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quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

Curso MULHERES RARAS


 


MULHERES RARAS

Cultura Feminina na literatura portuguesa do Séc XX
com Rosa Azevedo
Livraria 
Snob
 / versão digital
13, 20 e 27 de Fevereiro (sábados)
11h - 12h30
50€
Mínimo: 10 alunos
Inscrições: mulheres.raras.info@gmail.com

Nas publicações de referência da História da Literatura Portuguesa do séc. XX escasseiam mulheres. Por um lado podemos afirmar sem estar longe da verdade que as mulheres escreviam menos que os homens. Mas porquê? E será que se justifica que os nomes de mulheres ao longo da primeira metade do século se contem pelos dedos de uma mão? Neste curso vamos falar de uma cultura feminina, por oposição a uma escrita feminina, revelar o que se passou no século XX em Portugal, falar de escritoras, do meio onde elas tiveram de se afirmar, pensar em conjunto que fenómeno de apagamento foi este. E, acima de tudo, vamos devolver à literatura alguns destes livros e destas autoras.

AUTORAS
Maria Judite de Carvalho, Maria Ondina Braga, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Celeste Andrade, Maria Archer, Isabel Meyrelles, Graça Pina de Morais, Isabel da Nóbrega, Irene Lisboa, entre muitas outras.

ROSA AZEVEDO
É formada em Literatura Portuguesa e Francesa com curso minor em Literaturas do Mundo e tem mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte e do grupo teatral A Mancha. É programadora cultural e editora na Livraria Snob. Pertence à direcção da RELI - Rede de Livrarias Independentes. Mantém o blog estórias com livros.

domingo, 25 de outubro de 2020

Mulheres Raras (agora na Snob)




MULHERES RARAS
Cultura Feminina na literatura feminina

com Rosa Azevedo
versão digital 
25 e 27 de Novembro 
2 e 4 Dezembro
21h30
50€
Mínimo: 10 alunos
Inscrições: mulheres.raras.info@gmail.com


Nas publicações de referência da História da Literatura Portuguesa do séc. XX escasseiam mulheres. Por um lado podemos afirmar sem estar longe da verdade que as mulheres escreviam menos que os homens. Mas porquê? E será que se justifica que os nomes de mulheres ao longo da primeira metade do século se contem pelos dedos de uma mão? Neste curso vamos falar de uma cultura feminina, por oposição a uma escrita feminina, revelar o que se passou no século XX em Portugal, falar de escritoras, do meio onde elas tiveram de se afirmar, pensar em conjunto que fenómeno de apagamento foi este. E, acima de tudo, vamos devolver à literatura alguns destes livros e destas autoras.

AUTORAS
Maria Judite de Carvalho, Maria Ondina Braga, Maria Isabel Barreno, Maria Velho da Costa, Celeste Andrade, Maria Archer, Isabel Meyrelles, Graça Pina de Morais, Isabel da Nóbrega, Irene Lisboa, 
Maria Cecília Correia, entre muitas outras.

ROSA AZEVEDO
É formada em Literatura Portuguesa e Francesa com curso minor em Literaturas do Mundo e tem mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte e do grupo teatral A Mancha. É programadora cultural e editora na Livraria Snob. Pertence à direcção da RELI - Rede de Livrarias Independentes. Mantém o blog estórias com livros.


 

domingo, 13 de setembro de 2020

A Cláudia e a Leonor




Acabei hoje de ler o Tatuagens de Luz da Cláudia Clemente, editado pela Sistema Solar / Documenta sobre o processo de pesquisa e encontro da figura da poeta Leonor de Almeida. Com os anos fui conhecendo esta forma única que a Cláudia tem de entrega absoluta ao que quer fazer. Isso que quer fazer pode ter a as mais variadas formas de arte mas também pode ser amizade, amor, família. Este livro tem um misto de todas estas características da Cláudia. Primeiro é um tipo de livro que não terão visto muito por aí. A Cláudia ouve falar da Leonor de Almeida por ser a esteticista da avó que lhe tinha vendido um quadro surrealista e que também escrevia poemas. Depois, por diversos episódios pessoais, decide saber mais sobre a poeta. E começa um caminho, descrito no livro, cheio de coincidências (o fascinante acaso objectivo de Breton), obstáculos, estradas que se bifurcam em caminhos insondáveis. E durante todo o livro vamo-nos envolvendo com a Cláudia que conta a história e com a Cláudia que resolve trazer a poeta para o seu círculo de proximidade. O que está neste livro é um acto de generosidade da Cláudia para com a memória e para com a literatura. Eu egoisticamente acho que esse acto de generosidade é para mim, e creio que essa relação de proximidade pode ser sentida por mais pessoas. O que está neste livro é uma história de amor. E desengane-se quem ache que este livro podia ter sido escrito por qualquer pessoa, só podia ter sido escrito pela Cláudia porque só ela tem esta forma de viver as suas obsessões. Como um furacão, sem parar, sem medos, ou melhor, alimentando-se desses medos.

A par com este livro a Ponto de Fuga publicou a obra completa da poeta. A Cláudia prometeu à Leonor de Almeida que ela não continuaria a ser esquecida. E agora arrisco dizer, eu que trabalho tanto as escritoras portuguesas esquecidas do séc. XX, que não conheço nenhuma tão bem como conheço a Leonor de Almeida. Não percam nenhum dos livros. Um é um monumento à poesia da Leonor. O outro é a dádiva da Cláudia à poesia portuguesa e, intrinsecamente, à Leonor.









sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Maria Lamas e o papel activista da mulher na sociedade portuguesa do séc. XX


O séc XXI ainda nos pede para falarmos da condição da mulher nas artes. Ainda que seja possível verificar muitos avanços, há algumas áreas onde a dificuldade persiste. O facto de estarmos numa época de avanços culturais e sociológicos no que respeita as categorias de género, apenas dificulta o diagnóstico, muitas vezes é dentro de quatro paredes e na intimidade que as dificuldades se criam. Apesar disso, um olhar mais atento consegue descobrir alguns indicativos com facilidade. Por exemplo, nas áreas artísticas, na esmagadora maioria das vezes, as mulheres não têm trabalhos tradicionais, com horários e facilidades na gestão da doença ou dos cuidados familiares, e é inegável que são essas as funções ainda destinadas à mulher – seja por contexto e pressão social, seja por, e cada vez com mais força, uma dificuldade relacionada com a interpretação de géneros em que qualquer um deles, homens ou mulheres, não se consegue, naturalmente, desprender do papel que lhe foi atribuído ao longo de séculos. 
Assim é importante olharmos para a evolução do papel da mulher nas artes, nomeadamente na literatura, ao longo do século XX para melhor percebermos o sítio onde estamos. A literatura portuguesa escrita por mulheres, no séc. XX, passou por muitas mudanças e alterações, as mesmas que a própria história das mulheres em Portugal, inegavelmente ligada à história do feminismo em Portugal. O movimento feminista português foi sempre um movimento moderado, nunca declaradamente subversivo nem violento, mais atento à satisfação das suas reivindicações pela força da persuasão, do direito e da educação do que pela força da violência e das manifestações. Houve muitas e diferentes reivindicações mas a grande luta feminista do início do séc XX era uma luta sobretudo pela liberdade de escolha da mulher. Eliana Guimarães, no II Congresso Feminista Português (1928), afirma: “O que queremos nós para as mulheres? Muito simplesmente isto: o pleno desenvolvimento da sua personalidade. Que, criança, ela seja instruída para que, adulta, ela possa exercer a sua actividade de harmonia com as suas aptidões sem que o ensino lhe seja negado ou o seu campo de acção cerceado apenas porque é mulher. E queremos também que o seu esforço seja reconhecido e recompensado como merece.”
A forma como o séc XX vê e condiciona a mulher vem de muito para trás. Segundo a cultura ocidental a mulher identifica-se com o lado biólogico do ser humano, enquanto o homem surge como um animal cultural. Esta ideia foi bem ilustrada por Baudelaire que afirmava que la femme est naturelle, c’est à dire abominable. A imagem da mulher esteve desde sempre ligada à ideia de introspecção, emoção descontrolada, irracionalidade e desordem por oposição ao racional, génio criador, inteligência, atributos ligados à ideia de masculinidade. A juntar a esta ideia o séc. XIX trouxe à mulher as suas tarefas de esposa e mãe, em exclusividade, mesmo nas classes mais baixas que tinham de juntar essas funções ao trabalho que não podiam dispensar. 
Quando falamos de mulheres escritoras do séc. XX temos ainda de ter presente que durante todo o século as mulheres eram muito pouco instruídas, eram poucas as que sabiam sequer ler e escrever. Assim, temos de ter presente que estamos a falar de um grupo restrito e pequeno, de uma classe instruída, muitas vezes mulheres que por via do casamento ou familiar já viviam num meio literário, com hábitos culturais ligados à escrita e à leitura. Cedo muitas dessas mulheres perceberam a importância de ter uma voz activa, perceberam qual o papel da literatura, bem como a responsabilidade que acarretava o facto de a publicação dos seus textos ter uma necessária repercussão em todos os que as liam. Essas escritoras, que para publicar tinham não poucas vezes de ser inteligentes e publicar livros que aparentemente não questionavam a ordem vigente, tornaram-se exímias a questionar essa mesma ordem entre linhas, passando muitas vezes mensagens subliminares e, outras vezes, através de uma descrição realista do que era o papel da mulher e a sua incapacidade em, dado o contexto, conseguirem usar da sua livre escolha, sendo autónomas. Através da escrita elas incentivavam as leitoras a procurarem essa autonomia, empoderando-se e confiando nas suas capacidades enquanto figura responsável pelos seus actos. Na verdade a função daquelas mulheres quando escreviam era cumprir um papel que a cultura muito mais tarde vai assumir de forma mais aberta, nomeadamente durante o neo-realismo dos anos 40 ou 50, ou, de forma mais alargada, em grande parte da literatura do pós II Guerra Mundial – um papel de denúncia e aberta comunicação com o leitor, assumindo a responsabilidade que essa comunicação acarreta.
Era importante então criar estratégias para chegar ao maior número de mulheres, e não apenas através da literatura. E efectivamente não foi só com a literatura que este propósito se cumpriu. Exemplo disso foi a escritora Maria Lamas (1893 – 1983). Maria Lamas foi uma activista feminista, pelos direitos das mulheres, nomeadamente pela sua autonomia face a qualquer tipo de domínio externo – seja de sustento, familiar ou cultural. Maria Lamas foi jornalista da revista Modas e Bordados do Jornal O Século de 1928 a 1947, sendo sua directora a partir de 1930. A sua acção concentrava-se numa rúbrica chamada O Correio de Joaninha, uma espécie de consultório sentimental, absolutamente anónimo, onde as mulheres colocavam todo o género de perguntas. Era sempre Maria Lamas quem respondia, com o pseudónimo de Tia Filomena. Era aqui que Maria Lamas chegava com mais facilidade às mulheres disfarçando os seus conselhos de conselhos vagos e generalistas que iam dos bordados à vida íntima. Foi naquele ambiente aparentemente inócuo e feminino que durante quase 20 anos Maria Lamas influenciou centenas de mulheres a tornarem-se mais livres, autónomas, responsáveis pelo seu caminho. A revista teve um sucesso estrondoso, autonomizou-se do jornal, inspirou um programa de rádio e, inclusivé, deu origem em 1946 ao  Movimento de Acção Juvenil Joaninha. No ano seguinte Maria Lamas resolve organizar na Sociedade Nacional de Belas-Artes em Lisboa uma exposição intitulada Livros de Escritoras de Todo o Mundo, o que ditou o fim da sua colaboração com a revista, ordenado pelo Estado, dando-se início a uma perseguição política de que Maria Lamas escapara, de forma surpeendente, durante duas décadas à frente da revista. 
O trabalho do activismo feminista na cultura está ainda a meio do caminho, ainda que agora a censura esteja sobretudo ao nível privado, o que torna muito mais difícil perceber qual o caminho a tomar. Para isso são certamente importantes as mesmas mulheres que assumem a defesa da autonomia e igualdade de oportunidades para todos os géneros, tanto num nível público como privado, numa descoberta do que ainda falta fazer nos mais diversos níveis da acção da mulher e da sua vida enquadrada social e culturalmente. Porque a história não se repete porque não é igual, mas é possível assistirmos a retrocessos civilizacionais se não soubermos estar atentos e percebermos que por mais que possa a muitos parecer desarticulado e descontextualizado o feminismo tem ainda muito caminho para fazer. 



Rosa Azevedo
Artigo publicado na revista Venduta 13, em Dezembro de 2019







quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

o género e os livros

as questões de género e a procura de equidade estão muito longe de estar resolvidas. entrámos no séc. XXI muito mais esclarecidos e informados, mas o que realmente se coloca aqui em causa é de que forma passou essa informação e de que forma estamos a lidar com ela.
encontrei por essas redes sociais a referência a um novo "movimento", ou, na verdade, um hashtag, a nova forma de movimento cibernético. falava-se de #readwomen2014. procurei o artigo e encontrei-o aqui, no The Guardian. este artigo referia um estudo, este, levado a cabo pelas Women in Literary Arts, que referia a discrepância ainda existente entre mulheres e homens no mundo da edição.
vamos então, primeiro, aos factos. há mais homens a escrever, desde sempre. isso deve-se, no meu entender, a questões históricas em primeiro lugar, porque até há (demasiado) pouco tempo esse não era, culturalmente e socialmente, o lugar da mulher. depois ainda vivemos num mundo, e desenganemo-nos se pensamos o contrário, em que a mulher chama a si mais funções quotidianas quando vivem em família e em comunidade, ainda se dedicam mais aos filhos e à casa e essa tão desejada divisão de tarefas está a anos luz de ser uma realidade.
por outro lado os livros femininos são ainda estereotipados ao nível editorial se bem que aqui em Portugal, mais talvez do que na Inglaterra e nos EUA, por exemplo, isso já não seja tão marcante, as capas femininas (juntamente com a oferta de cachecóis, sacos brilhantes, entre outros) estão sobretudo ligadas a uma escrita de temas femininos que só por si, é já um apelo à discriminação. são livros que pretendem chegar a mulheres que insistem em manter-se nesse sítio dedicado às mulheres, erro de quem escreve, publica e lê. digo erro porque para mim esse mercado é um mercado a abater.
depois, mais difícil de ler e de atingir, temos então a discriminação ainda real e mais enevoada que afasta as mulheres da publicação e que liga as mulheres a má literatura (culpa desse mercado que disse que era para abater, têm aqui a razão). muitas vezes quando vendi livros tive dificuldade em vender uma rosa montero ou até uma carson mccullers por não acreditarem que poderia ser um bom livro.
portanto podemos concluir que há muito trabalho a ser feito. o que a Joanna Walsh faz neste artigo é lançar uma ideia. lermos livros de mulheres, fazermos o ranking mudar, percebermos como na nossa biblioteca também temos mais homens.
para mim esta ideia é perigosa e um verdadeiro tiro ao lado. o trabalho que tem de ser feito nas questões de género na literatura tem de ser muito mais profundo, a um nível mais trabalhoso. não se consegue atingir a equidade fazendo com que se leiam mulheres, porque são mulheres. eu leio mulheres e homens quando as mulheres e homens escrevem o que me interessa. se há menos mulheres a publicar pelas razões apresentadas a cima a minha biblioteca tem menos mulhers que homens. mas o problema não está aí, o problema está na formação de leitores e o que os leva a comprar ou não comprar um livro escrito por uma mulher. é nesse campo que os estudos de género têm de actuar. porque é tão grave não comprar um livro por ser escrito por uma mulher como comprá-lo por ser escrito por uma mulher. a intenção muda mas na base está o mesmo princípio - a discriminação. o trabalho tem de ser continuado até ao dia em que na cabeça de cada um o género não interessa e sim o livro em si. assim como em tudo, a leitura dos géneros é sempre uma realidade (porque eles existem e têm diferenças e essas diferenças não serão nem deverão ser diluídas) mas não um factor de decisão.
imagino que muitas pessoas que leiam este meu texto e os que apresentei a cima pensem que seja como for estou a ser chata, deixem lá a malta procurar livros de mulheres, mal não faz. o problema é que não gosto de soluções simplistas. é preciso pensar sempre as questões em profundidade para sermos certeiros. pode demorar mais tempo e ser muito mais complicado, mas acredito que poderá ser um caminho muito mais eficaz. 



quinta-feira, 30 de abril de 2009

Mulheres Escritoras (parte V)




ROSA MONTERO








Há muito preconceito à volta de Rosa Montero, apesar de não perceber muito bem porquê. Talvez o facto de escrever em castelhano e a nossa "opinião pública" (???) não gosta muito de mulheres que escrevem em castelhano. Não gosta muito de mulheres que escrevem (ponto). (E quanto a isso não argumentem com esta livreira que atende em média 1786 pessoas por dia mais colegas que, conta a lenda, percebem e gostam muito de livros).


Rosa Montero é uma escritora de excelência. Sabe não só contar uma história como deve ser mas também constrói personagens que são uma e todas as personagens. Sem doçura nem meias palavras as personagens de Rosa Montero são aquilo de mais duro, real e por vezes perverso que todos nós temos. Assim não será de estranhar que as biografias que Rosa escreveu sejam absolutamente imperdíveis, pois contam a história que todos mais ou menos acabamos por conhecer mas que nos surpreendem por contar sempre "aquele" lado da história mais grotesco e inesperado.



Pasiones conta histórias de amor e Historias de Mujeres conta histórias de mulheres, como o nome indica.
No entanto aquele que é mesmo uma obra prima é Historia del Rey Transparente. Em plena época medieval uma rapariga decide partir à procura do namorado que desapareceu numa invasão à aldeia. Para isso tem de se vestir de homem, largar tudo e partir numa viagem iniciática em busca da sua independência e do seu lugar de mulher num mundo misógino. O namorado fica pelo caminho e a viagem dela acaba por ser uma viagem não planeada guiada pelo acaso que a liga às figuras mais estranhas e improváveis num hino à amizade e ao amor real, onde não há princesas nem finais felizes. Onde há outra coisa. Avalon, que só Rosa Montero consegue descrever e, atrevo-me mesmo a dizer, descobrir.

domingo, 8 de fevereiro de 2009

Mulheres Escritoras (parte IV)



ROSA ALICE BRANCO


"Palmeiras inclinadas. Ao longe o casario. É na água que o vejo, que sinto a cidade acordar.
Mais uma mulher que olha o rio. Tenho as mãos desatadas, os pés a caminho. As margens alargam quando estou perto, mas do outro lado as mulheres não reflectem o rosto ou mesmo a sua ausência.
São matéria do verbo fazer e caminham junto ao chão, na curva da noite para o marido. Gastos os sonhos por usar. Descorado pano que ficou ao sol. Nelas a cidade não acorda, não regressam os barcos à tardinha.
Vêm pela beira dos caminhos, a tristeza amável, a raiva cega e às vezes um sorriso que sacode os ombros porque até a tristeza tem um custo, uma esperança na sola do sapato. Vejo-as todos os dias e é como se a vida me atasse os pés, me anelasse os dedos. Como eu, outras mulheres olhando o rio, desbordando o pano, descozendo a sopa. Ama-se o homem que vira a esquina connosco e sabe que não podemos fingir que a ferida está fechada. As casas acendem.
E na água que vejo a sua luz descendo o rio. As mulheres passam em silêncio para as casas, atravessam a pele — deixam um retrato puído nas entranhas. Olho o rio e não sei fingir que finjo tanto mar. "

Mulheres Escritoras (parte III)


ANA TERESA PEREIRA
Uma autora discreta, talvez a mais discreta das grandes escritoras portuguesas. Com um escrita que toca a literatura gótica mas que nunca se deixa denominar. As personagens transitam de livro para livro sendo que cada livro é uma parte de uma obra maior, inacabada. Um ambiente único e difícil de descrever. Só lendo, porque nada é sequer parecido com a escrita de Ana Teresa Pereira.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Mulheres Escritoras (parteII)


PATRÍCIA MELO


Escritora brasileira com grande divulgação no Brasil, P.M. traz-nos a realidade crua das favelas brasileiras. Num discurso alucinado e fervoroso, sentimo-nos entrar dentro da vida das personagens. A impossibilidade de os salvar é real e angustiante e é essa vida do livro, o sentir que estamos lá dentro, que transforma P.M. numa escritora verdadeiramente fascinante. Com ecos do filme Cidade de Deus (baseado na obra de Ruben Fonseca, que a escritora segue e admira) o Inferno é a sua grande obra.

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Mulheres Escritoras (parte I)

A pedido de várias pessoas vou deixar aqui alguns exemplos de mulheres que escrevem... bem.


AMÉLIE NOTHOMB



Nasce a 16 de Agosto de 1967, no Japão. É uma escritora belga.


Uma escritora desconhecida em Portugal, mas que vale (muito) a pena ler em Francês. Sob uma máscara de quase normalidade A.N. perverte a natureza humana em histórias curtas que tocam o surrealismo. Num ambiente negro, as histórias de A.N. revelam-se surpreendentes e com um admirável sentido de humor.