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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Mitos e verdades sobre a seca

Mãe e filha da Comunidade quilombola de Fonseca, Manaíra (PB). Crédito: John Medcraft.
Mãe e filha da Comunidade quilombola de Fonseca, Manaíra (PB). Crédito: John Medcraft.
Portal Ultimato – Qual o nível de gravidade desta seca no Nordeste?
John Medcraft - Esta seca é gravíssima. É a pior que vi em 41 anos de trabalho aqui.
Marcos Sal da Terra - Esta é, sem dúvida, a maior seca que se tem registro no sertão. A fauna e flora são as maiores vítimas desta estiagem.
Ita Porto - A falta de chuvas em períodos prolongados como o dos últimos 3 anos é considerado um desastre ambiental, considerado um dos piores dos últimos 50 anos. Segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) já são cerca de 1.200 cidades espalhadas em nove Estados que já declararam situação de emergência. São 22% dos municípios do Brasil e quase 10 milhões de pessoas afetadas pelas secas na região. Todos os estados que compõe o semiárido nordestino estão passando por grandes dificuldades. Pernambuco, por exemplo, é o estado com maior número de municípios atingidos. Segundo a Compesa (Companhia Pernambucana de Saneamento), dos 185 municípios do Estado, 151 estão com algum tipo de déficit no abastecimento. Desses, 16 estão em colapso, sendo abastecidos por carros-pipa.
Portal Ultimato – Que tipo de sofrimento as pessoas estão vivendo?
John Medcraft - A falta de água é crítica. Patos (100.000 habitantes) sobrevive, graças a uma adutora do açude de Coremas (60 km ao oeste) que foi uma luta nossa de dez anos atrás. Mesmo assim temos água três dias sim, um dia não. Muitas cidades estão em colapso total de água e dependem de caminhões-pipa do Exército. Imaculada, onde ACEV tem uma igreja, está sem água desde janeiro. Nos sítios, quem não tem poço, precisa andar cada vez mais longe para conseguir água.
Marcos Sal da Terra – A economia quase que entrou em colapso em algumas regiões, principalmente nas bacias leiteiras. As notícias dão conta, por exemplo, que Pernambuco perdeu mais de 600 mil cabeças de gado (mortos, abatidos antes do tempo ou enviados para outros estados da Federação que não estão padecendo com a seca).
Ita Porto - Além da falta de água, algumas regiões também enfrentam a contaminação dos mananciais pelos restos dos animais mortos pela seca, o que provoca doenças diarreicas agudas, com registro de mortes de crianças e idosos. Outro problema é o aumento dos preços dos alimentos, sobretudo aqueles oriundos da agricultura. Com a morte de plantas frutíferas e dos rebanhos de animais, há perda da produção agrícola e diminuição do fornecimento de alimentos. Na pecuária, de acordo com a Associação Municipalista de Pernambuco (AMUPE), a seca já provoca prejuízos da ordem de R$ 1,5 bilhão na pecuária.
Portal Ultimato – Os Governos têm ajudado, de verdade, a enfrentar a seca deste ano?
John Medcraft - Aqui na Paraíba tem sido a seca melhor administrada que já vi. O Exército administra a distribuição de água nos sítios, com fiscalização transparência. Os governos federal, estadual e municipal estão reativando poços velhos e perfurando novos. O governo estadual tem distribuído ração animal subsidiada para, pelo menos, ajudar os pequenos produtores. A bolsa família pelo menos ajuda o sertanejo a sobreviver.
Marcos Sal da Terra - Esperar que os governos ajudem de verdade é uma atitude infantil. A gente sabe que existe a “indústria da seca”, a barganha eleitoral (voto por água, por exemplo), que situações de calamidades e emergenciais favorecem a corrupção. Porém não se pode negar que ações pontuais têm minorado os flagelos que são comuns à estiagem no sertão (caminhões-pipa, Bolsa Família etc).
Ita Porto - Algumas atitudes emergenciais têm sido realizadas pelo Governo Federal como o fornecimento de água através da Operação Carro-Pipa. São 835 cidades, em nove estados, totalizando quase quatro milhões de pessoas. Existem investimentos para construção de reservatórios de água como barragens, cisternas, perfurações de poços, dentre outras ações emergenciais de enfrentamento à seca (confira no Observatório da Seca. Da mesma forma os governos estaduais e municipais têm contribuído de acordo com a sua capacidade de recursos.
Portal Ultimato – No imaginário brasileiro, a seca está muito ligada à região Nordeste. E junto com ela, há toda uma “cultura da seca”. Que mitos ou ideias falsas o brasileiro tem da seca e de suas vítimas? O que é verdade e o que é mentira?
John Medcraft –
1. “Os nordestinos são coitadinhos ou preguiçosos”. O nordestino sertanejo que eu conheço e com convivo há mais de 40 anos levanta ainda no escuro e trabalho num sol escaldante durante longas horas cada dia. Não há mais preguiçosos aqui de que em outros lugares – acredito muito menos. Quanto a coitadinhos, esta imagem vem da exploração de imagens de miséria por organizações, inclusive evangélicas, que faturam com isso para si.
2. “Deus é um culpado pela seca”. A seca é um fenômeno natural. Alguns dizem que ela é causada por um pecado específico; outros que é causada pela idolatria (como se apenas no Nordeste houvesse idolatria). Se chove tanto no Rio de Janeiro e em São Paulo, ninguém deve pecar por lá então!
3. “A seca é a maior inimiga do sertanejo”. Que a seca complica a vida, é verdade. Mas aprendemos cada vez mais a conviver com ela cada e a nos organizar para enfrentar a próxima. Lutamos para uma melhor distribuição da água e que a transposição do Rio São Francisco chegue às pessoas certas e aos centros que mais precisam.
Marcos Sal da Terra - O grande mito é tentar “combater a seca”. Seca não se combate. O sertão é seco e continuará com índices de precipitação pluviométricas muito baixos; este é o nosso clima. O que tem que ser feito é a adoção de políticas públicas e de convivências com a seca. A transposição do São Francisco é um grande exemplo desta realidade. O que era para ser um grande benefício para tanta gente, virou uma vergonha nacional.
Ita Porto - A seca está realmente ligada à região Nordeste do Brasil; isso é fato, consequência de um fenômeno ambiental natural, considerada uma catástrofe natural. Com as mudanças climáticas, no entanto, essa realidade vem deixando de ser um “privilégio” apenas da região Nordeste. No nosso caso, temos percebido que a maioria do nosso povo, devido a forma dos líderes governar os municípios, tem abandonado a cultura da convivência a partir do conhecimento acumulado de convivência com o semiárido pelos nossos antepassados. Esses conhecimentos foram (ou estão sendo) esquecidos por esse povo. Por exemplo, diminuímos a capacidade de plantio, migramos para as cidades, aumentamos o consumo de água como se vivêssemos em uma região que tem muita oferta de água. A seca está tendo um impacto maior, pois perdemos essa resiliência. Antigamente as pessoas guardavam queijo nas paredes para comer, hoje é melhor comprar do que produzir o alimento. Perdemos essa capacidade de convivência. Tínhamos animais adaptados ao ambiente. Nossos rios não eram devastados, hoje os rios não tem a capacidade de guardar água como antigamente. Para nós, perdemos a capacidade de viver nessa região, pois colocaram na nossa cabeça que o bom é viver na cidade.
O gado também sofre com a seca. Crédito: Acervo Diaconia.
O gado também sofre com a seca. Crédito: Acervo Diaconia.
Portal Ultimato – Como expressar o amor de Jesus no meio de tanto sofrimento?
John Medcraft - Há tantas maneiras! O essencial é trabalhar com comunidades perfurando poços e, onde for possível, criando hortas onde a água for suficiente e de qualidade. Demonstrar o amor de Jesus em coisas práticas assim torna a fé visível. Ainda se pode ensinar comunidades a criar abelhas, melhorar criação de cabras e coisas assim. O melhor é ajudar as comunidades a criar sua própria renda e cultivar seu próprio alimento, mas quando isso não é possível as cestas básicas devem ser distribuídas, de forma emergencial, dentro das possibilidades de cada instituição.
Marcos Sal da Terra - É simples, façamos o que Jesus ensinou: “Dai-lhe vós de comer” (Lc 9.13). O problema é convencer uma igreja já acostumada a pedir, que também assuma a responsabilidade de dar.
Ita Porto - Jesus Cristo, em toda sua trajetória de vida e missão, nos ensinou (e ainda ensina) a enxergar os problemas da sociedade através da convivência (discipulado) com as pessoas. Seus milagres são relatados sempre do ponto de vista de alguém que se deu ao trabalho de sentir o sofrimento alheio, se misturando na multidão de pessoas que o seguiam. O amor de Jesus pode ser expresso por meio do envolvimento das pessoas com a problemática que estamos vivenciando nos últimos três anos. Somos convidados e convidadas a nos solidarizarmos com as pessoas e, em um contexto de emergência que estamos vivendo com essa seca. Isso pode significar envolver-se na luta por melhoria da qualidade de vida das pessoas que enfrentam o desafio de conviver com esse fenômeno climático. Envolver-se nos espaços de políticas públicas e cobrar a melhor aplicação dos recursos também é uma forma de lutar junto de quem precisa e revelar o amor de Jesus, proporcionando justiça social.
Portal Ultimato – Você vê com bons olhos a participação das igrejas evangélicas na luta contra a seca?
John Medcraft - Igrejas evangélicas que não participam desta luta vão ter que responder diante de Deus. Deus nos coloca em nossas comunidades para sermos “sal e luz”. Pregar é bom, é essencial, mas fazer vista grossa quanto ao sofrimento do próximo é pecado grave. As igrejas evangélicas grandes e ricas de outras regiões precisam entender que estamos no meio de uma catástrofe lenta e discreta; não chama atenção como uma enchente, mas tem efeitos devastadores. Estas igrejas precisam trabalhar junto com instituições sérias e transparentes que fazem auditorias independentes e têm experiência em agir no sertão. Todo cuidado é pouco com os exploradores do momento.
Marcos Sal da Terra - Como na história do aleijado que foi colocado na presença de Jesus, por alguns homens, através de um buraco feito no telhado da casa (Mc 2), vivemos a mesma realidade no sertão. Apenas a exceção se envolve, de forma prática, com a nossa gente.
Ita Porto - Nosso grande desafio é fazer com que as igrejas evangélicas compreendam sua importância e grande potencial no contexto do desenvolvimento social. Nosso convite é que as igrejas se sintam desafiadas a, junto conosco, ocuparmos os espaços de controle social, propondo ações de justiça social e ambiental e, nesse caso, colaborando com as ações de transformação cultural de enfrentamento dos efeitos da seca no Nordeste. Já temos tido bons resultados junto a igrejas parceiras que tem se levantado para lutar em favor de ações de convivência com o semiárido, envolvendo-se em audiências públicas, conscientização da sociedade, numa visão de missão integral.
Menino brinca em região seca de Pernambuco. Crédito: Alison Worrall.
Menino brinca em região seca de Pernambuco. Crédito: Alison Worrall.
Portal Ultimato – A seca tem um “lado positivo”?
John Medcraft - O lado positivo da seca é, como dizia Dom Helder Câmera, que ela é um desafio que faz a vida interessante. Ela nos estica a buscar soluções novas como, por exemplo, dessalinizar água salobra de poços com o mínimo possível de prejuízo ao meio ambiente.
Marcos Sal da Terra - Vemos nela a soberania de Deus. Apesar dos nossos pecados, Ele nos permite “continuar vivos pra contar a história”.
Ita Porto - Sim. As famílias tem se preocupado em se precaver com armazenamento de alimentos a partir do aprendizado das dificuldades enfrentadas pelos anos de seca. Essa pode ser uma oportunidade para, em longo prazo, voltarmos à cultura de convivência com a seca.
Portal Ultimato – Conte-nos alguma história de superação que você viu ou ouviu.
John Medcraft - A ACEV fez um poço nesta seca com uma comunidade quilombola em Manaíra (PB). Era uma comunidade isolada que, além de sofrer com o grave problema da falta de água, ainda sofria terríveis preconceitos raciais. Na terceira tentativa, conseguimos ajudar a comunidade a perfurar um poço que deu água e então bombear a água do vale onde fica o poço para o alto da serra onde a comunidade reside. Presenciei todo este processo e luta. Vi as lágrimas de alegria, a esperança renovada e a autoestima do povo começando a ser restaurada. “Se alguém está em Cristo é verdadeiramente livre”!
Marcos Sal da Terra – Uma comunidade caminhava 18 quilômetros a pé para buscar água (barrenta e salobra), apesar de dispor de cisternas em suas casas, mas que nunca haviam sido abastecidas pelo governo. Lá, uma igreja cavou um poço que custou R$ 7.900. Hoje a comunidade tem 36 mil litros d’água por hora.
Ita Porto - Seu Antonio Magalhães é agricultor e mora na Comunidade Carnaúbinha, na cidade de Afogados da Ingazeira, Sertão do Pajeú (PE). Ele e sua família são assessorados por Diaconia há cerca de 10 anos e desenvolvem estratégias de convivência com a seca, como a reutilização da água usada no trabalho doméstico, o uso inteligente da silagem para armazenar alimento humano e animal. Seu Antonio também gerencia um Banco de Sementes Comunitário que existe há 13 anos com sementes nativas que beneficiam a família dele e a comunidade. Ele cultiva um banco de proteínas com variedades de plantas forrageiras como gliricídia, leucena, palma, feijão guandu, sorgo forrageiro, dentre outras. Essas estratégias fazem parte do resultado da ação de Diaconia junto as famílias, estimulando-as a aplicarem técnicas de convivência com o semiárido. Os silos são feitos em mutirões comunitários estimulando a organização das famílias como forma de fortalecimento político.
Portal Ultimato – Como os leitores podem ajudar seu ministério e organização na luta contra a seca?
John Medcraft - A ACEV só não faz mais poços (já fez mais de 200), só não inicia mais plantações no meio do deserto, e só não cria mais cabras, abelhas e galinhas por falta de mais recursos financeiros. A resposta é simples assim. Já temos uma equipe maravilhosa, dedicada e experiente que deseja e precisa fazer mais. O sertanejo ama o sertão e não quer sair daqui. Temos que facilitar isso e fortalecer a igreja evangélica sertaneja no processo.
Marcos Sal da Terra - O samaritano em (Lc 10) fez o que a grande maioria (representada na mesma história pelo sacerdote e levita) hoje não faz. Ele prestou atenção na situação daquele que havia sido salteado, aproximou-se dele e, cheio de íntima compaixão, pôs “a mão na massa”.
Precisamos mais do que dinheiro (o samaritano não se limitou a dar dois denários ao dono da estalagem), precisamos de gente que disponha dos seus dons e talentos, do seu tempo e do seu esforço. Precisamos menos de discurso e mais de ações. Temos uma “teologia refinada” (tantas vezes), mas uma prática cristã pífia, que não acompanha o discurso (tantas vezes). Temos um exército que tenta em vão defender a fé em Cristo, mas que não vive o que ele ensinou (e acha que isto é defesa).
“Grande é, em verdade, a seara (sertaneja e toda a sua problemática), mas os obreiros são poucos; rogai, pois, ao Senhor da seara que envie obreiros para a sua seara.”
Ita Porto - Ocupar os espaços de construção das políticas públicas como fóruns e conselhos de desenvolvimento. Que os líderes evangélicos possam estimular os debates sobre o poder da cidadania de seus membros junto às comunidades em que vivem.
***

Entrevistados:
John Medcraft é inglês, naturalizado brasileiro, e mora em Patos (PB). É o presidente da Ação Evangélica (ACEV), uma igreja que neste ano completou 75 anos. A ACEV trabalha em todo sertão paraibano, e também em regiões de Pernambuco, Rio Grande do Norte e Ceará.
Marcos Sal da Terra é o vocalista da banda Sal da Terra, um projeto missionário que leva a música, o serviço (alimento, água, oração, voluntários) e a Palavra de Deus para o sertão pernambucano.
Ita Porto trabalha na Diaconia, uma organização de inspiração cristã, sem fins lucrativos, que promove a justiça e o desenvolvimento social no Nordeste. A instituição enfrenta a seca com ações estruturantes que ajudam a população, de forma sustentável, a conviver com as condições de semiaridez. Marcelino Lima e Adilson Viana também colaboraram com as respostas.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

De mais de mil línguas indígenas, só 15% permanecem vivas no Brasil

















http://www.terradagente.com.br

O etimologista e professor da Unicamp, Angel Corbera Mori, fala como é o trabalho de manutenção e registro dos idiomas indígenas


Angel Corbera Mori, etimologista e professor da área de Línguas Indígenas no IEL (Instituto de Estudos da Linguagem) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), fala ao portal Terra da Gente sobre como funciona seu trabalho e como enxerga a questão da valorização da língua indígena no País. Segundo ele, de acordo com um estudo da Universidade de Brasília (UnB), quando da chegada dos portugueses por aqui existiam mais de mil línguas, das quais hoje restam apenas 15%. Praticamente todas as línguas que no período colonial eram faladas nas atuais regiões Nordeste, Sudeste e Sul do Brasil desapareceram. Confira a entrevista abaixo:

TG - O que faz um etimologista? Com quais línguas indígenas o senhor trabalha?
Angel Corbera Mori - Trabalho especificamente com a língua e povo Mehinaku, uma etnia que habita as margens do Rio Curisevo, no Alto Xingu, Parque Nacional do Xingu (MT). Na formação do linguista há disciplinas como as de fonética/fonologia, descrição e análise gramatical. Essa formação recebida permite ao linguista estudar qualquer língua, sem precisar falar ou entender essa língua. Cada língua indígena constitui um sistema de comunicação, como tal tem gramática como qualquer outra língua natural, do contrário os falantes não poderiam se comunicar entre si. Por exemplo, se for pela primeira vez para uma aldeia indígena e essa língua ainda carece de estudos, terei inicialmente que coletar palavras com ajuda dos próprios falantes. Nessa fase inicial todas as palavras serão anotadas em transcrição fonética, constituída de símbolos especiais com base nas letras do alfabeto latino, mas com valores específicos para reproduzir quase “exatamente” a pronunciação do falante nativo.
O senhor trabalha com o povo Mehinaku. Eles têm sofrido exclusão na sociedade atual? Há o risco de a língua deles ser extinta?
Sim, realmente trabalho com esse povo de aproximadamente 270 pessoas, divida em três aldeias: Uyaipiyuku, Utawana, e Uturuá. O povo Mehinaku, como acontece com todas as sociedades indígenas, não é plenamente reconhecido pela sociedade nacional. O direito a saúde e a educação, por exemplo, ainda são muito incipientes. Por outra parte, setores da sociedade nacional como as diversas igrejas, principalmente fundamentalistas, interessam-se pelos povos indígenas, mas para simplesmente convertê-los às suas crenças e fanatismos religiosos, eliminando e mutilando os padrões culturais desses povos.
Como o Brasil lida com a questão das diferentes línguas que tem no território nacional? Valorizamos essa riqueza linguística?
O Brasil, no contexto dos países da América do Sul, é o país onde se concentra a maior diversidade linguística e cultural. Mas a valorização das línguas indígenas pela sociedade nacional, pelo Estado, pelas universidades nacionais e pelos organismos de fomento à pesquisa ainda são muito tênues. Ainda o leigo, e mesmo as pessoas cultas com nível acadêmico de ensino superior, acham que os indígenas falam dialetos ou “gírias”. Chega-se ao absurdo de considerar que uma língua indígena carece de gramática. Sem dúvida, essa visão é etnocentrista. As pessoas acham que só as línguas indo-europeias têm gramáticas.
Há algum movimento, investimento do Estado ou conscientização popular que visa conservar as terras e culturas indígenas ou não temos esta visão no País?
Em 1992, o linguista Michael Krauss lançou um chamado alertando à comunidade internacional que 90% das línguas faladas no mundo estariam em perigo de extinção no século XXI, se não fossem tomadas medidas preventivas. A partir disso, sugiram diversos organismos internacionais preocupados na preservação e documentação dessas línguas ameaçadas antes que elas desapareçam. Na própria Unesco, no Brasil, está em desenvolvimento o “Projeto de Documentação das Línguas Indígenas”, que é dirigido pelo Museu do Índio com apoio da Unesco, Funai e a Fundação Banco do Brasil. O projeto prevê a documentação de 20 línguas indígenas, selecionadas com base nos graus de ameaça de extinção.
Na opinião do senhor, a riqueza das línguas indígenas do Brasil está sendo perdida com o tempo?
De acordo com o Atlas Interativo de Línguas em Perigo (Unesco 2010) o Brasil é o terceiro Pais do mundo com o maior número de línguas ameaçadas de extinção. Assim, das 180 línguas, 45 delas estão catalogadas em situação crítica de extinção. Além disso, o Atlas cataloga 12 línguas indígenas do Brasil consideradas mortas, isso sem considerar os povos indígenas do Nordeste, que já não falam mais a língua indígena. Sem dúvida todas as línguas indígenas estão continuamente submetidas a um processo de extinção, que começou desde a chegada dos europeus portugueses.
O que podemos fazer para valorizar mais essa questão da língua indígena no Brasil?
O Brasil tem que valorizar mais sua riqueza multilíngue e pluricultural, incentivar os alunos desde o ensino básico até no nível superior o respeito e proteção das línguas e culturas originárias. Mostrar para a sociedade que com o desaparecimento das línguas indígenas o País perde uma parte essencial do seu patrimônio intelectual, de sua identidade, de sua memória. É importante que os Programas de inclusão social dos indígenas forneçam condições efetivas para o exercício pleno de seus direitos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

Campanha do Último Idioma - A Bíblia para o mundo todo


Campanha do Último Idioma pretende iniciar a tradução das Sagradas Escrituras para todas as línguas até 2025.

Por Carlos Fernandes - http://cristianismohoje.com.br

Desde a Septuaginta, tradução da Torá hebraica para o grego, realizada por volta do 3º século antes de Cristo, nenhum outro livro foi tão traduzido, publicado e disponibilizado à humanidade quanto a Bíblia. Ao longo da História, a Palavra de Deus já foi traduzida, no todo ou em parte, para línguas faladas em todas as latitudes da Terra. De idiomas globais, como o inglês e o espanhol, a dialetos falados por pequenas tribos com não mais de algumas centenas de indivíduos, as Sagradas Escrituras estão hoje acessíveis a mais de 90% da humanidade, numa linguagem que podem entender. No entanto, ainda há muito por fazer. Estima-se em cerca de 4 mil as línguas e dialetos hoje existentes em que não há sequer um livro da Bíblia traduzido. Fazer a Palavra de Deus chegar aos falantes desses idiomas – quase 350 milhões de pessoas – é um desafio fundamental para que se cumpram as profecias bíblicas que condicionam o segundo advento de Cristo à disseminação do Evangelho por toda a Terra.

O primeiro passo já foi dado. Lançada em 2008, a Campanha do Último Idioma – Visão 2025 pretende que, até aquele ano, tenham sido iniciados trabalhos de tradução bíblica em cada uma das línguas em que ela ainda é inédita. O esforço, orçado em mais de US$ 1 bilhão (cerca de 1,8 bilhões de reais) é capitaneado pela Aliança Global Wycliffe, entidade internacional de tradução da Bíblia que congrega mais de 100 organizações em todo o mundo (ver quadro). Uma de suas parceiras na empreitada é a Sociedade Internacional de Linguística (SIL), tradicional organização cristã fundada em 1934 e que já realizou investigações científicas acerca de 2,6 mil línguas. E, passado três anos do início dessa mobilização, fica claro que não se trata de uma missão impossível. De acordo com Paul Edwards, diretor executivo da campanha, muitos passos já foram dados nesta direção. “Estamos no nosso melhor ano de todos em número de traduções já iniciadas”, garante. “Deus irá nos fornecer pessoas capacitadas e recursos para, finalmente, terminar esse esforço de mais de 2 mil anos.”

Os números recentes alimentam o otimismo. Em 1999, a própria Wycliffe fez uma estimativa segundo a qual seriam necessários cerca de 150 anos até que a última tradução fosse iniciada. Apenas dez anos depois, quinhentas traduções já estavam em andamento, a um ritmo médio de setenta e cinco novos idiomas por ano. E a tendência é o aumento gradativo na produtividade e abrangência do trabalho. Edwards credita o avanço às modernas tecnologias e a novas abordagens para a tradução da Bíblia, mesmo que para idiomas que não possuem forma escrita – as chamadas línguas ágrafas, como as faladas pelos indígenas brasileiros (ver quadro na seção CH Informa, na página 7 desta edição). Softwares de última geração permitem que os tradutores consigam analisar com precisão as particularidades de cada idioma, facilitando o trabalho de elaboração escrita. Além disso, a tecnologia representou o fim do penoso trabalho com papel e caneta, feito muitas vezes em regiões remotas, que necessitavam de transporte físico até centros mais avançados para, só aí, serem catalogados. Agora, um estudioso que esteja embrenhado na selva pode enviar textos para análise e tradução a partir de laptops, com comunicação via satélite. “É extraordinário esse ganho de tempo”, entusiasma-se Edwards.

MOBILIZAÇÃO INTERNACIONAL
A Campanha do Último Idioma, na verdade, não é apenas um esforço de natureza religiosa. É, também, uma iniciativa que visa a levar a povos isolados, muitas vezes vivendo em condições semelhantes às da Idade da Pedra, projetos de saúde e desenvolvimento comunitário. Para isso, estão sendo formadas equipes multidisciplinares, contando com a maior quantidade possível de integrantes autóctones. Ao contrário de outros tempos, em que a presença do chamado “homem civilizado” representava o fim das traduções culturais locais e a imposição de um estilo de vida ocidental, hoje o trabalho é feito com rigores antropológicos. O objetivo é oferecer ferramentas para que cada indivíduo, seja em qual cultura for, possa conscientemente fazer sua escolha pessoal em relação ao Evangelho, sem abrir mão do próprio modo de vida.

A Wycliffe também está usando uma nova abordagem, com tradução com equipes de grupos de tradução de línguas semelhantes ao mesmo tempo. Assim, é possível trabalhar com até uma dúzia de idiomas semelhantes, oriundas do mesmo tronco – como o italiano, o português e o espanhol, todas neolatinas – ao mesmo tempo. Outra inovação é não usar a cronologia para determinar o ponto de partida de tradução. Em vez disso, as equipes traduzem as histórias do Novo Testamento, que podem então ser rapidamente compartilhadas por contadores de história orais com os falantes daquele idioma. “Com uma mobilização adequada da Igreja, informações sobre as necessidades, engajamento do povo de Deus e muitas parcerias, é perfeitamente possível alocar uma equipe de tradutores em cada uma dessas línguas até o ano 2025”, atesta o pastor José Carlos Alcantara da Silva, secretário executivo da Associação Linguística Evangélica Missionária (Alem). A instituição atua no Brasil promovendo treinamento em linguística e missiologia e realiza traduções das Escrituras para idiomas indígenas (ver entrevista na pág ??). No momento, um de seus principais projetos é a Bíblia completa na língua kaiuá, falada por um dos maiores povos indígenas do país, que deve estar pronta em três anos.

“Qualquer projeto da Wycliffe, referência mundial para a tradução da Bíblia em todos os idiomas conhecidos, será sempre muito bem recebido pelo povo de Deus em todas as partes do mundo”, elogia, por sua vez, Almir dos Santos Gonçalves Jr, da Junta de Educação Religiosa e Publicações, entidade ligada à Imprensa Bíblica Brasileira e que já distribuiu mais de 20 milhões de exemplares no país. Com larga experiência na área, o professor Vilson Scholz, doutor em Novo Testamento e consultor de traduções da Sociedade Bíblica do Brasil (SBB), destaca a essencialidade desse trabalho na evangelização mundial: “Se nós valorizamos – e muito – o fato de podermos ouvir a palavra de Deus em nossa língua materna, por que não admitir que o mesmo vale para cada ser humano, mesmo que faça parte de menor comunidade linguística deste mundo?”, questiona.

Para Rudi Zimmer, brasileiro que preside a Diretoria Mundial das Sociedades Bíblicas Unidas (SBU) – entidade que congrega cerca de 150 associações nacionais voltadas à tradução, produção e distribuição das Escrituras em todo o mundo –, o esforço concentrado para disponibilizar conteúdos bíblicos em todas as línguas é o coração do trabalho missionário: “Só a partir da tradução pode-se levar a Palavra de Deus a todas as pessoas no mundo”, diz. Segundo ele, embora as SBU não tenham adotado especificamente a Visão 2025, a tendência é no sentido do maior envolvimento local no trabalho de tradução “Portanto, caberá às sociedades bíblicas nacionais a liderança nos projetos e na provisão de recursos”. Zimmer informa que as SBU estão promovendo consultas de âmbito mundial para definir estratégias orientadoras desse trabalho para as próximas décadas. “Por outro lado, estamos cientes de que a imensidão da tarefa exige a cooperação de todas as agências de tradução; por isso buscamos, sempre que for possível, fazer alianças, a fim de multiplicar os resultados”, conclui.

O ministério da tradução
Desde 1º de fevereiro deste ano, a Wycliffe Internacional, com sede em Cingapura, adotou novo nome: Aliança Global Wycliffe. A iniciativa visa fazer uma adequação aos novos tempos, em que qualquer atividade pode ser melhor desempenhada mediante parcerias, bem de acordo com o lema da entidade – “Parceiros na tradução da Bíblia”. Atualmente, cerca de 105 organizações internacionais, inclusive no Brasil – como a Associação Lingústica Evangélica Missionária (ALEM) e a Associação Internacional de Linguística no Brasil (SIL), entre outras –, são ligadas à Aliança Wycliffe, que conta com pessoal proveniente de mais de 50 países e envolve cerca de 6,5 mil pessoas em organizações parceiras de todo o mundo. Mais informações sobre a Campanha do Último Idioma e notícias sobre o que o ministério de tradução bíblica tem feito no Brasil e no mundo podem ser obtidas pelos sites

“A Igreja brasileira tem muito a contribuir”
O pastor José Carlos Alcantara da Silva, secretário-executivo da Associação Linguística Evangélica Missionária (ALEM), conversou com CRISTIANISMO HOJE sobre o desafio da tradução bíblica. Segundo ele, a Igreja brasileira, com todo seu dinamismo e recursos, tem muito a fazer por este tipo de ministério:

CRISTIANISMO HOJE – Qual é o tempo que se leva para traduzir a Bíblia para um outro idioma?
JOSÉ CARLOS ALCANTARA – O tempo médio para se concluir uma tradução depende do contexto e de outras variantes. Se a língua para a qual a Bíblia vai ser traduzida é um idioma que já foi analisado e já possui uma grafia, a tradução será feita em tempo menor. Caso contrário, o tradutor terá que fazer uma análise linguística, estabelecer um alfabeto e só então começara a traduzir. Temos casos de traduções que duraram 40 anos de trabalho e outras que foram feitas em até uma década – sobretudo, quando já existe uma tradução em língua próxima, da mesma família, ou porque a análise linguística já estava pronta.

Entidades como a ALEM contam com a colaboração de igrejas, instituições e organizações missionárias?
Contamos com algumas parcerias que têm contribuído significativamente para o avanço do trabalho de tradução no Brasil. Há igrejas que amam a Palavra de Deus e entendem o valor e significado das Escrituras Sagradas para a evangelização do mundo e o alcance do coração das pessoas. Elas nos apoiam de maneira prática, sustentando missionários tradutores, orando e até arcando com os custos de impressão de bíblias nas línguas autóctones. Também há colaboração entre organizações missionárias que entendem o valor da Bíblia na língua materna de cada povo. Organizações como a Associação Internacional de Linguística (SIL), Missão Evangélica da Amazônia (MEVA), Missão Novas Tribos do Brasil, Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Brasileira, Junta de Missões Nacionais da Convenção Batista Nacional e Aliança Global Wycliffe, dentre outras, são entidades que têm trabalhado juntas para que os povos do Brasil e no mundo tenham a Bíblia na língua que lhes fala ao coração. Por sua vez, o trabalho da Sociedade Bíblica do Brasil tem sido altamente relevante na parte técnica de diagramação e impressão das bíblias traduzidas pelas organizações parceiras.

Quantas pessoas, no contexto da Igreja brasileira, estão envolvidas com este tipo de trabalho?
A Igreja brasileira ainda tem muito a contribuir com o movimento de tradução da Bíblia no Brasil e no mundo. Proporcionalmente, o número de missionários brasileiros que trabalham em campos transculturais é muito pequeno – eles não passam de quatro mil – em relação ao número de igrejas e de cristãos evangélicos no país. Se pensarmos em tradutores da Bíblia, este número será reduzido a algumas dezenas. Se a Igreja brasileira entender que tem uma grande oportunidade de servir a mais de 2 mil povos, proporcionando a eles a Palavra de Deus e todas as ações provenientes dela e se engajar neste movimento de tradução como uma tarefa sua, e não de terceiros, dará uma grande contribuição para a consumação da obra de Deus no mundo.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Entrevista com ex-muçulmana: "Há muito tempo esse Islã deixou de fazer sentido"

Mina Ahadi: 'O Islã se voltou contra os mulçumanos' (Julien Chatelin/Laif)

Fonte: Veja

A iraniana Mina Ahadi mora há catorze anos na Alemanha, mas pouquíssimos amigos sabem exatamente onde. Desde que ela criou o Conselho de Ex-Muçulmanos, entidade de apoio a pessoas que abdicaram da fé islâmica, passou a receber ameaças de morte que a obrigam a viver quase reclusa. Renunciar ao Islã é considerado entre muçulmanos uma ofensa grave, punível com pena de morte em países como o Irã, que Mina foi obrigada a deixar depois que os aiatolás tomaram o poder, em 1979. Então uma líder estudantil, ela foi perseguida pela Guarda Revolucionária, teve o marido executado e sua cabeça posta a prêmio. Conseguiu asilo político na Áustria e depois se mudou para a Alemanha, onde hoje chefia os Comitês contra a Execução e o Apedrejamento. Mina Ahadi falou a VEJA em um hotel em Colônia. 

A senhora foi uma das pessoas que mais lutaram para que Sakineh Ashtiani - acusada de adultério e, mais tarde, de participação na morte do marido - não fosse executada por apedreja-mento. Como se sentiu ao ouvi-la dizer em entrevista à televisão estatal: “Mina Ahadi, afaste-se de mim, não é da sua conta se eu sou uma pecadora”?
Sei que Sakineh está sob pressão e foi forçada a dizer isso para se salvar. Isso não me incomoda. Também seu filho foi obrigado a declarar diante das câmeras que acredita na culpa da mãe. Mas eu penso que Ahmadinejad (o ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad) vai precisar de outra vítima para demonstrar a sua força. Sakineh já está salva. Por quê? Graças à repercussão que o caso alcançou, o regime não pode mais executá-la - nem pública nem clandestinamente. O governo já está convencido disso. Apenas busca achar um meio de não sair desmoralizado do episódio. Todo esse processo, no fim, foi bom para o Irã. Chamou a atenção do mundo para a barbárie do regime. Antes do caso Sakineh, a preocupação dos países em relação ao Irã se limitava à questão nuclear.

Mas não há sinais de que o governo de Ahmadinejad esteja cedendo a essa pressão mundial. Pelo contrário, medidas recentes apontam para uma “talibanização” do regime, como a reforma curricular destinada a “livrar os estudantes da influência ocidental” e a proibição do uso de determinadas roupas e acessórios.
O Irã neste momento é um país muito instável e seus governantes estão perigosamente próximos dos mulás dos anos 80. Desde as manifestações de 2009 e a morte de Neda (a estudante Neda Agha Soltan, que, ferida por um tiro disparado por um membro da milícia islâmica, teve a agonia registrada em um vídeo que correu o mundo), o governo aumentou a pressão sobre os estudantes, as mulheres e os trabalhadores. Ele sabe que qualquer fagulha pode desencadear um incêndio. A derrubada do regime de Ben Ali (o ditador Zine El Abidine Ben Ali) na Tunísia deve fazer com que as medidas de repressão se intensifiquem ainda mais. As execuções, por exemplo, estão aumentando de maneira assustadora. E vêm sendo conduzidas de uma forma como fazia tempo não se via. Os nomes dos executados voltaram a ser publicados nos jornais oficiais. Na semana passada, eles trouxeram mais dez. Desde janeiro, a média no país tem sido de uma execução a cada oito horas.

Quais são os crimes que mais têm resultado na pena de execução?
As execuções por acusação de envolvimento com drogas têm sido muito frequentes. Há duas semanas, um jovem de 23 anos foi morto por portar 50 gramas de heroína. No início do mês, outro jovem, acusado de esfa-quear um amigo em outubro do ano passado, recebeu cinquenta chibatadas. No dia seguinte, 5 de janeiro, ele foi enforcado em praça pública. Isso se passou em Teerã - não numa vila longínqua, mas na capital do país. A TV estatal mostrou-o caminhando para a execução com as mãos amarradas e o olhar muito assustado (assista ao vídeo). Depois, um repórter entrevistou parentes da vítima e outras pessoas na multidão, perguntando o que haviam achado do que viram. Em todas as entrevistas que foram ao ar, os entrevistados declararam considerar aquela execução positiva e agradeceram ao presidente pela medida.

Execuções públicas são frequentes em Teerã?
Não, fazia muito tempo que isso não ocorria. Trata-se, claramente, de uma nova tática do regime para infundir o terror na população. As prisões estão lotadas. Há, inclusive, crianças e adolescentes aguardando fazer 18 anos para ser executados. Praticamente todos os dias eu recebo chamadas de condenados me pedindo ajuda. Ontem à noite, minha filha pediu que eu desligasse o celular: “Mãe, vamos ver um filme sossegadas. Vamos ficar pelo menos uma noite sem ouvir más notícias”. Eu desliguei o aparelho, e hoje de manhã havia sete mensagens, uma delas com voz de criança. Ela falava baixo, provavelmente porque não podia falar alto: “Por favor, por favor, atenda o telefone, eu preciso de ajuda”.

Que crime essas crianças e adolescentes cometeram?
Alguns são acusados de assassinato, outros de envolvimento com drogas. Mas os julgamentos muitas vezes se baseiam no testemunho de uma única pessoa, ou num comportamento que o estado considera criminoso, como o sexo entre dois homens ou duas mulheres. Estou em contato com a família de dois adolescentes presos porque um deles gravou no seu celular cenas de sexo que teve com o outro e as imagens caíram nas mãos da polícia. Foram condenados à morte por apedrejamento. Como acontece muitas vezes, os familiares não querem ajuda.

Por vergonha?
Para não terem sua reputação comprometida. Eles preferem que os jovens fiquem presos.

Preferem inclusive que sejam apedrejados?
Eles não querem que o caso venha a público. O pai de um desses jovens me disse: “Deixe a nossa família em paz”. Para os homens, principalmente, trata-se de uma desonra muito grande. Agora, estou tentando entrar em contato com as mães desses rapazes.

A senhora pode descrever uma execução por apedrejamento?
Ela acontece em geral ao amanhecer. A pessoa condenada tem as mãos amarradas nas costas e é envolta em uma mortalha branca. Fica totalmente embrulhada nesse pano, o rosto também. Então, é colocada de pé num buraco fundo e coberta de terra até o peito, no caso das mulheres, e até a cintura, no caso dos homens. Dependendo da condenação, é o juiz quem atira a primeira pedra. Mas pode ser também uma das teste-munhas. Se a vítima é uma mulher sentenciada por adultério, por exemplo, tanto o seu marido quanto a família dele podem lançar as primeiras pedras. A lei diz que elas têm de ser grandes o suficiente para machucar a vítima, mas não para matá-la no primeiro ou segundo golpe.

Quanto tempo ela leva?
Pode levar quinze minutos, pode levar mais de uma hora. Um médico fica no local para, de tempos em tempos, verificar se o apedrejado ainda está vivo. Até o fim dos anos 80, o apedrejamento no Irã era um ritual público - assim ordenava a lei. O horário e o local eram anunciados no rádio, nos jornais e na TV. Qualquer um podia comparecer. Mas houve alguns episódios em que as pessoas se manifestaram contra a prática. Num deles, chegaram a atirar pedras contra os mulás presentes. Em 1997, na cidade de Bukan, o apedrejamento de uma mulher acusada de adultério acabou suspenso devido aos protestos e à interferência da multidão. A mulher - seu nome é Zoleykhah Kadkhoda - foi levada ao hospital quase morta, mas sobreviveu e está viva até hoje. Depois disso, as execuções passaram a ser fechadas. Agora, a polícia religiosa é que atira as pedras.

Quantas pessoas estão condenadas ao apedrejamento hoje no Irã?
Mais de 100 pessoas já foram mortas dessa forma pelo estado desde 1979 e outras 27 aguardam na fila.

A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, posicionou-se publicamente contra a prática do apedrejamento, que classificou de barbárie. Qual a expectativa que a senhora tem desse novo governo?
O que eu espero da presidente Dilma é que ela faça o que seu antecessor não fez: que condene a situação dos direitos humanos no Irã e se recuse a manter relações diplomáticas com um regime assassino como o de Ahmadinejad, a quem Lula chamava de “amigo”.

A senhora foi perseguida pelo regime do xá Reza Pahlevi por suas atividades como líder estudantil. Com a Revolução Islâmica, tornou-se alvo dos aiatolás ao liderar um movimento contra o uso obrigatório do véu...
Sim, sim, mas não há comparação. Como líder estudantil em Tabriz, tive problemas durante o regime do xá: não podia ler alguns livros, dizer algumas coisas, tinha de me apresentar de tempos em tempos à polícia, mas era, por assim dizer, um jogo com regras claras. Com Khomeini, no entanto (o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder do movimento que, em 1979, derrubou a monarquia iraniana e instalou a teocracia no país), tudo ficou muito mais brutal. Ele criou a Guarda Revolucionária, uma milícia cruel e impiedosa, principalmente para com as mulheres. Tínhamos de escolher entre o véu e as chibatadas. Quando fizemos essa manifestação contra o uso do véu, tudo transcorreu sem incidentes. Mas, no dia seguinte, quando cheguei à faculdade onde estudava medicina, não pude entrar. Havia um soldado da Guarda com uma lista de nomes de alunos que tinham sido expulsos. Eu cursava o último ano da faculdade, já trabalhava no hospital da universidade e não pude me formar.

Foi então que a senhora se exilou na Europa?
Não. Meu marido não foi expulso como eu e continuou seus estudos de física. Eu passei a trabalhar como operária na fábrica da Pepsi e, à noite, escrevia panfletos contra o regime. Tinha uma máquina de datilografar muito velha que fazia um tremendo barulho. Era preciso vedar a porta e a janela do nosso apartamento para poder bater os textos de modo a não chamar a atenção dos vizinhos. Um dia, quando voltava da fábrica para casa, vi um membro da Guarda parado em frente ao meu prédio. Dei meia-volta e não entrei. Eles levaram meu marido e cinco outras pessoas do nosso grupo que estavam hospedadas em casa, três homens e duas mulheres. Tirando as mulheres, que foram libertadas mais tarde, todos foram executados, inclusive meu marido. Eu consegui fugir para Teerã e, de lá, fui para o Curdistão. Depois, como asilada política, morei seis anos em Viena, na Áustria. Estou há catorze anos na Alemanha.

Aqui, na Alemanha, a senhora criou um comitê para muçulmanos que renunciaram à fé islâmica, o que lhe rende ameaças de morte até hoje. O que a motivou a fazer isso?
Acredito que, como eu, muitos imigrantes de países muçulmanos vieram para cá em busca de uma vida melhor, o que inclui mais liberdade. E essas pessoas não precisam estar fadadas a viver em uma sociedade paralela, em que as crianças não podem ter amigos de outro sexo ou frequentar aulas de natação por causa de uma religião na qual, eventualmente, elas não acreditam mais. O que nós queremos é romper esse tabu, é apoiar as pessoas na decisão de libertar-se desse Islã que se voltou contra os muçulmanos.

A senhora se considera uma ex-muçulmana?
Sim, desde os 15 anos, quando deixei de fazer minhas preces. Nas últimas décadas, em muitos lugares, o islamismo tornou-se uma ferramenta de manipulação política, e não uma religião restrita à esfera privada. Há muito tempo esse Islã deix
zA iraniana Mina Ahadi mora há catorze anos na Alemanha, mas pouquíssimos amigos sabem exatamente onde. Desde que ela criou o Conselho de Ex-Muçulmanos, entidade de apoio a pessoas que abdicaram da fé islâmica, passou a receber ameaças de morte que a obrigam a viver quase reclusa. Renunciar ao Islã é considerado entre muçulmanos uma ofensa grave, punível com pena de morte em países como o Irã, que Mina foi obrigada a deixar depois que os aiatolás tomaram o poder, em 1979. Então uma líder estudantil, ela foi perseguida pela Guarda Revolucionária, teve o marido executado e sua cabeça posta a prêmio. Conseguiu asilo político na Áustria e depois se mudou para a Alemanha, onde hoje chefia os Comitês contra a Execução e o Apedrejamento. Mina Ahadi falou a VEJA em um hotel em Colônia.

A senhora foi uma das pessoas que mais lutaram para que Sakineh Ashtiani - acusada de adultério e, mais tarde, de participação na morte do marido - não fosse executada por apedreja-mento. Como se sentiu ao ouvi-la dizer em entrevista à televisão estatal: “Mina Ahadi, afaste-se de mim, não é da sua conta se eu sou uma pecadora”?
Sei que Sakineh está sob pressão e foi forçada a dizer isso para se salvar. Isso não me incomoda. Também seu filho foi obrigado a declarar diante das câmeras que acredita na culpa da mãe. Mas eu penso que Ahmadinejad (o ditador iraniano Mahmoud Ahmadinejad) vai precisar de outra vítima para demonstrar a sua força. Sakineh já está salva. Por quê? Graças à repercussão que o caso alcançou, o regime não pode mais executá-la - nem pública nem clandestinamente. O governo já está convencido disso. Apenas busca achar um meio de não sair desmoralizado do episódio. Todo esse processo, no fim, foi bom para o Irã. Chamou a atenção do mundo para a barbárie do regime. Antes do caso Sakineh, a preocupação dos países em relação ao Irã se limitava à questão nuclear.

Mas não há sinais de que o governo de Ahmadinejad esteja cedendo a essa pressão mundial. Pelo contrário, medidas recentes apontam para uma “talibanização” do regime, como a reforma curricular destinada a “livrar os estudantes da influência ocidental” e a proibição do uso de determinadas roupas e acessórios.
O Irã neste momento é um país muito instável e seus governantes estão perigosamente próximos dos mulás dos anos 80. Desde as manifestações de 2009 e a morte de Neda (a estudante Neda Agha Soltan, que, ferida por um tiro disparado por um membro da milícia islâmica, teve a agonia registrada em um vídeo que correu o mundo), o governo aumentou a pressão sobre os estudantes, as mulheres e os trabalhadores. Ele sabe que qualquer fagulha pode desencadear um incêndio. A derrubada do regime de Ben Ali (o ditador Zine El Abidine Ben Ali) na Tunísia deve fazer com que as medidas de repressão se intensifiquem ainda mais. As execuções, por exemplo, estão aumentando de maneira assustadora. E vêm sendo conduzidas de uma forma como fazia tempo não se via. Os nomes dos executados voltaram a ser publicados nos jornais oficiais. Na semana passada, eles trouxeram mais dez. Desde janeiro, a média no país tem sido de uma execução a cada oito horas.

Quais são os crimes que mais têm resultado na pena de execução?
As execuções por acusação de envolvimento com drogas têm sido muito frequentes. Há duas semanas, um jovem de 23 anos foi morto por portar 50 gramas de heroína. No início do mês, outro jovem, acusado de esfa-quear um amigo em outubro do ano passado, recebeu cinquenta chibatadas. No dia seguinte, 5 de janeiro, ele foi enforcado em praça pública. Isso se passou em Teerã - não numa vila longínqua, mas na capital do país. A TV estatal mostrou-o caminhando para a execução com as mãos amarradas e o olhar muito assustado (assista ao vídeo). Depois, um repórter entrevistou parentes da vítima e outras pessoas na multidão, perguntando o que haviam achado do que viram. Em todas as entrevistas que foram ao ar, os entrevistados declararam considerar aquela execução positiva e agradeceram ao presidente pela medida.

Execuções públicas são frequentes em Teerã?
Não, fazia muito tempo que isso não ocorria. Trata-se, claramente, de uma nova tática do regime para infundir o terror na população. As prisões estão lotadas. Há, inclusive, crianças e adolescentes aguardando fazer 18 anos para ser executados. Praticamente todos os dias eu recebo chamadas de condenados me pedindo ajuda. Ontem à noite, minha filha pediu que eu desligasse o celular: “Mãe, vamos ver um filme sossegadas. Vamos ficar pelo menos uma noite sem ouvir más notícias”. Eu desliguei o aparelho, e hoje de manhã havia sete mensagens, uma delas com voz de criança. Ela falava baixo, provavelmente porque não podia falar alto: “Por favor, por favor, atenda o telefone, eu preciso de ajuda”.

Que crime essas crianças e adolescentes cometeram?
Alguns são acusados de assassinato, outros de envolvimento com drogas. Mas os julgamentos muitas vezes se baseiam no testemunho de uma única pessoa, ou num comportamento que o estado considera criminoso, como o sexo entre dois homens ou duas mulheres. Estou em contato com a família de dois adolescentes presos porque um deles gravou no seu celular cenas de sexo que teve com o outro e as imagens caíram nas mãos da polícia. Foram condenados à morte por apedrejamento. Como acontece muitas vezes, os familiares não querem ajuda.

Por vergonha?
Para não terem sua reputação comprometida. Eles preferem que os jovens fiquem presos.

Preferem inclusive que sejam apedrejados?
Eles não querem que o caso venha a público. O pai de um desses jovens me disse: “Deixe a nossa família em paz”. Para os homens, principalmente, trata-se de uma desonra muito grande. Agora, estou tentando entrar em contato com as mães desses rapazes.

A senhora pode descrever uma execução por apedrejamento?
Ela acontece em geral ao amanhecer. A pessoa condenada tem as mãos amarradas nas costas e é envolta em uma mortalha branca. Fica totalmente embrulhada nesse pano, o rosto também. Então, é colocada de pé num buraco fundo e coberta de terra até o peito, no caso das mulheres, e até a cintura, no caso dos homens. Dependendo da condenação, é o juiz quem atira a primeira pedra. Mas pode ser também uma das teste-munhas. Se a vítima é uma mulher sentenciada por adultério, por exemplo, tanto o seu marido quanto a família dele podem lançar as primeiras pedras. A lei diz que elas têm de ser grandes o suficiente para machucar a vítima, mas não para matá-la no primeiro ou segundo golpe.

Quanto tempo ela leva?
Pode levar quinze minutos, pode levar mais de uma hora. Um médico fica no local para, de tempos em tempos, verificar se o apedrejado ainda está vivo. Até o fim dos anos 80, o apedrejamento no Irã era um ritual público - assim ordenava a lei. O horário e o local eram anunciados no rádio, nos jornais e na TV. Qualquer um podia comparecer. Mas houve alguns episódios em que as pessoas se manifestaram contra a prática. Num deles, chegaram a atirar pedras contra os mulás presentes. Em 1997, na cidade de Bukan, o apedrejamento de uma mulher acusada de adultério acabou suspenso devido aos protestos e à interferência da multidão. A mulher - seu nome é Zoleykhah Kadkhoda - foi levada ao hospital quase morta, mas sobreviveu e está viva até hoje. Depois disso, as execuções passaram a ser fechadas. Agora, a polícia religiosa é que atira as pedras.

Quantas pessoas estão condenadas ao apedrejamento hoje no Irã?
Mais de 100 pessoas já foram mortas dessa forma pelo estado desde 1979 e outras 27 aguardam na fila.

A presidente do Brasil, Dilma Rousseff, posicionou-se publicamente contra a prática do apedrejamento, que classificou de barbárie. Qual a expectativa que a senhora tem desse novo governo?
O que eu espero da presidente Dilma é que ela faça o que seu antecessor não fez: que condene a situação dos direitos humanos no Irã e se recuse a manter relações diplomáticas com um regime assassino como o de Ahmadinejad, a quem Lula chamava de “amigo”.

A senhora foi perseguida pelo regime do xá Reza Pahlevi por suas atividades como líder estudantil. Com a Revolução Islâmica, tornou-se alvo dos aiatolás ao liderar um movimento contra o uso obrigatório do véu...
Sim, sim, mas não há comparação. Como líder estudantil em Tabriz, tive problemas durante o regime do xá: não podia ler alguns livros, dizer algumas coisas, tinha de me apresentar de tempos em tempos à polícia, mas era, por assim dizer, um jogo com regras claras. Com Khomeini, no entanto (o aiatolá Ruhollah Khomeini, líder do movimento que, em 1979, derrubou a monarquia iraniana e instalou a teocracia no país), tudo ficou muito mais brutal. Ele criou a Guarda Revolucionária, uma milícia cruel e impiedosa, principalmente para com as mulheres. Tínhamos de escolher entre o véu e as chibatadas. Quando fizemos essa manifestação contra o uso do véu, tudo transcorreu sem incidentes. Mas, no dia seguinte, quando cheguei à faculdade onde estudava medicina, não pude entrar. Havia um soldado da Guarda com uma lista de nomes de alunos que tinham sido expulsos. Eu cursava o último ano da faculdade, já trabalhava no hospital da universidade e não pude me formar.

Foi então que a senhora se exilou na Europa?
Não. Meu marido não foi expulso como eu e continuou seus estudos de física. Eu passei a trabalhar como operária na fábrica da Pepsi e, à noite, escrevia panfletos contra o regime. Tinha uma máquina de datilografar muito velha que fazia um tremendo barulho. Era preciso vedar a porta e a janela do nosso apartamento para poder bater os textos de modo a não chamar a atenção dos vizinhos. Um dia, quando voltava da fábrica para casa, vi um membro da Guarda parado em frente ao meu prédio. Dei meia-volta e não entrei. Eles levaram meu marido e cinco outras pessoas do nosso grupo que estavam hospedadas em casa, três homens e duas mulheres. Tirando as mulheres, que foram libertadas mais tarde, todos foram executados, inclusive meu marido. Eu consegui fugir para Teerã e, de lá, fui para o Curdistão. Depois, como asilada política, morei seis anos em Viena, na Áustria. Estou há catorze anos na Alemanha.

Aqui, na Alemanha, a senhora criou um comitê para muçulmanos que renunciaram à fé islâmica, o que lhe rende ameaças de morte até hoje. O que a motivou a fazer isso?
Acredito que, como eu, muitos imigrantes de países muçulmanos vieram para cá em busca de uma vida melhor, o que inclui mais liberdade. E essas pessoas não precisam estar fadadas a viver em uma sociedade paralela, em que as crianças não podem ter amigos de outro sexo ou frequentar aulas de natação por causa de uma religião na qual, eventualmente, elas não acreditam mais. O que nós queremos é romper esse tabu, é apoiar as pessoas na decisão de libertar-se desse Islã que se voltou contra os muçulmanos.

A senhora se considera uma ex-muçulmana?
Sim, desde os 15 anos, quando deixei de fazer minhas preces. Nas últimas décadas, em muitos lugares, o islamismo tornou-se uma ferramenta de manipulação política, e não uma religião restrita à esfera privada. Há muito tempo esse Islã deixou de fazer sentido. Hoje, para mim, ele significa apenas barbárie e crueldade.

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