Quanto ódio adormecido havia ali,
Destilado em séculos estanques,
Devoções anônimas, premências adormecidas,
Sentimentos descascados em volta da velha casa
Agora tudo era luto e ausência de fé
A indiferença se acomodava entre a elegância e a desfaçatez
Seu cheiro era inebriante e convidativo
E crescia no ventre dos dois o embrião pulsante do desamor
O papel de parede esmaecido era a alegoria da insanidade
O antigo jardim malcuidado e cheio de hera
O pórtico enferrujado e sem cor
Todos os fracassos íntimos
Guiavam-se pelos corredores sombrios
Nem a vasta retórica,
Nem a insigne temática,
Eram suficientes para remir tantas misérias
Trânsfuga resoluto da própria dor,
Náufrago da grande epopéia oceânica,
A confissão silenciosa era apenas outro nome para a hipocrisia
O encanto do desejo não deixa ninguém incólume
Mas tampouco se eterniza
Universo de fugacidade e estilhaços
Cólera e mansidão refletidas no mesmo espelho fragmentado,
Noites sobre a terra, faunos no quintal
Manchas violáceas sob os lençóis intocados
A inevitável solução do enigma
Não passa do silêncio estrepitoso de um diálogo mudo
Campos minados, chávenas e beirais
Alaridos sorrateiros, fábulas sem moral
Começo e fim sem ambivalências ou metáforas
Cerradas as cortinas do antigo palco
Enxugadas as lágrimas circenses
Apagados os holofotes da indiscrição
As pompas fúnebres sempre anunciam
O início certeiro da decomposição
É o corpo,
É sempre o corpo...
Que jaz agora no estuário
Onde primeiro morreu a alma
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Nascido em 05 de dezembro de 1949, em Roma, Enrico Pieranunzi é um pianista, compositor, arranjador e educador musical italiano de grandes recursos técnicos e altamente inventivo, considerado por público e crítica como um dos mais proeminentes herdeiros de Bill Evans, pelo lirismo de seu fraseado e pelo repertório delicado. Contudo, percebe-se em sua maneira de tocar que ele também bebeu na fonte de McCoy Tyner e Keith Jarrett, que formam com Evans a trinca de suas influências mais relevantes.
O aprendizado veio cedo, pois com apenas cinco anos já recebia as primeiras lições de piano clássico. O pai era guitarrista e transmitiu ao filho o amor pela música. Na adolescência, apaixonou-se pelo jazz, graças aos discos de Charlie Parker, que ouvia com devoção. Aos 19, integrou-se ao quarteto do trombonista Marcelo Rosa e, a partir de então, tem construído uma das mais fulgurantes e sólidas carreiras do jazz europeu.
Tocou com nomes importantes, como Art Farmer, Enrico Rava, Marc Johnson, Chet Baker, Philip Catherine, Johnny Griffin, Kenny Wheeler, Lee Konitz, Phil Woods, Gabriele Mirabassi, Paul Motian, Benny Bailey, Curtis Fuller, Peter Erskine, Sal Nistico, Billy Higgins, Tony Scott, Kai Winding e Jim Hall, entre dezenas de outros. Sua alentada discografia vem sendo construída em selos como Enja, Challenge Records, Timeless, Soul Note e CAM Jazz, e vem crescendo a uma média de um álbum por ano desde 1975, quando lançou o primeiro disco como líder.
“Special Encounter” é, sem sombra de dúvida, um dos discos mais fabulosos de sua carreira. Gravado para a CAM Jazz entre os dias 6, 7 e 8 de março de 2003, em Roma, ele reúne os talentos de Pieranunzi, Charlie Haden (baixo) e Paul Motion (bateria). Três músicos de concepções harmônicas semelhantes, unidos em torno de um repertório de standards e composições de Haden e de Pieranunzi. A atmosfera do disco é altamente introspectiva e elegante ao extremo, com uma atuação bastante sutil de Motion e Haden.
“My Old Flame”, que o pianista já havia gravado na companhia de Chet Baker e Lee Konitz, abre o disco de maneira absolutamente hipnotizante. Em “You’ve Changed”, imortalizada por Billie Holiday, o piano delicado e lírico de Pieranunzi se insinua pungentemente por entre as frestas da melodia, em uma apoteose lírica de rara beleza. O arranjo minimalista de “Why Did I Chose You” evoca as madrugadas insones em que as dores de amores atormentam a alma.
“Earlier Sea”, composta pelo líder, é uma balada levemente sombria, com uma discreta tintura latina. “Miradas”, também de Pieranunzi, é uma tentativa muito bem sucedida de recriar a atmosfera jobiniana, em seus momentos mais intimistas, na qual merece atenção a leveza da percussão de Motian.
As fabulosas “Waltz For Ruth” e “Hello My Lovely”, ambas de Haden, são outros destaques do álbum. Nesta última, a atuação do baixista beira perfeição, com direito a um dos solos mais sublimes do disco. Para quem não está familiarizado com o refinado universo musical de Pieranunzi, este álbum é uma excelente porta de entrada.
Por tantas qualidades, Pieranunzi é dos músicos mais requisitados da atualidade e atração constante em festivais de jazz do mundo inteiro. Versátil ao extremo, sente-se bastante à vontade nos mais diversos contextos, atuando com idêntica desenvoltura em solo, duos, trios ou quartetos. Transita entre o jazz e a música erudita com a mesma intimidade e é professor do conceituado Conservatorio di Musica Licinio Refice, em Frosinone, região central da Itália.
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