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sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A vida das minorias religiosas na teocracia islâmica do Irã


Estas comunidades são as três minorias reconhecidas pela Constituição iraniana graças à sua origem pré-islâmica


Teerã – Ser uma minoria religiosa em uma teocracia xiita é factível, ainda que nem sempre seja fácil. Os cristãos, judeus e zoroastras praticam seus ritos com liberdade no Irã, mas devem se submeter às leis islâmicas, o que provoca certas limitações.
Estas comunidades são as três minorias reconhecidas pela Constituição iraniana graças à sua origem pré-islâmica e contam com representantes no parlamento, bem como com templos e escolas para conservar suas tradições.
A principal linha vermelha é o proselitismo e as conversões, perseguidas pelas autoridades iranianas, que também vetam os fiéis destas religiões em certos cargos governamentais e nas forças de segurança.
Apesar das restrições, membros destas três comunidades consultados pela Agência Efe negaram sofrer o nível de discriminação e abusos relatados por um recente relatório sobre liberdade religiosa do Departamento de Estado dos Estados Unidos.
Dito relatório denunciou detenções por acusações como “insultos ao islã”, a negação de permissões para construir locais de culto, o confisco de material religioso e limitações no âmbito trabalhista e educativo.
Para Siamak Morehsedg, representante dos judeus no parlamento iraniano pelo terceiro mandato consecutivo, é normal que haja alguns problemas por tratar-se de “uma religião minoritária em um país regulado por outra religião” como o Irã, onde 99% da população é muçulmana.
No entanto, o deputado e médico ressaltou à Efe que há “muitos judeus em postos importantes” e que no Irã não há antissemitismo. Os judeus – segundo disse – não se sentem atingidos pelo famoso lema da República Islâmica de “Morte a Israel” porque diferenciam entre judaísmo e sionismo.
Em seu escritório do hospital beneficente judeu de Teerã, em que a maioria dos pacientes e médicos são muçulmanos, defendeu que não há restrições para ensinar hebreu e que dispõem de mais de 50 sinagogas e de açougues “kosher”, que cumprem as normas judaicas de alimentação.
Atualmente vivem cerca de 25.000 judeus no Irã, a maior população no Oriente Médio após Israel, segundo os dados de Morehsedg, que acrescentou que muitos emigraram após a Revolução Islâmica de 1979, mas que este fenômeno freou com o tempo.
A emigração fez diferença entre as minorias religiosas de todo Oriente Médio. A população de cristãos armênios no Irã também diminuiu até 80.000.
A comunidade armênia, a mais numerosa dos cristãos, seguida pelos assírios, conta com três dioceses e dois deputados no parlamento.
Também tem suas igrejas, escolas de armênio e clubes sociais, em cujo interior se pode consumir álcool e as mulheres podem ficar sem véu, e participar em coros e grupos de dança, tudo isso proibido no Irã.
O Irã reconhece para os armênios, bem como para as outras minorias citadas, o direito a comportar-se nesses espaços segundo sua cultura e tradições, algo que, no entanto, não é suficiente para o jovem ex-militar Suida Omidi.
Na porta da catedral armênia de São Sarkis, no centro de Teerã, Omidi expressou à Efe sua rejeição à obrigação de que sua mãe tenha que cobrir-se com um véu na rua, como todas as mulheres, muçulmanas ou não.
De mãe cristã armênia e pai muçulmano, já divorciados, Omidi se considera cristão, mas a lei lhe designa como muçulmano, um credo que se vê “obrigado” a dizer que professa para poder trabalhar, depois que lhe expulsaram da Marinha por este motivo.
A tudo isso se soma o perigo que enfrentam os convertidos: “Tenho amigos muçulmanos que se converteram ao cristianismo e que agora estão na prisão”, denunciou Omidi, vestido de preto e com um crucifixo no pescoço.
Esta situação recebeu uma ênfase especial no relatório dos EUA, que abrange os casos de detenções de convertidos e de missionários, já que a lei iraniana proíbe os cidadãos muçulmanos de renunciar à sua fé.
Isto afeta principalmente às missões dos evangélicos, na mira do governo iraniano, enquanto os armênios, judeus e zoroastras tentam evitar o proselitismo para viver em paz.
A esse respeito, uma fiel zoroastra, que preferiu não se identificar, declarou à Efe que eles podem praticar suas cerimônias com total liberdade, mas que os muçulmanos só podem ir aos seus templos uma vez.
“Se as pessoas vão e vêm muito é problemático, porque as autoridades pensam que fazemos propaganda”, acrescentou, em um dos centros de culto de Teerã desta ancestral religião monoteísta, professada por cerca de 25.000 pessoas no Irã.
As minorias citadas têm seus direitos religiosos garantidos graças à sua presença no Irã antes da chegada do islã. Uma sorte que não compartilham, por exemplo, os fiéis do bahaísmo, vítimas de discriminação e até mesmo perseguição na maioria dos países do Oriente Médio.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

Fotógrafo faz registro raro de tribo isolada em floresta no Acre; veja imagens

O céu escureceu e uma forte chuva obrigou o helicóptero que sobrevoava uma floresta no Acre a pousar. O temporal demorou para passar e a tripulação decidiu voltar ao ponto de partida antes de escurecer.
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Foto: Ricardo Stuckert
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Foto: Ricardo Stuckert
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Foto: Ricardo Stuckert

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Foto: Ricardo Stuckert

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Foto: Ricardo Stuckert

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Foto: Ricardo Stuckert

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Foto: Ricardo Stuckert

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Foto: Ricardo Stuckert
A chuva frustrou a viagem, mas proporcionou um registro raro e histórico de uma tribo indígena isolada, próximo à fronteira com o Peru. "É como achar uma agulha no palheiro. Pura sorte", definiu o fotógrafo Ricardo Stuckert.

A BBC Brasil teve acesso a parte dos registros feitos por Stuckert no último domingo. Ele viajava para a aldeia Caxinauá (também no Acre), onde faria uma sessão de fotos para o livro Índios Brasileiros . A obra vai documentar a rotina de 12 tribos brasileiras e será lançada no dia 19 de abril de 2017 - Dia do Índio.
Mas ele estava acompanhado do experiente sertanista José Carlos Meirelles, que trabalhou para a Fundação Nacional do Índio (Funai) durante 40 anos, e a dupla resolveu investigar uma área da mata com mais calma.
"Depois da chuva, a gente voltou e viu umas malocas feitas de palha. A gente estava voando muito rápido, mas vimos plantações e decidimos voltar. Encontramos a tribo e eu comecei a fotografar", relata o fotógrafo.
Ao identificar uma possível ameaça, os índios reagiram. Os olhares de surpresa e raiva contra o helicóptero foram registrados pelas poderosas lentes de longo alcance de Stuckert. A tribo atirou dezenas de flechas na tentativa de afastar a aeronave, que sobrevoou a região durante sete minutos.
O próprio Meirelles avalia o voo como algo invasivo à comunidade isolada. "É um registro importante, mas é uma certa agressão. Por isso, a gente toma o cuidado de não voar baixo para não assustar tanto. Por outro lado, o mundo precisa saber que eles existem e que precisamos de políticas para conservá-los", disse Meirelles, que demarcou áreas de tribos isoladas durante os 20 anos que trabalhou na região.
Ele estima que a tribo, identificada apenas como "Índios do Maitá", por estar próxima ao rio de mesmo nome, é composta por cerca de 300 pessoas. O número, segundo ele, é bem grande para uma aldeia isolada.

Algodão

Segundo o sertanista, não há nenhum relato ou documento de aproximação dessa tribo com povos civilizados e até mesmo outros grupos.
Após o sobrevoo e uma primeira análise das fotos de Stuckert, José Carlos Meirelles identificou detalhes que revelam alguns costumes dos índios isolados.
"As mulheres usam uma saiota e eles têm plantações de algodão. São sinais de um povo que tece e fia. Parte deles também possui um cabelo incomum: careca até a metade da cabeça e comprido da metade para trás", relatou.
O sertanista afirmou que os índios são mais altos que a média e os homens amarram o pênis a uma espécie de cinta. O especialista também identificou que a tribo planta milho, banana, mandioca e batata.
O grupo fotografado vive numa área de 630 mil hectares onde estão três reservas indígenas: Kampa Isolados do Envira, Alto Tarauacá e Riozinho do Alto Envira. O sertanista disse que, apesar do completo isolamento, a localização aproximada da tribo já era conhecida.
Nas fotos, não foram identificados objetos ou características que possam ter sido influenciadas ou levadas a eles por outros povos.
Um dos fatores apontados pelos especialistas para a sobrevivência da tribo é o fato dela estar localizada numa região de difícil acesso de madeireiros, garimpeiros e seringueiros.

Emocionante

Stuckert, que trabalhou como fotógrafo da Presidência da República durante oito anos e tem 28 anos de experiência na profissão, disse que o registro dos índios está entre "os mais emocionantes" de sua carreira.
"Eu gostaria de voltar lá, mas acho que a gente não pode ter contato. Precisamos preservar isso e quero que as minhas fotos mostrem que a gente tem que mapear tudo o que está perto e protegê-los para que não tenham problemas externos", afirmou.
O fotógrafo disse ter ficado "maravilhado" por registrar pela primeira vez na sua carreira uma população que nunca teve contato com uma população isolada.
O sertanista José Carlos Meirelles também demonstra felicidade por ter visto os índios isolados, mas se disse preocupado com o possível avanço do desmatamento e de seringueiros.
"Fiquei muito feliz em saber que estão bem. Foi muito bom ver que eles têm um roçado e estão no seu espaço. O problema é que ninguém sabe até quando."

terça-feira, 6 de setembro de 2016

Pode o Evangelho ser conhecido na Índia urbana?


Por Jessica Grant
http://ultimato.com.br/
#ELJ2016 – O mapa que mostrava onde estão os grupos ainda não alcançados pintava de vermelho diversos pontos na Índia, uma das maiores nações do mundo com mais de 1 bilhão de habitantes. Para Ravi “Jojo” Landge isso significava algo simples: “Preciso continuar fazendo o que já faço”, compartilhou durante o Encontro de Jovens Líderes 2016, organizado pelo Movimento Lausanne em Jakarta (Indonésia).
Ravi "Jojo". Foto: Jessica Grant
Ravi “Jojo”. Foto: Jessica Grant
Ravi está a frente do projeto “Love Delhi”, que atua em meio a juventude da capital indiana, a segunda cidade mais populosa do país. O hinduísmo é a religião de cerca de 80% dos moradores, seguida pelo islamismo. Os cristãos são menos de 1% e, para Ravi, muitos deles estão seguindo um modelo ocidental de religião que não impacta nem a milenar cultura indiana, nem a moderna juventude urbana.
Apesar de ser a quarta geração cristã em sua família, o cristianismo tornou-se a fé pessoal de Ravi quando jovem, quando ele processou o que significava e pode experimentar a alegria da salvação. “A Palavra de Deus explodiu em mim”, conta. Mas, mesmo sendo líder de louvor em sua igreja, ele estava cansado e com tédio da impessoalidade dentro da congregação. “Não deveria ser assim! Deus é um Deus engajado e alegre!”, pensava. Na sua perspectiva, Jesus atraía as pessoas, e a igreja deveria abandonar o modelo estrangeiro adotado e mostrar um cristianismo autenticamente indiano.
A percepção da necessidade de engajamento com sua própria cultura veio quando um dia, ao fazer evangelismo, encontrou dois homens que falaram que curtiram a ideia do que ele contava, mas pediram: “Cara, me fala o que está neste livro [a Bíblia]?”. “Eu não consegui explicar em hindi [língua de origem sânscrita oficial do país], e então percebi como as igrejas estavam formatadas para a cultura ocidental, usando só o inglês.” Hoje, em sua banda, Ravi canta apenas em hindi. Ele também faz questão de usar roupas indianas, especialmente a cor laranja, que significa devoção a Deus, renúncia do ser. “Precisamos aceitar quem somos, nossa cultura, nossa identidade, e o evangelho em meio a isso”, ele compartilha ao ressaltar sua visão de engajamento do cristianismo com a cultura.
Desde 2008 ele começou a atuar para tornar esta visão em realidade. Na universidade, colaborou com outros movimentos, especialmente de juventude, e depois o seu trabalho basicamente mudou do campus para os cafés. Com tentativa e erro, buscando sustentabilidade, o projeto foi tomando forma sempre com o objetivo de apresentar o cristianismo de maneira relevante ao seu contexto.
Um dos focos foi o “Love Campaign”, em que eles tinham por objetivo envolver as pessoas da cidade através do serviço para se motivarem a amar as pessoas de Délhi, de seu contexto, mesmo por ações simples, como não buzinar com raiva. A ideia era convidar as pessoas a se juntarem e a amarem. E com o tempo os frutos surgiam: pessoas antes viciadas em drogas se convertiam, suicidas eram atraídos pela música e encontravam vida.
Além de grandes eventos, como o também chamado “Love Delhi” de novembro de 2014, em que quase três mil pessoas participaram, hoje eles fazem encontros mensais em espaços não convencionais. Uma vez por mês eles se reúnem em uma cafeteria Starbucks, também envolvendo as pessoas que já estavam lá. Há narrativa de histórias, comédias, esquetes relevantes, música e outras formas de arte. “Basicamente contamos como o evangelho muda a nossa vida”, explica Ravi.
Já no centro de Délhi, também uma vez ao mês, organizam sua igreja em um estúdio. Para os “cultos”, convidam as pessoas que estão nas ruas com uma chamada: “Vamos pensar juntos como podemos amar Délhi? O que podemos fazer juntos para mudar a nossa cidade?”. E com o olhar focado nas injustiças, como uma discussão, atraem o mais variado público, fazem conexão com cada um deles. Depois começam a construir relacionamentos profundos para impactar não só a cidade, mas a vida daquelas pessoas. Eles dão seguimento, acompanham as pessoas e convidam para os outros eventos, também abrindo oportunidades de discipulado.
Entre os cristãos, alcançam as pessoas que “não curtem” a igreja, lidando com dificuldades e criando um espaço que podem compartilhar coisas que nunca compartilhariam no templo tradicional. Entre os não cristãos, Ravi aponta para uma oportunidade única: os jovens urbanos estão mais descolados de sua religião familiar, abertos para ouvir.
Ravi também já realizou oficinas em 10 cidades diferentes levando a ideia e a iniciativa está sob a alçada da missão Cooperative Outreach of India, a qual é diretor de missões jovens, e pode ser acompanhada pelo Facebook neste link. Hoje, casado e pai de dois filhos, Ravi vai continuar fazendo o que faz: impactando e amando de maneira relevante a Índia urbana.

• Jessica Grant é jornalista e tradutora (inglês – português), interessada em audiovisual e literatura. Está se preparando para entrar na ABUB (Aliança Bíblica Universitária do Brasil) como Assessora de Comunicação e Arte, atuando, entre outras coisas, com a peça de teatro “Experimento Marcos”.

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Uma volta ao mundo conhecendo os países que 'não existem'

APImage copyrightAP
Image captionTaiwan vive sob ameaça de anexação pela China
http://www.bbc.com/portuguese
Quando encontro Nick Middleton pela primeira vez, ele está cercado por globos terrestres e mapas mostrando os locais mais exóticos do planeta. Estamos no porão da Stanfords, a maior livraria especializada em material de viagem em Londres. Mas Middleton está aqui justamente para falar dos países ausentes da maioria dos livros e mapas à venda na loja.
Ele os chama de “países inexistentes”, mas embora seus nomes pareçam meio fantasiosos – Atlantium, Christiania e Elgaland-Vargaland -, todos são lugares de verdade, ocupados por cidadãos fervorosamente patrióticos.
Nosso mundo está cheio de regiões que contam com o “perfil” de um país: população fixa, governo, bandeira e moeda. Alguns até emitem passaportes. No entanto, por uma série de razões, tais regiões não têm direito à representação na ONU e são ignoradas pela maioria dos mapas. Middleton, geógrafo da Universidade de Oxford, mapeou essas terras escondidas como parte do livroAtlas de Países que Não Existem.
Ao folhear as páginas, a impressão é de entrada num mundo paralelo, com histórias e culturas vibrantes e ricas, porém esquecidas. Esse mundo paralelo tem até uma Copa do Mundo particular.

Conceitos

A ideia para o projeto veio enquanto Middleton lia o clássico infantil As Crônicas de Nárnia para a filha – em que a ação se passa em um mundo escondido atrás de um guarda-roupa. ele teve uma epifania. “Não precisava de mágica para visitar um país ‘que não existia’ aos olhos de outras nações. Só não sabia que existiam tanto. Poderia ter escrito vários livros”, explica o geógrafo.
Middleton conta que não existe uma regra de ouro para definir o que é um país. Há quem cite a Convenção de Montevidéu, de 1933: para se tornar um país, uma região precisa ter território definido, população permanente, um governo e a capacidade de estabelecer relações diplomáticas com outros países.
No entanto, muitos locais que atendem a tais exigências não são membros da ONU, o que se considera uma espécie de selo de aprovação para a existência de um país. Taiwan é um exemplo. Até 1971, a ilha, que se declarou como nação após forças nacionalistas perderem a Guerra Civil chinesa para o Mao Tsé-tung e o Partido Comunista, tinha assento na Assembleia Geral. Perdeu-o para a República Popular da China.
O próprio Reino Unido é um caso estranho. A lei britânica considera Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte Estados individuais. Todos têm times de futebol e rúgbi próprios, por exemplo. Mas o assento na ONU é o mesmo. “Sob esse quesito, por exemplo, a Inglaterra não é um país”, afirma Middleton.
ThinkstockImage copyrightThinkstock
Image captionA tribo Sioux se diz enganada pelo governo dos EUA
Mas o geógrafo preferiu se concentrar em regiões que se encaixam na definição de Montevidéu. A lista conta com alguns nomes familiares para o público – Taiwan, Tibete, Groenlândia e Chipre do Norte -, mas também traz localidades mais obscuras e nem por isso menos sérias.
Middleton, por exemplo, discute os exemplos de populações indígenas buscando a recuperação de sua soberania. E um dos casos mais impressionantes, segundo ele, é a República de Lakotah. Com população de 100 mil habitantes e encravada na região central dos EUA, a república é uma tentativa de retomada das Colinas Negras pela tribo Lakota Sioux.
A causa teve início no século 18, e em 1868 os Sioux tinham assinado um acordo com o governo americano, que inclusive prometera posse indefinida das colinas. Porém, os índios não contavam com a descoberta de ouro na região, o que fez o governo esquecer rapidamente do compromisso enquanto garimpeiros de todos os cantos dos EUA invadiam a região.
Os Lakota precisaram esperar outro século para receber um simples pedido de desculpas. Em 1998, a Suprema Corte Americana julgou o caso como um dos mais desonestos negócios na história do país e determinou indenização de US$ 600 milhões. Os Lakota, porém, recusaram o dinheiro.
“Os índios dizem que aceitar o dinheiro seria dizer sim para um crime”, explica Middleton.
Em vez disso, em 2007 uma delegação foi até Washington declarar sua “saída dos EUA”, e desde então os Lakota têm buscado sua independência na Justiça.
Batalhas similares ocorrem em praticamente todos os continentes. Na África, por exemplo, há o caso de Barotselândia, um reino com população de 3,5 milhões que busca se separar de Zâmbia, e da Ogonilândia, que almeja a secessão da Nigéria. Ambas declararam independência em 2012.
Na Oceania, a República de Murrawarri foi fundada em 2013 por uma tribo aborígene que escreveu para a rainha Elizabeth 2ª (a Austrália ainda tem a Coroa Britânica como chefe de Estado) intimando-a a provar sua legitimidade sobre suas terras. Quando o prazo de 30 dias para uma resposta se esgotou, os Murrawarri se declararam “livres”.
Porém, nem todos os países no livro têm raízes históricas tão profundas. Volta e meia há casos de nações estabelecidas por indivíduos excêntricos buscando, digamos, o que consideram justiça. Middleton cita Hutt River, na Austrália, um “principado” fundado em 1970 por uma família de fazendeiros buscando escapar das cotas de produção de grãos estabelecidas pelo governo federal. Logo tinham criado títulos de nobreza, moeda própria e mesmo um serviço postal.
“Contam com uma venda de selos que vai de vento em popa”, conta o geógrafo britânico.
Divulgação
Image captionA bandeira de Hutton River, a fazenda que se declarou independente da Austrália
Depois de décadas de bate-boca com o governo australiano, Hutton River, que fica na costa oeste da Austrália, a 517km de Perth, conseguiu ao menos independência fiscal da Austrália.
Na Europa, há Forvik, uma ilhota no arquipélago das Shetland que virou um Estado fundado por um inglês buscando mais transparência na política. Há ainda Sealand, fundada em uma antiga plataforma marítima no Atlântico Norte, e Cristiânia, um enclave hippie em plena capital dinamarquesa, Copenhague. Cristiânia foi fundada por um grupo de squatters que ocuparam um alojamento militar abandonado no centro da cidade, em 1971, e no mesmo ano se declararam independentes da Dinamarca.
Desde então, o governo do país escandinavo tem feito vista grossa para atividades do enclave: uma delas o consumo de maconha, legal em Cristiânia mas proibido no resto do país.
Middleton também argumenta no livro que a dificuldade de definir o que é um país pode abrir espaço para que o conceito de Estado-nação seja repensado. Cita o caso da Antártida, continente que é compartilhado de forma pacífica pela comunidade internacional, sem ser “fatiado” formalmente. E o atlas de Middleton conta com dois exemplos mais radicais.
Atlantium é um país cuja capital, Concórdia, fica em uma província remota da Austrália – mais ocupada por cangurus que pessoas. Mas se trata apenas do centro administrativo: o país é “não-territorial”, o que significa dizer que qualquer um pode se tornar um cidadão. “Em uma era em que as pessoas são cada vez mais unidas por interesses e propósitos comuns fora das fronteiras convencionais, Atlantium oferece a alternativa para a prática discriminatória histórica de distribuir nacionalidades para indivíduos sob a forma acidental de nascimentos ou circunstâncias”, diz o site do país.
Uma coisa é certa: o mundo que conhecemos está em constante mutação, segundo Middleton. “Ninguém da minha época um dia imaginou que a União Soviética iria se fragmentar”, lembra. Em um futuro distante, todos os territórios que conhecemos podem eventualmente se tornar um país que não existe.
Leia a versão original desta reportagem em inglês no site da BBC Future

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

ÁGUA: PROPRIEDADE PRIVADA


http://super.abril.com.br/


Em alguns lugares do mundo, água tem dono - e quem quiser usar precisa pagar caro. Saiba por que devemos fazer de tudo para evitar a privatização dos recursos hídricos.

A água está acabando. Mas antes de acabar, ela vai ficar mais rara. E cara. Em algumas regiões do planeta, água já vale ouro - e tem gente ganhando muito dinheiro com isso. Quando a água deixa de ser um recurso natural público, direito de todos, e passa a ser um produto, acontece o que chamamos de “comoditização”.
Existem várias formas de comércio de água. “O que eu temo é que elas fiquem tão comuns que a gente nem perceba quando a água não for mais nossa, nem da comunidade, nem das próximas gerações”, diz Maude Barlow, co-fundadora do Blue Planet Project, organização que trabalha em nível internacional para garantir o direito humano à água. É preciso muita força nos remos para contrariar a maré da privatização.

A FONTE DO PROBLEMA

Não é de hoje que a água é tratada como produto. Conheça a história recente do fenômeno
A comoditização da água começou nos anos 1990, quando o Banco Mundial (organização financeira internacional que empresta dinheiro a países em desenvolvimento e economias fragilizadas) promoveu os serviços de água no mercado mundial. Naquela década, com o boom da privatização, o Banco convenceu alguns países que privatizar a distribuição de água para a população era uma boa forma de arrecadar fundos. Nos países que decidiram adotar essa prática, o Estado ainda era o proprietário da água, mas eram empresas privadas que cuidavam de sua distribuição para a população (e eram donas também das instalações necessárias para o serviço). Eram as chamadas “parcerias público-privadas” nos serviços de água.
O problema disso era que, para ter lucro, as empresas que dominavam o serviço subiram os preços da água que chegava às torneiras das pessoas. O povo sentiu no bolso e protestou. A insatisfação fez com que várias cidades comprassem de volta o direito de assumir o controle da água. “Só na França, 40 municípios, incluindo Paris, tornaram a água pública novamente”, diz Barlow.
Além do surgimento das parcerias público-privadas para a gestão da água, os anos 1990 trouxeram a moda da água mineral (nas décadas anteriores, água engarrafada era luxo). Com o passar do tempo, o costume ficou ainda mais popular. “Chegamos ao ponto de ter algo como 260 bilhões de litros de água engarrafada em garrafas de plástico no ano passado. Há países que acham que não precisam oferecer um serviço de água limpa para os cidadãos, porque as pessoas podem simplesmente comprar água engarrafada”, diz Barlow.
Outra forma de privatizar e restringir o acesso à água são os chamados "water tradings" (expressão em inglês para “trocas de água”) que funcionam mais ou menos assim: um país emite licenças para o acesso à água (por mineradoras, por empresas de água mineral, por agronegócios etc). Então, essas licenças são convertidas em direito à propriedade. Assim, as empresas passam a poder comprar e vender esse direito à água no livre mercado - como se fosse soja ou petróleo. O Chile e alguns estados dos EUA são exemplos de lugares que fizeram isso.
A Austrália também fez water tradings, e lá o sistema foi um completo desastre. Mas, quando ele surgiu, em 1994, parecia promissor. O país passava por períodos de seca na época, e o governo pensou que os water tradings serviriam como incentivo para que empresas e agronegócios economizassem água, pois, dessa maneira, a água que sobrasse podia ser vendida. Mas o que aconteceu de verdade foi que as grandes empresas engoliram as pequenas e os grandes agronegócios arrasaram os pequenos produtores. Entraram em jogo também os grandes investidores, e depois os investidores internacionais.
“O preço da água subiu dramaticamente em dez anos, ao ponto de surgirem as figuras de cowboys corretores de água, que fizeram rios de dinheiro”, conta Barlow. Foi mais ou menos como a bolha imobiliária que, segundo especialistas, vivemos agora. Só que, em vez de a especulação ser em cima de imóveis, era em cima de fontes de água. O resultado foi que, quando o governo federal quis comprar de volta os direitos sobre a água do país para salvar da seca a bacia Murray-Darling, não conseguiu pagar o preço que as empresas cobravam.
A água também pode ser comprada por meio dos “land and water grabs” (ou “‘abocanhados’ de terra e água”). Nos acordos desse tipo, uma empresa ou um governo rico compra grandes quantidades de terra em um país mais pobre e reivindica o direito à posse da água dentro daquele terreno. Segundo Maude, na África, há um território equivalente a três Grã Bretanhas que foi comprado por países ricos, investidores internacionais, fundos de cobertura, planos públicos de aposentadoria, dentre outros. “É uma nova forma de colonialismo”, comenta.
Normalmente, a água comprada em um país permanece dentro daquele país, mas legalmente pertence a um agente de fora. Atualmente, alguns poucos países do Oriente Médio compram água do exterior, mas a questão, segundo Maude, é muito controversa. No Canadá, em 1998, o governo de Ontario deu uma permissão para que uma empresa privada vendesse água do Lago Superior para abastecimento e enviasse para a Ásia para engarrafamento. O governo dos Estados Unidos interveio e Ontario cancelou a licença. Atualmente, somente em situações de emergência - como as frequentes secas sofridas pelo sudeste dos EUA - a água é transportada em caminhões pipa para o país vizinho.

ÁGUA VIRTUAL

Você consome muito mais água do que imagina
Na hora de calcular a água que vai de um país para o outro, também é importante por na conta a “água virtual”. Trata-se de todos os recursos hídricos gastos para a produção de uma coisa. “Se você come um bife no almoço, estará consumindo uma quantidade inacreditável de água [veja mais no nosso quiz], que foi necessária para criar o gado e preparar a carne. O Brasil é um grande exportador de água virtual em biocombustíveis, carne e arroz”, diz Maude Barlow.
Saber mais sobre a água virtual comercializada em cada produto não é desperdício. A conscientização serve para deixar mais clara a situação do comércio internacional de água. No passado, a pressão popular foi imprescindível para desacelerar a privatização e pode voltar a ser um grande trunfo na luta pelo direito à água. Para Maude Barlow, os cidadãos precisam fazer sua parte para garantir que, no futuro, a água não esteja completamente nas mãos de empresas. “Se essa tendência não parar, veremos mais e mais gente morrer por falta de água. Agora mesmo, mais crianças morrem de doenças trazidas pela água do que de qualquer forma de violência, até guerras”, diz a autora.
O problema também é dos brasileiros. Apesar de termos uma das maiores bacias hidrográficas do mundo, o Brasil também sofrerá as consequências de nosso uso desenfreado de água se não tomarmos cuidado. “Digo sempre que vocês precisam olhar para essas políticas [de acesso à água], porque vocês têm secas terríveis em seu país. Vocês estão secando a água de superfície rápido demais. O Brasil, como o Canadá, tem o mito da abundância e pensa que sua água nunca irá acabar. Mas isso não é verdade, e secas como as que estamos vendo em São Paulo, por exemplo, mostram isso”, conclui Maude.

GRÁFICO ÁGUA VIRTUAL

Veja quantos litros de água são usados para se obterem diferentes produtos:
gráfico água virtual
*Uma pessoa bebe de 2 a 4 litros de água por dia
Fonte: ONU



AZUL DA COR DO MAR

Saiba o que uma cidade precisa ter para se tornar uma “Blue City” e virar referência mundial em bom uso dos recursos hídricos

Transformar a água do mundo em uma “commodity” é uma tendência que vem desde os anos 1990. Mas não é todo mundo que se conforma com isso, e algumas pessoas não estão dispostas a deixar barato - ou caro, considerando os preços que a água alcança no mercado internacional. Para lutar contra a privatização de um dos nossos maiores recursos naturais da Terra, surgiram as Blue Cities.
Distribuir o título de “cidade azul” é uma iniciativa da organização Blue Planet Project, fundada pela canadense Maude Barlow, que luta por uma nova ética hídrica mundial. Para “colorir-se”, a cidade deve se comprometer a reconhecer a água como um direito humano, um bem e um serviço público - o que significa não privatizar nem seus serviços de distribuição. O lugar também precisa priorizar uma boa qualidade de água encanada, em vez de incentivar o consumo de água engarrafada.
Depois de assumir o compromisso internacional de ser azul, a cidade deve traçar um plano. “Quem ainda não tem água tratada e saneamento básico? Como podemos substituir a água engarrafada nos prédios e eventos públicos? Se não há violações ao direito humano à água naquela comunidade, a cidade deve encontrar formas de ajudar comunidades sem água em outros países”, sugere Barlow.
O projeto já começou a render frutos. ”Nós conseguimos parar a privatização da água em algumas cidades e ganhamos a luta contra empresas de água engarrafada”, conta a ativista. Mas, para ela, o maior benefício das Cidades Azuis é a conscientização que o processo leva aos habitantes da cidade, além da consciência de que a água é um bem precioso e que está em nossas mãos protegê-la.
O projeto começou no Canadá, que atualmente já tem 17 cidades azuis. Berna, na Suíça, foi a primeira fora do país e Cambuquira - uma das estâncias minerais do Sul de Minas - tornou-se a primeira Blue City da América Latina no dia 7 de junho. “Cambuquira é uma cidade de valor excepcional, mas que infelizmente caiu no descaso público. Com a exploração predatória (das águas minerais da cidade), temos diminuído o volume de água possível de voltar à atmosfera na forma de precipitações. Além disso, o engarrafamento tem gerado situações em que as nossas fontes ficam sem maiores cuidados, estando sujeitas a danos irreparáveis. Aliando a luta cambuquirense a uma luta internacional, ganhamos um respaldo ainda maior, e acreditamos que esse é o caminho”, declara Ana Paula Lemes de Souza, presidente da ONG Nova Cambuquira.
“O título muda o olhar das pessoas e mostra que a cidade está tendo um comportamento de proteger as nossas águas. A maior vantagem disso, além de dar visibilidade para o município, da proteção e do cuidado com a água, é estimular o cidadão a perceber o valor dessa água”, declara Evanderson Xavier, prefeito de Cambuquira. Em um primeiro passo como Cidade Azul, a prefeitura está agora trabalhando em um projeto de saneamento básico para a cidade - depois de ter inaugurado, em março deste ano, um sistema público de tratamento e distribuição de água que já atende 80% da população.
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