Mostrar mensagens com a etiqueta na primeira pessoa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta na primeira pessoa. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, julho 07, 2025

O padre idoso

Com a graça de Deus, cumpria-se naquele dia quase três dezenas de anos de sacerdócio ordenado. A gente olha para trás e não consegue deixar de agradecer o que o Senhor tem feito através do nosso ministério sacerdotal, apesar das nossas misérias e fragilidades. A data não passou despercebida nas comunidades que tiveram eucaristia naquele dia e, entre salvas de palmas, canto dos parabéns, textos que me deixaram à beira da comoção e outros pequenos gestos que me pareceram enormes, também houve alguns motivos para a risada ou a boa disposição. Numa delas, destacou-se o bom propósito do leitor que leu a oração dos fiéis e achou por bem acrescentar-me a uma das petições previstas, uma oração que, em concreto, pedia pelos padres idosos. Assim, entusiasmado pela ideia, ao ler “pelos padres idosos”, acrescentou “em especial pelo nosso padre tal e tal que hoje faz anos de ordenação sacerdotal”. Olha o que eu me ri. Só faltou mesmo a gargalhada. Ainda não tenho muitos cabelos brancos, mas seguramente que, com aquela oração, alguns estarão a despontar!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Trunfo é copas"

segunda-feira, abril 21, 2025

Agradeçamos

"Abençoe-vos Deus Pai Todopoderoso: Pai, Filho e Espírito Santo". A conclusão ordinária de cada celebração ganhou ontem, na celebração de Domingo de Páscoa, em Roma, um alcance maior, porque foram as últimas palavras públicas que se escutaram da voz em dificuldade do Papa Francisco. Hoje o mundo, em geral, e a Igreja, em particular, acordaram com a notícia dolorosa da sua partida para a Casa do Pai. Curioso como Francisco parte na segunda-feira de Páscoa, depois de celebrarmos a Ressurreição do Senhor. A vida é um caminho peregrino para esta meta e, às vezes, o caminho culmina com um calvário. No caso do Papa, desde 14 de fevereiro que se foi avizinhando este momento que a grande maioria dos crentes não queria que chegasse por tanta coisa pendente que ele vinha fazendo desde 3013, desde o início do seu pontificado. Mas isso compete a Deus, porque a Igreja é sua e não dos Papas. Confiemos que os 135 cardeais eleitores façam a escolha do Espírito Santo para o Papa que a Igreja de hoje precisa. Entretanto, que a Igreja entre por inteiro em acção de graças pelo dom da vida e missão deste Francisco que nos trouxe de volta o Francisco que há 800 anos também operou uma revolução no íntimo da Igreja. 

Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que recusou a grandeza, escolheu a simplicidade, trocou o poder pela proximidade, preferiu não ser príncipe para ser servo e pastor, e por isso foi luz de um Deus que é sempre misericórdia. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa das periferias, dos pobres, dos recasados, dos abusados, dos esquecidos, dos últimos, de todos. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da evangelização sempre nova e dos discípulos missionários, da Igreja em saída missionária e em estado de missão, da Igreja sinodal como Povo de Deus peregrino e da Igreja como hospital de campanha, de portas abertas. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que resgatou o Concílio Vaticano II e que deu impulso a uma Igreja mais corresponsável, participativa, ministerial e sinodal. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da reforma da Cúria, assim como da colegialidade e da descentralização. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa dos pastores com cheiro a ovelha e que caminham à frente, ao lado e atrás. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que valorizou os leigos e as mulheres. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da Casa comum que é urgente cuidar e da Fraternidade universal que não se pode esquecer. 
Agradeçamos pelo Francisco que Deus nos deu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

domingo, abril 20, 2025

Vivo em mim

Toco uma última vez o teu corpo inerte e frio. De tanto te agarrar na mão, ela começa a aquecer. Ou é ela que me traz a percepção do calor. Começo, na verdade, a sentir uma leve brisa de calor e de vida a acontecer. Sei que ainda faltam três dias para chegar a Ressurreição, mas eu já sinto o teu sangue a correr-me nas veias e a acalentar-me o coração. É tão estranho este sentir diante do teu corpo morto. Sinto que estás vivo em mim.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não quero as tuas cruzes"

sábado, abril 19, 2025

Não menos que isso

O momento da tua crucifixão é inesquecível. Enquanto os soldados te iam cravando no madeiro, dizias: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”. E não sabemos mesmo. Mas tu perdoas. Perdoas tantas vezes quantas as necessárias. Mesmo que te levemos ao matadouro. Mesmo que cuspamos no teu rosto ensanguentado. Mesmo que te batamos com um chicote para descarregar a raiva da nossa humanidade. Mesmo que te carreguemos com o peso do madeiro que é o peso das nossas vidas. Perdoas infinitamente porque só sabes amar infinitamente. Não menos que isso.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

sexta-feira, abril 18, 2025

O teu corpo não mexe

O teu corpo não mexe, Senhor. Estás morto? Precisamos de ti vivo! Toco-te e não tenho muitas palavras para descrever a sensação do teu corpo frio. Choro. São lágrimas de amor que fazem o caminho até chegarem ao peito, o lugar onde o amor acontece. Choro porque não entendo a morte, esse mistério que ultrapassa os mortais. Porque não te levantas? Porque não te ergues e ergues contigo o mundo sofrido, o mundo que precisa tanto da esperança? Eu sei que morreste com os braços abertos para amar. Sei que nesse abraço te uniste a todos os que sofrem e os abraçaste. Mas nós precisamos de ti vivo. Precisamos de ti vivo naqueles que amaste até ao fim. Porque te deixaste morrer como um criminoso? Como é que tu, sendo Deus, te humilhaste a esse ponto? Eu também fui daqueles que bateram as palmas quando te aclamaram como Rei. Também levei meu ramo para que o benzesses e, nele, me benzesses a mim. A tua coroa, porém, não era de ouro. Era de espinhos. O teu trono não era uma poltrona. Era uma cruz. As tuas vestes não eram de linho e seda. Eras somente tu num corpo desnudado. E assim se começou a construir um reinado sem fim.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Amontoado de cruzes"


quarta-feira, março 19, 2025

Bom dia, pai. Conta-me o céu.

Bom dia, pai. Hoje acordei com vontade de saber como é o céu. Não o céu das nuvens, mas o céu de Deus. Não o céu de onde vem a chuva e o sol, mas o céu onde o mundo não acaba, onde o amor é o ar que se respira e a felicidade a única forma de viver. Diz-me, meu querido pai. Tu que já moras nesse coração de Deus, conta-me como é o céu. Diz-me de que é feito o céu. Diz-me se é feito de corações. Diz-me se tem areia que se pega nos calcanhares quando se caminha sem tocar o chão, ou se tem rios de águas cheios de flores. Diz-me se as palavras que se ouvem são músicas ou sorrisos com som. Diz-me, pai, como é o Pai. Se o vês de todo o lado ou por dentro. Diz-me se também Ele é feito de corações. Diz-me se têm portas as casas a céu aberto e se moras com a mãe bem juntinha a ti à espera dos filhos. À espera de mim. Tenho muitas saudades vossas. Estás a ver-me da janela do teu quarto do céu? Conta-me, pai. Conta-me o céu. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai"

sábado, fevereiro 01, 2025

não se perde aquilo que já está perdido nem se afasta aquilo que já está afastado

A nossa sociedade fomenta clientelismos e compadrios ao ponto de que qualquer cidadão se habituou a conseguir atingir os seus objectivos, contornando esquemas com base em cunhas, jeitos e compras. Quando não consegue por estes meios, usa-se o sistema pressing ou o sistema comparison. O primeiro usa-se sobretudo com ameaças de que se não for assim, acontece assado, se não for deste modo, eu vou dizer. O segundo usa-se para tentar rebaixar o alvo em comparação com aqueles que são permissivos e que, como tal, são os designadamente bondosos. O senhor não faz, mas eu sei quem faz. O senhor é que não quer, porque outros fazem. O problema é que aqueles que estão habituados a estes sistemas para satisfazerem os seus desejos e necessidades são os mesmo que vão à Igreja pedir coisas com o mesmo tipo de vontade e hábitos. Cansa. Cansa mesmo. Mas a gente vai amadurecendo. E quando me dizem que vão fazer, tal como querem, a outro lado, porque o padre tal é que é bom porque faz as vontades, eu sou o primeiro a dizer-lhes que vão e que aproveitem. Ou quando me dizem que assim é que a Igreja perde as pessoas ou que assim é que as pessoas se afastam, eu recordo-lhes que não se perde aquilo que já está perdido nem se afasta aquilo que já está afastado.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A propósito de cunhas, vou meter uma cunha a Deus"

quinta-feira, janeiro 16, 2025

O último beijo

Lembro-me bem do teu último beijo. Foi o último dos teus murmúrios de beijo. Tirei-te a máscara de oxigénio, encostei a minha cara nos teus lábios e tu moveste-os na direcção dela. Só isso. Mas tanto e sem medida. Mentiria se não dissesse que guardava cada beijo com receio que fosse o último. Fazia por guardar cada milésimo de segundo do movimento de cada beijo em ralentando. Era a minha forma de lidar com o adeus a qualquer hora. É difícil desmistificar as partidas, desconstruir a vida humana num segundo de morte que se arrasta. É difícil viver a pensar nisso. E não obstante, é a sequência natural da vida. E depois lembro esse beijo. Lembro-o bem. Lembro que fechei os olhos ao aproximar-me dos teus lábios. Foi o gesto natural de quem queria encerrar o beijo por dentro para o poder ir buscar sempre que precisasse. Como agora. Na altura fui o filho mais feliz do mundo. Desde que ficaras a oxigénio que apertavam as saudades dos teus murmúrios de beijo. Por isso fui o mais feliz dos filhos. A felicidade não cabia em mim. Foi o último beijo. Tinha quase a certeza que o seria. E hoje fui buscá-lo. E de olhos abertos, cai uma lágrima, sem que a consiga guardar dentro de mim… como guardei esse beijo. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai" e "O beijo do meu pai"

domingo, dezembro 15, 2024

Chegou a Hora do meu pai...

Chegou a hora do meu pai. Chegou a hora de passar da condição mortal à condição de imortalidade na vida eterna. Quero dizê-lo com H grande e digo, aproveitando para colocar outra maiúscula no meu pai. Chegou a Hora do meu Pai. Não quero esconder os dias difíceis que atrasaram os meus afazeres, mas não atrasaram o meu coração. Muito pelo contrário. Acompanhei os últimos tempos do seu sofrimento, para que lhe pesasse um pouco menos. Ele ficava mais tranquilo quando eu estava, e estive tanto quanto me deixaram estar. E eu também tranquilizava. Esgotei-me por dentro e por fora. Porém, em tudo consegui ir vendo o dedo de Deus. A festa da partida foi muito bonita. Foi uma grande festa de acção de graças. Não tinha ainda contado aqui, mas meu pai era diácono permanente. Por isso, o meu bispo acabou por presidir à Eucaristia. A homilia foi minha. As leituras da minha família. O canto dos meus amigos. Igreja cheia. Cheia com antigos e novos paroquianos. Cheia de testemunhos de gente que, como diziam, fora meu pai que os levara à fé. Chorei tanto quanto consegui. E sorri ainda mais. Quem nos conhece e conhece a relação de pai e filho que tínhamos, sabe que éramos muito cúmplices. Sempre o fomos. Entretanto, a partida da minha mãe fez-nos viver estes vinte e três anos muito mais um para o outro. Até porque a fé e o modo de entender Deus nos unia imenso. Assim como o ministério ordenado. Diziam as minhas manas que quando lhe faziam uma proposta, obtinham sempre a mesma resposta. Tenho que falar com o vosso mano. Por isso não admira que tivéssemos passado juntos grande parte dos últimos dias antes da partida. Muito rezámos juntos também. Ou eu rezava e ele acompanhava-me. Eu rezava e ele tentava respirar a custo a minha oração. Devo-lhe a ele e à minha saudosa mãe, não só a vida, como grande parte da fé e da vocação. Só posso estar grato a Deus pelos pais que tive. Por isso foram muitas horas de acção de graças, que ainda se prolongam hoje. Para que meus paroquianos compreendam porque ando alegre, explico que não sou super-homem e que sofro como qualquer ser humano sofre na partida de quem ama. Mas a fé é muito mais forte que a dor. O meu pai partiu, mas vem constantemente ao pensamento. E eu sou feliz. Sou feliz pelo pai que tive na terra e que ainda tenho no coração.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Feliz dia do pai" e "Obrigado pela fé que me destes"

sábado, novembro 16, 2024

ficamos “bem mas bem”

O tempo pára quando me ligam do lar. A única coisa que acelera é o coração. Quando na outra segunda-feira me ligaram para me dizer que algo de errado se passava com ele, que não conseguia deglutir, a esperança era de que a chamada fosse apenas para dizer que iam resolver tudo rapidamente e que era só para ter conhecimento da situação. Mas não foi. Teve de ser levado ao hospital, onde lhe detectaram uma infecção respiratória. Pelos vistos, uns dias antes, tivera uma queda sem explicação. Pelos menos ninguém ma deu. Confio em Deus, consciente – porque a gente vai sabendo destas coisas – que uma queda nestas idades é uma queda sem fim e que uma infecção respiratória é igualmente uma queda sem fim. Foi também isso que o médico, por outras palavras, informou. O meu pai é forte. Desde que, com os seus sete anos, ia ajudar o meu avô na pedreira, se fez um homem forte e resistente. É o que está a fazer valer neste momento. Respira com dificuldade. A saturação do oxigénio está sempre a querer baixar. Nem os litros do oxigénio chegam para tudo. As secreções acumuladas não deixam. A febre vai e vem. A morfina ajuda a dor. Mas ele é forte e resistente. Foi assim que Deus e a vida o fizeram. Logo no dia em que o médico falou o que é difícil ouvir, que os quatro filhos nos deslocámos para dizer tudo o que tínhamos para dizer. E dissemos a despedida, com as palavras emocionadas, mas verdadeiras, de quem tem tanto a agradecer a um pai como o nosso. Pai, amamos-te muito e gostaríamos de te ter eternamente connosco. Mas a eternidade não é aqui, e quando quiseres partir, que saibas que nós ficamos “bem mas bem”, expressão tão tua essa do “bem mas bem”. Dizem que os trânsitos destas horas são difíceis. Mas como pai e filhos acreditamos na ressurreição e no Amor infinito de Deus, as palavras saíram com mais facilidade. Eu estou tranquilo. Tenho imensa fé na ressurreição e por isso não estou assustado. Já o entreguei a Deus e faça-se segundo a sua vontade. Estou mesmo tranquilo. A verdadeira Esperança não engana. Isso não significa que não tenha o coração bastante apertado e que a espera não me canse. Aproveito para estar com uma mão agarrada à dele e com a outra a passar-lhe no rosto. Amo-o muito, e não me canso de lho repetir. Um dia de cada vez. Uma hora de cada vez. E a vida continua. Porque a vida vive-se tal como é.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O tempo do meu pai"

segunda-feira, outubro 07, 2024

Um vaso de flores

Vinte e três anos passam num instante. A gente envelhece e tudo envelhece à nossa volta. Era um jovem padre quando a minha mãe concluiu a sua missão aqui na terra e foi habitar em Deus. Agora caminho para velho. Mais experimentado também. Mas a sentir a mesma saudade de jovem que tinha na sua mãe a confidente e o colo materno e terreno de Deus. Ó mãe, como ainda hoje fazias aqui falta para me escutar e para guardar os meus desabafos! Faz hoje vinte e três anos. Fui visitar a pedra do teu túmulo. Estava bonita como sempre. Mas no lugar das flores, estava um buraco de terra sem flores. Alguém me disse que foram roubadas. Já não é a primeira vez, disseram-me. Ao primeiro impacto, senti-me incomodado. Como poderias estar sem um ramo de flores que adornasse a tua pedra?! Depois de rezar (é assim que falo com a minha mãe), o incómodo passou. É muito triste que haja quem não respeite a morte e a dor alheia. É muito triste que haja quem desça tão baixo por causa de umas simples flores de campa. Mas não são as flores que fazem de ti um vaso de flores. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Estava capaz de gritar"

sábado, agosto 17, 2024

As leis que não são minhas

Há muitos padres que vivem facilitando a vida àquelas pessoas que fazem pedidos fora das normas, fora do Direito Canónico, fora da doutrina e, muitas vezes, longe do Evangelho e longe da fé. São, de certo modo, padres merceeiros que fazem da Igreja um supermercado e fazem das paróquias uma agência de produtos sagrados “fast food” para atrair clientes. Evito julgá-los, porque quero crer que não o fazem com má intenção. Talvez o façam porque não têm a força e coragem necessária para responder com um Não. Talvez. Talvez. Há que dizer, no entanto, que são motivo de grandes sofrimentos a outros colegas que, tentando ser honestos com a sua missão, procuram ser correctos e coerentes o mais possível com as orientações, regras e leis que também eles devem cumprir. Quando me fazem alguns pedidos a que tenho de responder Não, é meu costume recordar, a quem me faz o pedido, que as leis não são minhas. Tanto as têm de cumprir eles como as tenho de cumprir eu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não deitar lixo no cemitério"

quinta-feira, agosto 08, 2024

vir à missa

Os bancos das igrejas não têm enchido como era hábito antes da pandemia pelo covid-19. Se já antes se iam esvaziando aos poucos, agora tornou-se mais notória essa realidade. E naturalmente que custa estar diante de uma comunidade com bancos por preencher. Já não é a primeira vez que depois da comunhão, sentado na cátedra da igreja, fecho os olhos para olhar para dentro, e me pergunto se não terei quota parte da culpa por esta situação. 
Entretanto, um dia destes, a conversa entre alguns agentes de pastoral da paróquia direccionou-se para esta realidade. A maioria também constatava que, por mais iniciativas e dinâmicas arrojadas que se propusessem, a realidade não se alterava muito, o que inquietava e alimentava alguma tristeza. No meio da conversa, lembrei e partilhei algo que tenho pensado muito ultimamente, algo que põe o foco na evangelização e não na eucaristia, algo que nos deveria fazer repensar a nossa acção pastoral. É que eu não quero que as pessoas venham à missa, mas que tenham fé... para virem à missa.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O Américo faltou à missa"

terça-feira, junho 04, 2024

Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor

Arrepiei-me ao ver, num pequeno vídeo, o modo como o padre Pio olhava fixamente a hóstia consagrada em suas mãos. Quase me vieram umas lágrimas ao rosto. Assim também no vídeo, após um longo momento detido com o olhar em Jesus sacramentado, o padre Pio teve de usar um pano para limpar as lágrimas, tão emocionado estava. Já sabia que ele tinha um profundo amor à Eucaristia, mas agora via-o com os meus próprios olhos. Fiquei embaraçado. Envergonhei-me das muitas vezes em que me distraio a celebrar a Eucaristia. Na verdade, muitas vezes o meu pensamento voa para as preocupações da vida, para as inquietações do ministério sacerdotal, para as decisões pastorais, para os problemas das pessoas que também me apoquentam. Dou por mim muitas vezes a não dar por ti, Senhor. Que vergonha! Dás-me a graça de te poder olhar a um palmo de distância, de poder usar as tuas palavras da Última Ceia, de poder estar contigo suspenso nas minhas indignas mãos, e perco-me na minha limitada condição existencial e sacerdotal. Li, em tempos, que o padre Pio afirmara: “Que a sua primeira eucaristia e a última tenham o mesmo amor e o mesmo ardor”. Peço-te perdão, Senhor, pelas vezes em que não tenho presidido à Eucaristia como devia. Sei que te tornas presente em cada Eucaristia, independentemente de quem a preside e do modo como é presidida. Mas, por favor, faz-te presente também em mim sempre que eu celebre a Eucaristia. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não falo não falo e não falo"

domingo, maio 05, 2024

Também te amo

Basta-me o teu olhar. Basta-me o teu olhar para ter a certeza de que estás fixo em mim, e que essa fixação é estar comigo. Gostava muito de ter palavras tuas e de ouvir sons que construíssem palavras, mesmo que não fizessem sentido. A verdade é que cada vez tenho menos palavras tuas. Mas não tenho menos certezas. O teu olhar fixo em mim diz mais do que qualquer palavra pudesse dizer. E os teus beijos miudinhos parecem enormes. Têm um tamanho sem tamanho. Sempre que encosto a face nos teus lábios, esboças o beijo mais puro e o beijo que mais me importa. Além do teu olhar fixo, basta-me também um beijo, um pequeno murmúrio de beijo, para ter a certeza que o amor por inteiro está nele... e vem a mim. A tua vida prolongou-se na minha através do amor íntimo com a mãe. A tua vida vem a mim desde que me chamaste a ser. O amor gera sempre amor. E mesmo que estejas no lar, sem as capacidades que todos lá em casa gostaríamos que tivesses, não deixas de ter um amor por inteiro. E eu não deixo de o sentir em cada olhar fixo no meu olhar, em cada murmúrio de beijo na minha face. Também te amo, meu pai.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha mãe está viva"

Bom "dia da Mãe" a todos os pais também!

quarta-feira, fevereiro 28, 2024

Tê-lo cá para o ver e amar assim

O meu pai teve de ser levado, de ambulância, ao hospital e levar quatro pontos na nuca. A funcionária do lar não conseguiu segurá-lo para não cair. Com estas notícias fica-se com o coração a palpitar, embora se confie nas pessoas que cuidam dele. Como a sua saúde está frágil e o problema maior está situado no cérebro, com sucessivos ait’s, fica-se com o coração a palpitar nas mãos. Para tranquilizar as minhas irmãs, mas ao mesmo tempo porque é assim que penso estas coisas, ao informá-las da situação, disse-lhes e cito-me: O problema, penso eu, que não sei nada destas coisas, é que para a situação clínica do pai, estas coisas só pioram. Mas também sabemos que nada está nas nossas mãos. Nem podemos ser egoístas ao ponto de querer tê-lo eternamente connosco. É o que é ou o que tem de ser. Eu prefiro vê-lo e amá-lo assim do que não o ter cá para o ver e amar assim, mas a vida é isto. Somos frágeis e peregrinamos para um dia chegarmos plenamente a Deus!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Feliz dia do pai"

sábado, fevereiro 17, 2024

A meia homilia

Estava a meio da homilia do funeral quando a senhora entra na igreja, sobe a coxia até ao cimo, perto do altar, como se nada estivesse a ocorrer ao seu redor. Todas as atenções se voltaram para ela. Também a minha. E depois as atenções passaram para os beijos e abraços sentidos aos familiares. Gestos que nunca mais paravam. Parei eu de falar. Porque paralisei, sem querer, o raciocínio da homilia. Perdi-o. Mesmo assim, ela não parou porque eu parara. Provavelmente nem deu conta de que tudo parara em seu redor. A homilia terminou pouco depois porque eu perdera o fio à meada e não consegui mais saber que dizer. Ela não teve propriamente culpa. As minhas capacidades é que não chegam para tanto.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Um senhor Joaquim"

terça-feira, janeiro 30, 2024

O padre e o outro lado da dor

Pouca gente se lembra dos que têm de trabalhar no meio da dor. Dos que estão do outro lado da dor. A Isabel não é assim. Não faz parte desse grupo. Ligou-me depois de ter ido dar um abraço apertado à ‘senhora Maria”, a senhora da funerária. E agora ligava-me para me dar um abraço pelo telefone. Com poucas palavras. Mas a chegarem ao coração como força. A Isabel tem o dom especial de estar atenta aos outros. Atenta ao ponto de ver o que poucos conseguem enxergar. Por sinal, hoje, aqui na paróquia, um acidente de automóvel e as mortes que ocorreram nele deixaram meio mundo num caos de emoções, eu incluído. E poucas pessoas conseguem entender a dureza do que é estar do lado da dor que não tem refúgio possível. O lado da dor que tem de dar a cara para que a dor pareça mais leve, como uma luz ténue ao fundo de um túnel. Esse lado que se aguenta somente por amor a Deus e às pessoas! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os funerais fazem-me dor de estômago"

terça-feira, novembro 21, 2023

procuro a fé…

imagem de benzoix no Freepik
Penso muitas vezes a fé. A fé vive-se, mas também se pensa. Pensa-se para se descobrir e para se encontrar as razões dela. E procuro-a entre a razão e a vida. Procuro-a e gosto de não a encontrar. Para andar sempre à sua procura. Vivemos num tempo em que a fé é chamada, como dizia Hallík, a sair da casa das certezas em que sempre viveu. Eu sei que a fé é um dom de Deus, pois começa n’Ele. Gosto, porém, da inquietação que ela gera em nós. E as dúvidas, as incertezas. A vontade de ir sempre mais longe e mais profundo, até ao lugar maior do coração de Deus. Também as crises de fé são ou podem ser um estímulo da fé. Sei que tenho fé ou essa qualquer coisa que mexe comigo e sei que tem a ver com um coração a querer juntar-se ao coração de Deus. Chamemos-lhe fé. E eu chamar-lhe-ei Amor. Chamemos-lhe ‘mistério’ e eu chamar-lhe-ei ‘procura’. Quanto mais desvelo a fé, mais me apetece procurá-la. Só se procura aquilo que já se encontrou, mas se quer encontrar mais e melhor. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Obrigado pela fé que me deste"

domingo, novembro 05, 2023

As mulheres no sínodo

A XVI Assembleia do Sínodo dos Bispos, ocorrida entre 4 e 29 de outubro deste ano de 2023, teve substanciais novidades em relação às anteriores assembleias. A inclusão de mulheres, ainda por cima com direito a voto, foi uma das mais notáveis. Dos 365 participantes, 54 eram mulheres, todas elas com direito a voto. No entanto, quando, durante a assembleia, se falou do papel das mulheres na Igreja, a discussão foi renhida e, na hora das votações, foi a temática que obteve mais votos negativos, embora com os votos positivos necessários para ser aprovada. Dos 344 participantes presentes na congregação geral conclusiva, 69 foram desfavoráveis. Foi sobretudo o potencial acesso das mulheres ao ministério diaconal que causou dificuldades. Uns foram contrários, porque consideram estar em descontinuidade com a Tradição, e outros favoráveis, porque consideram ser um regresso a uma prática da Igreja das origens. 
Já manifestei publicamente que não me parece essencial a ordenação de mulheres, seja diaconal ou sacerdotal, assim como também não sou contra que se dê esse passo, pois uma das coisas que mais valorizo na Igreja que defendo é a comunhão de diferentes em pé de igualdade. O que me parece é que, às vezes, se reduz o assunto a uma questão de emancipação da mulher e isso, a meu ver, seria reduzir o assunto a questões secundárias. Assim como desejo que esta aspiração das mulheres ao sacerdócio ministerial não seja mais uma forma dissimulada de clericalismo, isto é, uma forma de as mulheres também terem acesso ao poder eclesiástico. Seria atacar o clericalismo com outro clericalismo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja das mulheres"