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sexta-feira, abril 03, 2026

porque me abandonaste?

É verdade que até para ti não foi fácil. Também recordo que morreste a rezar aquela pergunta in-finita que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?”. Procuro uma explicação para ela. Parece não fazer sentido vinda da boca de um Deus que não precisa de nada e tudo pode. É difícil entender que também tu tens dificuldade em abraçar a dor, em te sentir só e abandonado no sofrimento. Só lhe encontro uma explicação: uniste-te a nós não só na dor como na dificuldade em aceitar a dor. E isso só prova que tu não amas por metade. Não amas só por uma razão. Amas por todas. Amas por inteiro.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Entrego-te"

terça-feira, março 31, 2026

As mulheres

Contaram-me que, enquanto passavas com a cruz aos ombros, algumas mulheres gritavam para dentro o sufoco da dor. Ouviam-se os seus gemidos e lágrimas como uma música de embalar no meio de uma multidão que estava ali para ver o espetáculo! No meio da algazarra do tumulto em volta do espectáculo, os seus gritos mudos em nada sobressaíam, mas tu deste conta. Voltaste-te para elas com a mesma ternura com que as tinhas olhado sempre e disseste: “Não choreis por mim, chorai por vós mesmas e pelos vossos filhos”. Agora que penso nestas tuas palavras, bato no peito, choro por mim, choro pelos nossos filhos, choro em nome desta multidão que está agora à volta do teu corpo frio... e nú.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Beatas, ratas de sacristia ou santas"

quinta-feira, março 26, 2026

Sepultar à pressa

Há quem te queira depositar no túmulo à pressa. Tudo tem de ser à pressa porque toda a gente tem mais que fazer: Vamos, depressa, façamos tudo rápido, que temos de ir para casa fazer a festa comercial, cultural e mediática da Páscoa. Não ouves? Se és Deus, porque não vais por teu próprio pé para o túmulo?! Já vimos o que tínhamos a ver. Já batemos as palmas e já deixámos cair umas lágrimas no meio do furor da emoção. Temos muito que fazer. Temos sempre muito que fazer aquilo que não está feito e que sempre estará por fazer. Corremos loucamente atrás de uma vida, fugindo, sem querer, dela. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

quinta-feira, fevereiro 12, 2026

Deus baixíssimo

O Altíssimo abaixou-se para ser o Baixíssimo. Assumiu a carne frágil da humanidade. Depois subiu novamente. Mas subiu para o lugar da morte, a cruz. Subiu para baixar ainda mais. Para baixar aos mais periféricos dos periféricos, os criminosos. Devo dizer que me custa imenso pensar num Deus que se deixa associar aos criminosos! Não há baixeza maior! O Deus que tudo pode, baixa-se como nenhum de nós se baixa. Basta pensar nas vezes em que buscamos algum tipo de superioridade em relação ao nosso próximo, em relação ao nosso semelhante. Apesar de ser um gesto que se tem vindo a perder, mesmo nos momentos mais íntimos da liturgia, ainda há quem se ajoelhe diante de Deus. Pergunto-me, no entanto, se não será um rito sem verdade quando não aprendemos a baixar-nos de verdade. O Papa Francisco dizia que a única ocasião em que devíamos estar acima de alguém era quando estendíamos a mão para levantar essa pessoa. Infelizmente, mais rápido nos achamos mais superiores que os outros e os tentamos abaixar a nós. Deus baixíssimo nos ajude! 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Indizível amor"

sexta-feira, agosto 15, 2025

Quem te desceu da cruz

Não fui eu quem te desceu da cruz. Não fui eu quem deixou o teu corpo cair e repousar sobre o meu, buscando amparo. O teu corpo estava, de facto, desamparado e, por pouco, quase não tinhas onde ser sepultado. Fizeste-me lembrar tanta gente que morre sem um funeral, sem uma sepultura e sem nome. Surgiu então, do meio da multidão, um homem de Arimateia, um homem rico, um ilustre do sinédrio, que tinha por ali perto, situado num horto, um túmulo que ainda não havia sido usado, e pediu para abrigar teu corpo frio e inerte naquele lugar. Ainda hoje penso nas pessoas que se cruzaram contigo no caminho e aprenderam a fazer o bem, sem esperar nada em troca. Muitos deles eram e são, como este homem, gente ilustre e rica, mas gente com um pedaço do coração de Deus. Na verdade, não importa o que se tem, mas o que se faz com o que se tem. São homens e mulheres onde entraste um dia e nunca mais morreste neles.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ser padre como um Cireneu"

quarta-feira, maio 07, 2025

Não há clones ou fotocópias de papas.

Por muito que haja quem se tenha identificado com o Papa Francisco por causa da sua simplicidade, proximidade e humanidade, é bom recordar que não há pessoas iguais e que, por esse tão básico motivo, o próximo Papa não será igual a Francisco. Quando, em 1958, se elegeu o cardeal Angelo Roncalli, que assumiu o nome de João XXIII, muitos interpretaram a escolha, por causa da idade dos 77 anos, como a escolha de um Papa de transição. No entanto, foi ele que convocou o grande Concílio Vaticano II. A sua morte em junho de 1963 deixou em risco o futuro do concílio que convocara. Sucedeu-lhe Giovanni Montini, o Papa Paulo VI, que não só continuou, como deu prioridade e direcção ao Concílio. A ele se deve a consistência e clareza que este acabaria por ter, embora ainda tenham ficado algumas pontas soltas. Parece-me, no entanto, que ele foi o Papa que o Concílio precisava. Não abordo o breve pontificado de Albino Luciani, que assumiu os nomes dos seus antecessores, João Paulo I, numa íntima ligação com estes, nem o longo pontificado de Karol Wojtyła, o Papa João Paulo II, eleito na busca de alguma moderação depois de uma votação renhida entre dois candidatos, um da ala progressista e outro da ala conservadora. Mas recordo a renúncia de Joseph Ratzinger, o Papa Bento XVI, homem de clareza doutrinal e teológica que sucedera naturalmente a João Paulo II e sentira que tinha de dar lugar a outro. O cardeal Jorge Mario Bergoglio veio do “fim do mundo” e, de todos os papas pós-concílio, foi o que mais o tentou levar à operatividade, sobretudo com a Igreja em saída missionária e com a Igreja sinodal. Não há clones ou fotocópias de papas. Não se espera que haja um novo Jorge Mario Bergoglio. Espera-se que venha um Francisco II, um Paulo VI, um João XXIV, um João Paulo que seja, ou simplesmente o Papa que a Igreja precisa neste tempo e que Deus lhe há-de dar. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Os papas são homens?"

segunda-feira, abril 21, 2025

Agradeçamos

"Abençoe-vos Deus Pai Todopoderoso: Pai, Filho e Espírito Santo". A conclusão ordinária de cada celebração ganhou ontem, na celebração de Domingo de Páscoa, em Roma, um alcance maior, porque foram as últimas palavras públicas que se escutaram da voz em dificuldade do Papa Francisco. Hoje o mundo, em geral, e a Igreja, em particular, acordaram com a notícia dolorosa da sua partida para a Casa do Pai. Curioso como Francisco parte na segunda-feira de Páscoa, depois de celebrarmos a Ressurreição do Senhor. A vida é um caminho peregrino para esta meta e, às vezes, o caminho culmina com um calvário. No caso do Papa, desde 14 de fevereiro que se foi avizinhando este momento que a grande maioria dos crentes não queria que chegasse por tanta coisa pendente que ele vinha fazendo desde 3013, desde o início do seu pontificado. Mas isso compete a Deus, porque a Igreja é sua e não dos Papas. Confiemos que os 135 cardeais eleitores façam a escolha do Espírito Santo para o Papa que a Igreja de hoje precisa. Entretanto, que a Igreja entre por inteiro em acção de graças pelo dom da vida e missão deste Francisco que nos trouxe de volta o Francisco que há 800 anos também operou uma revolução no íntimo da Igreja. 

Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que recusou a grandeza, escolheu a simplicidade, trocou o poder pela proximidade, preferiu não ser príncipe para ser servo e pastor, e por isso foi luz de um Deus que é sempre misericórdia. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa das periferias, dos pobres, dos recasados, dos abusados, dos esquecidos, dos últimos, de todos. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da evangelização sempre nova e dos discípulos missionários, da Igreja em saída missionária e em estado de missão, da Igreja sinodal como Povo de Deus peregrino e da Igreja como hospital de campanha, de portas abertas. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que resgatou o Concílio Vaticano II e que deu impulso a uma Igreja mais corresponsável, participativa, ministerial e sinodal. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da reforma da Cúria, assim como da colegialidade e da descentralização. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa dos pastores com cheiro a ovelha e que caminham à frente, ao lado e atrás. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa que valorizou os leigos e as mulheres. 
Agradeçamos por Francisco ter sido o Papa da Casa comum que é urgente cuidar e da Fraternidade universal que não se pode esquecer. 
Agradeçamos pelo Francisco que Deus nos deu.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "O Papa que faz hoje anos"

quinta-feira, outubro 17, 2024

o pai do padre

Quando aos dezassete anos informou os pais que ia entrar no Seminário, ao pai só lhe apetecia bater-lhe, e a mãe continuou a esfregar a roupa no tanque, sem retirar os olhos dela. Rapidamente as lágrimas começaram a cair-lhe do rosto, mas quase não se notava porque as lágrimas se juntavam na água do tanque. Ele também não deu conta. Fechou os olhos para não ver. Foi desta maneira que o António disse aos pais, que eram mais ateus que outra coisa, que decidira ser padre. Não era gente má. Mas isso não fazia deles cristãos. Não iam à missa. Não queriam saber dos padres. O irmão mais velho é que se metera na Acção Católica e o mais novo, pelos vistos, sem que se adivinhasse, fora-lhe no encalço. Tão grande era o desplante, que no dia em que o filho fechou as malas e se despediu, o pai lhe disse, em tom de pai, que se cruzasse aquela porta, deixaria de ser seu filho. E o tempo passou. Pouco se falavam e, nas férias, as palavras pouco mais serviam do que para mostrar o desagrado. O filho ainda não era padre e ainda havia tempo de o demover de ideias tão ridículas. Onde já se viu um filho de gente que não é de Igreja se tornar um padre. Antes se tornasse um malandro das ruas. Não o pensava assim, mas verbalizava-o para que o filho pensasse bem no que fazia. E o tempo continuou a passar, como tudo na vida passa. Os anos foram calejando aquela família. Mas nem a ideia do filho nem a do pai desapareciam. Casmurros ambos. Ambos do mesmo sangue. Um mês antes da ordenação sacerdotal, o pai, sem que nem sequer a sua estimada esposa, que o acompanhava nas ideias e nas desideias, soubesse, foi visitar o padre da freguesia. Aquele a quem, pouco depois da primeira conversa do filho sobre a estranha decisão, acabaria por culpar e visitar com um pau na mão, pronto a ser usado se a ocasião fizesse o ladrão. Graças a Deus que o padre não estava só e a companhia o demovera. Agora a visita era por outro motivo. Talvez por ser um coração duro, tardou em abrir-se e a conversa demorou umas boas duas horas. Terminou com a absolvição. Nunca ninguém soube o teor da confissão nem o motivo da conversão. O pai mudou. O pai voltou a ser pai. O pai abraçou o filho na sua ordenação como se fosse a maior alegria que um pai pudesse ter. Perceber que a felicidade é um dom de Deus não é para todos. E o tempo passou. Mas, desta vez, foi apenas um mês. E o pai partiu para o outro pai. Foi de repente e os médicos não puderam fazer nada. O filho ainda hoje gostava de perceber, mas não percebe. Só sabe que os desígnios de Deus não se sabem de verdade. Só se acreditam… e se confiam. 
 
 A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A chorar durante a missa"

sábado, setembro 07, 2024

O milagre da morte

Ela queria um milagre. Diante do caixão com o filho de vinte e oito anos, ela repetia que esperava um milagre. O filho mais velho morrera há uns doze anos com sorte parecida, em idade mais jovem ainda. Este segundo filho estivera em sofrimento uns três anos e agora partira para o Senhor. Os pais não têm mais filhos para cuidar. Não têm mais filhos para esperar o seu futuro e sonhar com ele. Dá para imaginar o sofrimento, mas não dá para o medir. Era mais que visível, tanto no rosto pálido da mãe como no do pai, assim como nos seus corpos sem expressão, sem alento, sem força senão para estar ali e se puderem despedir do menino. Olha o teu pai e a tua mãe, dizia o pai. E a mãe desfalecia em gemidos. A Missa foi toda ela um gemido contido. A multidão dentro da Igreja era prolongada pela multidão fora dela. Não se cabia naquele sofrimento. A homilia foi pesada. Foi pesada no sentido de ser pesarosa, e foi pesada porque se pesou cada palavra. A certa altura, a mãe interveio, dizendo ao senhor padre que nunca perdera a esperança, porque esperava um milagre. Ainda bem, respondeu o senhor padre. Como dizia a primeira leitura que escutámos, “A esperança não engana porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações”. O padre cruzava os olhos com ela no primeiro banco da igreja, sofria com ela à sua maneira, e aproveitava as suas palavras para falar do verdadeiro milagre que estava a acontecer. Este mistério da morte, que é tão difícil, é, afinal, o maior milagre da vida. Morremos para vivermos eternamente, porque Deus nos ama para além da vida.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "As não respostas que são resposta"

sábado, maio 25, 2024

o Deus das opiniões

Vivemos na sociedade das opiniões. Hoje toda a gente tem uma opinião sobre tudo. Tudo é escrutinado por opiniões que se multiplicam sobretudo em redes sociais. Toda a gente, independentemente do assunto e da sabedoria do mesmo, tem uma opinião que se torna verdade absoluta do seu dono porque se tem de respeitar a opinião de cada um. São, no fundo, opiniões que se tornam verdades. Mas são verdades sem objectividade, sem substracto, sem argumentos seguros. Por outro lado, as verdades passam a estar dependentes das opiniões. Só existe uma verdade se for essa a opinião da pessoa que a assume como tal ou do grupo que a consolida por ser um conjunto de pessoas a pensar de modo igual. Neste contexto, como fazer de Deus mais do que uma opinião?!

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Falar de Deus"

quinta-feira, janeiro 25, 2024

Onde estava Deus?

Imagem de mdjaff no Freepik
Estava aflita, perdida, quase revoltada com a morte de uma familiar que lhe era muito querida e ainda não tinha a idade que nós achamos que já seria suficiente. Por isso me perguntava onde estava Deus na hora em que a sua familiar morrera de forma tão drástica e inesperada. Nestes momentos, ainda que faltem as palavras, temos o dever de dizer algo desde a nossa fé na ressurreição. Ocorreu-me dizer-lhe o que lera em tempos nalgum texto que me tocara e que não sabia agora o seu autor. Não sou eu, mas concordo absolutamente com ele. Deus estava no mesmo local onde estava quando morreu o seu filho. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Estava capaz de gritar"

sexta-feira, novembro 10, 2023

Olha que Deus castiga

Quando a mãe, uma jovem dos seus trinta anos, disse ao filho rebelde de oito anos que, se ele não se portasse bem, Deus o castigava, não me contive. A catequista do filho contara-lhe como ele se comportara mal na catequese, e aquela mãe solicita achou que a melhor pressão era invocar o castigo de Deus. Creio que o disse sem pensar e tal como já o ouviu muitas vezes desde pequena. Mas assim é dificílimo que as crianças aprendam a gostar de Deus. Mais lhe terão medo.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Esta Igreja é uma treta"

sexta-feira, junho 09, 2023

jeito de amar sem jeito

Às vezes falta-me a coragem de te olhar olhos nos olhos, Senhor. Tu sabes tudo, tu sabes que te amo, embora o meu amor seja tão pequeno quanto o tamanho da minha pequenez diante de ti. Sabes que ele é pequeno, mas é sincero. Sai de mim como sou. E volta a mim para sair sempre em tua busca. Quando me deito nem sempre te entrego a minha noite. Quando me levanto nem sempre te entrego o meu dia. Praticamente só me lembro de ti quando me cruzo com as tuas coisas e nisso agradeço-te o meu sacerdócio, porque me faz pensar em ti nas muitas coisas que tenho de fazer em cada dia. Tu sabes tudo, tu sabes que te amo deste jeito sem jeito. Deste jeito mal organizado e pouco racional. Mas também creio que é por isso que ainda aqui estou, mesmo sem a coragem de te olhar olhos nos olhos, com receio de ficar preso ao teu olhar sem fim.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Como te amo, Senhor?"

domingo, abril 30, 2023

buscar Deus que nos buscou

Só se pode buscar a Deus com Deus. E só se procura o que já se encontrou, mas se precisa encontrar mais. E melhor. Só podemos encontrar Deus porque Ele já nos encontrou. Ou melhor, entrou no nosso espaço para se encontrar. A procura da dúvida é apenas a permanência na dúvida. A procura do que se experimenta, é a procura da verdade. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Ontem foi assim"

quarta-feira, abril 12, 2023

Porque é que Deus nos criou?

Já não sei quem fez a pergunta. Se foi a Manuela, se foi o Manuel, se foram muitas pessoas ou eu sozinho. Creio que é a pergunta de quem quer perceber melhor o porquê de viver ou de quem quer saber viver. É uma pergunta de quem se pergunta por Deus para saber de si. 
Com certeza que Ele não tinha propriamente necessidade de nos criar, porque se bastava a si mesmo. Um Deus não precisa de nada. Também não faz sentido pensar que nos criou para brincar connosco como as crianças brincam com as bonecas ou os brinquedos a que gostariam de dar vida. Nem nos criou para gozar connosco no sentido de nos ver a fazer as borradas que fazemos, a fazer as opções inóspitas que fazemos ou a sofrer na nossa contingência e condição humanas. Mas então para que nos criou quando, ainda por cima, nos deparamos com a morte, que parece um fim de tudo? 
Deus é amor. É uma comunhão de três. Por isso se entende que, na sua essência, Deus é amor. Mas não é um amor egocêntrico. É fecundo. É saída de si. Não podia ser de outro modo, pois o verdadeiro amor sai de si. E assim se entende, à partida, que Deus nos tenha criado porque Ele próprio, na sua essência e definição, é amor. Também porque é verdadeiro amor, este amor que Deus é, não podia senão ser gratuito e sem qualquer tipo de interesse. Parece-me, por conseguinte, que não basta pensar que nos criou porque nos ama, porque isso, embora seja verdade, parece muito pouco. Fala mais da intenção que do seu Ser. Creio que igualmente não se pode dizer que nos criou para nos amar ou para que o amássemos, pois isso poderia ser a mesmice de querer algo para si. Se calhar nem podemos alegar que nos criou por amor, como se o amor fosse somente uma razão sua e não quem Ele é. A não ser que Ele fosse também a sua razão de ser. 
Assumo afirmar e afirmo com vontade que Deus nos criou porque é amor. E também é nesse sentido que a vida aqui na terra não acaba. A morte apenas se transforma na ponte do amor! E um dia haveremos de viver eterna e plenamente no infinito Amor. 

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Entre mim e Deus não há nada"

sexta-feira, abril 07, 2023

aquela agonia

Veio-me ao pensamento aquele momento da tua agonia. Não o sei descrever nem sei imaginar. Sabias o que te ia suceder, mas não sabias das forças para tal. É tão estranho ver Deus sem saber das forças, tal como nós. E depois os teus amigos. Onde estavam? Porque dormiam? Porque nada faziam para te aliviar o peso do sofrimento? Os evangelhos dizem que eles te seguiam para todo o lado. Andáveis sempre juntos. Aprendiam a vida contigo. Pousavam e repousavam em ti, nos teus conselhos, nos teus milagres, na tua segurança. Mas não estavam acordados naquela hora. Soube-se depois que, mais tarde, se esconderam com vergonha e com medo, quando tudo aconteceu, ultrapassando o seu entendimento. Ficaste sozinho, como nós ficamos tantas vezes metidos para dentro dos nossos sofrimentos, sozinhos, mesmo no meio de multidões de pessoas que ainda há pouco nos aplaudiam de pé. Veio-me ao pensamento aquele momento em que pediste ao Pai que, se pudesse, afastasse de ti aquele cálice, aquela cruz, aquele sangue, aquele peso insuportável de não saber se terias forças. A tua encarnação foi autêntica. E perceber que não tinhas a certeza das forças, dá-me muita força.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Via Sacra de um simples discípulo"

domingo, março 26, 2023

Não sou padre para fazer a minha vontade, mas a vontade de Deus.

Quando alguém, há dias, me perguntou, por palavras parecidas com estas, porque é que ainda era padre quando tanta gente está constantemente contra os padres, quando estes vivem em suspeição constante, têm de humilhar-se a um celibato e a um constante confronto com os outros que só se abeiram da Igreja para consumir sacramentos sem verdade de coração, eu não soube responder senão que não era padre para fazer a minha vontade, mas a vontade de Deus. Todos nós queremos, e eu não sou diferente, que Deus faça a nossa vontade. Mas quem se entrega a Deus, fá-lo não para que se faça a sua própria vontade, mas a de Deus. Mesmo quando não entendemos os Seus desígnios. Mesmo quando não obtemos respostas aos porquês e temos de carregar uma cruz enorme e pesada que, mesmo assim, nunca se poderá comparar com a de Jesus. Não sou padre para fazer a minha vontade, mas a vontade de Deus. E se a vontade de Deus for diferente da minha, que assim seja. Porque gostava que a minha vontade fosse sempre a vontade de Deus. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Estava capaz de gritar"

quinta-feira, fevereiro 23, 2023

Precisas de mim, Senhor?

Deus troca-nos as voltas diante das inúmeras ocasiões em que menosprezamos a nossa vocação e missão sacerdotal, porque não vemos os frutos que desejávamos ou porque sofremos embates dolorosos com que não contávamos ou porque, simplesmente, parece que não fazemos nada de especial. E então a vocação questiona-se e periga-se. Por isso, não raras vezes nos questionamos sobre a necessidade da nossa missão. Porquê isto? Por que continuar? O que é que tu queres, Senhor? Mas precisas mesmo de mim e da minha vocação? E depois, sem que se esperasse, em menos de vinte e quatro horas, ou mais coisa menos coisa, és solicitado por um casal que confia na tua missão e precisa que medeies as dificuldades que estão a passar; liga-te uma pessoa que precisa da tua ajuda por causa de alguém que se tentou suicidar e precisa de ajuda de um padre que, como disse, saiba ouvir, dar espaço ao sofrimento e ajudar a encontrar sentidos e luzes ao fundo do túnel; e ainda te contacta uma família que precisa que vás estar com uma familiar em fase terminal, pois precisam tranquilizar-se, tanto esse familiar como a restante família, e sabem que tu, o padre, podes fazer a diferença. Depois da pergunta que um padre faz a Deus da necessidade do seu ministério, obtém estas respostas, e tem de se calar, porque Deus troca-nos as voltas e responde-nos de uma forma meio estranha, mas tão concreta...


A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Chama-se Jesus"

domingo, fevereiro 19, 2023

Jesus no escuro

A capela fica no andar de baixo e é convidativa. Passam-se lá uns bons bocados. De vez em quando, chama-me e eu entro. Geralmente durante o dia, sem horas pré-programadas. É o que mais gosto dela. Está ali sempre, à mão, e pronta a receber-me sem horários e que fazeres. Mesmo durante a noite. E foi numa noite destas que entrei e me sentei ao fundo, numa das últimas cadeiras almofadadas. Não acendi a luz porque as duas lâmpadas acesas, embora discretas, chamavam a atenção para o essencial, o sacrário e a cruz. A luz desta última era tão ténue, mas tão ténue, que mal se percebia a silhueta de Jesus. Era o meu Jesus escondido, pensei. Para que eu soubesse que estava lá, mesmo quando só desse para perceber uma linha ou duas da sua presença. Porém, o mais curioso ocorreu passados uns largos minutos no escuro. Quanto mais tempo permanecia na escuridão, mais o seu rosto se desenhava e se tornava visível. A luz ia crescendo e tomando-lhe forma por inteiro. Quanto mais tempo estava na escuridão, mais se notava a sua presença. 
 
A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO:  "A fissura do braço de Cristo"

quarta-feira, janeiro 04, 2023

buscador de Deus a tempo inteiro

Não sabia se havia de escrever a palavra ‘buscador’ com letra maiúscula ou minúscula. Sinto que sou apenas um pequenino buscador de Deus. Gostava, porém, de ser um buscador com letra maiúscula, com a letra maior do alfabeto ou a palavra mais longa e mais inteira que houvesse. Talvez possa parecer o desejo tolo de quem passa de um ano para outro e faz exames de consciência para aqui e para ali ou votos de prosperidade e sucesso, ou coisas parecidas. Mas não é. É que este desejo tem vindo insistentemente ao meu encontro, que é como quem diz, tem-me buscado. 
Também não sabia que título dar a este texto que escrevo sem cuidar as palavras e a pontuação. Saiu-me assim. Como se viesse de lá de dentro e não se conseguisse encerrar. E quando me perguntam porque raios há-de um pobre padre deixar o coração falar mais alto que a voz, eu digo simplesmente que gostava de ser um buscador de Deus a tempo inteiro. Esse tempo sem medidas, sem contratempos, sem condições. Às vezes esta busca fica condicionada pela sociedade em que vivemos, pela cultura em que nascemos, pelas relações que alimentamos, pelos afazeres do quotidiano, pelas ansiedades e pensamentos vãos que nos distraem da busca maior. Gostava de ser um livre buscador de Deus a tempo inteiro. Livre. Livre mesmo diante do meu ministério ordenado, o sacerdócio ministerial. Talvez seja um desejo de quem ainda tem muito Deus por encontrar e ainda só vai no início do longo caminho. Mas deixem-me desejar. Deixem-me, ao menos, ficar no desejo de um dia ser um buscador de Deus por inteiro.

A PROPÓSITO OU A DESPROPÓSITO: "Não estar agarrado ao meu sacerdócio"