"Amar-te assim desvelado
entre barro fresco e ardor"... E. de Andrade
Escolhi para este Dia Mundial da Poesia, um dos meus poetas de eleição; Eugénio de Andrade, o poeta do corpo e da claridade. Aqui está um poema de um erotismo fresco, a condizer com a chegada da Primavera.
NAS ERVAS
Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te; eis a cintura
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso
descer aos flancos, enterrar
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão.
porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
do fogo descer à neve.
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho -
a glande leve.
Eugénio de Andrade, in Chuva sobre o Rosto
E como a poesia vive de palavras, Lahsa de Sela, "Con Toda Palabra".