Passados exactamente 3 anos sobre a consagração do Fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, coube hoje ao Cante Alentejano a mesma distinção em Paris, após uma candidatura patrocinada pela Câmara Municipal de Serpa/ Casa do Cante, pela Região de Turismo do Alentejo, pela Casa do Alentejo, em Lisboa, e pela Confraria do Cante Alentejano e da Moda. Com a aderência de 35 Câmaras Municipais, mais de 100 Juntas de Freguesia, 28 Grupos Corais e centenas de cantores a título individual.
Por certo devido à crise, o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa foi para Paris num autocarro da Câmara Municipal, o que até deve ter dado jeito para levar na bagagem os vinhos e petiscos do Alentejo, como leitões assados, enchidos, queijos, presunto e o pão, é claro.
Género musical polifónico por vezes associado a outras formas musicais, sobretudo instrumentais, que lhe deturpam a essência, o Cante caracteriza-se pela existência de um solista designado ponto que lança a deixa, seguido do solista designado alto, ao qual se seguem as vozes de todo o coro. Terminadas as estrofes, o ponto pode lançar nova deixa, ou repetir a primeira.
O andamento lento, a repetição e as pausas contribuem para a monotonia do canto, um reflexo talvez da própria planície. Fazendo parte da tradição do trabalho nos campos, o Cante era executado por homens e mulheres, e ocupava os homens nos tempos livres na vida social; nas tabernas, nas festas, nas arruadas, e cantado pelas mulheres na lides domésticas.
Com a progressiva mecanização da agricultura, a generalização da rádio e da televisão, e o abandono dos campos em busca de melhor vida nas cidades, o Cante entrou em declínio, passando a ser mais uma prática de memória colectiva, do que uma forma espontânea de criatividade. Continua no entanto, através de temas como o trabalho, o amor, a contemplação, a natureza, e uma certa nostalgia, a ser o elo de ligação do alentejano à sua terra e aos seus. O canto profundo da terra na voz de quem a sentiu e sente.
Embora o meu Grupo Coral preferido seja o dos Mineiros de Aljustrel, decidi escolher um video curto e bem demonstrativo de como o Cante poderia surgir, e surge ainda hoje, numa taberna tipicamente alentejana.
"Qualquer dia temos a burra nas couves"!
"Tua mãe não quer, eu hei-de ateimar"!
Que miscelânea tão divertida!
Para quem tiver interesse no assunto, existe o Grupo Coral Os Bubedanas, composto apenas por rapazes jovens (aqui numa sátira ao ex-ministro Vitor Gaspar, com o tema Acarrar*), e o documentário de Sérgio Tréfaut,"Alentejo, Alentejo", filme que acompanhou a candidatura portuguesa.
* Acarrar - Significa descansar, dormir a sesta, ficar parado sem fazer nada. Também se diz do gado quando procura a sombra para livrar-se do calor.