quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O Cante Alentejano





 Passados exactamente 3 anos sobre a consagração do Fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, coube hoje ao Cante Alentejano a mesma distinção em Paris, após uma candidatura patrocinada pela Câmara Municipal de Serpa/ Casa do Cante, pela Região de Turismo do Alentejo, pela Casa do Alentejo, em Lisboa, e pela Confraria do Cante Alentejano e da Moda. Com a aderência de 35 Câmaras Municipais, mais de 100 Juntas de Freguesia, 28 Grupos Corais e centenas de cantores a título individual.
Por certo devido à crise, o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa foi para Paris num autocarro da Câmara Municipal, o que até deve ter dado jeito para levar na bagagem os vinhos e petiscos do Alentejo, como leitões assados, enchidos, queijos, presunto e o pão, é claro.

Género musical polifónico por vezes associado a outras formas musicais, sobretudo instrumentais, que lhe deturpam a essência, o Cante caracteriza-se pela existência de um solista designado ponto que lança a deixa, seguido do solista designado alto, ao qual se seguem as vozes de todo o coro. Terminadas as estrofes, o ponto pode lançar nova deixa, ou repetir a primeira.
 O andamento lento, a repetição e as pausas contribuem para a monotonia do canto, um reflexo talvez da própria planície. Fazendo parte da tradição do trabalho nos campos, o Cante era executado por homens e mulheres, e ocupava os homens nos tempos livres na vida social; nas tabernas, nas festas, nas arruadas, e cantado pelas mulheres na lides domésticas.
 Com a progressiva mecanização da agricultura, a generalização da rádio e da televisão, e o abandono dos campos em busca de melhor vida nas cidades, o Cante entrou em declínio, passando a ser mais uma prática de memória colectiva, do que uma forma espontânea de criatividade. Continua no entanto, através de temas como o trabalho, o amor, a contemplação, a natureza, e uma certa nostalgia, a ser o elo de ligação do alentejano à sua terra e aos seus. O canto profundo da terra na voz de quem a sentiu e sente.

Embora o meu Grupo Coral preferido seja o dos Mineiros de Aljustrel, decidi escolher um video curto e bem demonstrativo de como o Cante poderia surgir, e surge ainda hoje, numa taberna tipicamente alentejana.
"Qualquer dia temos a burra nas couves"!
"Tua mãe não quer, eu hei-de ateimar"! 
Que miscelânea tão divertida!


 Para quem tiver interesse no assunto, existe o Grupo Coral Os Bubedanas, composto apenas por rapazes jovens (aqui numa sátira ao ex-ministro Vitor Gaspar, com o tema Acarrar*), e o documentário de Sérgio Tréfaut,"Alentejo, Alentejo", filme que acompanhou a candidatura portuguesa.

* Acarrar - Significa descansar, dormir a sesta, ficar parado sem fazer nada. Também se diz do gado quando procura a sombra para livrar-se do calor.



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Sinto a tua falta


                                                                   Foto de Nancy Wilde




                                        Sinto a tua falta

                                        quando
                                        no mofo dos dias
                                        os braços da aurora me acordam
                                        e do peito uma ave se solta em voo de luz
                                        em direcção à nora
                                        onde os meus olhos bebem a manhã
                                        na névoa do velho alcatruz.

                                        Quando
                                         os raios do meio-dia escorrem
                                         pelas paredes num lamento
                                         e o calor refugiado na sombra
                                         não me refresca o pensamento
                                         na hora dorida que se arrasta
                                         sem vontade de morrer na lonjura
                                         que de ti me afasta.
                                         E é vertical a tua lembrança
                                         caindo a prumo. Transportando
                                         para as masmorras da esperança
                                         a escuridão da noite e a voz 
                                         que permanece muda
                                         no atalho da distância.
                                         O brilho das coisas raras esconde-se 
                                         na seiva dos lírios e num desejo
                                         feito cobiça de águas invioladas
                                         onde se atrevem temerários sonhos;
                                         os últimos sobreviventes
                                         do amor e da morte. Reféns
                                         suspensos de grandes asas
                                         que se despenham fazendo estremecer
                                         os alicerces dos homens e das casas.
                                         Apanho-os do chão, labareda feita água
                                         na plenitude do nada, dura solidez
                                         em que me sinto e me distraio
                             
                                         quando
                                         atravesso o rio e os meus passos
                                         lentamente marginais
                                         não alcançam como dantes
                                         os desígnios dos espaços siderais
                                         e uma nota em dó menor
                                         atormenta o sono das pedras.

                                        Quando
                                         ao cair da tarde uma folha seca
                                         soa em corrupio no vento
                                         e desaparece sem o regresso 
                                         do sol ao firmamento.
                           
                             



 Composta  e cantada por Jacques Brel em 1959, "Ne Me Quitte Pas" é segundo o autor, uma canção não sobre o amor mas sobre a cobardia dos homens. Neste caso sobre a sua própria cobardia em relação a Suzanne Gabriello.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Soldado Milhões



 Aníbal Augusto Milhais nasceu em Valongo de Milhais em 1895, onde viria a falecer em 1970. O mais novo de três irmãos orfãos acolhido por familiares próximos, começou a trabalhar ainda criança a troco de alimentação e abrigo. Nunca foi à escola, guardou rebanhos e trabalhou na agricultura.
Em 1915 assenta praça no Regimento de Infantaria (R.I.) de Bragança, altura em que sai pela primeira vez do concelho de Murça. Depois de uma transferência para o R.I. de Chaves, parte para a I Guerra Mundial em 1917 como atirador especial, onde se especializaria em metralhadoras Lewis.
 A 9 de Abril de 1918, na Batalha de La Lys, a 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP), do qual fazia parte, foi entre mortos, feridos e prisioneiros, praticamente dizimada, tendo os sobreviventes sido obrigados a retirar. Aníbal (e o companheiro Malha Vacas que morreria pouco depois), terá decidido voluntariamente, cobrir a retirada dos companheiros. Na companhia da sua Lewis, conhecida entre os portugueses como "Luísa", ora a partir das trincheiras, ora pelos campos, continuou a fazer fogo esporádico de várias posições distintas, permitindo a retirada segura de soldados portugueses e britânicos, ao criar nas tropas alemãs a ilusão de que estas posições estivessem bem guarnecidas.
 Três dias depois do início da batalha terá encontrado um médico escocês a quem salvou de afogamento num pântano, e terá sido este médico a dar conta ao Exército Aliado da coragem e abnegação do soldado transmontano durante os últimos dias.
Foto de Arnaldo Rodrigues Garcez, fotóg. do CEP

Regressado ao acampamento português, o comandante Ferreira do Amaral ter-lhe-á dito : " Tu és Milhais, mas vales Milhões!"
 Foi o único soldado português condecorado com a Ordem Militar de Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, não em Lisboa, mas em pleno campo de batalha, em Ibsberg, e perante ele desfilaram em continência 15 000 soldados aliados. Agraciado pelo que fez, mas também como reconhecimento a todos os soldados que combateram e tombaram no campo de batalha.
 No regresso a Portugal, casa com Teresa, mas o trabalho na agricultura não passa de mera luta de sobrevivência, insuficiente para alimentar os filhos.
Em 1924, o "Diário de Lisboa" decide resgatar o herói de guerra e usá-lo como símbolo de propaganda da Primeira República, e depois do regime do Estado Novo. Uma figura de soldado raso e iletrado, ideal para a fácil identificação do povo, forçado a comparecer em cerimónias oficiais fardado e com as medalhas ao peito. A sua terra, Valongo, passaria também a chamar-se Valongo de Milhais.
 Em 1928, devido à crise do pós-guerra parte para o Brasil numa tentativa de melhorar a vida, contudo os seus conterrâneos convenceram-no a regressar, colectando-se para o ajudar. Segundo eles, o lugar de um herói deveria ser na pátria, e não emigrado. Com o dinheiro trazido do Brasil constrói uma casa com a ajuda dos vizinhos e retoma as actividades agrícolas tentando alimentar os dez filhos.
 Dificilmente falava da guerra, e só o fazia quando lho pediam."A guerra era para ele um tempo de tristeza".

Anúncio no jornal "A Capital", 1917

  Praceta do Jardim Herói Milhões, Murça

 Existe este breve video sobre o Soldado Milhões, e esta entrevista já quase no fim da vida.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Pele



                                                      Nu Sentado, Picasso




Tudo acorda em mim enevoado
quando em mim te afundas e te deitas.
Um torpor, um arrepio na espinha
quando nas minhas coxas te ajeitas
em leve murmúrio abafado
numa vontade que já não é minha.
Seiva, saliva, humidade de poros,
vaga de lume batida em corpo salgado
tropicais cascatas e meteoros
oscilando em revolta navegação
como calado de barco afogado
fogo liberto em silêncio de amarração.

A minha pele adormecida
 é ávida de astrolábios desconcertados
de tanta sede acometida.
De gestos de ternura perfumados
de sol, chuva e frescas nuvens
de mastros de coragem levantados.

Mas tu hoje não vens.

                                         


Márcia com JP Simões, "A Pele Que Há Em Mim"(Quando o Dia Entardeceu). Pelo poema, e pela voz do JP Simões. "Sobre a pele que há em mim tu não sabes nada. Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada. O meu barco vazio na madrugada."