DÉDALO
Era apenas uma voz
Plangendo,
Ruindo,
Adernando,
Uma voz,
Morta na periodicidade inclemente dos silêncios
A sentimentalidade balsâmica de outrora
Deu lugar ao travo incontido
De um gozo cerceado e fóssil
O estoicismo do teu sussurro me consumia
O teu lamento sem regras ensurdecia a minha dor
O rufar das tuas asas era glosa truncada e inútil
Me assomava uma vontade retesada, herética
Enquanto as horas cerziam o amanhecer...
Na profusão daquela tranqüilidade imberbe,
Reconheci o cisne que eras tu
E que cantava por sobre os lençóis.
Vesti-me.
Não olhei para trás,
Parti-te, apenas...
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A sessão POEMAS DE JAZZ homenageia o poeta capixaba Miguel Marvilla, membro da Academia Espírito-Santense de Letras e que faleceu no último dia 10 de outubro. Por uma dessas coincidências da vida, Dédalo, nome desse poema escrito no final dos anos 80, é o nome também de um livro de poemas de Marvilla.
Segundo a Gazeta Online: “O poeta Miguel Marvilla foi um dos que formaram a chamada "Geração 80", que tentou inserir a criação literária do Estado no mapa da produção nacional. Marvilla também foi um dos criadores e colaboradores da Revista Você, da Ufes, que marcou época por reunir jovens escritores, comandados por grandes nomes como Bernadeth Lyra e Deny Gomes. Marvilla ganhou vários prêmios literários estaduais e nacionais, além de menção honrosa no III Concurso Literário Internacional, na Áustria, em 1996. Seu livro de poemas que mais se destaca é "Dédalo", de 1996. Mas é por "Os Mortos Estão no Living", de 1987, uma coletânea de contos, que ele é mais lembrado pelo público. A obra, sua única incursão pela prosa, não difere da temática de seus poemas. São textos enfatizando o fim: de um ciclo, de esperanças efêmeras, de relacionamentos afetivos.”
Para ser lido ao som de Denny Zeitlin, pianista que entende das dores da alma e que as cura pela música ou pela medicina. Esse músico não muito conhecido é, também, um respeitado psiquiatra – ele jamais abandonou a ciência de Hipócrates e, nessa trajetória, ainda soube nos presentear com alguns ótimos discos de jazz. Nascido em 1938 e em plena atividade, Zeitlin chegou a merecer elogios de ninguém menos que Thelonious Monk.
As músicas postadas foram extraídas do Box Mosaic Select, que reproduz na íntegra os álbuns “Catherxis”, “Carnival” e “Zeitgeist”, todos gravados na década de 60. Sempre atuando em trios, nessas gravações o pianista está acompanhado por Cecil McBee, Charlie Haden e Joe Halpin (baixo) e por Freddie Waits, Jerry Granelli e Oliver Johnson (bateria). Boa audição. E boa leitura.