Um dos mais importantes e influentes pianistas do West Coast, com um profundo conhecimento do idioma jazzístico, capaz de transitar com naturalidade por outras vertentes e estilos, como o cool, o bebop e o hard bop, Hampton Barnet Hawes Jr., nascido em Los Angeles em 13 de novembro de 1928, foi um músico excepcional que teve uma vida extremamente atribulada.
Filho de um pastor protestante e de uma pianista, seu primeiro contato com a música ocorreu na igreja batista freqüentada pela família. Os spirituals, o gospel e o blues, que ouvia habitualmente na infância, foram algumas de suas primeiras e mais relevantes influências, assim como o piano de Earl Hines, o primeiro músico de jazz que ouviu com certa regularidade.
Apresentado às gravações de Charlie Parker, Dizzy Gillespie e Bud Powell pelo amigo de infância Eric Dolphy, Hawes se apaixonou pelo bebop e começou ter aulas com um renomado professor de Los Angeles, chamado Samuel Brown, em cuja escola estudaram Wardell Gray, Art Farmer e Don Cherry.
Em 1947, quando era um promissor pianista em início de carreira, teve a glória suprema de acompanhar Charlie Parker, que na ocasião se apresentava com Howard McGhee. Nesse período, sua presença era constante nos célebres duelos envolvendo Wardell Gray, Dexter Gordon e Teddy Edwards e a sua engenhosidade e o seu apuro técnico já se faziam notar na efervescente comunidade jazzística local.
Após dois anos no exército, montou o primeiro trio em 1954, ao lado do baixista Red Mitchell e do baterista Mel Lewis, que depois foi substituído por Chuck Thompson e em 1955 foi contratado pela Contemporary, gravadora pela qual lançaria alguns de seus primeiros discos como líder. Em 1956, receberia os prêmios “New Star of the Year”, concedido pela revista Down Beat, e o “Arrival of the Year”, dado pela rival Metronome. Nesse mesmo ano, gravaria os três volumes do aclamado “All Night Sessions”, gravados nos dias 12 e 13 de novembro, juntamente com Jim Hall, Red Mitchell e Bruz Freeman.
Tocou com virtualmente todos os grandes nomes do West Coast, incluindo-se Shelly Manne, Harold Land, Leroy Vinnegar, Howard Rumsey e Barney Kessel, sendo que muitos deles, como Sonny Criss, Shorty Rogers, Art Pepper, e Warne Marsh, eram seus amigos de infância. Em 1957, participou do excepcional “Mingus Three”, ao lado de Charles Mingus e Danny Richmond e no ano seguinte acompanharia Sonny Rollins no ótimo “Sonny Rollins And The Contemporary Leaders”.
Mas essa aparentemente tranqüila escalada para o Olimpo do jazz seria subitamente interrompida. Em 13 de novembro de 1958, dia do seu trigésimo aniversário, Hawes foi preso por porte de heroína. Condenado a dez anos de prisão, cumpriu pena na penitenciária federal de Fort Worth.
O cárcere abalaria não apenas a saúde física do pianista, mas, sobretudo, a sua saúde psicológica. A temporada no inferno, contudo foi mais breve do que se havia anunciado. Com efeito, em agosto de 1963 Hawes recebeu o perdão do presidente Kennedy e pôde caminhar livremente pelas ruas de Los Angeles outra vez. Foi uma das poucas vezes em que um condenado por porte de drogas recebeu esse beneplácito e pouco tempo depois do perdão presidencial, Kennedy seria brutalmente assassinado.
Seis meses antes de ser preso, Hawes levou para o estúdio o talentoso saxofonista texano Harold Land, o experiente Frank Butler (vindo de trabalhos com Dave Brubeck, Curtis Counce e Duke Ellington) e um fabuloso baixista em início de carreira chamado Scott La Faro. Produzido por Lester Koenig e gravado em Los Angeles, no dia 17 de março de 1958, “For Real” é um importante registro na carreira do pianista, não apenas por ter sido a primeira e única oportunidade de gravar com La Faro como também por ser uma das poucas vezes em que, atuando como líder, Hawes se fez acompanhar por instrumento de sopro.
A faixa de abertura, “Hip”, é uma composição de Hawes, que evoca a profunda influência que o blues teve em sua formação. O solo de La Faro é magistral e a música surpreende por suas constantes alternativas harmônicas. O standard “Wrap Your Troubles In Dreams” está irreconhecível, executada em um andamento bastante lento, onde se destacam a fluidez do sax de Land e o fraseado percutido do piano do líder.
Uma das composições mais emblemáticas do bebop, “Crazeology”, recebe um tratamento bastante reverente, trazendo até a ensolarada Los Angeles a atmosfera enfumaçada dos clubes da Rua 52. Solos arrebatadores de Land e uma sessão rítmica criativa e altamente vigorosa dão a tônica a esse que, indiscutivelmente, um dos mais memoráveis momentos do álbum.
A alvissareira parceria entre Hawes e Land rendeu, ainda, duas ótimas composições: “Numbers Game” e “For Real”. A primeira é um bebop quebradiço, incapaz de ser rotulada, pois nela se percebem não apenas elementos do West Coast mais ortodoxo, como também ecos de criadores mais arrojados, sobretudo Monk. O solo de Butler é antológico e merece audição mais atenta.
A segunda começa como um blues clássico, mas vai paulatinamente alterando a sua estrutura, apresentando interessantíssimas modulações. Encerrando o set, uma versão graciosa de “I Love You”, de Cole Porter, na qual Hawes dá uma aula de ritmo, agilidade e técnica. Uma preciosidade do catálogo da Contemporary, lançada em cd pela Original Jazz Classics.
Após sair da prisão, Hamp, como era conhecido no meio musical, teve muita dificuldade para retomar a carreira. O olhar duro e algo desencantado do pianista na capa do álbum “The Green Leaves Of Summer”, de 1964, revela bem o quão dramáticos foram os anos de cárcere. Uma depressão profunda e um cenário musical altamente hostil tornaram ainda mais difícil a sua readaptação.
O pianista passou algum tempo na Europa, onde realizou trabalhos com alguns célebres jazzistas exilados, como Johnny Griffin e Dexter Gordon, e com alguns renomados músicos europeus, como o franco-argelino Martial Solal, com quem gravaria o elogiado “Key For Two”, em 1968.
De volta aos Estados Unidos, voltou a gravar com os velhos amigos Ray Brown, Shelly Manne e Art Pepper, lançando alguns bons discos por selos como Enja, Fresh Sound, Concord, Prestige e a pela própria Contemporary. Em sua autobiografia, “Raise Up Off Me” (escrita com a colaboração do jornalista Don Asher), de 1974, Hampton fala abertamente sobre o vício em heroína, sobre os anos na prisão e sobre a sua convivência com alguns dos músicos mais importantes do jazz.
Embora tenha feito algumas experiências com o piano elétrico, jamais aceitou as pressões do mercado para seguir a trilha aberta por músicos como Ramsey Lewis, Joe Zawinul e Les McCann, grandes sucessos comerciais da época. Hawes faleceu no dia 22 de maio de 1977, em decorrência de um derrame fulminante. Em 2004, a Prefeitura Municipal de Los Angeles instituiu o dia 13 de novembro como o “Hampton Hawes Day”. Uma homenagem bastante justa para um artista tão identificado com a cidade onde nasceu.