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domingo, fevereiro 13, 2022

“assassinado pela indiferença”

No centro de Paris, numa rua movimentada, no passado dia 18 de Janeiro, o fotógrafo René Robert, de 85 anos, depois de ter saído de casa, após o jantar, para um passeio, não se sabe ao certo como nem porquê, caiu inconsciente. Ali permaneceu caído cerca de nove horas, exposto ao frio numa noite em que as previsões meteorológicas apontavam para temperaturas de 3ºC. Levado para o hospital, depois que um sem-abrigo chamou os serviços de emergência, já pelas 6h30 da manhã, foi-lhe diagnosticado um traumatismo craniano e uma grave hipotermia como causa do óbito. Foi um desalojado da sociedade, um sem-nome, quem deu o alarme. Mais um dos que não conta. E um jornalista, amigo do fotógrafo, ao falar do assunto, intitulou-o de “assassinado pela indiferença”. Como de facto, assassinado por uma sociedade que tem opinião para tudo, mas que é indiferente a tudo. Uma sociedade que defende a diferença, mas não dá conta do outro. Uma sociedade formada por indivíduos que não se olham senão a si próprios. Paradoxalmente plural e individual como nunca na história do mundo. Uma sociedade em rede desligada. Uma sociedade feita de pessoas que vivem, sozinhas, ao lado uns dos outros!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O sacrário está vazio"

quinta-feira, junho 24, 2021

A bola de garrafa

Chegam à catequese desvairados, diz-me uma catequista. E a verdade é que estava uma garrafa de água em local estratégico, dentro do centro pastoral, para ser levada para outro lado, e este grupo de miúdos, como se fosse a coisa mais natural do mundo, serviram-se dela como se de uma bola se tratasse. Nem há pandemia nem há nada que resista. E tudo começa em casa. É o que temos. Por isso entendo como é que as catequistas têm tanta dificuldade em cumprir a sua missão. Porque não são apenas as garrafas de águas que são bolas nos pés de alguns miúdos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

terça-feira, março 16, 2021

Sociedade irritada VI

As redes sociais expõem, mesmo sem os seus utilizadores darem conta, as fragilidades, a ignorância, a inoperância das pessoas e, muitas vezes, ainda projecta o que de pior têm. O Papa diz mais ou menos isto na encíclica Fratelli Tutti, mas eu também penso deste modo quando penso nesta sociedade que tem criado redes de relações superficiais a quase todos os níveis. Os erros ortográficos dão conta da ignorância de muitos. As opiniões sem argumentos ou com argumentos falaciosos dão conta do desconhecimento e da incapacidade de reflectir de muitos. Os ataques verbais escritos dão conta do íntimo de muitos. As críticas constantes do que este e aquele deviam fazer dão conta da acção de bancada de muitos. Com pena, vivemos nesta virtualidade, sem dar conta que, na maioria das vezes e dos casos, o que mostramos de nós não é o melhor. 
 

sábado, setembro 26, 2020

A sociedade irritada V

Hoje usamos as redes sociais porque, para além de ser moda, é o foco da nossa personalização ou identidade, o local onde, como os adolescentes em tempos de emancipação, se procura manifestar uma personalidade. Ou melhor, para se dizer que se existe. Como se isso fosse a personalidade de uma pessoa ou a identificasse! Por isso as redes sociais se tornaram o mundo das opiniões, dos comentadores de bancada, dos julgamentos sem juiz. Por isso se tornaram o álbum favorito das nossas pequenas demonstrações do que visitamos, do que vestimos, do que comemos, das pessoas que nos acompanham, do que fazemos… mesmo que isso diga apenas uma muito ínfima parte de quem somos. Mas o importante é mostrarmos que somos! Por isso somos cada vez mais virtuais e a nossa personalidade é cada vez mais bipolar. 
 

terça-feira, março 17, 2020

Os gestos covid

Ligou há pouco. Ainda não passaram dez minutos. Tem oitenta e sete anos. Mora sozinha. Nota-se que já tem alguma idade, como se costuma dizer, mas é uma mulher que se ocupa e que tem sempre algo para fazer. Ligou e fomos conversando, como quase toda a gente por estes dias, no maldito vírus. Eu disse-lhe que tinha de se proteger, cuidar, isolar e precaver porque, como ela já sabia, faz parte do grupo de risco. E ela respondeu-me que já falou disso com “o lá de cima”. Foram expressões suas. Disse-lhe que se já tivesse chegado a sua hora, que não havia problema pois já tinha muita idade e já tinha vivido o suficiente. Pedia-lhe apenas pelos filhos e pelos netos. Que os protegesse. Mas que se achasse que ainda não tinha chegado a sua hora, que agradecia que mantivesse o vírus longe. Ainda nos rimos um pouco os dois. 
Porque a conheço bem, sei que foram palavras sinceras. Uma oração sincera. Mas nisto diz-me. Ó senhor padre, como está aí sozinho, aí por volta das 13h eu levo-lhe aí o almoço. Tenho de andar um pouco, que me faz bem, e não posso abandonar o senhor padre, que está sozinho! 
Eu é que me devia preocupar com ela, que faz parte do grupo de risco e está sozinha, e, afinal, era ela que se preocupava comigo, o senhor padre que está sozinho. Sem palavras e comentários. Esse reservo-os no meu coração com pequenas gotas de lágrimas.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A chorar durante a missa"

quinta-feira, março 12, 2020

esta hora covid

Escrevo com a sensação de que anda por perto alguma lágrima e, quiçá, entrando naquilo que eu me atrevo a chamar de “pânico de responsabilidade”, com decisões nas mãos para as lançar fora delas. Respiro fundo e sereno. Respiro fundo e digo para mim mesmo que vou serenar. Quem acha que tomar decisões pelos outros é fácil, que se desengane. Pelo menos quando o fazemos com consciência, sentido de responsabilidade e a pensar deveras nos outros, sobretudo os mais frágeis. 
Aqui, no meu pequeno mundo paroquial, sinto o peso de saber que devo tomar decisões equilibradas entre evitar a todo o custo os contágios, na expectativa de aprazá-los ao máximo para que as respostas de saúde possam ir surtindo efeitos, e evitar o pânico generalizado que nos mata por dentro e também nos impede de “viver”. Faz lembrar a notícia que ouvi esta manhã de um senhor que, por estar convencido de ter o coronavírus e porque não queria contaminar ninguém, se suicidara. 
Como o sociólogo Lipovetsky dizia, este vírus é sintoma da hipermodernidade, associado ao individualismo, a indiferença e a ligeireza como diagnóstico crucial do presente. A sociedade globalizada e móvel, que busca aceitar a diferença, mas que é cada vez mais indiferente, nesta hora obriga-nos a questionar os nossos alicerces. Queremos viver sem sofrimento e sem medos, mas isso não é possível sem responsabilidade, sem esperança, sem sacrifício e esquecendo o bem comum. E como cristãos, devemos encarar a vida como peregrinos, sabendo que a qualquer momento chega a nossa hora de ir para o Pai, mas ao mesmo tempo como bons administradores do maior dom que Deus nos concedeu, a vida que cada um de nós tem. Estamos, portanto, diante de uma realidade que nos assusta, mas que também nos pode auxiliar a fazer um exame de consciência pessoal e colectivo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Sabemos pouco da vida"

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

A sociedade irritada IV

A nossa sociedade gasta-se em opiniões. Aliás, não é ela que se gasta. Somos nós. Gastamo-nos em opiniões e contra-opiniões, mesmo não abalizadas. Só porque sim. Porque eu tenho direito e liberdade. As redes sociais e a globalização da diferença e da indiferença potenciaram o excesso de opiniões e a liberdade de se dizer o que se quer, sobretudo por detrás de um ecrã, porque não nos custa ter de enfrentar os olhos da outra pessoa que magoamos ou que contrariamos. O ecrã é o mundo das opiniões, por excelência. E hoje toda a gente tem uma opinião e se vale dela para existir, para se definir, para manifestar a sua personalidade, para se impor. Porque dificilmente o consegue de outro modo. É uma sociedade sem identidade, sustentada em opiniões mais do que na verdade! 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A sociedade irritada I", "A sociedade irritada II" e "A sociedade irritada III"

quinta-feira, janeiro 23, 2020

A sociedade irritada III

Na sociedade em que vivemos proclama-se a liberdade como a máxima das máximas. Liberdade de expressão. Liberdade de entendimento. Liberdade religiosa. Liberdade sexual. Liberdade de tudo. Mesmo que, mais do que nunca, as pessoas estejam presas em si mesmas. Amarradas a estereótipos de moda. A minorias e discursos de identidades minoritárias. É uma sociedade homogénea, cada vez mais heterogénea. Ou heterogénea cada vez mais homogénea. Uma sociedade onde tudo é possível, mas onde nada é possível. Onde tudo se aceita, mas nada se aceita. Uma sociedade que propõe e quer aceitar a diferença. Mas que nunca foi tão indiferente. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A sociedade irritada I" e "A sociedade irritada II"

domingo, novembro 24, 2019

A sociedade irritada II

Na sociedade em que vivemos está na moda o insulto. Mesmo não sendo anónimo, quase sempre no anonimato. Quase sempre virtual. Quase sempre fora do real. Mas que dói como realidade. Nunca ou quase nunca cara a cara. Os insultos na cara são punhos erguidos. Mas também são saco de boxe. É a sociedade das redes sociais que são pouco sociais. Uma socialização de irritados com a vida. Que para ali vão debitar as amarguras de uma vida atrás da realidade, num écran que fabrica opinadores de serviço. Sociedade virtual. Quer-me parecer que vivemos numa sociedade mal resolvida e constantemente irritada.

quarta-feira, novembro 13, 2019

A sociedade irritada I

Na sociedade em que vivemos o que conta são as opiniões. Cada um se vale da sua opinião. Cada um tem a sua opinião. E é um dos direitos mais reclamados dos tempos pós-modernos, mesmo que signifique uma ruptura com a dignidade do outro. Mesmo que a nossa opinião implique maltratar o outro, mais que maltratar a opinião do outro. Mesmo que a nossa opinião não seja a verdade. Ela torna-se uma verdade. Não há uma verdade universal. Porque a verdade, hoje, é a nossa opinião. E há opiniões como botões de camisa. Mesmo que a camisa seja da mesma pessoa!

quarta-feira, dezembro 28, 2016

O sacrário está vazio

Não sei o motivo, mas quando o meu colega expôs o Santíssimo para a adoração, deixou a porta do sacrário totalmente aberta. Se não fosse a dignidade do contexto, eu diria que ela estava escancarada. Mas não digo. 
Nunca reparara tanto num sacrário vazio. Possuía uma leve iluminação. Estava forrado com um dourado mascado. Não possuía nem paninhos nem cortinas. Contudo o mais interessante deste sacrário é que o seu espaço vazio chamou a minha atenção. Prendeu-a mais que o próprio Senhor na hóstia consagrada. Neste momento, tal como me ocorreu quando escrevia, podem surgir uma série de vontades ou sensações recriminatórias. Eu próprio quis dar um nome a esta minha desatenção da custódia. Não lho dei porque não o encontrei. Ainda pensei que era mais um dos meus estados de espírito mundanos.
Paro e penso que me quero referir aos pensamentos ou sensações acerca de um mundo vazio, vazio de si e vazio de Deus. Tentei mais umas quantas justificações. Todas elas edificaram a minha meditação desta noite diante do sacrário vazio. Todas elas preencheram o meu vazio. Todas elas me falavam do vazio. Do vazio de um Deus que se quer ausente. Ou apenas no mítico espaço dos deuses. Ou pior, um Deus usado para esvaziar o mundo.