sábado, 27 de dezembro de 2014

Epitáfio


"Já repararam como é bom dizer 'o ano passado'? É como quem já tivesse atravessado um rio, deixando tudo na outra margem..." Mário Quintana




Na hora em que de ti já pouco resta
a noite será friamente escura
iluminada por fogo de artifício.
E o jardim de luz lançado a certa altura
túmulo de tempo; um desperdício,
desaba sobre a terra em sepultura.

Abram-se todas as janelas e portas,
que o novo ano nelas entre!
Saudade; que o vento a afaste
para o mutismo de todas as coisas mortas
e se desfraldem bandeiras a meia-haste.




Para terminar o ano, A Despedida (Der Abschied), sexta parte da Canção da Terra (Das Lied von der Erde) de Gustav Mahler.




quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Sono


                                                      Noite Estrelada, V.van Gogh


"Quero dormir e sonhar um sonho que em cor me afogue:
Verdes e azuis de Renoir
amarelos de Van Gogh."
                                             A. Gedeão in Movimento Perpétuo




                                        Adoro o silêncio das ermidas
                                        agradam-me os ecos nos prados.
                                        Risos de crianças, vozes bebidas,
                                        gestos que dispensam ser falados.

                                        Trilhos tortuosos dos regatos
                                         p'las escarpas íngremes dos montes,
                                         o som das cotovias p'los matos
                                         o musgo a adornar todas as fontes.

                                         Noite a lançar estrelas sobre a terra
                                         se da dor do dia me despeço
                                         e nos seus braços me aconchego.

                                         Branda luz que a madrugada encerra
                                         quando no seu colo adormeço
                                         e o meu sono é fundo desapego. 




 "Starry Starry Night" de Don McLean.


Para quem aprecia, aqui está uma curiosa animação de Petros Vrellis sobre a Noite Estrelada de Van Gogh




quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Maria do Rosário Pedreira


"Escrevo essencialmente para me libertar da dor"

 Maria do Rosário Pedreira nasceu em Lisboa em 1959. Licenciada em Estudos Franceses e Ingleses, a sua obra divide-se pela ficção, romance, crónica, ensaio e literatura juvenil, género a que não será alheio a sua passagem pelo ensino de Português e Francês. Tem também o curso de Língua e Cultura do Instituto Italiano em Portugal e a frequência de 4 anos no Goethe Institut.
 Directora das Publicações da Sociedade Portugal-Frankfurt 97 e editora dos catálogos oficiais temáticos da Expo' 98, passou pela editora Quid Novi, Temas e Debates, e Gradiva, tendo integrado depois o Grupo Leya.
  Principais obras: "O Clube das Chaves" (em co-autoria com M. Teresa Gonzalez, 21 vols, entre 1989 e 1998), "Detective Maravilhas" (19 vols desde 1997), "Alguns Homens Duas Mulheres e Eu" (1993), "A Casa e o Cheiro dos Livros" (1996), "O Canto do Vento nos Ciprestes" (2001), "Nenhum Nome Depois" (2004), e "Poesia Reunida" (2012).
 Uma escritora que segundo as suas próprias palavras prefere "claramente a leitura e a vida à escrita"(in diário digital, 19-9-2012). A sua poesia de carácter romântico constitui um lamento suave em relação à perda e à ausência, ao sentimento de abandono que expõe a casa como local onde a memória vive no que ficou do amor, no cheiro dos livros, na solidão, e nos gatos que nela procuram abrigo. O reduto onde a instabilidade do Eu mergulha em busca de identidade.
 Dela escolhi dois poemas. 


DEI-TE O MEU CORPO COMO QUEM ESTENDE UM MAPA ANTES DE VIAGEM


Dei-te o meu corpo como quem estende
um mapa antes de viagem, para que nele
descobrisses ilhas e paraísos e aí pousasses
os dedos devagar, como fazem as aves
quando encontram o Verão. Se me tivesses

tocado, ter-me-ia desmanchado nos teus braços
como uma escarpa pronta a desabar, ou
uma cidade do litoral a definhar nas ondas.

Mas afinal, foste tu que desenhaste mapas
nas minhas mãos - tristes geografias,
labirintos de razões improváveis, tão curtas
linhas que a minha vida não teve tempo
senão para pressentir-se. Por isso, guardo

dos teus gestos apenas conjecturas, sombras
muros e regressos - nem sequer feridas
ou ruínas. E , ainda assim, sem eu saber porquê,
as ondas ameaçam o lago dos meus olhos.

                                 
           

VIESTE COMO UM BARCO CARREGADO DE VENTO


Vieste como um barco carregado de vento, abrindo
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste
que dentro de mim se acanham as certezas e 
tu vais sempre ardendo, embora como um lume  
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha :
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.



M. do Rosário Pedreira  tem escrito também excelente letras para canções, como é o caso de Nas Linhas da Minha Mão, para Ricardo Ribeiro, Fado com Dono, para Aldina Duarte, Pontas Soltas, para Carlos do Carmo e Ricardo RibeiroSem Palavras, Carlos do Carmo, aqui com Maria João Pires.
 Escolhi contudo, António Zambujo em Flagrante, uma letra com muito sentido de humor.
          


A autora tem também um blog com crónicas muito interessantes. Aqui


quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Reguila


"Criança é esse ser infeliz que os pais põem para dormir quando ainda está cheio de animação, e arrancam da cama quando ainda está estremunhado de sono" Millôr Fernandes




A minha mãe 
desperta-me cedinho.
Prepara-me para a escola,
serve-me leite e carinho.

Aprendo letras e versos,
a escrever e a contar, 
salto ao eixo, jogo à bola.
Se me empurram e se caio
eu finjo não me aleijar.

A minha mãe
diz que tenho que estudar,
e de tanto fingir que estudo
acabo por tanto aprender...
Diz-me que sou bonito
e nisso eu até acredito
porque sou lindo a valer!

A minha mãe 
é serena, bela e doce
e trata-me como se eu fosse
o seu pequenino rei.
Ah como eu sei
como ela gosta de mim!
Mas quando me avista da janela
e me chama p'ra jantar
finjo que não dou por ela
e continuo a brincar.

Depois mais tarde ao serão,
minha mãe conta uma história
e embala uma canção,
derrama muita ternura
no berço do meu irmão.
E na hora de dormir
cobre-me de tantos beijos,
aconchega-me o lençol...
Eu finjo que me aborreço,
e só ao adormecer 
eu desisto de fingir
e durmo até o sol nascer.




Canção de Embalar, Zeca Afonso



quinta-feira, 27 de novembro de 2014

O Cante Alentejano





 Passados exactamente 3 anos sobre a consagração do Fado como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO, coube hoje ao Cante Alentejano a mesma distinção em Paris, após uma candidatura patrocinada pela Câmara Municipal de Serpa/ Casa do Cante, pela Região de Turismo do Alentejo, pela Casa do Alentejo, em Lisboa, e pela Confraria do Cante Alentejano e da Moda. Com a aderência de 35 Câmaras Municipais, mais de 100 Juntas de Freguesia, 28 Grupos Corais e centenas de cantores a título individual.
Por certo devido à crise, o Grupo Coral e Etnográfico da Casa do Povo de Serpa foi para Paris num autocarro da Câmara Municipal, o que até deve ter dado jeito para levar na bagagem os vinhos e petiscos do Alentejo, como leitões assados, enchidos, queijos, presunto e o pão, é claro.

Género musical polifónico por vezes associado a outras formas musicais, sobretudo instrumentais, que lhe deturpam a essência, o Cante caracteriza-se pela existência de um solista designado ponto que lança a deixa, seguido do solista designado alto, ao qual se seguem as vozes de todo o coro. Terminadas as estrofes, o ponto pode lançar nova deixa, ou repetir a primeira.
 O andamento lento, a repetição e as pausas contribuem para a monotonia do canto, um reflexo talvez da própria planície. Fazendo parte da tradição do trabalho nos campos, o Cante era executado por homens e mulheres, e ocupava os homens nos tempos livres na vida social; nas tabernas, nas festas, nas arruadas, e cantado pelas mulheres na lides domésticas.
 Com a progressiva mecanização da agricultura, a generalização da rádio e da televisão, e o abandono dos campos em busca de melhor vida nas cidades, o Cante entrou em declínio, passando a ser mais uma prática de memória colectiva, do que uma forma espontânea de criatividade. Continua no entanto, através de temas como o trabalho, o amor, a contemplação, a natureza, e uma certa nostalgia, a ser o elo de ligação do alentejano à sua terra e aos seus. O canto profundo da terra na voz de quem a sentiu e sente.

Embora o meu Grupo Coral preferido seja o dos Mineiros de Aljustrel, decidi escolher um video curto e bem demonstrativo de como o Cante poderia surgir, e surge ainda hoje, numa taberna tipicamente alentejana.
"Qualquer dia temos a burra nas couves"!
"Tua mãe não quer, eu hei-de ateimar"! 
Que miscelânea tão divertida!


 Para quem tiver interesse no assunto, existe o Grupo Coral Os Bubedanas, composto apenas por rapazes jovens (aqui numa sátira ao ex-ministro Vitor Gaspar, com o tema Acarrar*), e o documentário de Sérgio Tréfaut,"Alentejo, Alentejo", filme que acompanhou a candidatura portuguesa.

* Acarrar - Significa descansar, dormir a sesta, ficar parado sem fazer nada. Também se diz do gado quando procura a sombra para livrar-se do calor.



quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Sinto a tua falta


                                                                   Foto de Nancy Wilde




                                        Sinto a tua falta

                                        quando
                                        no mofo dos dias
                                        os braços da aurora me acordam
                                        e do peito uma ave se solta em voo de luz
                                        em direcção à nora
                                        onde os meus olhos bebem a manhã
                                        na névoa do velho alcatruz.

                                        Quando
                                         os raios do meio-dia escorrem
                                         pelas paredes num lamento
                                         e o calor refugiado na sombra
                                         não me refresca o pensamento
                                         na hora dorida que se arrasta
                                         sem vontade de morrer na lonjura
                                         que de ti me afasta.
                                         E é vertical a tua lembrança
                                         caindo a prumo. Transportando
                                         para as masmorras da esperança
                                         a escuridão da noite e a voz 
                                         que permanece muda
                                         no atalho da distância.
                                         O brilho das coisas raras esconde-se 
                                         na seiva dos lírios e num desejo
                                         feito cobiça de águas invioladas
                                         onde se atrevem temerários sonhos;
                                         os últimos sobreviventes
                                         do amor e da morte. Reféns
                                         suspensos de grandes asas
                                         que se despenham fazendo estremecer
                                         os alicerces dos homens e das casas.
                                         Apanho-os do chão, labareda feita água
                                         na plenitude do nada, dura solidez
                                         em que me sinto e me distraio
                             
                                         quando
                                         atravesso o rio e os meus passos
                                         lentamente marginais
                                         não alcançam como dantes
                                         os desígnios dos espaços siderais
                                         e uma nota em dó menor
                                         atormenta o sono das pedras.

                                        Quando
                                         ao cair da tarde uma folha seca
                                         soa em corrupio no vento
                                         e desaparece sem o regresso 
                                         do sol ao firmamento.
                           
                             



 Composta  e cantada por Jacques Brel em 1959, "Ne Me Quitte Pas" é segundo o autor, uma canção não sobre o amor mas sobre a cobardia dos homens. Neste caso sobre a sua própria cobardia em relação a Suzanne Gabriello.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Soldado Milhões



 Aníbal Augusto Milhais nasceu em Valongo de Milhais em 1895, onde viria a falecer em 1970. O mais novo de três irmãos orfãos acolhido por familiares próximos, começou a trabalhar ainda criança a troco de alimentação e abrigo. Nunca foi à escola, guardou rebanhos e trabalhou na agricultura.
Em 1915 assenta praça no Regimento de Infantaria (R.I.) de Bragança, altura em que sai pela primeira vez do concelho de Murça. Depois de uma transferência para o R.I. de Chaves, parte para a I Guerra Mundial em 1917 como atirador especial, onde se especializaria em metralhadoras Lewis.
 A 9 de Abril de 1918, na Batalha de La Lys, a 2ª Divisão do Corpo Expedicionário Português (CEP), do qual fazia parte, foi entre mortos, feridos e prisioneiros, praticamente dizimada, tendo os sobreviventes sido obrigados a retirar. Aníbal (e o companheiro Malha Vacas que morreria pouco depois), terá decidido voluntariamente, cobrir a retirada dos companheiros. Na companhia da sua Lewis, conhecida entre os portugueses como "Luísa", ora a partir das trincheiras, ora pelos campos, continuou a fazer fogo esporádico de várias posições distintas, permitindo a retirada segura de soldados portugueses e britânicos, ao criar nas tropas alemãs a ilusão de que estas posições estivessem bem guarnecidas.
 Três dias depois do início da batalha terá encontrado um médico escocês a quem salvou de afogamento num pântano, e terá sido este médico a dar conta ao Exército Aliado da coragem e abnegação do soldado transmontano durante os últimos dias.
Foto de Arnaldo Rodrigues Garcez, fotóg. do CEP

Regressado ao acampamento português, o comandante Ferreira do Amaral ter-lhe-á dito : " Tu és Milhais, mas vales Milhões!"
 Foi o único soldado português condecorado com a Ordem Militar de Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, não em Lisboa, mas em pleno campo de batalha, em Ibsberg, e perante ele desfilaram em continência 15 000 soldados aliados. Agraciado pelo que fez, mas também como reconhecimento a todos os soldados que combateram e tombaram no campo de batalha.
 No regresso a Portugal, casa com Teresa, mas o trabalho na agricultura não passa de mera luta de sobrevivência, insuficiente para alimentar os filhos.
Em 1924, o "Diário de Lisboa" decide resgatar o herói de guerra e usá-lo como símbolo de propaganda da Primeira República, e depois do regime do Estado Novo. Uma figura de soldado raso e iletrado, ideal para a fácil identificação do povo, forçado a comparecer em cerimónias oficiais fardado e com as medalhas ao peito. A sua terra, Valongo, passaria também a chamar-se Valongo de Milhais.
 Em 1928, devido à crise do pós-guerra parte para o Brasil numa tentativa de melhorar a vida, contudo os seus conterrâneos convenceram-no a regressar, colectando-se para o ajudar. Segundo eles, o lugar de um herói deveria ser na pátria, e não emigrado. Com o dinheiro trazido do Brasil constrói uma casa com a ajuda dos vizinhos e retoma as actividades agrícolas tentando alimentar os dez filhos.
 Dificilmente falava da guerra, e só o fazia quando lho pediam."A guerra era para ele um tempo de tristeza".

Anúncio no jornal "A Capital", 1917

  Praceta do Jardim Herói Milhões, Murça

 Existe este breve video sobre o Soldado Milhões, e esta entrevista já quase no fim da vida.

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Pele



                                                      Nu Sentado, Picasso




Tudo acorda em mim enevoado
quando em mim te afundas e te deitas.
Um torpor, um arrepio na espinha
quando nas minhas coxas te ajeitas
em leve murmúrio abafado
numa vontade que já não é minha.
Seiva, saliva, humidade de poros,
vaga de lume batida em corpo salgado
tropicais cascatas e meteoros
oscilando em revolta navegação
como calado de barco afogado
fogo liberto em silêncio de amarração.

A minha pele adormecida
 é ávida de astrolábios desconcertados
de tanta sede acometida.
De gestos de ternura perfumados
de sol, chuva e frescas nuvens
de mastros de coragem levantados.

Mas tu hoje não vens.

                                         


Márcia com JP Simões, "A Pele Que Há Em Mim"(Quando o Dia Entardeceu). Pelo poema, e pela voz do JP Simões. "Sobre a pele que há em mim tu não sabes nada. Dá-me o mar, o meu rio, a minha estrada. O meu barco vazio na madrugada."



sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Férias de Outono


Laura e Tila
Existem pessoas que nos fazem tristes. Outras são-nos indiferentes, outras fazem-nos alegres.
A minha irmã faz-me feliz.


Tila a descansar de mais um passeio ao Mercado do Levante para encomendar "xarope" do fruto de Arbutus unedo, uma árvore típica da serra algarvia.
Um passeio super divertido. Tivemos de provar da "pomada" para acautelar se seria de qualidade. E era.
Tila na Meia Praia
No dia do meu aniversário. Com a minha irmã à mesa e um telefonema surpresa da minha filha de um hotel em Estocolmo. Ouro sobre azul.
O meu bolo de aniversário. De queijo e framboesas
Dias muito felizes
A minha querida sobrinha Vivian na Meia Praia



 Passamos duas semanas em Lagos e arredores. Embora tivesse chovido muito, o tempo ficou solarengo e quente nos últimos dias. Por isso decidimos                            
regressar às origens e visitar o Alentejo, porque lá não íamos há tanto tempo!
Depois de um almoço no Cavaleiro, visitamos o Almograve e  tomamos café na Zambujeira do Mar.
Com um calor imenso.




Adoro esta maravilhosa  Costa Vicentina do Sudoeste Alentejano.
Nada com ela se compara.
Nascemos muito perto destes locais.




  Um dia à tardinha na casa do nosso irmão, a Tila preferiu um copo de "Monte Velho", eu provei pela primeira vez "Desperados", e gostei!
Não falarei do jantar que se seguiu para não ficarem com inveja...:-)

Existe uma rubrica radiofónica na Antena1, intitulada "Portugueses no Mundo", na qual portugueses espalhados nos mais variados cantos do globo falam sobre as suas experiências no estrangeiro acerca do que sentem falta. Geralmente todos sentem saudades da família e dos amigos, do mar, e essencialmente da comida. A minha irmã não foge à regra. Embora goste de tudo, deliciou-se principalmente com peixe e marisco. 



FELIZ ANIVERSÁRIO, TILA!!!
FELIZ ANIVERSÁRIO, MELLY!!!

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Crepúsculo



"Meu coração é um pórtico partido
   Dando excessivamente sobre o mar" Fernando Pessoa



 Entorna-me de canto a noite e de silêncio o canto dos dias, para que eu seja capaz de sentir o som das tuas mãos sobre o meu peito e a saída de todas as barcas para o mar. Quando te debruças sobre mim assim, nada mais existe que um sopro trazido da maré baixa que se eleva pelas areias e penetra as correntes ancoradas no meu corpo, numa enchente de exigências como se os sentidos fossem donos de razão. O vento afaga as dunas enquanto o rosmaninho se curva ao peso de um solitário camaleão em lento caleidoscópio de cores que faz nascer em mim um pranto luminoso, feito de coisas pequenas que tinha esquecido quando as supostas coisas grandes se sobrepunham no altar de todas as urgências. Sortilégio dos sortilégios ter já esquecido o que fez de mim antigo marasmo de gente pouca, enleada num misto de encontro e desencontro na fugacidade dos instantes que passam.
 Voltei hoje a beber a luz do sol e a percorrer os caminhos que pensei perdidos. Nada é o que foi dantes, mas a minha pele reconhece o brilho que já teve e o mar revolto mansamente se calou. A serenidade voltou porque voltei a lembrar-me dela. Porque a vida só pode ser alegria se deixarmos os deuses entregues à sua própria adoração; mistérios fúteis que não perduram no renascimento da voz que me pertence quando a alvorada traz sobre mim um véu de tranquilidade e um brado sereno em seu regaço.
 O importante não é saber dos ventos e marés ou dos cardumes longe da costa,  entender  o entrelaçar das algas que dão à praia ou se o canto das sereias é mais poderoso que a vontade, mas entender as vagas que invadem o meu corpo, todo ele breve enseada sem praia ou cais e pássaros perdidos nos canaviais. Recantos onde meço a pulso as coisas feitas, na hora em que tudo é passageiro e um corcel de prata surge de mão dada com a noite, no preciso momento em que a tarde se ajoelha perante o dia e o brilho de todos os ocasos não consegue já ofuscar o meu olhar. À hora em que todas as barcas se recolhem.



La Mer, Charles Trenet


Não postarei em Outubro porque estarei a derreter-me toda com a visita da minha querida mana!

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Reciclagem


Esta cadeira chegou-me assim.

Depois de lixada  foi só colar um assento e pintar!

Esta foi a primeira cadeira que arranjei. Como não me tinha passado pela cabeça fazer post não tirei foto ao Antes. Teve de ser lixada com lixa para ferro porque tinha sido envernizada. Foi uma trabalheira!

Este banco com muitos anos que estava a precisar de uma pintura e de uma nova estofagem. Um banco de ferro que fazia parte do mobiliário do meu e do quarto da minha irmã quando éramos adolescentes.

Uma das poucas coisas que restaram dessa altura. Tenho hoje muita pena de me ter desfeito de uma cadeira também em ferro do mesmo conjunto.
Aproveitei  este tecido que acho que ficou bem, porque está na sala do computador, onde tudo está decorado em tons de bege, castanho, branco e terracota, numa miscelânea de objectos com muitas recordações e muitas, muitas fotografias pelos móveis e pelas paredes. E alguns quadros pintados pela minha filha.
O cavalete está ali a olhar para mim, e acho que vou começar também a utilizá-lo!





A MINHA CADEIRA

A minha cadeira favorita
tem braços, pernas, costas
 um colo suave onde me sento
para ler e descansar.
Quando o norte está nublado
viro a cadeira para o lado sul
para o ar quente e ondulado
onde a paisagem se veste de azul.
Os pés da minha cadeira não oscilam
enquanto os meus estão no ar,
e de tanto nela recordar
a minha cadeira predilecta
faz-me viajar.
Ser quieta preguiçosa atleta
de almofada.
Que doce é não fazer nada!...
Espreguiço-me lentamente 
nesta cadeira confidente
perto de uma parede branca
 e de um candeeiro amarelo.
Com um livro aberto sobre a anca
e na cabeça um universo paralelo.


segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Fernanda de Castro


"Urgente é construir serenamente
         seja o que for, choupana ou catedral,
  é trabalhar a pedra, o barro, a cal
 é regressar às fontes, à nascente"
                                                                                                          in Urgente



 Maria Fernanda Teles de Castro e Quadros Ferro, poetisa, romancista e dramaturga portuguesa, nasceu em Lisboa a 8 de Dezembro de 1900, e faleceu na mesma cidade a 19 de Dezembro de 1994. Filha de um oficial da Marinha, estudou em Portimão, Figueira da Foz e Lisboa.
 Do casamento com António J. Tavares Ferro, Secretário da Propaganda Nacional, nasceu o filósofo e ensaísta António Gabriel de Quadros Ferro, e Fernando Manuel Teles de Castro e Quadros Tavares Ferro. A sua neta, Rita Ferro é também escritora.
 Fundou com o marido e outros autores a Sociedade de Escritores e Compositores Teatrais Portugueses, actual Sociedade Portuguesa de Autores. Foi também a fundadora da Associação Nacional  Parques Infantis, à qual presidiu. Traduziu peças de teatro, escreveu Poesia, Romance, Teatro e Literatura Infantil.
Foi autora do argumento do bailado Lenda das Amendoeiras , levado à cena pela Verde Gaio em 1940, companhia fundada como uma afirmação da portugalidade, e do argumento do filme Rapsódia Portuguesa, primeiro filme português em cinemascope.
Recebeu o Prémio Teatro Nacional D. Maria II, pela peça "Náufragos", o Prémio Ricardo Malheiros, e o Prémio Nacional de Poesia em 1969.
 Algumas obras :  "Antemanhã"(1919), "Náufragos"(1920), "O Veneno do Sol e Sorte" e "Jardim"(1928), "Nova Escola de Maridos"(1930), "A Pedra no Lago"(1943), "Maria da Lua"(1945), "Exílio"(1952), "Asa no Espaço"(1955), "África Raiz"(1966), "Poesia I e II"(1969), "Fontebela"(1973), "Ao fim da Memória" (Memórias entre 1906 e 1939, 1986), "Urgente"(1989), "Os Cães não Mordem"(obra editada postumamente). Traduziu também autores como Rainer M.Rilke, Katherine Mansfield, Pirandello e Ionesco.
 Alguns exemplos da sua escrita:
  

                       Bruno (rindo) - Quantos anos tens?
                       Teresa - Cem. (Rectificando) Dezoito.
                       Bruno - Estudas?
                       Teresa - Mais ou menos. Filosofia.
                       Bruno - Não digas mais nada, só suporto as pessoas enquanto posso imaginá-las como quero: vagas, fluídas, susceptíveis de desaparecer dum momento para o outro, como fantasmas ou miragens.

                                                                               in Os Cães não Mordem




                                                         MAIS UM DIA PERDIDO

                                Há dias em que tudo é sem remédio,
                                em que tudo começa e acaba torto.
                                Uma folha caiu :
                                era um pássaro morto.

                                Neblina. Fim de tarde. Fim de Outono.
                                Nada nos fala, nos atrai, nos chama.
                                Choveu, parou a chuva,
                                 ficou porém, a lama.

                                Um banco no jardim. Árvores nuas,
                                 um cisne velho, um tanque, água limosa,
                                 nem a relva ficou,
                                 quanto mais uma rosa.
  
                                 Há barcos, há gaivotas sobre o rio,
                                 e nas ruas há gente, há muitas casas.
                                 Mais um dia perdido:
                                 arrancaram-lhe as asas.

                                                                                 in "Urgente"




"Um Grande Amor", poema de Fernanda de Castro com música de Miguel Ramos, na voz de Tereza Silva Carvalho
"Um grande amor não cabe em nenhum verso"

                                                                                          

sábado, 30 de agosto de 2014

Coração


"O coração se pudesse pensar, pararia". F. Pessoa, Livro do Desassossego



Caminho um chão de pó e pedra
de belas urzes e de cardos
onde já pouco medra.
O vento fustiga árvores nuas
e o meu cabelo ondulado
roda como cata-vento preso
no vermelho mortiço do telhado.
Apressada em mim avanço
num corpo quente e cansado
que suplica descanso.
Em mim corre lesta coragem
mais forte que o respeito
pelo medo perdido na aragem,
simples despropósito e razão.
Cravo as mãos no peito
tento dele retirar o coração,
oferecê-lo aos pássaros
que velozes passam.
Que o levem para longe,
dele se desfaçam.
Que o escondam na vegetação,
o deixem secar ao sol
de abandono ou inanição.





Aviso: Filme não aconselhável a quem gosta de animações lamechas.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

" Quando o rei faz anos..."




"Faz frio. Mas depois de uns dias de aguaceiros,
Vibra uma imensa claridade crua.
De cócoras, em linha, os calceteiros,
Com lentidão, terrosos e grosseiros
    Calçam de lado a lado a longa rua" (...)
                                                              Cristalizações, Cesário Verde














 O rei D. Manuel I mostrava-se aos súbditos apenas uma vez por ano, exactamente a cada 21 de Janeiro, dia do seu aniversário, daí a expressão "quando o rei faz anos...".
 Incomodado com o facto do cortejo real, em trajes de gala e ricos adornos ficar usualmente sujo de lama, e devido à recente chegada de um rinoceronte branco que o transportasse pelas ruas, decide, na viragem do séc.XV para o séc.XVI, ordenar o calcetamento das ruas do percurso real para que o animal, de nome "Ganga", não sujasse as suas pesadas patas na lama. Com início na R. Nova dos Mercadores, a empreitada terá ficado cara devido ao transporte de granito do norte do país.
 No sé. XVIII depois da destruição do terramoto de 1755, a reconstrução da cidade abandonou este tipo de revestimento, mas em meados do século seguinte, em 1842, foi realizada por decisão do Governador de Armas do Castelo de S. Jorge, uma calçada calcária nos moldes como hoje a conhecemos. A partir desta altura foram concedidas verbas para que o Governador do Castelo, Eusébio Furtado, empreendesse a pavimentação de toda a Praça do Rossio, prática que viria a espalhar-se por todo o país e colónias como moda e ideal de bom gosto, aliando utilidade a sentido estético.
 Em praças, passeios, ruas pedonais, nos mais variados espaços públicos e até privados, a calçada portuguesa, maioritariamente utilizada em Portugal e nos países lusófonos, atravessou fronteiras e existe actualmente um pouco por todo o mundo. Em calcário branco e negro ( embora na Madeira e Açores o basalto seja utilizado por ser comum na região), e ocasionalmente noutras cores, a calçada portuguesa passou com o tempo, de simples pavimentação de rua a arte decorativa.  
 Em 1986 foi criada por iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa, a primeira escola para calceteiros.
Monumento ao Calceteiro de Sérgio Stichini



E aí está o primeiro Código QR  feito com pedras portuguesas. O Turismo de Portugal pensa em tudo menos no essencial. Devia lembrar-se de colocar a trabalhar os alunos qualificados que saem todos os anos das escolas de Hotelaria e Turismo. E já agora, também gostaria de saber quanto ganha um calceteiro...




terça-feira, 12 de agosto de 2014

AGosto


                                                   Agosto
                                                   Da colorida romaria
                                                   Da festa na aldeia
                                                   Do restolho e da desfolhada
                                                   Da colheita e da alegria
                                                   Da abundância e do nada.
                                                   Agosto
                                                   Do sol e da sombra
                                                   Das uvas e do mosto
                                                   Do riso e do despudor.
                                                   Da labuta e do suor
                                                   Da linha do teu rosto.
                                                   Agosto
                                                   Do vento e do calor
                                                   Dos frutos vermelhos maduros
                                                   Do pó na terra seca
                                                   Dos desígnios obscuros.
                                                   Agosto
                                                   Das luzes e dos sons
                                                   Das férias, das praias
                                                   Das viagens, dos mercados
                                                   Das curtas saias
                                                   Dos serões prolongados.
                                                   Agosto
                                                   Das estrelas, nocturnos frios
                                                   Do tardio sol posto
                                                   Do fogo nas florestas
                                                   Do lume nos corpos
                                                   Da cinza nos rios.
                                                   Agosto 
                                                   Da melancia e dos figos
                                                   Dos verdadeiros, 
                                                   Dos falsos amigos.
                                                   Agosto
                                                   O suposto 
                                                   Quente mês
                                                   Do Verão
                                                   Que não se fez.




 Sábado passado assisti pela primeira vez a um concerto da Gisela João, na Praça do Infante aqui em Lagos. Uma fadista da qual gosto muito.
 Desculpem a fraca qualidade das imagens.Melhor clicar nas fotos! :-)





Gisela João nasceu em Barcelos e tem vindo a descer o país ganhando terreno e popularidade. 
Madrugada sem Sono, Meu Amigo está Longe são grandes fados, mas também gosto das suas interpretações alegres como Antigamente. Escolhi Vieste do Fim do Mundo.