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terça-feira, 31 de março de 2015

Lua


"Três coisas não podem ser escondidas por muito tempo: o sol, a lua, e a verdade."
Buda




Toda a verdade do mundo 
se revela na pequena estrela
que me ilumina nas mãos
a toada de uma morna lenta
se o meu pensamento veloz
dentro de mim inventa
a forma de te procurar.

A lua acomoda-se à janela
como vaga luz em castiçal
que nos meus olhos ateasse
o voraz lume do teu nome
e a tua muda voz em sopro 
quente a mim chegasse.





Lua, de Pedro Barroso, um enorme poeta de canções.


terça-feira, 23 de abril de 2013

O Livro


 Li algures que livros são janelas, e será raro o dia em que não abro uma, mesmo que só leia uma frase ou duas.... Com eles encontro-me com Aretusa ou qualquer outra personagem mitológica, plena de virtude ou ignomínia,com sentimentos de serenidade ou de tumulto. Posso vivenciar um espaço e um tempo diferentes, mergulhar num oceano de metáforas, ou ficar agarrada ao chão com uma correria de acontecimentos reais. Conhecer uma alga, ser uma estrela do mar...
 "Eu", poderia eventalmente ser o título  de um livro escrito por mim, porque como dizia F. Pessoa, "quando escrevo visito-me solenemente". Neste Dia do Livro, nascido inicialmente na Catalunha como homenagem a Cervantes e instituído pela UNESCO em 1955 como Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor recomeçarei a ler, muito aos solavancos, " An Afternoon Walk" de Dorothy Eden, uma novela gótica cheia de suspense.




Entretanto vou ouvindo "Estrela do Mar" de Jorge Palma, um poeta de canções



E já agora, uma homenagem a este santuário de livros; Livraria Lello, no Porto





sexta-feira, 26 de outubro de 2012

ROSAS VERMELHAS


MANUEL ALEGRE

                                                                                    ROSAS VERMELHAS 

"Nasci em Maio, o mês das rosas, diz-se. Talvez por isso, eu fiz da rosa a minha flor, um símbolo,uma espécie de bandeira para mim mesmo.
 E todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, no dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã (que foi a hora em que eu nasci), a minha mãe abria a porta do meu quarto, acordava-me com um beijo e colocava numa jarra um ramo de rosas vermelhas, sem palavras. Só as suas mãos, compondo as rosas, oficiavam nesse estranho silêncio cheio de ritos e ternura.
 Nesse tempo o Sol nascia exactamente no meu quarto. Eu abria a janela. Em frente era o largo, a velha árvore do largo dos ciganos. Quando chegava o mês de Maio, eu abria a janela e ficava bêbado desse cheiro a fogueiras, carroças e ciganos. E respirava o ar de todas as viagens, da minha janela, capital do mundo, debruçado sobre o largo onde começavam todos os caminhos.
 E tudo estava certo, nesse tempo, ou, pelo menos, nada tinha o sabor do irremediável. Nem mesmo a morte da minha tia. Por muito tempo ela ficou nos retratos e no jardim, bordando à sombra das magnólias, andando pela casa nos pequenos ruídos do dia-a-dia, até que , pouco a pouco, se foi confundindo com as muitas ausências que vinham sentar-se na cadeira, onde, dantes, minha tia se sentava.
 E eu dormia poisado sobre a eternidade, como se tudo estivesse certo para sempre, eu dormia com muitos olhos, muitos gestos vigilantes sobre o meu sono. Por vezes tinha pesadelos, acordava, inquieto, a meio da noite, qualquer coisa parecia querer despedaçar-se e então exclamava:
 - Mãe!
e logo essa voz, tão calma, entrava dentro de mim, mandava embora os fantasmas, e era de novo o meu quarto, a doce quentura da minha casa no cimo da ternura.
 Não havia polícia nesse tempo. Ninguém roubaria a tranquilidade do meu sono, ninguém viria a meio da noite para me levar, porque bastava eu chamar :
 -Mãe!
e logo uma voz, tão calma, mandava embora os fantasmas. E era a paz, nesse tempo, em que todos os anos, quando chegava o mês de Maio, ou mais exactamente, o dia 12 de Maio, às dez e um quarto da manhã, a minha mãe abria a porta do meu quarto e colocava religiosamente, um ramo de rosas vermelhas sobre a minha vida, nesse tempo, em que dormir, acordar, nascer, crescer, viver, morrer, eram um rito no rito das estações.
 Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Por vezes, a meio da noite, um grito abalava as traves da minha cabeça, direi mesmo da minha vida, e eu acordava suado, dolorido, como se um rato (talvez o medo?) me roesse o estômago. E era inútil chamar. Onde ficara essa voz que dantes vinha repor o sono no seu lugar, repondo a paz dentro de mim? E as manhãs penduradas no mês de Maio, onde acordar era uma festa? Onde ficara a ternura? Onde ficara a minha vida?
 Em Maio de 1963 eu estava na cadeia. Dormia - como direi ? - acordado sobre cada minuto. Tinha aprendido o irremediável. Alguma coisa, dentro de mim, se despedaçara para sempre ( para sempre? Que quer dizer para sempre? ). Era inútil chamar. Tinha aprendido, fisicamente, a solidão. Embora na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse, como 
se fosse a voz longínqua do meu povo:
 - Coragem!
eu estava, pela primeira vez, fisicamente só, dentro do meu sono povoado por esse grito que estalava por vezes as traves da minha cabeça ( onde essa voz que mandava embora os fantasmas?).
 E era terrível essa manhã sem manhã, essa realidade branca e gelada, toda feita de paredes, grades, perguntas, gritos. Mesmo que na cela do lado, alguém, batendo com os dedos na parede, me dissesse:
 -Bom dia!
era terrível acordar nessa estreita paisagem com sete passos de comprimento por sete de largura, tão hostil, tão dolorosa como as regiões dos pesadelos. Porque acordar era ter a certeza de que a realidade não desmentiria o pesadelo.
 Mesmo que os meus dedos batendo na parede transmitissem notícias dum homem que podia responder :
 -Bom dia!,
de cabeça erguida, era terrível acordar no mês de Maio, com a certeza de que no dia 12 a minha mãe não entraria pelo meu quarto, deixando-me na fronte um beijo, e rosas vermelhos sobre os meus vinte e sete anos.
 Talvez seja preciso renunciar à felicidade para conquistar a felicidade. Eu estava na cadeia em Maio de 1963. Tinha aprendido a solidão. Tinha aprendido que se pode gritar com todas as nossas forças quando se acorda a meio da noite com um grito na cabeça e um rato ( talvez o medo? ), roendo-nos o estômago, que ninguém, ninguém virá repor a paz dentro de nós. E, então, é a altura de saber se as traves mestras dum homem resistirão. Pois só a tua voz, amigo, responderá ao teu apelo torturado na noite. E, nessa hora ( a mais solitária das horas ), se conseguires cerrar os dentes, dar um murro na parede, acender um cigarro, se conseguires vencer esse encontro com a solidão no mais fundo de ti próprio, com que alegria, com que estranha alegria, na manhã seguinte, tu responderás :
 -Bom dia!,
mesmo que seja terrível acordar no mês de Maio, nessa estreita paisagem, gelada e branca, com sete passos de comprimento por sete de largura.
 É certo que se podem escolher outros caminhos. Mas poderia eu ter escolhido outro caminho? Acaso poderia dormir descansado, onde quer que estivesse, sabendo que algures, na noite, há homens que batem, há homens que gritam?
 Os fantasmas tinham entrado no meu sono, invadiram a minha casa no cimo da ternura; os fantasmas eram donos do País. E se eles viessem de repente, a meio da noite, e eu chamasse :
 -Mãe!
a voz ( tão calma) de minha mãe já nada poderia contra eles. Era um trabalho para mim, uma tarefa para todos aqueles que não podem suportar a sujeição. Eu nunca pude suportar a sujeição. Acaso poderia ter escolhido outro caminho?
 Por isso, em Maio de 1963, eu estava na cadeia, isto é, de certo modo, eu estava no meu posto.
 No dia 12 não acordei com o beijo de minha mãe.
 Porém, nessa manhã  (não posso dizer ao certo porque não tinha relógio, mas talvez - quem sabe? - às dez e um quarto , que foi a hora em que eu nasci), o carcereiro abriu a porta e entregou-me, já aberta, uma carta de minha mãe. E ao desdobrar as folhas que vinham dentro do sobrescrito violado, a pétala vermelha, duma rosa, duma rosa vermelha, caiu, como uma lágrima de sangue, no chão da minha cela."
                                                    
                                                                     in Praça da Canção de Manuel Alegre
       

                                           

Para terminar, Amália a cantar Manuel Alegre