"A existência do homem adulto não encerra senão monotonia. A paixão não procede das pessoas, mas de algo a que elas têm que obedecer para não cumprirem apenas uma vida sem impulso e sem fantasia."
Maria Agustina Ferreira Teixeira Bessa, conhecida como Agustina Bessa-Luís, é uma das grandes escitoras portuguesas. Nasceu em 1922 em Vila Meã, região do Douro que influenciará fortemente a sua obra e pode dizer-se que o seu despertar para a Literatura se deu em tenra idade, pela descoberta dos melhores autores franceses e ingleses aos quais teve acesso na biblioteca do avô materno.
Estuda no Porto e em Coimbra, e a partir de 1950 fixa-se definitivamente no Porto, onde ainda reside. Colaborou em jornais e revistas, participou no programa da RTP "Ela por Ela" com Mª João Seixas, foi directora do jornal "O primeiro de Janeiro", membro da Autoridade para a Comunicação Social, e directora do Teatro Nacional D. Maria II, sendo actualmente membro da Academia Europeia das Ciências das Artes e das Letras, da Academia Brasileira de Letras e da Academia de Cências de Lisboa (Classe de Letras).
Distinguida com a Ordem de Sant'Iago da Espada, com a Medalha de Honra da cidade do Porto, grau de Doutor Honoris Causa pela Fac. de Letras da Univ. do Porto, e grau de Oficial da Ordem das Artes e das Letras atribuído pelo governo francês, são tantos os prémios que salientarei apenas o Prémio Eça de Queirós, o Prémio Vergílio Ferreira, o Prémio do Festival Grinzane Cinema de Turim, e o Prémio Camões.
Interessada pelo Romantismo de Camilo Castelo Branco, Eduardo Lourenço considerá-la-ia uma Neo-Romântica, embora a sua obra não possa ser inserida em nenhuma corrente literária específica.
Excelente prosadora caracterizada por uma riqueza semântica que rejeita a superficialidade, num encadeamento de acção cuja linearidade dá por vezes lugar a saltos narrativos, a racionalidade e objectividade do discurso de personagens sempre fortes acaba por ser invadida por uma subjectividade que se faz sentir na abertura de caminhos possíveis pela mutabilidade espaço-temporal que implica transformação. Uma escrita com preocupações históricas, que visa livrar o passado do esquecimento, ficcionando-o.
Não irei, nem de perto nem de longe , indicar todas as suas obras, divididas em Romances e Contos, Biografias, Teatro, Crónicas, Memórias, Ensaios e Literatura Infantil. Destaco apenas alguns romances:
"Mundo Fechado"(1948), "Os Super-Homens"(1950), "A Sibila"(1954), "Os Incuráveis"(1956), "A Muralha"(1957), "O Susto"(1958), "Ternos Guerreiros"(1960), "O Sermão do Fogo"(1962), As Relações Humanas (trilogia escrita entre 1964 e 1966, que engloba "Os Quatro Rios", "A Dança das Espadas" e "Canção Diante de Uma Porta Fechada"), "Fanny Owen"(1979), "O Mosteiro"(1980), "Prazer e Glória"(1988), "Vale Abraão"(1991), "Um Cão que Sonha"(1997), "A Quinta Essência"(1999), O Princípio da Incerteza (trilogia escrita entre 2001 e 2003 que inclui "Jóia de Família", "A alma dos Ricos" e "Os Espaços em Branco"), "Doidos e Amantes"(2005), "A Ronda da Noite"(2006) é o seu último romance, a partir do qual se afastou da vida pública por motivos de saúde.
Dos poucos livros que li dela, escolhi um excerto de "A Sibila", obra que lhe trouxe reconhecimento imediato após a sua publicação.
"É esta a mais grandiosa história dos homens, a de tudo o que estremece, sonha, espera e tenta, sob a carapaça da sua consciência, sob a pele, sob os nervos, sob os dias felizes e monótonos, os desejos concretos, a banalidade que escorre das suas vidas, os seus crimes e as suas redenções, as suas vítimas e os seus algozes, a concordância dos seus sentidos com a sua moral. Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio,vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.
Eis Quina, exemplo de energias humanas que entre si se devoraram e se deram vida. Vaidade e magnífico conteúdo espiritual foram os seus pólos; equilibrando-se entre eles, percorreu um extremo e outro da terra, venceu e foi vencida..."
A Sibila,1953
Alguns dos seus livros foram adaptados ao cinema por Manoel de Oliveira. Francisca ( a partir de "Fanny Owen"), O Convento ("As Terras do Risco"), Inquietude ("A Mãe de Um Rio"), Party e Vale Abraão.
João Botelho também levou à tela "A Corte do Norte". Escolhi Vale Abraão, um filme de 1993 com Leonor Silveira, Luis Miguel Cintra, Ruy de Carvalho e Diogo Dória. Uma espécie de Mme. Bovary duriense do séc.xx.
"Fim - o que resta é sempre o princípio feliz de alguma coisa."