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20.8.09

Condição


Two Figures Fucking in the Grass, Francis Bacon, óleo sobre tela, 1954.

"You are born, you fuck, you die." disse Francis Bacon, a propósito do quadro acima, cuja imagem já aqui pus. A meu ver, esta frase não corresponde de modo algum à nossa nascemos, reproduzimo-nos e morremos, ao contrário do que afirmou uma pessoa amiga. É muito mais intenso o que Bacon disse, como que nos dá um murro e expõe a tão grande precariedade da nossa condição de seres. A grande diferença reside nos verbos do meio das duas frases. To fuck, to reproduce. To reproduce é algo que fazemos nas nossas vidas, muitas vezes com alegria, mas muito espaçada e limitadamente. To fuck, dizem e eu concordo, é a melhor coisa da vida, que repetimos vezes sem conta por isso mesmo, e que o tempo e a morte hão-de levar-nos. Se pensarmos bem, se nos concentrarmos na frase do pintor irlandês, sentimos o dramatismo real do que ele disse. Mas não vale a pena. O melhor nestes dias de calor é bebermos uma cerveja e esperarmos pelas duas da manhã, a gozar o fresco da noite, repousadamente.

16.4.09


Os deuses são criados de algo que desconhecemos ou receamos. Para T seria muito confuso imaginar o Big Bang e a longa arrumação do Caos como o princípio da nossa origem. Ficaria mesmo bastante em baixo se eu o convencesse de que somos todos filhos do acaso, desde os humanóides que dão como nossos antepassados, não sei se para sossego mais imediato. As certezas têm efeitos ansiolíticos. No entanto, a origem remete-nos para a primeira célula que ninguém sabe ao certo como surgiu, embora não me seja desagradável pensar que o meu antepassado decisivo tenha sido o Sol. Isso causa-me mesmo conforto. Vim da luz, sou luz e gosto da luz do Sol como coisa física.

T também ficará alegre com uma manhã luminosa, mas não deduz dela a sua Génesis. Ficaria horrorizado. E, no entanto, penso, estamos muitíssimo mais perto dessa luz que nos explica do que da visão religiosa de T, que não trata tanto da vida quanto me parece tratar da morte.

13.12.08

O Reino da (*)

O C. foi meu colega de curso e tinha a particularidade de falar compenetradamente e em voz muito baixa, sem acabar as frases, deixando-me um confuso sentido suspenso na cabeça, coisa que eu tomei por profundidade enquanto ingénuo. Se então tudo me espantava, o que era mau, hoje nada me espanta, o que é pior. Quando perdi essa espécie de virgindade, cheguei à conclusão de que o C. era uma pessoa que fantasiava uma imagem virtual de si mesmo. Pensava rodear-se assim de uma aura de superioridade e inteligência que não tinha.

Vem isto a propósito de certos bloggers que escrevem, fingindo sentidos ocultos, misteriosos, em busca de uma qualquer polissemia casual. Também não acabam as frases e muitas vezes não fazem ideia sequer do que escrevem. Desconhecem é que em escrita tudo se nota. Sabem porém que há muita gente que lhes aprova a profundidade com medo de parecer ridícula, e sentem-se não só respaldados por ela, mas também seres seus superiores.

(*) Não é uma adivinha. Consulte a bibliografia de Jorge de Sena.

17.11.08

Do urbano


Ontem comi castanhas de Sernancelhe, acompanhadas de uma bela jeropiga, parecia vinho rosé na cor, muito límpida, espessa e agridoce, e se tivesse visto o meu vizinho blogger por ali, seria uma boa altura para nos conhecermos. Mas como? Somos todos estranhos, mesmo numa cidade de província como esta (caberiam umas duzentas em Londres). Lembramo-nos da rapariguinha do shopping, mas não sabemos nada dela, lembramo-nos do homem da farmácia ou do café, mas nem pensamos onde moram, vemos a velha das minha rua que dormia com o seu galo e não sabemos como ela, ano após ano, resiste a tanta porcaria imaginada. Sucede é que nos organizamos em pequenas células cada vez mais estanques, com as mesmas caras, com os mesmos cenários, com as mesmas rotas urbanas, e os nossos semblantes assemelham-se a escudos anti-invasão. E acabamos por nos libertar quando saímos rumo a qualquer ponto cardeal, o rosto já aberto ao dos outros. Porquê? Porque são de longe. Apesar de ler o meu vizinho através de um qualquer centro de dados da Google na Europa, o meu vizinho continua perto. E, no entanto, estou seguro de que seria agradável debulharmos juntos as melhores castanhas do país e falarmos, beberricando daquela jeropiga. Não é a internet que cria a solidão. É a liquidação, no quotidiano, do homem como ser gregário, a sua divisão e compartimentação em pequenas e inofensivas células urbanas. Inofensivas, desconfiadas e sem voz. Mas, neste ponto, a história das castanhas e do meu vizinho blogger já deveria ter acabado.

10.9.08

Não podemos diminuir a escrita dos outros num meio tão aberto e tão novo como a blogosfera, sem nos diminuirmos a nós mesmos. Digo isto porque às vezes leio referências desdenhosas ou, no mínimo, paternalistas, a quem aspira a escrever mais do que apenas notas pessoais num caderno digital. É um desejo legítimo, muito para além da qualidade ou da falta dela, e tão legítimo como cada um escolher os blogues que visita. E se juntarmos a esta atitude, uns posts abaixo, a de louvaminhar o que é medíocre mas brilha, temos então rato escondido com o rabo de fora. Ou seja, temos alguém que não é capaz de banir sentimentos turvos, decorrentes da falta de lucidez acerca de si próprio, passe o eufemismo.

7.9.08

O deus SE


Às vezes penso no acaso, melhor dizendo, parte do que penso fundamenta-se no acaso. Como outrora Deus, o acaso é o princípio. Somos quem somos porque, em determinado dia, metemos por uma rua em vez de metermos por outra e existimos porque, há mil anos, um tetravô nosso se cruzou com uma moura que gemeu sob ele, engravidou e pariu o nosso tetravô seguinte, e antes o mesmo com os tetravós deles. Até onde? Nós sabemos, todos sabemos isso: até ao primeiro ovócito humano fecundado, há dois milhões de anos mais umas centenas de milhar. Se então esse ovócito e o espermatozóide que o buscava não se tivessem encontrado, nenhum de nós existiria. O acaso é mais forte que o mais poderoso dos deuses que se tenha imaginado. E muito mais desconfortável. E é deste desconforto que as divindades nasceram, sossegando as perguntas tornadas heréticas e a noção honesta e lúcida do absurdo dos nossos comportamentos e da ignorância do nosso próprio tamanho.

12.8.08

Os critérios-consequência


Desenho colectivo de alunos do 4º ano de uma escola algures.

Ontem dizia-lhe: o que hoje é mau gosto (estético) poderá ser bom gosto amanhã. É já mais fácil cultivar a vulgaridade e a mediania comum, e estas passarem a medida-padrão qualitativa, do que aceitar que o rei vai nu.

10.2.08

A poesia na era dos replicants

Há algum tempo que venho pensando na importância social contemporânea da poesia, e agora que me sinto desapegado do seu halo exterior, que só na juventude me ofuscou, mais fácil me é falar dela sem aparentar queixumes contra o mundo que não sabe aplaudir, queixumes frequentes, a maioria das vezes porque se é jovem ou porque não se tem valor que o mereça e se exige para si próprio, mais raras vezes por falta de sorte ou recusa do sentido de oportunidade, e muitíssimo mais raras ainda por se escrever à frente do seu tempo.

Se da mediocridade ao talento vai uma distância grande; se do talento à genialidade vai uma distância maior; se a importância social da poesia é cada vez mais invisível na sociedade neoliberal, podemos medir o esbracejar de aspirantes a esta arte com alguma distância sincera e olhá-los como uma espécie de acrobatas num aquário redondo, tão mais circences quanto mais exigem aplausos dos outros, não interessa a qualidade de quem chegam.

Não falo da juventude contemporânea que emerge e em que descobrimos valor e para a qual, por isso mesmo, não há reconhecimento e apoio. Embora hoje a poesia não dê de comer a quem a escreve, é preciso à mesma ter-se patronos. Não se comem migalhas da mesa feudal, mas come-se o que há de um feudo sem terra nem água: devora-se, sem modos, um brilho social que não existe senão na cabeça dos comensais da parquíssima mesa. E se a juventude com talento não aceita esse caminho e inicia o seu próprio – que não é mais que isso mesmo -, a outra toda irá envelhecendo sem amargura e sem dar conta da indiferença e da estranheza que a sociedade lhe dedica. E é ver-se, ao lado dela, gente de gerações anteriores esticar igualmente a mão. Como se alguém na mesa a visse e fosse aceitar essa concupiscência absurda.

A poesia, que esta falta de lucidez não demove do seu caminho (mas encurta-o), será cada vez mais uma excrescência no meio do cálculo dos computadores e um bem, às vezes amargo, para os que, com ela, têm necessidade honesta de testemunhar-se a si mesmos no seu tempo. E é por seres humanos assim que a poesia sobrevive, escrita, desde Gilgamesh e, cantada, de muito antes. Amada hoje por uma minoria relativa talvez mais estreita, mas sempre tenaz, sobreviverá na ditadura dos números como uma actividade inútil de seres cada vez mais esquisitos. Basta pensarmos nos (des)caminhos da Cultura no seio do Ensino e na evolução da economia neoliberal feroz, que aquele serve como uma fábrica de
replicants.
 
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