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quinta-feira, 31 de março de 2016

o segundo primeiro dia da livraria Snob


Ana Christelo
a Snob fecha daqui a minutos a porta do seu espaço físico, em Guimarães. durante este ano e meio mostrou à cidade que a cidade precisa de livros, e criou naquele espaço uma comunidade. leitores que se conheceram, que beberam uns copos de vinho juntos, que se tornaram amigos para além do espaço da livraria. ali nasceram projectos, fizeram-se lançamentos de livros, leituras de teatro, concertos. com o tempo a Snob foi ficando autónoma, deixou de ter horário fixo, acompanhava as pessoas quando elas precisavam de ali estar noite dentro.

quando hoje tendemos a lamentar o fecho deste espaço físico, percebemos com um pensamento mais profundo que o que tornava aquele espaço o que ele era, era na verdade essa comunidade. não eram as paredes, as estantes, no limite quase nem eram os livros, pelo menos não necessariamente aqueles livros. era, isso sim, a ideia do leitor. o leitor que ali encontrava o único espaço fora da solidão que a leitura merece. junto a esse leitor e a essa comunidade estavam os livreiros, e aqui quero falar do Duarte, o livreiro que neste últimos meses teve de perceber o que era a Snob. e chegou às conclusões que aqui vos descrevo. que a Snob era maior, era outro espaço que não só aquele.

o Duarte gosta de livros, gosta de vender livros. gosta de procurar, de ler, de falar com as pessoas, de encontrar leitores insuspeitos, encontrar quem ainda não saiba bem que é um leitor. gosta de estar ao pé das pessoas. gosta de ter o carro um caos, livros, caixas, pó e envelopes, sempre a caminho de outros sítios. gosta de viajar. e foi assim que o Duarte entendeu que o sítio da Snob era outro, e que o seu sítio nunca poderia ser um só, enraizado. 

e aqui nada se perdeu, tanto pelo contrário. podemos e devemos entender que o que a Snob fez foi tornar-se maior e, queremos acreditar, melhor. passando a estar em feiras, em cafés com leitores, em vários espaços em Guimarães com selecções de livros, on-line, no site e no facebook. e desde que o Duarte e a Snob tomaram essa decisão, há poucas semanas, a livraria começou a vender mais e melhor.

creio que todos ganhamos por ter o Duarte e a Snob mais perto. mais disponível para cada um dos leitores. a Snob terá, ainda mais agora, uma cara, uma ideia de si mais real. a Snob vai poder pesquisar mais, dedicar-se a cada um dos leitores, ler muito mais. e a livraria vai continuar em Guimarães, com o vinho, os lançamentos, as leituras, a ternura e dedicação do Duarte, mas vai também estar em Lisboa, no Porto, em Braga, em Paredes de Coura, em Coimbra e em muitos outros sítios. 

por isso é preciso continuarmos a ter na Snob a nossa livraria, a encomendar livros novos e raridades, a organizar eventos, a contar com o Duarte para feiras itinerantes.  porque este é o primeiro dia da Snob, um outro primeiro dia. que traz numa memória próxima e real todos e cada um dos incríveis dias passados na Rua D. João I. chegou apenas a hora de continuar essas memórias, em novos sítios. com todas as mesmas pessoas e tantas outras que começam a chegar.

para encomendas, conversas e questões
mail: livrariasnob@gmail.com

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

a SNOB, a livraria que pertence à minha teia


abriu uma livraria em Guimarães, a Snob, uma livraria que antes de existir já existia pela mão do Duarte, da Emília e do Eduardo, noutros projectos e nas ideias que estão por trás da Snob. esta livraria entra na linha do que tenho andado a ver e ouvir, uma livraria que não é só uma livraria, é uma ideia, assim como tenho encontrado editoras que não são só editoras, são editoras e são ideias. autores que são ideias. e a ideia é que podemos levar avante projectos que necessitam de uma vertente comercial sem abdicar de qualquer vértice de qualidade. já o tinha dito relativamente ao sr teste e a snob é um senhor teste nortenho e não o é por acaso, é-o por se deixar influenciar, por ouvir, aprender e, lá está, ter a mesma ideia.
fui ao Porto este fim-de-semana. conheci o Duarte na Feira do Livro do Porto, na banca da livraria, onde me agrafei uma tarde inteira (o Duarte além de talentoso livreiro&etc é de uma simpatia avassaladora). reconheci os livros todos que estavam expostos e senti que o Duarte estava na teia. é como se todos os da teia partilhássemos um segredo que começa a não ser segredo nem o quer ser. é o segredo do Duarte, do Ricardo, d’a tua mãe* da Marta, da douda do Nuno, da averno da Inês, da texto sentido, da eclusa, da pianola, de tantos outros. um segredo partilhado e mal guardado porque se começa a espalhar em forma de boato. há aí gente boa a escrever, outros a editar e outros a vender. uma teia que só é independente porque se recusa a comprometer a qualidade literária, a pertinência do sentido e a musicalidade dos livros.
foi bom ir ao Porto e ver de perto a Snob. Guimarães será a próxima paragem. aqui em baixo deixo-vos as paragens da Snob e as imagens da banca na Feira do Livro do Porto onde vão ver, claras e fortes, as linhas da teia.

facebook Snob
site Snob







quinta-feira, 28 de agosto de 2014

a livraria que faltava às "minhas" editoras

está para acontecer uma coisa muito bela em Lisboa. uma livraria em bom, com bons livros e, o melhor de tudo, o livreiro mais inteligente e sexy do mundo todo. venham conhecer pessoalmente o Sr Teste e a beleza de livraria que é a dele, dia 6 de Setembro, às 14h.

o convite do Sr Teste


Caros Leitores,
A convite da Cossoul o Sr Teste passará a ser o livreiro de serviço na livraria da associação.
Coincidindo com as comemorações dos 129 anos da Associação Guilherme Cossoul, a abertura será dia 6 de setembro a partir das 14h até haver fôlego.
A livraria insere-se num espaço de sinergias composto por Restaurante/ Bar/ Café Concerto, Teatro, a Editora Artefacto e a estrear a Galeria Cossoul.
A cada dia postarei uma foto da vossa livraria em construção assim como das várias salas da Cossoul e cartaz da primeira exposição colectiva organizada pela vizinha de cima, Sara Rocio.
Contamos com a vossa presença para celebrar e partilhar este espaço criado para todos nós.
PS: Para instigar os Leitores atentos, as prateleiras estarão forradas a livros esgotados, raros, edições especiais e fundos/ novidades das mais especiais editoras a preços convidativos.

SIGC Santos
Av. D. Carlos I, n.º 61
Lisboa



domingo, 1 de dezembro de 2013

a propósito do dia dos livreiros e das livrarias

"O Encontro Livreiro pediu-me que escrevesse este texto neste dia e eu não sou livreira. Aceitei sem hesitar, como sempre, sobretudo porque acredito que este dia não deverá ser, no limite, sobre os livreiros e sim sobre os leitores. É essa a minha condição aqui, de leitora. No entanto há uma definição que o Manel Medeiros dava dos livreiros onde dizia que estes publicam a leitura. Nesse sentido considero-me livreira sim, porque quando me é impossível definir o meu projecto com os livros a única definição possível é que tento criar leitores. Vários tipos de leitores, diferentes tipos de leitores. Mas nunca maus leitores. E não me venham dizer que não há isso de maus leitores, há, claro que sim. Os livros têm connosco um papel fundamental na nossa formação, no nosso pensamento, na nossa forma de agir. Essa responsabilidade é de tal forma gigante e sagrada que seria, no mínimo, um desrespeito dizermos que se pode ler seja o que for que é igualmente bom.

Começa a ser raro vermos quem sinta a verdadeira importância do livreiro nos seus quotidianos. A própria profissão é desconhecida, ainda, para muitos. Na verdade é também difícil de definir, há livreiros que não trabalham em livrarias e há vendedores de livros que não são livreiros. Na verdade os leitores começam a deixar de acreditar que precisam de intermediários para a leitura. Num mundo tão cheio de estímulos, com a internet inundada de opiniões que se dão com a facilidade de um clique, nem sempre os livreiros são vistos como mediadores da leitura. Não podemos esquecer que há mais leitores e mais diversificados. Esse facto também leva a que muitos destes se tenham formado longe da figura do livreiro. Noutros sítios.

Vender livros não é igual a vender outro produto qualquer. Não o é em nenhum dos sentidos. Um livreiro não vende um produto apenas. Vende ligações a esse produto, vende outros livros. Vende um livro que corresponde a uma ideia, um anseio, uma vontade de conhecimento, uma dúvida pequena. Um livreiro fará um bom negócio (e não podemos esquecer que uma livraria é um negócio) se conseguir que um cliente passe a leitor. Para isso é preciso ensinar a um cliente que nada se lê isoladamente, os livros não existem entre a capa e a contra-capa. Um livreiro torna-se um bom livreiro se for um agente de ligações, se funcionar como o motor que instala no leitor esse vírus das ligações. Quem o consegue são por vezes pessoas improváveis, em livrarias improváveis, noutros sítios que não são livrarias, por pessoas que não vendem livros. Nas estantes dos desconhecidos, nas estantes dos amigos. Em blogs, nas redes sociais ou nas conversas de cafés.

Ser livreiro é criar leitores. Só assim as livrarias podem sobreviver enquanto negócio. Posto isto é fácil afirmar que as livrarias são sítios de crescimento, de criação e aprendizagem. Daí a nossa responsabilidade em mantê-las vivas e a funcionar, quando pensamos onde vamos comprar um livro. São os leitores que as fazem existir mas por trás de cada uma há livreiros que são a porta da livraria. Os nossos agentes de ligações. Aqui na Culsete há dois, a Fátima e o Manel. Hoje esta mais que merecida homenagem é a eles e aos leitores que eles criaram. Não temos de ter muitas palavras porque são 40 anos a mostrar, com esta porta aberta, com o reconhecimento dos subscritores do diploma Livreiro da Esperança Especial, com o nome que tão facilmente é reconhecido em qualquer lado, com o Encontro Livreiro que nasceu aqui, que são livreiros à séria, que deixam e continuam a deixar o melhor de todos os legados, uma fila interminável de leitores."

texto lido na Culsete, a 30 de Novembro de 2013



quarta-feira, 13 de novembro de 2013

DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO



30 de Novembro
DIA DA LIVRARIA E DO LIVREIRO
uma parceria 
Fundação José Saramago | Encontro-Livreiro


ENCONTRO LIVREIRO ESPECIAL
na livraria Culsete |  Av. 22 de Dezembro, 23 A-B | Setúbal | 16h


Este Encontro Livreiro Especial, que começa pelas 16 horas,
servirá para assinalar este dia tão especial para as livrarias e os livreiros, para conversarmos sobre 


A LIVRARIA, O LIVREIRO, A LEITURA

e para se proceder à entrega do diploma
LIVREIRO DA ESPERANÇA ESPECIAL CULSETE - 40 ANOS,
que continua em subscrição pública precisamente até ao dia 30 de Novembro, aqui.


domingo, 21 de julho de 2013

o dia em que se falou do fecho da Sá da Costa

hoje foi o dia de irmos à sá da costa, que vai fechar. as largas dezenas de pessoas impediam-nos de ouvir com clareza o que se discutia. mas era claro que a "reunião" não era apenas um espaço de lamúrias mas uma tentativa de arranjar soluções para que a livraria não tenha de fechar.
hoje, sendo o dia de pensar a sá da costa, foi também o dia de pensar as livrarias.
as livrarias são um negócio. e como qualquer negócio que fecha, várias são as condicionantes que levam a este desfecho. apesar do amor que criamos aos livros não o criamos da mesma forma com todas as livrarias. começo já por dizer que aquilo que me atrai a uma livraria não é, de todo, a "simpatia" das pessoas (argumento para muito boa gente frequentar ou não as livrarias). os "meus" livreiros não são fontes de simpatia. são pessoas que me deixam confortável naquele espaço. a Trama, a Pó dos Livros ou a Culsete são casas onde me habituei a viver e trabalhar. costumamos dizer que os livros não são mercearias mas podemos sofrer tanto com o fecho de uma livraria como da mercearia onde costumávamos gastar a mesada e onde o merceeiro era pai do amigo da escola primária e onde passávamos as tardes. é aqui que as livrarias têm de ser competitivas. encontrar o espaço que os clientes procuram. porque não basta os clientes quererem livros - têm de se sentir confortáveis no espaço.
mas nunca será suficiente. é o mais angustiante em todo este panorama. a questão que se colocava hoje numa conversa sobre este assunto era que seriam o "eles" que nos fecharam a sá da costa, de acordo com o cartaz. ou que fecharam qualquer uma das outras livrarias. os "eles" somos nós todos, em primeiro lugar - quem não comprou lá, quem preferiu comprar livros noutros locais. depois são estes novos grupos editoriais com opções que não valorizam nem apoiam as pequenas livrarias, deixando-as na cauda da distribuição e das boas margens ou abolindo-as em absoluto. e depois desta tão falada crise, de impostos duríssimos, de novas leis das rendas, do tirar poder de compra a quem antes ainda tinha nos livros um objecto de compra quotidiano.
é preciso perceber aqui o que podemos fazer. nós todos podemos apoiar pequenas livrarias, comprar lá os livros em vez de os comprar em outros locais. e volto a frisar, porque nada disto é novo a quem me conhece, que as grandes superfícies e fnacs e bertrands também têm muitos e bons livreiros, não está aí a falha destes espaços comerciais. a venda dos livros em nada os favorece a eles e sim uma lógica empresarial assassina para a qualidade literária dos livros e por isso essas livrarias têm de ser retiradas do nosso horizonte.
não apoio em tudo os textos que correm por aí sobre os fechos progressivos das livrarias. temos de ser realistas e perceber o que aqui deve ser criticado, alterado e em que é que a nossa atitude pode mudar este panorama. mas um aspecto é incontornável. não há cidade sem livrarias. os livros são os objectos culturais físicos e insubstituíveis e infelizmente neste país cada vez mais há cidades e regiões inteiras sem uma única livraria. e em nada compensa nessas cidades essa falha. e eu que vivo e trabalho no Chiado tenho dificuldade em encontrar o meu espaço de conforto. perfiro atravessar a cidade e ir à Pó dos Livros ou até ir a Setúbal e ter a sensação incrível de que a Culsete é um espaço de pertença como se sempre os tivesse conhecido e não apenas em 2011. tenho a Letra Livre ao lado de casa, mas pouco mais. tenho a A das Artes que nunca conheci pessoalmente mas que acompanho diariamente com admiração.
não consegui o manifesto vou buscá-lo na semana que vem e voltarei então a falar do dia de hoje. hoje fico com a sensação de tristeza pelo fecho da livraria e algum calor ao lembrar como foi bom subir a calçada do combro sozinha para lá chegar e saber que lá encontraria dezenas de amigos. estamos todos num mesmo barco. temos é de saber o que fazer para que ele não se afunde mais. é deixarmo-nos de lamúrias e começarmos a pensar em soluções. o Encontro Livreiro tem exactamente esse objectivo e cada ano que passa faz mais sentido.

terça-feira, 9 de julho de 2013

a querida Culsete faz 40 anos e vamos comemorar em grande. eu estou lá dia 13.

vou levar os meus surrealistas a setúbal, ao passeio em frente à Culsete. uma conversa informal e alguns textos. escolhi os que se lêem sozinhos. estejam lá para saber o que isso quer dizer. é já no sábado (espreitem o programa, em baixo). mas vejam o resto do programa, é um privilégio estar entre gente desta.


terça-feira, 23 de abril de 2013

dia mundial do livro

estes dias deveriam ser de celebração e de festa. a postura perante cenários apocalípticos para os livros tem aliás sido essa, e sem grande esforço, porque há sempre um lado nos livros mais presente e preponderante que as análises economicistas da presente conjuntura. no entanto há situações que têm de ser denunciadas e faladas à exaustão, mesmo que estejam espalhadas por todo o lado e tidas como "naturais" e "expectáveis" "face à crise".
em primeiro lugar vou-me repetir e dizer que os livros não são meros objectos de distracção, não servem como acompanhamento de momentos de pausa e de descontracção. hoje não me está a apetecer ser politicamente correcta (porque mais ninguém o tem sido no ataque aos apoios à cultura e nomeadamente aos apoios ao negócio dos livros) e portanto quero lá saber do "também pode ser para descontrair e sei lá mais o quê". vou saltar essa parte olimpicamente.
os livros fazem parte em absoluto da forma de moldar o nosso pensamento. cada livro que lemos ensina-nos um mundo de coisas, quer seja por vontade explícita do texto, quer seja por identificação com o que lemos, uma vez que cada livro tem um autor e cada autor uma vivência e um ponto de vista. não acredito na leitura como um valor em si próprio porque a leitura ensina a molda-nos o pensamento, logo, nem todas as leituras são positivas por si só.
a cultura faz parte de um modo de vida saudável e inteligente - a inteligência torna-nos mais conscientes, logo, capazes de agir em consciência, assenta-nos nos carris e torna-nos mais confiantes nas nossas escolhas e na validade do nosso quotidiano. é cretino e nada inteligente pensarmos que um estado não apoia a cultura porque o dinheiro que lhe seria devido faz mais falta em outros tipos de apoios. os apoios são todos necessários e não se substituem uns aos outros. o crime não está em querermos ter livros e teatros e cinema (que sim, tem muito público, não sabe quem não vai e se baseia em preconceitos simplistas). o erro não está em termos cortes na cultura ou livrarias a fechar porque não há poder de compra e os livros não são bens de primeira necessidade. o crime está em acharmos que isso não é grave - que não é grave termos livrarias a fechar por causa das novas leis do arrendamento. que não é grave termos um cinema reconhecido mundialmente que está parado em absoluto. termos cadeias livreiras que não respeitam a lei do preço fixo e que podem não o fazer, prejudicando o comércio tradicional. o que é grave, e já não é a primeira vez que o digo, é que se ache que tem de ser assim e que a cultura deve ser auto-suficiente. então daqui a pouco também achamos que quem quer estudar tem de pagar por isso, ou quem quer ter um sistema nacional de saúde eficaz tem de pagar por isso. a cultura meus caros, não é um bem menor. um país informado, culto, consciente, íntegro é um país com um poder incalculável. se calhar o problema é mesmo esse.

hoje é o dia mundial do livro e está marcado pelo cancelamento da feira do livro do porto, pelo fecho de duas gigantes livrarias históricas em lisboa e pelo eminente fecho de outras livrarias um pouco por todo o país. a indiferença face a isto a que assistimos por todo o lado faz-me ficar triste de viver num país que valoriza tão pouco a sua cultura, desvalorizando as suas livrarias. podemos ser um país esmagado por tiranias e que ainda assim resiste é verdade. mas assistirmos a este esmagamento da nossa história cultural de braços cruzados é, a meu ver, vergonhoso e inglório. andamos tão revoltados com o estado do país e depois há situações gravíssimas, menos "generalistas" e "óbvias" que escapam à atenção da grande maioria das pessoas.
não estou a ser muito simpática nem consensual eu sei, mas desta vez, neste dia mundial do livro, apeteceu-me em vez de me unir aos meus amigos livreiros e gentes dos livros a quem esta situação preocupa diariamente, lançar alguma água fria para cima do cinismo anti-cultura que se está a levantar em cada canto. estamos numa época perigosa. e não podemos acreditar que os inimigos são apenas os outros. temos estar atentos para que não nos encham de negativismo e desânimo e, pior que tudo, indiferença. e não podemos nunca deixar de lançar água fria a quem opta por esse caminho de forma sempre tão displicente.  eles são a rapariga da porta ao lado e essa porta está demasiado ao nosso lado para nos ser indiferente.

sábado, 30 de março de 2013

ser livreira & as profissões

já aqui escrevi sobre o ser livreira e vou tentar não me repetir. tenho reflectido muito sobre a minha postura perante o trabalho e tenho pensado num sentido para isto que ando aqui a fazer. é incrivelmente assustador termos um trabalho com o qual não nos identificamos mas que por pagar relativamente bem, a horas, com um bom horário e ter uma situação estável se torna um trabalho a manter. eu sempre tive uma postura muito emotiva perante o trabalho e sou incrivelmente ambiciosa. preciso sentir que há um sentido para o que faço. e do LEVA aos cursos, aos eventos, até aos textos que tenho escrito consigo complementar de forma muito eficiente esta lacuna. mas como afirmei tantas vezes a estabilidade e a normalidade fazem-me alguma comichão por isso estes questionamentos são constantes. "isso é muito bom" dirão alguns. sim, pode ser, mas é um sofrimento muito grande muitas vezes. se tivesse 20 anos e estivesse a começar um percurso talvez não me sentisse assim. quando desisti de ser professora e por isso não terminar o estágio profissional fiquei de repente desempregada e sem qualquer visão do que poderia fazer a partir daí. mas não tinha obrigações, rendas para pagar, objectivos a curto prazo. o início dos vintes é a época de possibilidades e a energia é inigualável e os questionamentos muito mais inconsequentes.
muitas vezes penso no que gostava de fazer se pudesse escolher sem as condicionantes que me deixam neste papel em que vivo hoje. e acho que escolhia ser livreira. já fui, sim, com as condicionantes (que são gigantes) que descrevi no link que disponibilizei em cima. mas se sacarmos o melhor do que isso é fico com o emprego perfeito. ser a ponte entre os livros e as pessoas, estar em contacto com livros desconhecidos todos os dias, saber que cada pessoa que se dirige a mim naquele espaço está a pensar os livros.
por isso sinto-me tão encaixada a preparar o Encontro Livreiro (que não é de livreiros, insisto, mas de gentes dos livros) e com tanta vontade de preparar o Dia das Livrarias que me passou tão ao lado o ano passado. portanto decidi viver como livreira sem livraria. sou livreira, pronto. faço quando posso a ponte entre as pessoas e os livros, tento saber as novidades e os livros desaparecidos, passo o dia no meio deles. portanto serve este texto para vos informar que a partir de hoje a minha profissão é livreira, que se querem ser preconceituosos comigo é a essa caixa que têm de recorrer, e que se em papéis oficiais virem outra profissão é porque o mundo tem pouco sentido de paixão e, disparate dos disparates, a nossa profissão é ainda aquela que nos paga as contas. e para que isto faça ainda mais sentido vim escrever este texto para uma livraria. para verem que estou muito convicta desta minha decisão.    

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

a a das artes em sines

há uma livraria em sines, a a das artes. tem livros e pessoas boas atrás do balcão. é uma livraria onde não há mais livrarias e mesmo assim não rebenta pelas costuras.





havia muitas coisas boas a dizer da a das artes mas vamos passar a questões práticas. a livraria envia os livros, sem portes de envio, para qualquer zona do país. isto só pode ser vantajoso. temos o livro ao mesmo preço que numa livraria qualquer que por razões tantas vezes debatidas neste blog não merece os nossos poucos tostões e ajudamos a a das artes e o joaquim e ao mesmo tempo temos o livro em casa ou na secretária do trabalho quando começa o dia.

por isso aqui fica. entrem em contacto com ele através dos seguintes contactos:

Av. 25 de Abril, 8 - loja C
7520-107 SINES
T.: 269630954
F.: 269630955
adasartes@bluemel.pt
http://adasartes.blogspot.com
https://www.facebook.com/pages/A-Das-Artes-Livraria/322734321128754

acreditem que ajudar o joaquim a manter esta livraria de pé nos tempos que correm já nos compõe o dia um bocadinho. eu vou já encomendar um.






quinta-feira, 26 de abril de 2012

hoje que faz um ano que fui sozinha para a argentina pensar nos meus livros

recebo no e-mail mensagens de entusiasmo do meu miúdo n. a dizer que vamos lá, estamos operacionais para relançar o tão aguardado Curso de Literaturas Americanas. até senti borboletas de excitação. quero tanto voltar ao meu cortázar, borges, sabato. ao meu realismo mágico. ao meu donoso. e o n. sempre com ideias mirabolantes para as sessões dele e eu a querer ser como ele. e também de manhã aparece mais uma livraria a querer os nossos cursos. há dias assim, dias bons.
por isso estejam atentos, está a voltar! yeah!




 (argentina, argentina, argentina, argentina)


segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

não culpem os livreiros que os ignorantes são os outros

Chegámos ao tempo dos exageros, potenciado pelas redes sociais e novas tecnologias. Os amantes dos livros têm o pêlo eriçado por tudo o que ameaça o livro na sua forma tradicional. As piores ameaças apontadas são os e-books e a morte das chamadas livrarias tradicionais ou de bairro, sendo que esta última é claramente mais trágica do que a primeira. Esta vem muitas vezes acompanhada pela equiparada morte do “livreiro”, essa profissão tantas vezes menosprezada. Associa-se com facilidade o bom livreiro à livraria tradicional e o mau livreiro às livrarias de grupo.
O meu primeiro emprego assim à séria foi como livreira na fnac. Tinha estudado literatura e achava que sabia tudo. Mas afinal sabia um canto ínfimo daquilo que tinha para aprender. Na entrevista perguntaram-me se tinha força nos braços e energia. Um dia nosso era passado a carregar caixas com muitos quilos de livros, a desmanchar paletes em armazéns, a arrumar os livros na loja. A pensar a loja, a ver qual era a melhor forma de vender. A escolher os melhores livros e a pô-los mais à frente às escondidas “deles”. A falar com pessoas, a esconder o pó das mãos, a pôr a melhor cara possível. Nos primeiros 15 dias cheguei a casa a achar que não ia conseguir voltar, angustiada e com dores no corpo. Mas depois conheci as melhores pessoas e penso nelas muitas vezes. Conheci também as pessoas piores, mais arrogantes, antipáticas, agressivas. Chamaram-me ignorante, disseram-me para ir estudar, ao mesmo tempo que outras pessoas liam cegamente o que eu lhes dizia para ler e voltavam para conversar. Caíram-me pilhas de livros em cima (literalmente), ao mesmo tempo que morri de amor por outros livros. Li como nunca, comprei livros como nunca, conheci um mundo de coisas. Demorei mais ou menos dois anos a começar a perceber daquilo. Demorou algum tempo. Demora sempre ao contrário do que se pensa ou do que parece a olho nu. Depois comecei a ajudar a escolher livros para a minha secção, comecei a comprar livros, a conhecer os distribuidores, a falar com eles. E depois quando consegui finalmente ter uma secção para mim fui-me embora. Porque tinha um trabalho “melhor”. Que me deixava viver aos fins-de-semana. Que me pagava o dobro (nunca quis na vida que o dinheiro fosse um argumento e aqui teve mesmo de ser). Onde eu tinha uma secretária, um computador.
E depois comecei a conhecer pessoas dos livros, não livreiros, e conheci pessoas fantásticas. Que sabem muito e que percebem muito. Mas nunca mais conheci pessoas como os meus colegas da fnac. Ainda hoje é só nelas que eu confio para me ajudar a escolher livros. Não são snobs porque um colete verde, um ordenado mínimo e nódoas negras não dão espaço para isso. Mas estão ali as melhores cabeças, mais inteligentes, mais cultas, mais loucas, claro, de todas. A um nível que não dá para explicar, só mesmo estando lá todos os dias.
Meus caros, o problema não está nos livreiros. Claro que são miúdos, mas hão-de ser grandes. Hão-de ser os nossos Livreiros Velhos (não como o querido Manel Medeiros, mas nessa linha). Todos os dias me esforço aqui por não perder esse contacto com os livros que tinha na fnac, mas não é fácil. A fnac empresa não interessa nada. Nunca aparecem, não percebem de livros, nem querem saber. E são burros, é isso que eles são. Porque não percebem que seria melhor pagar um bocadinho mais, valorizar o livreiro, dar-lhe vontade de ficar, dar-lhe responsabilidades, valorizar as suas vontades e escolhas. Que investir na qualidade é investir financeiramente num negócio como o dos livros. Na fnac vivíamos revoltados com o ordenado miserável e as condições miseráveis de trabalho. Vivíamos revoltados com o termos a livraria a nosso cargo e um lápis azul do lado de lá. Estávamos sempre contra a corrente. E depois tínhamos a convenção social também contra nós que nos via como miúdos acabados de sair da faculdade (que a fnac dava-se a este luxo, tudo licenciado ou mais, ah pois!). E a família ligeiramente desapontada. E os amigos.
Só posso sugerir que peguemos nestas pessoas, nesta sabedoria toda, meia dúzia de tostões para abrir uma livraria, e eu prometo-vos um negócio de sucesso. Mas como não há tostões por enquanto eu fico aqui no meu belo computador e na minha bela secretária que não me servem para nada a relembrar as primeiras manhãs da fnac, antes de a loja abrir, que eram hi-la-ri-an-tes. Eu ia a correr para o comboio, antes das 8h da manhã. Durou pouco que o corpo não perdoa. Mas não tem preço.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Abriu nova Assírio e Alvim. Levanta-se mais uma bandeira pelas pequenas livrarias.

Foi um sopro. Uma sala pequenina dentro de uma garagem, e chama-se Livraria do Armazém. Foi anunciado aqui. Delicioso claro, quem gosta de livros gosta deles em garagens, armazéns, mesas de pau, etc. É também um pouco a marca da Assírio e Alvim. Fica na Travessa do Calado, 26-b, 1170-070 Lisboa. Tem o mesmo código postal que eu e é só subir a rua. Este bairro já me está no coração mas livros tinha poucos, só a outra Assirio-mãe, relativamente perto. Mas não ali, à mão, no bairro. Tento sempre levar a bandeira das livrarias pequenas mas está cada vez mais difícil. São cada vez menos. Deixaram de ter novidades, as editoras e distribuidoras cada vez pensam menos em soluções para poderem valorizar e apoiar pequenas livrarias. É o monstro-mercado-editorial a tomar conta de tudo. Mas há resistentes. Muitos deles juntam-se no Encontro Livreiro este Domingo. É uma resistência importante e real, que merecia manifestações de 300 mil pessoas na rua, a pensar e a discutir a importância do livro e em consequência a importância dos livreiros que nos ajudam a escolher, que nos acompanham a pensar os livros. Porque é importante pensar os livros. Os livros são um espelho "nosso" e são por isso matéria a tratar com carinho e alguma veneração, não são carne ou batatas como ouvi algumas pessoas referir quando se discutia a arte de vender livros. Podíamos estar (e estaremos em breve) muitas horas a pensar nisto que são os livros e o valor que eles têm no que nós somos. Aqui não há para já esse espaço (haverá...). Mais do que mudar aquilo que somos os livros são a imagem do que somos, em cada cultura global ou local.
Vá lá, vamos unir-nos contra o fim das pequenas livrarias e dos bons livreiros. Bem haja, Assírio e Alvim, que venham muitas mais.