"Os meus poemas são a minha única casa"
Jan Jacob Slauerhoff, poeta e novelista holandês, nasceu em Leeuwarden em 1898 e faleceu em Hilversum em 1936. Estudou Medicina em Amesterdão onde começa a escrever poesia. Inadaptado à sociedade do princípio do séc.XX inicia uma vida boémia influenciada pelos seus poetas-modelo; Baudelaire, Verlaine e Rimbaud.
De constituição frágil e saúde precária, decide no entanto tornar-se médico de bordo, actividade que interromperia diversas vezes por motivos de saúde. Durante a sua última viagem à África do Sul contraiu malária, o que a juntar a uma tuberculose não devidamente tratada fez com que voltasse para recuperação em Itália, mas já era tarde demais. Ainda doente voltou ao país natal onde acabaria por falecer aos 38 anos de idade. Devido à sua morte tão prematura, muitas das suas obras só foram publicadas postumamente.
De espírito atormentado e solitariamente aventureiro, desencantado com o seu tempo, tentou encontrar noutras culturas um estímulo para tentar sair da sua forma de escrever e sentir, um pouco depressiva.
Durante as escalas de suas viagens marítimas passou por todas as colónias portuguesas, contactou regularmente em Lisboa com muitos cantores de fado e privou com Fernando Pessoa. Dessas visitas resultou a colectânea "Solares" cuja secção intitulada "Saudades" apresenta poemas com títulos em português; Lisboa, Vida Triste, O Enjeitado, Saudade, Fado... Faz de Lisboa e Macau projeções do seu irremediável mal-estar. Muito interessado em Camões, figura para a qual transporia as suas próprias obsessões, tornando-a personagem recorrente na sua obra; no romance "O Reino Proibido", em poemas como "O regresso de Camões", "A última aparição de Camões", ou em "Camões" da colectânea " Um Honroso Jazigo de Marinheiro". Um "Camões transfigurado que tem mais a ver com o próprio Slauerhoff.
Um homem que conheceu de perto a alma portuguesa já de si impregnada de tantos cantos do mundo, que a sua poesia teria de ter carácter universal. Dele apenas conheço "O Reino Proibido", e alguns poucos poemas traduzidos para português para o álbum "O Descobridor - Cristina Branco Canta Slauerhoff".
Fontes: 1."Camões e Macau num Romance Neerlandês" de Patrícia Couto com Arie Pos, Ed. Teorema
2. Wikipedia
Jamais voltaremos a ver-nos.
Entre nós dois há um mundo pelo meio.
Por vezes, de noite, à janela nos detemos
Mas são outras as estrelas que vemos...
De outros tempos o enleio.
É tão longínquo o vosso país do meu:
Como a luz da mais funda escuridão - tão distante-
Que viajando sem parar nas asas do desejo, eu
Vos saudaria num suspiro agonizante.
Porém, se for verdade,
Que sonhando o impossível,
Se leva o maior dos anseios
À estrela mais intangível :
Então eu voltarei,
Voltarei todas as noites...
De saudade.
( Slauerhoff, trad. de Mila Vidal Paletti)
Deste álbum "O Descobridor-Cristina Branco Canta Slauerhoff" escolhi "Os Solitários", porque "...tudo passa, tudo desaparece... /E embora inspire ternura, /O pouco que ficou / Não chega para viver."