Foto de Nancy Wilde
Junto à velha macieira desabrocha o dia.
Gotas caem dos galhos quebradiços,
penetram na terra, sementes de magia
a germinar feitiços.
No dorso do tronco alonga-se um caracol
na seiva viscosa dos minutos.
Afloro ao caminho
de alma lavada pelos ventos molhados
que abalaram na palidez
dos dias inacabados.
Abraço a promessa do dia claro
e comprido que entrará completo
pela noite abrindo janelas para as estrelas
que tornam as noites abertas e azuis
sempre que as luas se enchem
de marés de prata.
Descubro tudo o que julguei perdido
nos gestos instintivos dos animais
e nas sombras quietas.
As horas passeiam devagar para que eu as veja
nas coisas simples e naturais
nos perfumes e nos brilhos
do que resta da água.
Nos mistérios adormecidos aos pés da macieira
onde a vida será, mesmo que o tempo passe,
a mesma antiga sagração, o mesmo enlace
de comunhão entre os homens e os deuses
na celebração do mundo.
Acrescento-me à paisagem.
Da ilha que sou parte um navio
onde o tempo veloz se esconde
levando o meu ser em viagem
nem sei para onde.
Reaprendo a música das folhas,
o rumor dos insectos.
Dispo-me de teorias, de escolhas
e projectos
na luz que desce sobre as pedras
quando a regência do sol
ergue colunas em clareiras
e reflexos na limpidez da cal.
O caracol desaparece
atrás de uma maçã.
E nesta verde manhã
tudo é o que parece.