Agora nem nómada, nem emigrante.


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quinta-feira, abril 21, 2011

Segunda Maldição


Seu corpo adormeceu eternamente, mas sua alma bebeu da lama e renasceu, tal Fénix fosse se assim existisse. O seu cavalo preto ganhou luz e brilho. Passou a vaguear o mundo à procura da maldição. Logo depois se apercebera que a maldição teria sido morrer sem conhecer o amor, aquele bravio que agora via em tons escarlate a vaguear nos corações humanos. Descobrira gentes porcas a fazer amor com a alma e gentes limpas a consporcar o nome do Amor. Afinal, aqueles que o faziam, sentiam-no, tal era o tom da cor.
Aquele homem, outrora menino, com mãos de anjo e lábios de veneno, procurava renascer, reencarnar, mas não conseguia.

Certa noite, vagueava entre os incensos de uma Páscoa anunciada e umas rezas malditas entre sussurros labiais... Repetiam-se nomes. O Norte, de súbito, baixou e o Sul esquecido ficou. Sentiu-se repelido das orações e ajoelhou-se. Prostrado, proclamou-se e penetrou nas entranhas de uma mulher. Logo depois, sentiu uma enorme dor. Era do nascimento. Nasceu de novo. Quando abriu os olhos, o tom escarlate estava por toda a parte. Nunca saberia distinguir os falsos dos verdadeiros, mas tinha um corpo. Tinha vivido séculos em assombração.

Eli

quarta-feira, abril 20, 2011

Maldição



Era uma vez um menino. Era maldito. Nasceu assim. Cresceu assim, como que assombrado por uma informação que lhe foram passando dia após dia, década após década. Nunca fora adorado, nunca desejado, nunca sequer maltratado, não fossem os deuses descerem à terra e vingarem-se. Por detrás de um olhar escuro, escondia-se uma sombra sombria. Sua mãe esquecera-o logo no berço, ainda amamentava e já o leite lhe escorria pelos seios, tal era a falta de amor que lhe transbordava... aqui nem era água, seria uma mescla esbranquiçada.

-Mas, por que não o alimentas.
-Meu alimento não o sacia.

Os negros olhos da criança foram perdendo o brilho e cresceu pelos montes, olhando de soslaio os humanos. Sentia-se um cavalo. Era livre como eles.

Sua famíla de gentes abastadas de pobreza de espírito deixava um caldo e um naco de pão à porta dos estábulos... não... eram currais mesmo.

Foi mandado para a escola. Aprendeu a ler e só aí descobriu que nem todos eram como ele. Estranhamente se sentiu especial. Tinha qualquer coisa que os outros não tinham.

Um dia, chegou à escola montado num cavalo bravo e todos lhe fugiram. A fama de tolo ganhou finalmente proporções maiores. Então, fugiu. Escapar a toda aquela merda foi um toque de desolação por não terem mais quem lhes limpasse o esterco, mas também um alívio-

- Que leve a maldição com ele.
- Qual maldição?
- Não sei.

O padre tinha dito que aquela marca no pescoço era do demónio. Havia uma lenda. Quem assim nascesse traria décadas de horror à sua terra. Porém, que se tinha livrado da porcaria, com quinze anos mal feitos foi aquele pobre rapaz.

Fez-se soldado quando encontro outros pelo caminho. A sua destreza em dominar cavalos selvagens trouxe-lhes uma grande fonte de rendimento. Nunca tinham visto a sua marca. Estava tapada pelos longos cabelos, que assim como a barba, foram crescendo dia após dia. Cortava as pontas com a sua velha navalha.

Certo dia, estava a dormitar junto ao rio, com o chapéu a tapar-lhe a cara, quando ouviu um barulho.

O som de um tiro e logo a seguir a morte. O falecimento...

Eli



Este espaço começou com o lugar dos seguidores "há pouco tempo" e conta com cem. A quantidade não é significativa. A a maioria dos que vêm cá ler mais vezes não é seguidora e nem deixa comentário, mas vivo bem com isso, porque a aceitação faz parte da minha condição.

Porém, não posso deixar de agradecer ternamente aos que comentam, muitas vezes sem eu merecer.

Seis anos de blogue. Esta é a minha casa mais duradoura, mais minha e a que me conhece mais intimamente. Sintam-se convidados a partilhá-la. Há várias divisões, imaginárias, mas nunca deixando de ser eu que as descreve, assim como o que se lá passa...

O amor acontece.