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sábado, novembro 01, 2025

A formação nos Seminários

A tradição tridentina dos seminários modelou uma geração de sacerdotes separados do mundo e do Povo de Deus. Com razão, o concílio de Trento insistiu na necessidade de formar os padres porque estes tinham uma formação muito frágil. No entanto, o afastar os seminaristas da realidade em que vivem e hão-de um dia servir, gera uma tendência ao clericalismo, ao espírito de castas e eleitos, promovendo a sensação de superioridade em relação ao Povo de Deus. A figura do sacerdote reveste-se, deste modo, de uma sacralidade excessiva que, mesmo sem querer, o vai afastando da realidade que é o mundo. Os seminários não podem formar presbíteros distantes, autorreferenciais ou rígidos. Devem formar pastores verdadeiramente humanos e próximos das pessoas. Devem formar acompanhadores dos fiéis e não ministros do culto. 
Com frequência a formação nos seminários tem privilegiado a separação, a sacralização da figura clerical e o autoritarismo, em vez de formar para o serviço, a humildade e a proximidade com o Povo de Deus. Depois de um concílio Vaticano II pendente, parece que volta esse estilo de formação, ou melhor, de candidatos que buscam esse tipo de formação. Temos de rezar mais pelos seminários, pelos seminaristas e seus formadores, pelos candidatos ao ministério ordenado e pelos responsáveis da pastoral vocacional, para que se procurem e encontrem caminhos que formem ministros da humanidade e do amor de Deus, e não tanto ministros do culto, sem mais.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As perguntas que hoje faço"

domingo, setembro 28, 2025

Não tinha medo de morrer

Os últimos cinco anos foram passados com a quimioterapia ao peito. No verdadeiro sentido da palavra, era frequente trazer um fio ao pescoço com a quimioterapia pendurada. O que mais estranhava neste colega presbítero era a alegria que, mesmo assim, também transportava. Algumas vezes não resisti em dizer-lhe como isso me fazia bem. E ele apenas respondia que não era nada. E ria-se. Era como se se risse do cancro que se apoderara dele. Nos últimos tempos, o bispo quis dispensá-lo dos serviços paroquiais que se tornavam cada vez mais difíceis. Não desistiu até ter de ser levado novamente ao hospital onde lhe detetaram uma série de metástases em locais do corpo onde já não era possível atacar o maldito cancro. Restava esperar. E foi o que fez, consciente de que não se tratava de esperar o fim, mas esperar em Deus. Dizia o seu irmão, por sinal, igualmente presbítero, que ele repetia constantemente que não tinha medo de morrer porque sabia que ia ressuscitar. Em tom de brincadeira, também ia dizendo que os “bichos” não haveriam de o vencer e levar a melhor, pois quando morresse eles deixariam de ter que comer e morreriam, enquanto ele haveria de ressuscitar. E assim foi… 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta é para ti, Diana, parte XI, outro jovem"

quarta-feira, setembro 24, 2025

O multiculturalismo eclesiástico

O multiculturalismo chegou à hierarquia eclesiástica. Um em cada dez padres em Espanha vem de outro país. São oriundos, na sua maioria, da América Latina. Em Portugal a percentagem ainda não chegou a estes números, mas vai-se impondo a mesma realidade. Na minha diocese já se incardinaram alguns e aumenta o número dos que vão chegando, sobretudo de países lusófonos. Todos eles vão chegando com a sua bagagem vital e espiritual para acompanhar comunidades bem diferentes daquelas que conhecem. Não entendem determinadas devoções enraizadas e tentam introduzir costumes das suas terras. Têm dificuldade em se relacionar com o presbitério nativo e, não raras vezes, também são olhados com alguma desconfiança. Não se sabe ao certo se vêm em missão ou por uma oportunidade. Mas a realidade impõe-se. 
As novas edições do Anuário Pontifício de 2025 e do Anuário Estatístico da Igreja com dados relativos a 2023, editados pelo Departamento Central de Estatísticas Eclesiásticas da Secretaria de Estado do Vaticano, dão conta que o número de sacerdotes diminuiu ligeiramente (-0,2%), sendo a Europa a detentora da maior diminuição (-1,6%) e África (+2,7%) e Ásia (+1,6%) os continentes com maior aumento. Quanto ao número de seminaristas, entre 2022 e 2023 registou-se uma quebra de 1,8%, numa diminuição que se estende a todos os continentes, com excepção da África, onde os seminaristas aumentaram 1,1%. Se a Europa levou a Boa Nova a países que foi designando de países de missão, agora é desses países que a Europa vai recebendo clérigos. É o que Zygmunt Bauman chama de era das diásporas no que se refere à migração em geral. 
A aceitação da diferença num mundo global é altamente positiva e um anseio verdadeiramente cristão. Mas veremos se o multiculturalismo eclesiástico não redunda em multicomunitarismo eclesiástico, um fenómeno que, segundo o mesmo sociólogo, em termos gerais, se refere às pessoas que vivem umas ao lado das outras, mas se fecham e barricam na sua comunidade ou modo de vida. A Europa é hoje local de missão. Mas estará a Igreja preparada para este fenómeno religioso? 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como será a Igreja daqui a vinte ou trinta anos?"

sexta-feira, maio 23, 2025

O colega cansado

Um colega queixava-se do cansado que estava porque no domingo celebrara nove eucaristias. A respiração das palavras até parecia ofegante e em volta dos olhos sobressaía o tom escuro das olheiras. Estava cansado o pobre padre porque passara o domingo, de manhã à noite, a celebrar missas. Devo dizer que tive pena dele. Tive mesmo. Mas, mais do que pelo seu cansaço, tive pena porque, como não tem coragem de dar alguns passos para que a sua missão seja mais evangelizadora que sacramentalizadora, para que seja mais pastoral que funcional, centra a sua tão bela missão na celebração de missas. Assim persiste numa Igreja de manutenção e não dá passos para uma Igreja missionária. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre Tiago diz que anda cansado"

segunda-feira, abril 21, 2025

Agradeçamos

"Abençoe-vos Deus Pai Todopoderoso: Pai, Filho e Espírito Santo". A conclusão ordinária de cada celebração ganhou ontem, na celebração de Domingo de Páscoa, em Roma, um alcance maior, porque foram as últimas palavras públicas que se escutaram da voz em dificuldade do Papa Francisco. Hoje o mundo, em geral, e a Igreja, em particular, acordaram com a notícia dolorosa da sua partida para a Casa do Pai. Curioso como Francisco parte na segunda-feira de Páscoa, depois de celebrarmos a Ressurreição do Senhor. A vida é um caminho peregrino para esta meta e, às vezes, o caminho culmina com um calvário. No caso do Papa, desde 14 de fevereiro que se foi avizinhando este momento que a grande maioria dos crentes não queria que chegasse por tanta coisa pendente que ele vinha fazendo desde 3013, desde o início do seu pontificado. Mas isso compete a Deus, porque a Igreja é sua e não dos Papas. Confiemos que os 135 cardeais eleitores façam a escolha do Espírito Santo para o Papa que a Igreja de hoje precisa. Entretanto, que a Igreja entre por inteiro em acção de graças pelo dom da vida e missão deste Francisco que nos trouxe de volta o Francisco que há 800 anos também operou uma revolução no íntimo da Igreja. 

Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que recusou a grandeza, escolheu a simplicidade, trocou o poder pela proximidade, preferiu não ser príncipe para ser servo e pastor, e por isso foi luz de um Deus que é sempre misericórdia. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa das periferias, dos pobres, dos recasados, dos abusados, dos esquecidos, dos últimos, de todos. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da evangelização sempre nova e dos discípulos missionários, da Igreja em saída missionária e em estado de missão, da Igreja sinodal como Povo de Deus peregrino e da Igreja como hospital de campanha, de portas abertas. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que resgatou o Concílio Vaticano II e que deu impulso a uma Igreja mais corresponsável, participativa, ministerial e sinodal. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da reforma da Cúria, assim como da colegialidade e da descentralização. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa dos pastores com cheiro a ovelha e que caminham à frente, ao lado e atrás. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que valorizou os leigos e as mulheres. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da Casa comum que é urgente cuidar e da Fraternidade universal que não se pode esquecer. 
Agradeçamos pelo Francisco que Deus nos deu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

sábado, março 08, 2025

O retiro Effetá do jovem Joaquim

Os retiros “Effetá” estão de moda, ao menos na vizinha Espanha. Trata-se de um retiro católico para jovens, cujo objetivo é experimentar um encontro pessoal com Deus. Faz-se com algum secretismo, mas isso só lhe adensa o mistério e alimenta o encanto. Para outras faixas etárias, existem retiros semelhantes: “Emaús” para maiores de 30 anos, “Bartimeu” para jovens dos 16 aos 18 anos e “Samuel” para adolescentes. 
Como desconheço o modelo deste tipo de retiros, sinto-me à vontade para contar o que se passou com o Joaquim, nome fictício de um jovem que participou num destes retiros. Saíra de lá encantado, como é costume ocorrer à maioria dos participantes, mas agora chegara à conclusão de que estava a perder a fé porque estava a perder o entusiasmo. Foi esse o motivo que o levou a procurar o padre na paróquia. Mas quando este lhe perguntou o que lhe causara impacto por parte de Jesus nesse encontro que, supostamente, tivera com Ele, o Joaquim não soube responder. Na verdade, o Joaquim, mais do que encontrar-se com Jesus, encontrara-se com a sua emoção. Agora, como a emoção se estava a ir abaixo, ele também se estava a ir abaixo. O encontro com Cristo é muito mais do que uma emoção ou uma experiência. É muito mais do que um momento de encanto. O encontro com Cristo transforma as vidas e transforma o modo de viver.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A geração digital e a fé sem interesse"

sábado, outubro 26, 2024

as romagens que tiram a religião às pessoas

Este colega padre tem a seu encargo dez paróquias. Antes de tomar conta delas, estavam entregues a três outros colegas padres. Prevê-se que vai ser assim num futuro imediato nestas zonas interiores do país. Com a redução de vocações ao sacerdócio ministerial, aumenta o número de paróquias por pároco, o que torna impossível manter alguns hábitos, por melhores que sejam ou tenham sido. 
Em grande parte das paróquias portuguesas, por causa de ser feriado, é costume que as romagens ao cemitério, que se deveriam fazer no dia 2, dia dos Fiéis Defuntos, se façam no dia 1, dia de Todos os Santos. Torna-se um bom aproveitamento do feriado e não perde sentido, porque num dia se recordam duas perspectivas da vida e da fé interessantes e que se podem meditar interligadas. O que acontece é que o colega padre, por mais que quisesse fazer o jeito ou alimentar os hábitos das pessoas, não consegue, humana e fisicamente, celebrar num mesmo dia dez missas seguidas de dez romagens ao cemitério. Ora, ao fazer o favor de anunciar, numa rede social, o calendário das diversas celebrações e romagens desta ocasião aos potenciais interessados, qual não é o seu espanto ao ler num comentário, ipsis verbis e com a acentuação tal e qual como escrevo: estes padres conseguem afastar toda a gente da religião sempre foi dia um este para sermos diferentes é dia 2, porquê? 
Haja paciência! Ainda por cima, na paróquia do queixoso, a celebração foi mesmo programada para o dia dos Fiéis defuntos.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Homilia para funerais ou fiéis defuntos"

quinta-feira, agosto 08, 2024

vir à missa

Os bancos das igrejas não têm enchido como era hábito antes da pandemia pelo covid-19. Se já antes se iam esvaziando aos poucos, agora tornou-se mais notória essa realidade. E naturalmente que custa estar diante de uma comunidade com bancos por preencher. Já não é a primeira vez que depois da comunhão, sentado na cátedra da igreja, fecho os olhos para olhar para dentro, e me pergunto se não terei quota parte da culpa por esta situação. 
Entretanto, um dia destes, a conversa entre alguns agentes de pastoral da paróquia direccionou-se para esta realidade. A maioria também constatava que, por mais iniciativas e dinâmicas arrojadas que se propusessem, a realidade não se alterava muito, o que inquietava e alimentava alguma tristeza. No meio da conversa, lembrei e partilhei algo que tenho pensado muito ultimamente, algo que põe o foco na evangelização e não na eucaristia, algo que nos deveria fazer repensar a nossa acção pastoral. É que eu não quero que as pessoas venham à missa, mas que tenham fé... para virem à missa.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O Américo faltou à missa"

quarta-feira, março 13, 2024

O futuro da Igreja ou a Igreja do futuro

A Idade Média garantiu à Igreja um lugar na sociedade. A sociedade tornou-se cristã, sobretudo no Ocidente. Nascíamos praticamente cristãos. A fé não se questionava. A fé confundia-se com religiosidade. A religiosidade confundia-se com a cultura e, muitas vezes, com o poder temporal. Estamos, porém, numa época de mudança na Igreja. Estamos num tempo novo. Estamos, de certo modo, num tempo pós-cristão. Agora temos de anunciar o Evangelho a uma sociedade que já foi cristã, mas quis deixar de ser, e isso é novo. O primeiro anúncio era realizado junto de pessoas que não tinham ouvido falar do Senhor e agora é realizado junto de pessoas que se fartaram de ouvir falar dele ou que se fartaram de quem falava dele. 
Precisamos voltar ao início do cristianismo, recordando a razão do aumento exponencial do cristianismo. É a experiência do ressuscitado que tem de voltar aos nossos corações. É o testemunho dessa experiência que muda as vidas e os corações. O futuro passará por comunidades mais simples, mais pequenas provavelmente, ainda que em territórios grandes, mas numa organização mais aberta e participativa, mais vivas, coerentes e verdadeiras, mais capazes de testemunhar e ser exemplo, não tanto para a sociedade, mas nela. Serão sobretudo as relações inter-pessoais, familiares e afectivas, os instrumentos privilegiados da futura evangelização. Será necessário recuperar a vida normal como o espaço onde os cristãos dão testemunho de fé. A estrutura eclesiástica terá de assumir novos enquadramentos na sociedade e a sua organização eclesial terá de se assumir como um “nós eclesial”, deixando de lado "hierarquologias" instaladas. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As paróquias que estão a morrer"

terça-feira, janeiro 09, 2024

As homilias

Estava a fazer a homilia numa eucaristia de dia de semana e eu, que concelebrava, escutava. Falou ligeiramente da primeira leitura, depois do evangelho e ainda falou da solenidade do dia. Coisas vagas. Coisas. Faltou-lhe alguma lógica, mas não falou mal. Durante cerca de quinze minutos, no meio do voo das suas palavras, voaram também os meus pensamentos. 
É muito comum que nós, padres, falemos coisas nas homilias. Coisas. Não actualizamos a Palavra de Deus, que é o objectivo da homilia. Não falamos para as pessoas que nos escutam, isto é, não comunicamos. E costumamos complicar as palavras. Poucos as entendem. Menor número ainda são os que as levam para a vida. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Falar de Deus e com Deus"

domingo, dezembro 10, 2023

A paróquia consumidora de missas

Chamou-me logo a atenção quando contou que, na paróquia onde estava, se celebravam oito missas dominicais e quatro por dia no resto dos dias da semana. A paróquia localizava-se numa zona periférica de uma grande cidade europeia. O bairro era muito frequentado por um determinado movimento religioso que não interessa referir agora. O colega, que fazia parte de uma pequena comunidade de três sacerdotes, não conseguia justificar a clientela senão pela presença desse movimento. Perguntei-lhe como eram os horários das missas dominicais. Eram às oito, às nove, às dez, às onze, às doze, às treze, às dezoito e às dezanove. Sem que lhe perguntasse, informou que o que mais lhe custava era não haver cânticos e a celebração ter de ser rápida, para dar tempo a saírem uns e entrarem outros. Fez-me lembrar as sessões de cinema. Não me atrevi a perguntar-lhe se havia senhoras das limpezas no intervalo das missas e carrinho de pipocas à entrada. Mas fiquei convencido de que os padres daquela paróquia eram mais funcionários que pastores e de que aquela paróquia era uma consumidora de missas, mas não era comunidade. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Cristãos de funerais que não acreditam"

quarta-feira, setembro 20, 2023

A generosidade dos pobres

Esteve em Roma o tempo suficiente para conhecer algumas ruas de cor e alguns dos seus habitantes. Naturalmente que ia algumas vezes à Praça de São Pedro. Ali perto, encontrava sempre um casal sem-abrigo, ele sentado numa cadeira de rodas, ela sentada a seu lado, muitas vezes a fazer tricô. Saudavam-no sempre que passava. Buongiorno, padre. Reconheciam-no no meio dos transeuntes, porque ele também os saudava. Uma manhã, ao passar junto deles, a senhora pediu-lhe uma ajuda diferente da moedinha habitual. Que ajudasse o marido a levantar-se do seu cobertor estendido no chão e o colocasse na sua cadeira de rodas. Nem o cheiro do descuido o impediu de se dispor prontamente a levantá-lo e a ajustá-lo na cadeira. No final, delicada e muito agradecida, a senhora perguntou-lhe se aceitava um café, que ela teria todo o gosto em oferecer-lho.
 

terça-feira, agosto 22, 2023

todos, todos, todos

O Papa Francisco tem este dom dos chavões. Frases que ficam a tinir nos ouvidos e facilmente se repetem em qualquer circunstância. Até parece que aprendeu bem uma das regras modernas da comunicação. E assim fez nas diferentes comunicações durante a JMJ em Lisboa. Podia citar uns poucos desses chavões, mas um dos que fez mais eco na boca de muitos dos habituais críticos, contra-críticos, comentadores de bancada, escritores de verbo de encher, opinion maker’s e influencer’s foi o do “todos, todos, todos”. Não se conseguem contar pelos dedos todos os que se esforçaram a tentar clarificar, interpretar e até meditar o que significavam tamanhas palavras. Grande hermenêutica. Só faltou alguém se lembrar que o Papa queria dizer “todes” em vez de todos. Muitas vezes me veio à ideia este “todes”. Então é que era um Papa fixe. Mas vamos lá falar a sério, meus amigos. Eu não percebi como é que um chavão que apenas repete aquilo que já se sabe do tão grande amor de Deus, que não exclui ninguém, que ama a todos sem distinção e que, como se percebe na cruz, enviou o Seu filho ao mundo porque quer salvar todos sem excepção, é motivo para tanta tinta e tantas opiniões e contra-opiniões. E agora sou eu que faço hermenêutica de chico-esperto. O que o Papa quis foi deixar claro, mais uma vez, que Deus ama sem medida todos e todos têm lugar no Seu coração. Afinal é isso que qualquer missionário deve dizer e o Papa não é mais que uma missão aqui na terra. E já agora, convinha que TODOS percebêssemos que também nós somos ou devemos ser uma missão aqui na terra.

A PROPÓSITO OUN A DESPROPÓSITO: "Qual é o limite para amar a Deus?"

quarta-feira, julho 19, 2023

Catequese para miúdos sem fé

Não rezam e não vão à missa. Não sabem estar na missa. Não se confessam nem se sabem confessar. São capazes de comungar só porque os outros também vão comungar. Não sabem o que é a oração da via-sacra e sobre o terço têm uma vaga ideia. Só ouvem falar de Deus na catequese, quando conseguem ouvir a catequista no meio da barulheira e da distração. Não se lembram de Deus. Passam-se dias e dias sem que Deus venha ao pensamento. Pouco mais sabem que o nome de Jesus. Não entendem o que é o Espírito Santo e confundem Deus com Jesus. Sabem que Nossa Senhora é a mãe de Jesus e os pais já os levaram algumas vezes a Fátima. Não faltam à festa religiosa da terra. Mas são capazes de gozar com as beatas. Sabem da existência do Natal e da Páscoa. O primeiro talvez mais pelas prendas e o segundo talvez mais pelos ovos de chocolate. E ambos pelas férias. Ouviram falar de advento e de quaresma, mas são nomes estranhos. São capazes de gostar de algumas coisas que se fazem na catequese ou nas festas da mesma. Todos têm fotos da Primeira Comunhão e da Profissão de fé. A maioria aguenta-se até ao crisma para poder se padrinho. E, no meio disto tudo, os nossos catequistas, grande parte deles não tão bem preparados pedagogicamente como era necessário, lá vão tentando fazer uma catequese que, a maior parte das vezes, é mais escolar que kerigmática, é mais passar conhecimentos que alimentar e ajudar a crescer a fé. Sei que estou a escrever uma hipérbole, e sei que a fé é muito mais que celebrações, sacramentos, credos e doutrinas. Mas parece-me que temos promovido uma catequese a pensar que os miúdos têm fé e não proporcionamos experiências de fé. No fundo, temos fomentado uma catequese para miúdos sem fé que dificilmente a irão ter.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Queria saber como posso ter fé"

terça-feira, julho 11, 2023

Doze funerais por semana

Doze funerais são os funerais que um colega amigo teve numa semana destas. Doze funerais são, no mínimo, trinta horas de trabalho doloroso, entre os minutos da celebração, do acompanhamento, da cerimónia no cemitério, da preparação da homilia, da viagem para as comunidades onde se realizam os funerais, e eventualmente de algum momento no velório ou no acompanhamento personalizado com os familiares. Acresce ainda a intensidade emocional de uma celebração de despedida. Doze funerais é quase uma semana de trabalho de um trabalhador comum. Acresce ainda a desorganização do que já estava organizado na vida ministerial do padre. Doze funerais são doze oportunidades de encontro com o Senhor através do limite da vida e da dor. Mas doze funerais também são o cansaço dos padres e a morte das paróquias.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A minha avozinha"

sábado, junho 03, 2023

o padre tem de ser um homem de relação

A fé define-se como uma relação com Deus através de Cristo com a força do Espírito Santo, mesmo num mundo de frágeis relações e de redes virtuais. A fé vive-se no encontro e na relação. Por isso o padre tem de ser um homem de relação. E é paradoxal, por um lado, porque os padres trabalham cada vez mais sozinhos e, por outro, não estão a ser formados em relações. Têm vários anos de formação no seminário, fazem cursos de teologia e de pastoral, mas falta-lhes a formação das relações. O risco é tornamo-nos homens de relações, mas que vivem a relacionalidade de forma muito solitária e autorreferencial. Às vezes, de forma desequilibrada. Fala-se muito de sinodalidade e de comunhão, elaboram-se muitos documentos a falar disto, mas depois, na prática, os padres estão cada vez mais isolados e ensimesmados.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O padre que morava sozinho"

quarta-feira, maio 24, 2023

a estrada do padre

Não conheço nenhuma estrada que tenha o nome de um padre. Nem um beco. Mas escolhi este título para falar dos quilómetros do padre. Há uns cinquenta anos, o padre tinha um quilómetro ou dois de estrada. Às vezes mais e tardava-se muito tempo na mula ou no cavalo para chegar de uma paróquia a outra. Era pároco de uma ou duas paróquias, quando muito três. Hoje o padre tem muitos quilómetros pela frente, muitas curvas e contracurvas. Muitas paróquias. E se antes o padre sabia os nomes das pessoas e intervinha nos nomes que os pais davam às crianças no baptismo, hoje o padre não consegue saber os nomes de todos. A estrada alargou-se. A vida alargou-se. O ministério alargou-se. O cansaço alargou-se. 
Não é, por isso, de estranhar que muitos dos meus colegas façam do automóvel um escritório. Tudo aparece na bagageira ou no banco de trás. Livros, rituais, sacos de hóstias por consagrar, uma alva e uma estola. Uma pasta com documentos. Livros no meio da confusão. E, às vezes, uma peça de fruta ou um tupperwere com comida. E muitas garrafas de água vazias, que se vão acumulando como tapetes. E como a maioria do tempo gasto no automóvel é um tempo solitário, não vem mal ao mundo nem pressa para ter o “escritório” arrumado. 
O padre moderno passa muito tempo na estrada. A vida transformou-se numa corrida de automóvel mesmo quando está fora dele. A vida humana, em geral, e a do padre, em particular, tem-se tornado numa corrida, com ou sem automóvel. Tão apressada e tão preenchida de coisas e afazeres que, muitas vezes, o mais importante fica escondido ou apenas se vê a correr do lado de fora da janela, como aquela margem da estrada que nunca acaba, que está sempre lá, mas que não temos tempo para olhar. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O buraco"

sábado, maio 20, 2023

Os abraços que falam

Tinha tido um problema no coração há uns anos e recuperara entretanto. Nada fazia prever que, de um momento para o outro, tivesse um pequeno derrame cerebral. Mas teve. Foi tudo muito rápido. Encontramo-nos antes da missa, mas já na igreja. Olhei-o e perguntei como fora aquilo. Abraçou-se a mim. Apertou-me quanto pôde. E ficámos assim. Tinha muita vontade em me abraçar para me dizer como se sentia. E não disse mais nada para lá do abraço que disse tudo. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "Uma confissão ou um abraço?"

segunda-feira, março 13, 2023

A senhora de papelão

Caminhavam numa rua de uma cidade grande, mãe e filha de cinco anos, quando tiveram de passar junto a uma senhora deitada no passeio, embrulhada por uns papelões de um bege sujo pelo uso, mal-vestida, mal-arranjada, a chorar. Estava frio. A mãe e a menina iam com pressa, porque tinham uma consulta marcada no médico e não podiam atrasar-se, mas a filha não retirava os olhos da senhora dos papelões. Uns bons metros depois, largou a mão da mãe, pôs-se em frente dela, obrigando-a a parar, e perguntou porque é que a senhora estava a chorar. A mãe tentou explicar-lhe que ela deveria estar a chorar por causa da dificuldade da vida, porque não deveria ter casa para se abrigar do frio, cama onde dormir e prato onde comer. Como as crianças destas idades nunca se contentam com uma pergunta, a pequena disparou de imediato: Então porque é que tu não a ajudaste? A mãe ficou desarmada por fora e sobretudo por dentro, deixando que as lágrimas da senhora de papelão chegassem ao seu rosto. Com a maior honestidade possível, baixou-se e explicou à filha que tinha errado muito ao não ajudá-la. A pequena limpou-lhe algumas lágrimas e abraçou-a. Abraçaram-se. E aquela mãe, ainda hoje, quando conta esta pequena história, chora como a senhora de papelão. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "O Carlos que é meu sacristão"

terça-feira, março 07, 2023

A nota sem dono

Era seu costume levar sempre qualquer coisa ao mendigo que estava sentado no seu posto de abrigo, ao sair da faculdade. Uma peça de fruto, um chocolate, uma moeda, uma notita. Chegou a levar-lhe um maço de cigarros, porque ele fumava. Ao princípio achou estranho que um mendigo fumasse quando tinha necessidade de tantas outras coisas. Mas depois foi percebendo que era assim que ele gastava a vida, porque não tinha outro modo de a gastar. E aceitou-o como ele era. Foi a descoberta mais bonita que fez da mendicidade. Não julgar quem é mendigo. Tornaram-se amigos, ao ponto do mendigo dizer bom dia e boa tarde sempre que se viam, e ao ponto deste meu colega padre o chamar do meu amigo mendigo. Estas coisas não se contam e ele só mas contou porque, há dias, quando se aproximava do transporte para casa, encontrou uma nota de dez euros no chão. Pegou nela, percebeu que não era possível encontrar-lhe o dono. E no outro dia, de manhã cedo, antes de entrar na faculdade, depois do bom dia habitual e de um trocar de pequenas palavras, arranjou um novo dono para a nota, o seu amigo mendigo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Quem olha para dentro, desespera"