótese da presidência da eucaristia ser feita por um leigo. A este propósito, Tomás Muro Ugalde publicou em 2020 um artigo na revista Scriptorium Victoriense “Sobre a presidência da Eucaristia”, onde faz a mesma pergunta recorrendo a grandes autores e teólogos. Sabemos que na origem da Igreja não existiam ministros ordenados e que o sujeito eclesial era a própria comunidade. Com a metamorfose constantiniana, cimentada pela Igreja da Idade Média, o sujeito eclesial passou a ser a hierarquia. Sei que é um assunto melindroso e também não tenho certezas. Assim como não pretendo ver nisto a solução para a falta de vocações ao sacerdócio ministerial. Talvez assim se recuperasse um pouco mais a comunidade como sujeito eclesial. Não precisamos de leigos clericalizados, mas a pergunta é pertinente. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"

terça-feira, junho 20, 2023

O confrontar da sinodalidade

Está de moda falar de sinodalidade, embora muitas vezes, na prática, ainda seja apenas uma sinodalidade vertical. A ideia é que se ouçam todos. Ou os que quiserem ser escutados. Que todos tenham voz. Ou os que quiserem usá-la. Mas ainda assim, quem manda, quem decide, continua a ser quem está na posição superior. Fazem assim os agentes pastorais nas suas actividades, os párocos nas suas paróquias, os bispos nas suas dioceses. Até sobre o Papa actual, Francisco, que tem sido um grande impulsionador da sinodalidade, fico com a sensação de que a prática sinodal ainda é demasiado vertical. Uma coisa é ouvir o que cada um quiser dizer, outra coisa a confrontação positiva e construtiva entre todos. Uma coisa é dizer só porque apetece e outra um dizer que é fruto da maturidade do assunto. Por isso, enquanto não houver leigos adultos, com uma maturidade eclesial capaz de dizer as coisas, de as pensar e de as confrontar, e enquanto os clérigos não estiverem de verdade abertos a uma discussão construtiva e capacitados para se sentirem confrontados, a Igreja continuará a ser clerical. Neste contexto, a existir alguma nesga de sinodalidade, continuará a ser vertical. Como bem refere Enzo Bianchi, não basta falar, é preciso escutar. Mas também não basta escutar, porque é preciso confrontar-se, fazer discussão dos assuntos, para se caminhar verdadeiramente juntos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Nós e vós"

domingo, janeiro 22, 2023

O bispo que era um de nós

Um bispo de uma diocese longínqua, antes de realizar o sacramento da confirmação a um grupo de mais de três dezenas de jovens, quis dialogar com eles, em tom coloquial e aberto. O bispo achava que era assim que se falava com os jovens. Era e é. Com os jovens fala-se olhos nos olhos, de igual para igual. Ainda não haviam passado muitos minutos desde o início do diálogo, quando o senhor bispo colocou os jovens crismandos à vontade para que perguntassem tudo o que queriam saber sobre um bispo, dizendo ‘Sou um de vocês, podem perguntar tudo’. Então, um dos jovens mais atrevidos levantou o braço e, sem papas na língua, foi directo ao assunto: ‘Senhor bispo, enquanto o senhor se vestir como se veste e andar nesse carro topo de gama com motorista, o senhor não será um de nós’. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A solidariedade não se faz de cima para baixo"