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terça-feira, março 31, 2026

As mulheres

Contaram-me que, enquanto passavas com a cruz aos ombros, algumas mulheres gritavam para dentro o sufoco da dor. Ouviam-se os seus gemidos e lágrimas como uma música de embalar no meio de uma multidão que estava ali para ver o espetáculo! No meio da algazarra do tumulto em volta do espectáculo, os seus gritos mudos em nada sobressaíam, mas tu deste conta. Voltaste-te para elas com a mesma ternura com que as tinhas olhado sempre e disseste: “Não choreis por mim, chorai por vós mesmas e pelos vossos filhos”. Agora que penso nestas tuas palavras, bato no peito, choro por mim, choro pelos nossos filhos, choro em nome desta multidão que está agora à volta do teu corpo frio... e nú.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

segunda-feira, abril 21, 2025

Agradeçamos

"Abençoe-vos Deus Pai Todopoderoso: Pai, Filho e Espírito Santo". A conclusão ordinária de cada celebração ganhou ontem, na celebração de Domingo de Páscoa, em Roma, um alcance maior, porque foram as últimas palavras públicas que se escutaram da voz em dificuldade do Papa Francisco. Hoje o mundo, em geral, e a Igreja, em particular, acordaram com a notícia dolorosa da sua partida para a Casa do Pai. Curioso como Francisco parte na segunda-feira de Páscoa, depois de celebrarmos a Ressurreição do Senhor. A vida é um caminho peregrino para esta meta e, às vezes, o caminho culmina com um calvário. No caso do Papa, desde 14 de fevereiro que se foi avizinhando este momento que a grande maioria dos crentes não queria que chegasse por tanta coisa pendente que ele vinha fazendo desde 3013, desde o início do seu pontificado. Mas isso compete a Deus, porque a Igreja é sua e não dos Papas. Confiemos que os 135 cardeais eleitores façam a escolha do Espírito Santo para o Papa que a Igreja de hoje precisa. Entretanto, que a Igreja entre por inteiro em acção de graças pelo dom da vida e missão deste Francisco que nos trouxe de volta o Francisco que há 800 anos também operou uma revolução no íntimo da Igreja. 

Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que recusou a grandeza, escolheu a simplicidade, trocou o poder pela proximidade, preferiu não ser príncipe para ser servo e pastor, e por isso foi luz de um Deus que é sempre misericórdia. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa das periferias, dos pobres, dos recasados, dos abusados, dos esquecidos, dos últimos, de todos. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da evangelização sempre nova e dos discípulos missionários, da Igreja em saída missionária e em estado de missão, da Igreja sinodal como Povo de Deus peregrino e da Igreja como hospital de campanha, de portas abertas. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que resgatou o Concílio Vaticano II e que deu impulso a uma Igreja mais corresponsável, participativa, ministerial e sinodal. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da reforma da Cúria, assim como da colegialidade e da descentralização. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa dos pastores com cheiro a ovelha e que caminham à frente, ao lado e atrás. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que valorizou os leigos e as mulheres. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da Casa comum que é urgente cuidar e da Fraternidade universal que não se pode esquecer. 
Agradeçamos pelo Francisco que Deus nos deu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

domingo, novembro 05, 2023

As mulheres no sínodo

A XVI Assembleia do Sínodo dos Bispos, ocorrida entre 4 e 29 de outubro deste ano de 2023, teve substanciais novidades em relação às anteriores assembleias. A inclusão de mulheres, ainda por cima com direito a voto, foi uma das mais notáveis. Dos 365 participantes, 54 eram mulheres, todas elas com direito a voto. No entanto, quando, durante a assembleia, se falou do papel das mulheres na Igreja, a discussão foi renhida e, na hora das votações, foi a temática que obteve mais votos negativos, embora com os votos positivos necessários para ser aprovada. Dos 344 participantes presentes na congregação geral conclusiva, 69 foram desfavoráveis. Foi sobretudo o potencial acesso das mulheres ao ministério diaconal que causou dificuldades. Uns foram contrários, porque consideram estar em descontinuidade com a Tradição, e outros favoráveis, porque consideram ser um regresso a uma prática da Igreja das origens. 
Já manifestei publicamente que não me parece essencial a ordenação de mulheres, seja diaconal ou sacerdotal, assim como também não sou contra que se dê esse passo, pois uma das coisas que mais valorizo na Igreja que defendo é a comunhão de diferentes em pé de igualdade. O que me parece é que, às vezes, se reduz o assunto a uma questão de emancipação da mulher e isso, a meu ver, seria reduzir o assunto a questões secundárias. Assim como desejo que esta aspiração das mulheres ao sacerdócio ministerial não seja mais uma forma dissimulada de clericalismo, isto é, uma forma de as mulheres também terem acesso ao poder eclesiástico. Seria atacar o clericalismo com outro clericalismo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja das mulheres"

domingo, outubro 29, 2023

Aprendemos a sinodalidade fazendo sinodalidade

Aos participantes da XVI Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos deste mês de outubro foi pedida discrição e que não relatassem para fora o que se passava dentro. Fiquei agradado com esta tentativa de evitar mexericos, embora se tenha de reconhecer que não seria possível evitá-los totalmente. Leio por aí artigos, comentários, notas de bastidores. Um destes textos chamou-me particular atenção porque falava de algumas tensões nas mesas dos participantes. Contava, por exemplo, que um bispo não aceitara ser fotografado ao lado de um padre com quem tivera acesas discussões. Outro bispo, que fazia de secretário numa das mesas, ao dar conta da observação atenta de um padre por cima do seu ombro, ameaçara com expulsá-lo da sala. Atitudes que demonstram que o mais importante deste sínodo não são os resultados mas a experiência. Na Igreja não estamos treinados para nos escutarmos em pé de igualdade, a igualdade fundamental do baptismo. Como era expectável, o mesmo texto informava que os participantes da assembleia reconheciam que os leigos presentes eram os mais versáteis na prática da sinodalidade. Não me admira que tenha sido difícil sobretudo aos que mais estão habituados a mandar e a não sentirem o exercício do contraditório. O sínodo ainda não terminou, mas esta assembleia deu um passo sinodal porque, na verdade, nós aprendemos a sinodalidade, fazendo sinodalidade.

A PROPÓSITO OU A DESPORPÓSITO: "Clericalidade da Igreja"

terça-feira, outubro 17, 2023

Um sínodo ‘redondo’

Nunca antes um Sínodo dos Bispos no Vaticano viu cardeais, bispos, padres, leigos, incluídas mulheres, reunidos em mesas redondas para discutir, ouvir, reflectir em conjunto e discernir o futuro da Igreja. As sessões plenárias dos anteriores sínodos decorriam num anfiteatro, com a mesa da presidência, num palco, voltada para o público que estava disposto em filas, de acordo com a respectiva posição na hierarquia. Na Assembleia Sinodal que está a decorrer em Roma, os participantes, sem distinções hierárquicas, encontram-se, olhos nos olhos, em pequenos grupos, sentados em mesas redondas. Todos podem falar dentro destes pequenos grupos e são livres de fazer apresentações escritas ao secretariado. Foi muito interessante ver nesta assembleia sinodal o Papa Francisco sentado à volta de uma destas mesas redondas. O ‘redondo’ explica melhor a comunhão que devia viver a nossa Igreja que é de todos. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

terça-feira, outubro 10, 2023

A minha expectativa do sínodo

Quando em 10 de outubro de 2021 o Papa Francisco abriu o sínodo sobre a sinodalidade, ninguém tinha a certeza do seu alcance. Sabia-se que seria algo importante na Igreja, ao menos, pela sua duração e pelas etapas estrategicamente propostas: local, continental e universal. As expectativas atingiram de imediato os chamados progressistas e conservadores dentro da Igreja. Os primeiros, entusiasmados, a pensar que se iriam mudar muitas regras e leis, e os segundos, preocupados, a pensar exactamente no mesmo. Que o sínodo é importante, atesta-o o facto de, entretanto, o Papa ter decidido prolongar em mais um ano a sua duração e em promover duas assembleias sinodais. Os temas que a comunicação gosta de badalar são capa. Os jornalistas não perdem a oportunidade para insistir na ordenação de mulheres, a bênção de casais LGBTQIA+, a alteração do celibato, entre outros assuntos sensíveis similares. Muita atenção se tem centrado nestes assuntos, na expectativa do que poderá vir a suceder. 
Desde outubro de 2021 que tenho acompanhado com atenção este processo. Foi-me dada a oportunidade de liderar algumas reflexões e pronunciamentos. Vou lendo o que o Papa vai dizendo, assim como alguns teólogos que aprecio. Acompanho as notícias. Rezo a Deus pelos bons frutos de tudo o que está a ser feito. Rezo bastante. Mas rezo sobretudo a pedir ao Senhor Deus que ajude os cristãos, todos eles, sem exclusão, a perceber, de uma vez por todas, que a Igreja somos todos nós. Se este sínodo apenas tivesse servido para isto, eu já ficava muito satisfeito. Todos na Igreja temos igual dignidade e missão. O que difere é o modo como o fazemos.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Clericalidade da Igreja"

domingo, abril 02, 2023

A avó que era uma santa e morrera santamente

Era muito boa a minha avó, senhor padre. Guardo-a no coração. Guardo-a como um coração dentro do meu coração. E então contou-me da fama que havia na terra de estar tudo bem em seu redor, de ela ver tudo com um olhar positivo, de estar sempre disponível e disposta para o que quer que precisassem dela. Falou também vagamente da doença que a acompanhou nos últimos dias da sua vida. Nada que a impedisse, porém, de ir à missa. Porque ela tinha algo especial com o Senhor. Ó senhor padre, era mesmo uma santa. Tão santa era que morreu de joelhos depois de comungar o Senhor. E contou que já não estava muito bem da sua saúde, mas que fora à missa acompanhada pelo marido e um outro familiar, que ela se deslocara, por seu próprio pé, à comunhão, que regressara ao seu lugar e se ajoelhara entre o marido e o outro familiar. Não mais se levantou, senhor padre. Quando a tentaram levantar, já tinha falecido. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A dona Olímpia e o menino Jesus da cabeleira"

quinta-feira, março 10, 2022

Se as mulheres parassem, a Igreja parava.

Não era uma campanha feminista ou coisa do género. Era um diálogo um pouco surdo, ou em surdina, entre duas gerações de mulheres que se dedicam com alma à Igreja, na comunidade onde vivem e celebram a fé. O diálogo ocorreu na minha presença. Uma presença discreta, a minha, que as deixou falar à vontade. 
Uma das mulheres, a mais velha, está habituada a servir o marido e todos os demais à sua volta. Fá-lo com uma generosidade ímpar. A outra, a mais nova, gasta-se a servir como se a sua missão lhe viesse de uma vontade de ser útil, estar presente, ser uma voz entre iguais, fazer o que tem de fazer porque entende que vive numa sociedade e numa Igreja que precisa dela e do seu carisma. A segunda exaltava o papel das mulheres. A primeira apagava o papel das mulheres. Uma esgrimia argumentos a dizer que elas eram imensamente importantes na Igreja. A outra esgrimia poucos argumentos. Ouvia mais que falava. Gostava do que ouvia, mas não precisava disso para fazer o que fazia na comunidade. Era uma mulher submissa. Talvez ainda haja mulheres que sentem ou vivem a palavra “submissão” como subjugação, dependência, servidão, subordinação, sujeição, vassalagem. Eu prefiro entender a palavra como entrega humilde, como disponibilidade. Mas entendo que seja uma palavra difícil, tanto de entender como de usar. Estava interessante a conversa daquelas duas mulheres. Eu gostava do significado das palavras, inclusive dos silêncios e das pausas. Daqueles dois exemplos de fé professada, celebrada e vivida. Na primeira pessoa, ou na segunda ou na terceira. Dava igual. 
Sem as interromper, anotei. Se as mulheres parassem ou fizessem greve nas comunidades cristãs, a Igreja parava. De facto. As mulheres são quem mais trabalha nas comunidades cristãs, quem mais ocupa ministérios litúrgicos e pastorais, quem está mais presente, quem mais se dedica à Igreja. Ei-las no coro, no ambão, no zelo dos altares, na catequese, nos grupos de oração, nos encontros espirituais, na acção socio-caritativa, e por aí fora… Apesar da  hierarquia da Igreja ser constituída só por homens, atrevo-me a dizer que cerca de 95% das comunidades cristãs, no seu todo e no seu particular, são asseguradas por mulheres.
Mais depressa a Igreja parava sem as mulheres que sem os homens. Se as mulheres parassem, a Igreja parava. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

segunda-feira, março 09, 2020

A igualdade das mulheres na Igreja

Li que um grupo de mulheres em Espanha, católicas assumidas, como se designaram, iam sair às ruas a pedir a igualdade. Li o texto com atenção, mas não o entendi. A peça jornalística referia que iam fazer uma manifestação diante dalgumas igrejas. Continuei a não entender.
Querer mais espaços na Igreja, mais papéis de liderança, mais voz é bom. Querer uma Igreja menos patriarcal e mais matriarcal, dentro dos necessários equilíbrios, é muito bom. É algo que também desejo. Mas invocam o princípio da igualdade e isso da homogeneização é algo que me incomoda. 
É uma tolice quando achamos que somos menos que os outros só porque não fazemos o mesmo. Esta coisa da igualdade impede a nossa diferença. Somos diferentes e precisamos da diferença que cada um é para se fazer a pluralidade e comunhão. Há coisas que as mulheres fazem muito melhor que os homens! E já o fazem em Igreja. E são igualmente Igreja como os homens o são no que fazem. Eu reconheço a corresponsabilidade das mulheres na Igreja. Como reconheço a corresponsabilidade dos leigos no geral. Ou dos religiosos. Ou dos homens. 
Nunca fui adepto do dia das Mulheres, como se houvesse necessidade de um dia para falar da sua dignidade. Para mim todos os dias são das mulheres. Como dos homens. Como da humanidade. Como de Deus.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "A Igreja das mulheres

segunda-feira, setembro 24, 2018

Beatas, ratas de sacristia, ou santas

Há quem lhes chame beatas do padre, ratas de sacristia, e por aí fora. Nomes que se ouvem por todas as paróquias e que, às vezes, até a nós, padres, nos ocorre repetir. Mas são aquelas mulheres que sustentam a paróquia com a sua oração, todos os dias, à mesma hora, na Igreja. Guardam essa hora para estar com Ele e para rezar por todas as necessidades, por todos e toda a paróquia. São meia dúzia de senhoras com uma certa idade que quase nunca faltam a esse compromisso que assumiram diante de Deus e da comunidade. Se calhar nem sempre são pessoas que na vida diária têm as melhoras condutas. Apontam-lhes, com frequência, o dedo, como sendo pessoas que batem no peito ou colocam as mãos juntas para rezar, mas pouco fazem, de mãos abertas, para ajudar os outros. Não sei se isso é verdade ou não. Também me parece que esse tipo de juízo é demasiado exagerado. Não há ninguém perfeito. Mas uma coisa é certa: elas raramente falham ao compromisso de rezar pela comunidade toda. Por isso hoje queria dirigir-lhes o meu Bem hajam, e chamar-lhes de minhas santas, ou santas da minha comunidade cristã. Vós suportais, em muito, a nossa comunidade. Não há casa sem fundações. Não há árvore sem raízes. Não há intimidade com Deus sem oração. Não há Igreja sem oração. Não há comunidade cristã sem oração.

quinta-feira, junho 07, 2018

A Igreja das mulheres

Na verdade era uma missa da semana, e como todas as missas da semana, os seus participantes são na maioria mulheres, sobretudo as que estão reformadas. Entrei na Igreja, como faço quase sempre, lançando gestos de saudação e murmurando olás, boas tardes, coisas assim. Quando cheguei junto do altar, ajoelhei. Conversei um pouco com o de lá de cima, e de repente dei por mim a constatar que as cerca de vinte pessoas que estavam na Igreja eram exclusivamente mulheres. O único homem ali era o padre que ia celebrar a missa. E isto levou a minha oração para outras bandas. De facto, olhamos para o grupo de catequistas e são, na maioria, mulheres. Olhamos para o grupo dos ministros extraordinários da Comunhão e são, na maioria, mulheres. Olhamos para os diversos serviços, eventos paroquiais, e constatamos mais do mesmo, que, na maioria, são sustentados por mulheres. Bem vistas as coisas, só a hierarquia da Igreja é que não é composta por mulheres. Bem vistas as coisas, são elas que fazem caminhar a Igreja. Ou então experimentem acabar com a sua participação ou deixar de contar com elas nas comunidades paroquiais e logo verão que acontece. Eu sei que não é fácil imaginar estas comunidades sem padres. Mas também não é fácil imaginá-las sem mulheres que, tão generosamente, as fazem caminhar.