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segunda-feira, 23 de maio de 2016

O pequeno país sul-americano que tem o maior índice de suicídios do mundo

Em um pequeno estande da GuyExpo, a principal feira da Guiana, o Escritório de Pesticidas e Produtos Químicos Tóxicos, uma agência do governo, tenta atrair visitantes.
Um armário com recipientes de vidro contendo líquidos borbulhantes com as cores da bandeira do país (vermelho, preto, verde, branco e amarelo) chama atenção.
Alguns chegam e pegam folhetos que alertam: "Lembre-se! Guardar os pesticidas em local adequado pode salvar vidas".
Em meio à excitação e ao otimismo com a feira, que faz parte das comemorações do 50º aniversário da independência da Guiana, o estande é um lembrete das muitas vidas que foram ceifadas no país devido à ingestão de venenos, herbicidas e pesticidas de fácil acesso.
Localizada no litoral norte da América do Sul, a Guiana é um país pequeno com uma população diversificada de pouco mais de 750 mil habitantes. Mas também possui a maior taxa proporcional de suicídio do mundo.
A OMS (Organização Mundial da Saúde) estima que 44,2 em cada 100 mil pessoas se matam na ex-colônia britânica (no Brasil, esse índice é de 5,8 pessoas por 100 mil habitantes).
Como uma prisão: assim é a Unidade Psiquiátrica do hospital da capital, Georgetown (Foto: BBC Mundo)Como uma prisão: assim é a Unidade Psiquiátrica do hospital da capital, Georgetown (Foto: BBC Mundo)
Estigma
"Ninguém sabe o número exato de suicídios", ressalva à BBC William Adu-Krow, representante da OPAS (Organização Pan-Americana da Saúde) e da OMS na Guiana.

"Além disso, acredito que esse número seja subestimado. Por causa do estigma que envolve o suicídio, o paciente que tenta tirar a própria vida não diz que tomou veneno, por exemplo, mas, quando chega ao hospital, fala que se sentiu mal e não consegue respirar."
Bibi Ahamad: "O suicídio é um grande tabu na Guiana" (Foto: BBC Mundo)Bibi Ahamad: "O suicídio é um grande tabu na Guiana" (Foto: BBC Mundo)
Na ausência de um centro toxicológico no país, a obtenção de dados confiáveis é ainda mais difícil.
"O suicídio é um grande tabu aqui", diz Bibi Ahamad, vice-presidente da filial guianense da ONG La Voz del Caribe, com sede em Nova York.
A ONG usa redes sociais e programas de mensagem como o WhatsApp para se comunicar com pessoas que entram em contato em busca de conselhos e apoio psicológico.
"O número de tentativas de suicídio é muito, muito alto. Por exemplo, falei com uma adolescente que havia tentado se matar seis vezes, mas ninguém lhe ofereceu ajuda, ninguém prestou atenção no caso dela", explica Ahamad.
Autoridades guianenses reconheceram como "vergonhosa" atenção dada à saúde mental da população (Foto: BBC Mundo)Autoridades guianenses reconheceram como "vergonhosa" atenção dada à saúde mental da população (Foto: BBC Mundo)
Razões
Um dos casos mais famosos no país foi o do comediante Kirk "Chow Pow" Jardine, que sobreviveu a uma tentativa de suicídio.

"Fui viciado em drogas por 21 anos e perdi o interesse na vida em determinado momento", disse ele à BBC. "Pensei que todos os meus problemas tinham ficado maiores do que eu".
Mas Jardine procurou ajuda e se submeteu a um processo de reabilitação, dando a volta por cima.
"Hoje sou o principal comediante da Guiana. E em vez de lágrimas, faço as pessoas sorrirem", diz.
Mas ele é um dos poucos que têm sorte. Com poucos estudos disponíveis, estabelecer as razões por trás da alta taxa de suicídio é difícil.
Um levantamento feito com sobreviventes de suicídio no hospital público de Georgetown, capital do país, constatou que os principais fatores são geralmente desavenças familiares, problemas de relacionamento e violência doméstica.
Outros mencionam a pressão dos colegas, o preconceito contra a comunidade LGBT, a pobreza, a desigualdade no acesso à educação e à saúde, e até mesmo a glorificação do suicídio em filmes e novelas da Índia, o chamado "efeito de Bollywood" (mais de 65% dos casos ocorrem dentro da comunidade de imigrantes indianos).
"No ano passado, nós (na Voz del Caribe) nos concentramos principalmente em ações de sensibilização para os sinais de alerta, mitos e desinformação", diz Ahamad.
"Mas decidimos focar em questões como alcoolismo e dependência de drogas, estupro, incesto e gravidez na adolescência".
'Manicômio'
Porém, o sistema de saúde mental na Guiana é, segundo a OMS, "fragmentado, pobre em recursos e não está integrado à rede global de cuidados de saúde."

 Sistema de Saúde Pública não oferece apoio a suicidas potenciais (Foto: BBC Mundo)Sistema de Saúde Pública não oferece apoio a suicidas potenciais (Foto: BBC Mundo)
A Guiana possui apenas cinco psiquiatras e um hospital psiquiátrico, que está localizado em East Berbice-Corentyne, a região com a maior taxa de suicídio no país.
Fundado pelo governo britânico em 1867 inicialmente como um "hospício", o Hospital Psiquiátrico Nacional enfrenta escassez de recursos. O ministro de Saúde Pública, George Norton, que é médico, descreveu o estado do hospital como "vergonhoso" depois de visitá-lo no ano passado.
Há também uma pequena unidade psiquiátrica no Hospital Público de Georgetown, que não está em melhor situação.
Jovens vulneráveis
A dimensão da crise é significativa, principalmente entre os jovens.

Segundo o Ministério da Saúde Púbica, entre 2006 e 2008, o suicídio foi a principal causa de morte entre os guianenses com idade entre 15 e 24 anos.
"Acredito que uma das razões é que eles não têm com quem falar sobre seus problemas", diz à BBC Mundo, o serviço em espanhol da BBC, Daniel Ali, estudante de medicina que coordena oficinas de prevenção de suicídio em escolas junto a professores e alunos. O trabalho é desenvolvido em colaboração com a ONG Give Foundation Guyana.
"Eles têm muita dificuldade em confiar em alguém. Eles têm medo de que a primeira coisa que vão ouvir é 'por que você está tentando fazer isso consigo mesmo?'. Eles temem o estigma e a discriminação", afirma.
"O outro problema é a questão da confidencialidade. Eles se preocupam que suas vidas privadas se tornem público".
Imprensa
Com frequência, a imprensa da Guiana é acusada de ser excessivamente dramática e insensível em sua cobertura sobre o suicídio e outras doença mentais.

"Todos os dias a imprensa relata suicídios em detalhes e o que as vítimas fizeram antes de tirarem a própria vida", conta à BBC Mundo Jorge Balseiro, psiquiatra do Hospital Público de Georgetown.
Em novembro do ano passado, quando as autoridades descobriram corpos de um casal após um aparente pacto suicida, vários meios de comunicação publicaram fotos da cena, nas proximidades de uma praia.
Balseiro defende que o jornalismo mude a cobertura dos casos de suicídio (Foto: BBC Mundo)Balseiro defende que o jornalismo mude a cobertura dos casos de suicídio (Foto: BBC Mundo)
Balseiro diz esperar que a imprensa possa ajudar a prevenir suicídios promovendo um jornalismo mais responsável na Guiana, seguindo uma normativa recente da OPAS.
No entanto, mais do que um maior compromisso dos meios de comunicação, o governo espera concretizar dois planos: a Estratégia 2015-2020 de Saúde Mental e o Plano Nacional de Prevenção do Suicídio.
"A ideia é trazer a questão da saúde mental de dentro das instituições centrais para a comunidade e divulgar cuidados primários de saúde", diz à BBC Mundo Leslyn Holder, uma das coordenadoras do novo Departamento de Saúde Mental, criado há apenas um mês.
Os planos também incluem uma melhor formação de médicos e enfermeiros, e ter mais funcionários dedicados exclusivamente à questão da saúde mental e suicídio em um maior número de instituições.
"Estamos começando do zero", disse Holder, "o que não é necessariamente uma coisa ruim."
Dúvidas
No entanto, a tarefa não será fácil.

"Durante muito tempo, o nosso silêncio criou um ambiente no qual o governo anunciava planos grandiosos para enfrentar a crise de saúde mental na Guiana e nada saía do papel", diz em seu blog Anthony Autar, advogado especializado em direitos de pessoas que sofrem de transtornos mentais.
Uma das medidas práticas que têm sido tomadas é a criação de uma linha telefônica exclusiva para potenciais suicidas.
O serviço, que funciona 24 horas por dia, é gerido pela Polícia Nacional, que afirma ter tido uma "taxa de sucesso de 100%" em respostas e encaminhamentos a especialistas.
Leslyn Holder, da recém-criada Secretaria de Saúde Mental: 'Estamos começando do zero' (Foto: BBC Mundo)Leslyn Holder, da recém-criada Secretaria de Saúde Mental: 'Estamos começando do zero' (Foto: BBC Mundo)
Crime
O problema é que o suicídio ainda é "uma ofensa criminal na Guiana", assinala à BBC Mundo a sargento da polícia Sherry Mason.

"Mas entendemos que não podemos criminalizar a pessoa que tenta tirar a própria vida. Em contrapartida, precisamos estender-lhe a mão".
A atual miss Guiana, Lisa Punch, que em 2012 fundou a ONG Prevention (POTS, na sigla em inglês), voltada para adolescentes suicidas, fez campanha para aumentar o número de conselheiros nas escolas.
"O governo está enviando conselheiros para várias escolas, mas não o suficiente. (...) Seria melhor que cada escola tivesse um", defende ela. "Os jovens precisam de alguém em quem possam confiar, com quem possam conversar, alguém que diga que tudo está bem, que algumas crises podem ser parte do processo de envelhecimento, porque às vezes você acha que é a única pessoa que passa por algo do tipo."

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Zika deverá se espalhar pelas Américas, adverte OMS


Zika nas Américas
A Organização Mundial de Saúde (OMS) acredita que o vírus zika se espalhará por todo o continente americano. Até agora, 21 países, sobretudo o Brasil, já registraram casos do vírus desde maio.
Segundo a OMS, a falta de imunidade natural nas Américas seria um dos fatores determinantes para a velocidade com que o vírus está se espalhando.
Em um comunicado oficial, a Organização Pan-Americana de Saúde (Opas), braço continental da OMS, afirmou que a doença só não atingirá os países em que não há presença do Aedes aegypti - o Chile e o Canadá.
"A Opas prevê que o vírus zika continuará a avançar e provavelmente alcançará todos os países e territórios na região onde mosquitos Aedes são encontrados", diz a organização.
Isto, porém, apenas se epidemiologistas não confirmarem a possibilidade de transmissão sexual do vírus: a Opas confirmou que o zika foi detectado em amostras de sêmen e diz haver o que chamou de pelo menos um possível caso de transmissão sexual - mas a entidade diz que ainda são necessárias mais evidências dessa forma de transmissão.
Gestantes 'especialmente cuidadosas'
A Opas engrossou o coro de entidades preocupadas com os casos de microcefalia associados ao zika e recomendou que gestantes "sejam especialmente cuidadosas" e consultem um médico antes de visitar áreas afetadas pelo vírus - ainda que os médicos não disponham de informações adicionais que possam embasar qualquer decisão.
Nos últimos dias, autoridades de saúde de Colômbia, Equador, El Salvador e Jamaica emitiram comunicados recomendando que mulheres adiassem os planos de engravidar - os salvadorenhos, por exemplo, querem moratória até 2018.
Microcefalia
Os sintomas mais comuns da zika são febre e erupção cutânea ou urticária, muitas vezes acompanhados por conjuntivite, dores musculares ou nas articulações. O mal-estar começa entre dois e sete dias após a picada de um mosquito infectado.
Mas cerca de 80% das infecções pelo zika são assintomáticas, o que também dificulta o diagnóstico.
No Brasil, estão sendo investigados cerca de 4 mil casos suspeitos de bebês que podem ter microcefalia associada à infecção com o vírus zika nas mulheres grávidas.

sábado, 27 de dezembro de 2014

Brasil perdeu mais de 1.100 línguas indígenas em 500 anos

Índios guarani recebem título de Língua de Referência Cultural Brasileira
Índios guarani recebem título de Língua de Referência Cultural Brasileira
José Ribamar Bessa Freire - http://noticias.terra.com.br/
A cada quinze dias acontece uma morte. Dizem que cortam a língua da vítima com requintes de crueldade. O cadáver desaparece misteriosamente sem deixar vestígio. Daqui até o Natal haverá mais dois assassinatos em algum lugar do mundo, segundo previsão do investigador irlandês David Crystal, que busca pistas para explicar tantos crimes. Nenhum organismo policial, nacional ou estrangeiro, identificou até hoje os assassinos. Um seminário realizado em Foz do Iguaçu (PR), nesta semana, reuniu autoridades e especialistas da América Latina para discutir, entre outras questões, como evitar essas mortes consideradas crime contra  a humanidade.
Parece que os assassinos se inspiram em Genghis Khan que no século XIII, de forma indulgente, poupava a vida dos prisioneiros de guerra, a quem deixava retornar em liberdade às suas casas. No entanto, para impedir que batessem com a língua nos dentes e passassem informações ao inimigo, cortava suas línguas. Daí a origem do provérbio mongol “Quem tem língua cortada não fala.”
A mutilação praticada pelo exército mongol continua sendo feita simbolicamente no planeta. O crime é justamente esse: o glotocídio. Cada quinze dias morre o ultimo falante de uma das 6.700 línguas faladas atualmente em 193 países. Com ele desaparece para sempre mais uma língua.
Com o objetivo de criar estratégias para fortalecer as línguas ameaçadas na América Latina, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) e o Ministério da Cultura organizaram nesta semana, de 17 a 20 de novembro, em Foz do Iguaçu, um encontro de autoridades e de alteridades no Seminário Ibero-americano da Diversidade Linguística, que reuniu mais de 400 pessoas comprometidas com a luta pelos direitos linguísticos das minorias. Participaram dos debates linguistas, historiadores, antropólogos, falantes de línguas indígenas e de línguas minoritárias de migração, além da Língua Brasileira de Sinais (Libras).
Durante o evento foi entregue o certificado das três primeiras línguas reconhecidas como referência cultural brasileira pelo Iphan: o guarani, falado também em outros países do Mercosul, o Assurini do Trocará, língua falada nas margens do Rio Tocantins (PA) e que quase desaparece afogada na hidroelétrica de Tucuruí e o Talián – vinda com os migrantes do norte da Itália e que hoje é falada no sul do Brasil. Essas três línguas, depois de terem sido cuidadosamente documentadas, fazem parte agora do Inventário Nacional da Diversidade Linguística (Indl).
Línguas minorizadas
O reconhecimento de uma língua como referência cultural requer que ela seja falada em território brasileiro há pelo menos três gerações e que seus falantes solicitem ao Iphan o pedido de inclusão no Indl, que é então analisado por uma comissão técnica interministerial. Esse caminho pode ser seguido por mais de 300 línguas faladas no Brasil, entre elas as línguas indígenas, que são autóctones e estão aqui enraizadas, e as línguas alóctones que vieram para o Brasil trazidas por migrantes. Das línguas indígenas apenas 11 têm acima de cinco mil falantes, o que significa que a maioria corre sério risco de extinção.
Essas línguas chamadas minoritárias foram minorizadas no processo histórico, ficando com número reduzido de falantes: apenas 5% da população do planeta. No entanto, elas constituem maioria expressiva se considerarmos a quantidade de línguas faladas no mundo inteiro por tais minorias, que representam 95% das línguas existentes no Atlas Linguístico Mundial, 15% das quais em continente americano. Portanto, os direitos linguísticos reivindicados se referem a uma minoria de falantes, mas também à maioria das línguas existentes no mundo que garantem a manutenção da glotodiversidade.
O que é, afinal, que se quer com a defesa da diversidade linguística? Já seria plenamente justificável lutar exclusivamente pelos direitos legítimos das minorias de continuarem pensando, cantando, amando, narrando, trabalhando e sonhando em suas línguas, mas essa luta ganha força quando sabemos que ela inclui a sobrevivência das próprias línguas, que só seus falantes podem garantir. Muitas espécies vivas de plantas e de animais que estão em perigo são conhecidas apenas por determinados povos cujas línguas – que produziram e armazenam tais conhecimentos – são consideradas moribundas e estão ameaçadas de extinção.
O linguista Aryon Rodrigues, depois de esboçar um panorama das línguas indígenas da Amazônia, concluiu que nelas se encontram fenômenos fonéticos, gramaticais, de construção do discurso e de uso das línguas, que não se encontram em línguas de outras partes do mundo. Daí a preocupação de mantê-las vivas. Essas línguas constituem, junto com o material arqueológico disponível, as pistas que melhor nos informam sobre a ocupação do território americano, datas e movimentos migratórios.
A sobrevivência das línguas ditas minoritárias interessa, portanto, não apenas aos seus falantes, mas ao conjunto da humanidade, pois está relacionada à preservação da biodiversidade. A diversidade linguística se torna assim tão vital para a sobrevivência da espécie humana quanto à diversidade biológica.
O glotocídio
Segundo David Crystal em seu livro "A revolução da linguagem”, hoje, no planeta, ainda são faladas 6.700 línguas, mas a situação é dramática, porque em média, uma língua desaparece a cada duas semanas. Línguas morrem, o que é natural. O preocupante, para ele, é a velocidade da perda que está se fazendo sem precedentes na história escrita, decretando morte prematura, um glotocídio anunciado.
- Uma língua começa a desaparecer quando seus falantes são expulsos de suas terras ou quando a comunidade, por essa e por outras razões, perde o desejo de preservá-la, diz Crystal, para quem se uma língua que nunca foi documentada morre, é como se jamais tivesse existido, porque não deixa qualquer vestígio. E uma língua morre – diz ele – quando o penúltimo falante desaparece, pois então o último já não tem mais ninguém com quem conversar.
No seminário foi lembrado o drama recente de dois índios. Um deles – Tikuein – único falante da língua Xetá, vivia na aldeia São Jerônimo, norte do Paraná, com índios Kaingang e Guarani. Como estratégia para manter a língua viva, ele falava com o espelho e algumas vezes, caminhando pela aldeia, com um interlocutor fictício – leia a crônica "O homem que falava com o espelho"
O outro caso foi registrado em 1978 por Zelito Viana no filme Terra de Índio. Ele gravou dona Maria Rosa, que vivia no Posto Indígena Icatu (SP) e era ali a única falante da língua Ofaié Xavante. Quando a fez escutar o que ela mesma havia dito, dona Maria Rosa estabeleceu um  diálogo com o gravador, a quem perguntou por seu pai, por sua mãe e no final se despediu do aparelho dizendo: "Até logo, agora não falo mais porque estou rouca, viu?".
A extinção é um risco permanente para as línguas minoritárias, principalmente as indígenas, devido ao reduzido número de falantes e ao uso social restrito. Não existe literatura escrita nessas línguas, nem espaço na mídia. Em cinco séculos, nessas condições, mais de 1.100 línguas indígenas desapareceram do mapa do Brasil e outras tantas do continente americano, levando com elas conhecimentos, cantos, rezas, narrativas, poesia, mitos, afetos.
O jesuíta João Daniel, no seu "Tesouro Descoberto do Rio das Amazonas", com distanciamento crítico, conta como um missionário espancou uma índia do Marajó com bolos de palmatória dizendo: "Só paro de bater quando você disser "basta", mas não na tua língua". Ela calou. Suas mãos sangraram. Ele concluiu que as mulheres – a quem talvez o mundo deva a preservação de muitas línguas – eram mais resistentes que os homens, que migravam de uma língua a outra com mais frequência. Desta forma, centenas e centenas de línguas foram extirpadas a ferro e fogo.
Inventário de Línguas
O Inventário Nacional da Diversidade Linguística Brasileira (INDL) criado por Decreto Federal de 2010 tem o objetivo de conhecer e fortalecer as línguas minoritárias. Ele dialoga com a Carta Europeia sobre as Línguas Regionais ou Minoritárias (1992) e a Declaração Universal para a Promoção da Diversidade Cultural – Unesco (2005), além da Declaração Universal dos Direitos Linguísticos (1996) de Barcelona, que surgiu das comunidades linguísticas e não dos Estados nacionais.
No Brasil, existem vários projetos destinados a identificar, documentar, reconhecer  e valorizar as línguas portadoras de referência à identidade como o PRODOCLIN, do Museu do Índio, que documentou cerca de 20 línguas e culturas indígenas e projetos do Museu Goeldi e do Laboratório de Línguas da UnB, entre outros.
Reconhecer essas línguas não é simplesmente aceitar formalmente a sua existência, mas considerá-las parte da nossa história. Como escreveu Bartolomeu Meliá, que fez a conferência final, "a história da América é também a história de suas línguas, que temos de lamentar quando já mortas, que temos de visitar e cuidar quando doentes, que podemos celebrar com alegres cantos de vida quando faladas".

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Relatório da ONU aponta aumento do número de indígenas na América Latina

índios
           índios Arquivo/Elza Fiúza/Agência Brasil
http://agenciabrasil.ebc.com.br/

A América Latina tem cerca de 45 milhões de indígenas em 826 comunidades que representam 8,3% da população, revela o relatório Povos Indígenas na América Latina: Progressos da Última Década e Desafios para Garantir seus Direitos. O documento da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal) foi apresentado hoje (22), na sede das Nações Unidas, em Nova York, onde ocorre a 1ª Conferência Mundial sobre os Povos Indígenas.

Segundo a Cepal, o número de 45 milhões de indígenas em 2010 representa aumento de 49,3% em dez anos. Em relatório de 2007, a Cepal estimou que havia 30 milhões de indígenas no ano de 2000 na América Latina, quando foram identificados 642 povos. A Cepal atribui esse aumento à melhoria da informação estatística nos últimos anos e à maior autoidentificação por parte dos povos em sua luta por reconhecimento.

O relatório mostra que, dos 45 milhões de indígenas, 17 milhões vivem no México e 7 milhões, no Peru. Entretanto, os países com maior proporção de população indígena são Bolívia (62,2%), Guatemala (41%), Peru (24,0%) e México (15,1%).

O Brasil, com 900 mil indígenas, tem o maior número de comunidades (305), seguido pela Colômbia (102), Peru (85), México (78) e Bolívia (39). De acordo com o estudo, muitas estão em perigo de desaparecimento físico ou cultural, como no Brasil (70 povos em risco), na Colômbia (35) e na Bolívia (13).

A Cepal estima ainda que existem 200 povos indígenas em isolamento voluntário na Bolívia, no Brasil, na Colômbia, no Equador, no Paraguai, no Peru e na Venezuela.

O estudo indica que têm ocorrido avanços na maioria dos países da região em relação ao reconhecimento dos direitos territoriais, principalmente na demarcação e titulação de terras, mas permanecem importantes desafios relacionados com o controle territorial, incluindo os recursos naturais. Por este motivo, foram detectados, entre 2010 e 2013, mais de 200 conflitos em territórios indígenas ligados a atividades extrativas de petróleo, gás e mineração.

“Os movimentos indígenas estão cada vez mais atuantes e governos e setor privado têm negociado cada vez mais com eles. É preciso fortalecer o marco legal e institucional dos países para incluir os indígenas”, disse a secretária executiva da Cepal, Alicia Bárcena. Para ela, as comunidades devem ser consultadas na questão da governança dos recursos naturais.

A Cepal observou também aumento da participação política dos indígenas, com um contínuo fortalecimento de suas organizações e o estabelecimento de alianças para a atuação política, mas permanece escassa a representação desses povos em órgãos dos Poderes do Estado.

Em educação, a Cepal constatou aumento nas taxas de frequência escolar, com porcentagens de comparecimento entre 82% e 99% para crianças de 6 a 11 anos. Segundo o relatório, persistem, entretanto, diferenças significativas na conclusão do ensino médio e no acesso aos níveis superiores em relação aos indicadores da população não indígena.

sábado, 9 de abril de 2011

A vida no meio da Amazônia

A mata inóspita, as cidades que mudam de lugar, os eletrodomésticos que não funcionam, o som das motosserras – e o bom humor dos ribeirinhos
FREDERICO JUNQUEIRA - http://revistaepoca.globo.com
Frederico Junqueira
CASA CHEIA 
Moradores em uma casa alagada na Amazônia. A floresta é tão inóspita que só é possível viver ao longo dos rios, sempre sujeitos a inundações
“Mar de água doce.” Foi assim que Vincente Pinzón, o primeiro explorador a registrar uma viagem à região amazônica, em 1500, chamou o que hoje sabemos ser a foz do Rio Amazonas. E olha que ele não havia entrado nem 1 quilômetro rio adentro. Imagine como ele chamaria a região se tivesse vislumbrado o tamanho do Amazonas desde sua origem na Cordilheira dos Andes ou da selva que cerca os rios da região. Hoje em dia, todo o mundo já ouviu falar da imensidão da Amazônia, embora poucos conheçam a floresta e seus rios com intimidade.

Frederico Junqueira
VIDAS MOLHADAS 
Ribeirinhos andam de barco no Rio Purus
Para os que se aventuram a visitá-la, a força e a beleza da Amazônia aparecem já ao primeiro olhar da janela do avião: é um imenso mar verde, formado pela copa das árvores. Essa imagem levou as pessoas, por muitos anos, à falsa ideia de que o terreno na Amazônia era plano. Para outros visitantes, a força da Amazônia é vislumbrada logo em Manaus, no encontro das águas dos rios Negro e Solimões. A luta permanente das águas cor de barro do Solimões, s nitidamente contrastadas das águas escuras do Rio Negro, dura quase 7 quilômetros, até que ambos se rendem, finalmente se juntando e fluindo em direção ao mar com um só nome, o do maior rio em volume do mundo, o Rio Amazonas.
O que me fez despertar para a imensidão amazônica não foi nenhum desses dois marcos. Foi andar 50 metros mata adentro, a quase 1.000 quilômetros de distância de Manaus, fechar meus olhos e, após girar algumas vezes e abri-los novamente, não ter ideia alguma da direção da margem do rio, onde havia começado minha caminhada. Talvez eu fosse me perder e desaparecer para sempre, como tantos exploradores sem sorte ou mal preparados que por ali andaram. Isso se não fosse um sargento da Marinha do Brasil me gritando da margem do rio, como havíamos combinado.
Frederico Junqueira
Uma casa sobre troncos, feita para mover-se de acordo com o humor do rio
Eu estava na Amazônia a convite da Marinha, embarcado em um de seus cinco navios-hospitais. Há 27 anos esses navios circulam por toda a região amazônica e do Pantanal, dando à população ribeirinha tratamento médico, dentário e vacinas. Eu estava acompanhando a missão do Navio Assistência Hospitalar (NAsH) Carlos Chagas, que navegava pelo Rio Purus, em uma missão diferente das outras: ajudar as vítimas das enchentes de 2009, a maior em quase 60 anos. E também porque aquele era o Rio Purus, um rio especial – além de ser considerado o mais sinuoso do mundo, é um dos mais pobres do Estado.
A Amazônia ocupa 60% do território nacional. Metade do continente europeu caberia na Amazônia, com espaço de sobra. Sozinha, ela seria o sexto maior país em área no mundo. São centenas de rios e milhares de furos, pequenos canais entre rios que abrem e fecham a cada temporada de cheia, que são as ruas e estradas da região. Essas estradas podem mudar de local a cada ano, pois a cada cheia a água traça novos caminhos.
Frederico Junqueira
Um orelhão – praticamente um objeto de decoração nos vilarejos
Ao longo dos anos, esses furos vão mudando o trajeto percorrido pelos rios (que, quanto mais antigos, menos sinuosos são). A Amazônia é um lugar tão inóspito e misterioso que a maioria de sua população, ribeirinhos e índios, mora nas margens ou perto das margens dos rios. Os caminhos aquáticos são praticamente a única forma de transporte entre as pequenas comunidades que povoam os rios e as cidades maiores, aquelas com 1.000 habitantes ou mais, onde existe a chance de encontrar uma linha de telefone, luz elétrica e, raramente, uma pista de pouso para pequenos aviões. Não fosse pelas TVs e pelos rádios nas casas de alguns ribeirinhos, seria fácil achar que você retornou ao início do século XX.
Os eletrodomésticos funcionam apenas como decoração na maioria dos casos, pois as poucas pequenas comunidades com geradores a diesel normalmente têm muita dificuldade para conseguir o combustível. A presença do governo brasileiro, com exceção das áreas de fronteiras e cidades maiores, normalmente é limitada a um cidadão local designado como “agente de saúde”, que possui alguns remédios e purificadores de água para distribuir. Fora isso, a Marinha costuma ser a única representação do governo encontrada por muitos ribeirinhos em um ano.
Frederico Junqueira
Panelas areadas, um ponto de honra para as mulheres
Só nas cidades maiores se encontram, por exemplo, a polícia e o Poder Judiciário. E, como me disse o delegado de uma cidade de 5 mil habitantes à margem do Rio Negro, o tráfico de drogas é atuante, mas, para tomar qualquer atitude, ele precisa pedir socorro a Manaus, pois só conta com meia dúzia de policiais militares. Nas pequenas comunidades à margem dos rios menores, a Justiça é administrada pelos próprios moradores.
Surpreendentemente, até desertos podem ser lugares menos inóspitos que os rios e a selva amazônica. Isso ficou claro em uma missão de reconhecimento a uma pequena comunidade. Nossa lancha rápida teve uma pane no motor por alguns minutos, o suficiente para que a forte corrente nos jogasse contra algumas árvores de troncos vermelhos à margem do rio.
A cor vermelha, descobrimos então, era formada por milhares de formigas – que invadiram nosso barco. Depois de jogar muita água para dentro, usar os remos e um extintor de incêndio, achamos que tínhamos nos livrado das formigas. Mas horas depois elas ainda eram encontradas nos macacões e coletes salva-vidas. Muitos rios são propícios a um mergulho, mas na maioria deles a natação não é exatamente recomendada. Os perigos vão de piranhas, cobras (como as sucuris) e jacarés até, incrivelmente, tubarões. Um tubarão-cabeça-chata, ou tubarão-touro, já foi avistado no Rio Solimões, a mais de 2.000 quilômetros do mar.
Até desertos podem ser lugares menos inóspitos que os rios e a selva amazônica
A vida dos ribeirinhos
Nas pequenas comunidades à margem do rio, era comum encontrar os poucos homens das comunidades sentados nas varandas, conversando sobre a pescaria ou a caça da manhã (embora seja quase impossível caçar durante as cheias). Enquanto isso, as mulheres fazem a maior parte do trabalho. Elas mantêm a casa limpa, cuidam das pequenas hortas e areiam as panelas – o que é um ponto de orgulho. Em todas as casas que visitei, as panelas estavam sempre brilhando. Uma de suas principais funções é tomar conta do elevado número de filhos. Em todas as pequenas comunidades que ajudamos à margem do Rio Purus, só encontrei duas meninas de 15 anos que não estavam grávidas ou não tinham filhos. Uma delas, vestida sensualmente, na comunidade de 150 pessoas, não sabia me dizer por que não tinha engravidado ainda. A outra, vi levando uma bronca da avó, mãe de nove filhos, por não ter “prosperado” nenhuma criança. Nas comunidades maiores, as cidades da região, a situação era um pouco diferente. Mesmo assim é comum encontrar mulheres que ficaram grávidas pela primeira vez aos 14 anos. Em alguns casos, aos 12 ou 13.

Uma ribeirinha típica da região é Evanira de Souza, uma mulher simpática e alegre, de 28 anos, que não sabe ler nem escrever e estava em sua nona gravidez. Três filhos haviam morrido no fim da gravidez ou logo após o parto. Tendo carregado tanto peso no corpo, não foi surpresa que ela reclamasse de fortes dores nas costas para os médicos da Marinha. Enquanto conversávamos, dona Evanira segurava o bebê de outra mulher no colo, com um pedaço de papel grudado em sua testa. Era uma cura para o soluço. s A avó do bebê, de 59 anos, teve de perguntar ao filho qual era seu sobrenome e sua idade, pois não se lembrava. Em outra comunidade, um bebê de 1 ano e dois meses não tinha nome. O pai havia avisado a mãe que iria dar o nome do filho, mas saíra de casa antes do nascimento e ainda não voltara. Assim, a mãe e a avó do bebê o chamavam apenas de “bebê”. Outra mãe, com oito filhos, cuidava de mais duas crianças, porque seus pais “não as queriam mais”.
Vi uma menina de 15 anos levando bronca da avó por não ter “prosperado” nenhuma criança
Certo dia, entramos em um furo no rio com as lanchas rápidas do Carlos Chagas, procurando uma comunidade da qual não sabíamos o nome. Até então os mapas a designavam como “Imediatópolis”, pois ela havia sido descoberta pelo imediato (ou subcomandante) de um dos navios-hospitais da Marinha no ano anterior. Nessa comunidade encontramos uma simpática e interessante família. O senhor Francisco de Lima e sua mulher, Maria Zulene, ambos com 45 anos, tinham 16 filhos, 22 netos e alguns bisnetos a caminho. Juntos, eles representam mais da metade dos habitantes de Imediatópolis. Dona Zulene estava em sua 17a gravidez. Seu Francisco vestia uma camisa do Vasco da Gama. Em grande parte da Amazônia, só se veem camisas e torcedores de dois times, os cariocas Vasco e Flamengo, mesmo sendo quase impossível ver os jogos fora das cidades maiores.
A motosserra na selva
Quando a equipe médica do Carlos Chagas se aproximava das comunidades à margem do rio, a reação mais normal era os moradores se aproximarem rapidamente, ao reconhecer o “pessoal da saúde da Marinha”. Para a maior parte dessas pessoas, a Marinha é a única chance de receber cuidado médico, dentário e vacinas. Em outras ocasiões, o medo da medicina moderna fazia com que moradores se recusassem a receber tratamento. Mais de uma vez vi moradores fecharem suas janelas, se escondendo, com medo das pessoas “do governo”. Esse medo era sempre vencido quando os moradores se asseguravam de que não eram os fiscais do Ibama e sim a equipe de saúde da Marinha.

Frederico JunqueiraFrederico Junqueira
CONTATO MÉDICO 
O tenente dentista Bruno Mauad ensina as crianças a escovar os dentes; a tenente médica Poliani Garcia examina um bebê e ajuda um parto. Em 18 dias de navegação, o navio da Marinha atendeu mais de 1.500 pessoas espalhadas ao longo do Rio Purus
Embora a região em volta do Purus seja uma das menos desmatadas da Amazônia, era comum cruzar no rio com barcos rebocando pequenas florestas flutuantes de toras de madeira, a caminho de virar valiosos móveis no mundo todo. Navegando grudado à margem, era possível escutar o barulho de motosserra e machados devorando a floresta. Os madeireiros se sentem protegidos pelo isolamento da região e pela própria selva.
O Carlos Chagas tem um helicóptero a bordo, que pode ser lançado para anotar as coordenadas do local, para posteriormente repassá-las ao Ibama – ou, em caso de drogas, à Polícia Federal. Mas há muito poucos agentes para fiscalizar tanta floresta. Lamentavelmente, atividades ilegais como a pesca do pirarucu fora de época ou o corte de árvores são das poucas opções para se manter na região. O escambo da madeira, dos peixes e animais caçados ilegalmente é realizado por intermédio de receptadores que circulam pelo rio e dão em troca botijões de gás, alguns litros de óleo diesel para os geradores ou poucos reais.
Um garoto caiu da árvore e foi perfurado por um galho. Só foi atendido 16 anos depois do acidente
As Nações Unidas, ONGs e institutos internacionais discutem a alternativa de pagar à população local para que conserve a floresta, mas é quase impossível fazer o dinheiro chegar a quem precisa. Na maioria das pequenas comunidades que visitamos, as pessoas não tinham documentos (para muitos, o documento é a carteira de vacinação) nem noção de seus direitos ou deveres. O isolamento é tão grande que muitos nem recebem o famoso Bolsa Família. Como um programa de distribuição de dinheiro poderia funcionar, a não ser em pequena escala e em locais específicos?
Navios da esperança
A tripulação normal do Carlos Chagas é de 40 pessoas, mas em todas as missões de ajuda às populações ribeirinhas a tripulação é acrescida de pelo menos três médicos, três dentistas, enfermeiros, um farmacêutico e um sargento fuzileiro naval do ramo de inteligência. A função do sargento é colher informações sobre as comunidades, tirar fotos e determinar se existem pessoas ou organizações estranhas trabalhando na área. Já houve, por exemplo, o caso de dois geólogos estrangeiros que, fingindo ser auxiliares de um padre, viviam na região. s


Fredrico Junqueira
DESBRAVADORES 
No alto., o Navio Assistência Hospitalar Carlos Chagas no Rio Purus. Os bancos de areia que mudam a cada ano exigem manobras perfeitas. Acima., o helicóptero do navio a caminho de uma comunidade
Em 2009 os NAsH completaram 25 anos de serviços à população ribeirinha na Amazônia e no Pantanal, 365 dias por ano. Apenas nos 18 dias em que o Carlos Chagas estava aberto para atendimentos nessa missão, em um rio esparsamente povoado, atendeu mais de 1.500 pessoas. Durante um ano, a Marinha presta serviço médico e dentário para mais de 150 mil moradores da região amazônica. A maioria dos médicos vem de São Paulo. Todos são voluntários e passam por um processo competitivo para que possam servir na Amazônia por, pelo menos, um ano.
Os navios-hospitais e patrulhas da Flotilha do Amazonas, como são conhecidos esses barcos, navegam entre 150 e 250 dias por ano, mais que todos os outros navios da Marinha. É normal que os militares fiquem vários anos embarcados na região. Por esse motivo, entre a tripulação do Carlos Chagas estava o marinheiro com mais “dias de mar” do Brasil, o suboficial Sandoval, um veterano de mais de 15 anos de serviço na Amazônia. “Parei de contar quando passei de 2 mil dias”, disse.
Para os oficiais, o serviço na região é uma oportunidade sem igual de adquirir experiência de navegação e comando. Navegar nos traiçoeiros rios da Amazônia, com pedras e bancos de areia que mudam a cada ano de acordo com as cheias, apresenta complicações bem diferentes da navegação em mar aberto. Os rios não deixam margem para erros ou manobras menos que perfeitas. Muitas vezes, enquanto acompanhava as manobras da ponte de comando do Carlos Chagas, vi os oficiais de serviço se recusando a ficar de costas para o rio, ou para a tela do radar, que é a única ferramenta de navegação noturna quando não é noite de lua cheia.
Essa área é tão peculiar que era comum os navios-hospitais chegarem ao local de uma suposta comunidade para descobrir que ela não existia mais – havia sido desmembrada em outras comunidades ou simplesmente sumido. Algo comum, assim como o aparecimento de novas comunidades, já que as casas à beira do rio costumam ser construídas sobre grandes troncos de madeira, transformando-as em flutuantes. As casas na beira do rio que não são flutuantes não costumam durar mais de uma temporada de cheia.
A vida no meio da mata
A vida nessa região, principalmente nas pequenas comunidades, é diferente de tudo o que se possa imaginar em uma grande cidade. Apenas alguns poucos lugares podem ser acessados por avião. Não existem estradas ligando as cidades aos vilarejos, o que é ruim para a população, mas ótimo para a preservação da floresta. O tempo de viagem entre cidades pode ser de dias, a não ser que seja feito nos “jatinhos”, os barcos com motores fortes que formam o transporte de luxo na região. Mas, à medida que Manaus vai ficando para trás, é bem mais difícil encontrar os jatinhos ou os barcos de transporte.

Nas comunidades menores, há sempre um líder comunitário. Muitas vezes, é também o pastor da Assembleia de Deus local. No Rio Purus, só encontrei a Igreja Católica e as outras denominações evangélicas nas cidades maiores. Os políticos são vistos sempre perto da época das eleições, muitas vezes dando geradores a diesel para comunidades ou fazendo promessas. Não é difícil encontrar os prefeitos de municípios da região morando em capitais como Manaus, muito distantes de seus eleitores.

Frederico Junqueira
A GRANDE FAMÍLIA 
Seu Francisco (de barba) e sua família. Aos 45 anos, ele tem 17 filhos, 22 netos e alguns bisnetos. Torce para o Vasco da Gama – mesmo sem ver os jogos
Em uma comunidade que fomos, com mais de 1.000 habitantes, a equipe da Marinha usou um posto de saúde inaugurado às vésperas da última eleição municipal. Infelizmente, tirando as paredes bem pintadas, a placa com os nomes dos políticos e uma velha cadeira de dentista, não existia nada mais. Nem eletricidade, nem água corrente, nem móveis, muito menos medicamentos, médicos ou enfermeiros. Ali recebemos a notícia da chegada de uma emergência, uma criança que havia caído de uma árvore e tinha um pedaço de galho atravessado em sua bolsa escrotal. Após alguns instantes, um homem entrou na sala e sentou na maca. Um dos médicos perguntou: – Você sofreu o acidente? – Sim – disse o rapaz. – Mas quantos anos você tem? – Trinta e um. Caí da arvore há 16 anos e nunca consegui me tratar – ele respondeu.
Ele havia usado a “emergência” para furar a fila, mas sua história era real. Há 16 anos convivia com o problema, sem infecção e sem tratamento. Em outro momento, um dos médicos orientava uma mãe sobre a grave infecção da filha:
“Em três dias se ela não melhorar” – ele então parou e lembrou que em três dias estaríamos a centenas de quilômetros dali. Então disse: “Ela TEM de melhorar e, se não melhorar, a senhora dá um jeito de correr para uma cidade grande e um hospital”. Em casos como esses, era visível a frustração dos profissionais de saúde.
Curiosamente, até nos menores locais é possível encontrar escolas, mesmo que sejam, quase sempre, apenas algumas cadeiras e um quadro-negro. O que é muito difícil de encontrar são professores ou crianças e adolescentes que saibam ler e escrever no nível de suas idades. Os professores só costumam vir no período de seca e, mesmo assim, a qualidade da educação deixa muito a desejar. Também é fácil encontrar telefones públicos nas comunidades, já que a lei que privatizou o sistema de telecomunicações obrigou os compradores a instalar esses orelhões. s Mas, a não ser nas comunidades com mais de 1.000 habitantes, não vi um único telefone público que funcionasse. Era normal os moradores dizerem: “Iihhh, isso aí funcionou só uns dias depois de ser ligado”.
Felizes em seu mundo
Às vezes, a chegada da equipe da Marinha era fortuita, como na comunidade em que uma criança tinha acabado de cair de uma árvore e foi imediatamente socorrida. Ou no caso de um menino que havia cortado a perna havia mais de um ano. Os médicos fizeram o máximo possível, mas o rapaz mancará pelo resto da vida. Em outra comunidade, os médicos trataram uma infecção na cabeça de uma criança de 5 anos, causada por piolhos. A mãe afirmava que não sabia que era necessário limpar os cabelos do filho, um de seus seis. Em todos os locais em que estivemos havia grandes filas para os dentistas, que faziam extrações, distribuíam material de higiene dental e ensinavam crianças e adolescentes a fazer a higiene bucal.

Não encontrei fome em lugar nenhum do Rio Purus, mas sim um povo isolado, desassistido. A vida dura faz os ribeirinhos parecerem bem mais velhos do que são, mas costumam ser muito bem-humorados e hospitaleiros. Se há comida na casa, principalmente as deliciosas castanhas-do-pará, eles as oferecem aos visitantes. Ao receber estrangeiros, desatam a conversar sobre as tradições da região e perguntar os placares dos campeonatos de futebol.
Quando dizia às crianças que havia gente mais alta que eu, elas perguntavam: “E são humanos, como nós?”
As crianças, curiosas, mais de uma vez me perguntaram se existiam pessoas mais altas que eu no barco (tenho 1,83 metro). Depois de afirmar que sim, elas me perguntaram: “E são humanos, como nós?”. Às vezes, encontrávamos crianças de 6 ou 7 anos remando ou guiando sozinhas as rabetinhas, pequenas canoas da região, com ou sem um motor de popa. Desde cedo, todos os membros da família ajudam a garantir o sustento da família.
Na era do Twitter e do Skype, passar quase um mês sem celular ou internet foi uma experiência enriquecedora. Encontrei no Rio Purus um povo acolhedor, levando uma vida que poderia ser confundida com a de alguns séculos atrás (tirando os equipamentos eletrônicos e motores), mas feliz, conectado com a natureza.
Em locais como esses vislumbramos o tamanho do Brasil. É muito difícil imaginar que aqueles rios e povoados fazem parte do mesmo país de São Paulo e Rio de Janeiro. Também ficou claro que o mar de água doce de Pinzón ainda é capaz de enfeitiçar e cativar da mesma maneira que fez com o explorador espanhol, 510 anos atrás. 

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Conheça o Suriname

*



DADOS PRINCIPAIS: 
Área: 163.265 km²
Capital: Paramaribo
População: 445 mil (estimativa 2007)
Nome Oficial:  República do Suriname
Nacionalidade: surinamesa
GovernoRepública presidencialista
Divisão administrativa9 distritos
Cidades PrincipaisParamaribo, Lelydorp, Nieuw Nickerie


ECONOMIA:
PIB (Produto Interno Bruto): US$ 1,3 bilhão (2005)
Força de trabalho152 mil (2005)
Moeda: dólar surinamês
Principais atividades econômicas: produção de bauxita, agricultura e comércio. 


O Suriname, ou raramente Surinão[2] (em neerlandês: Suriname; em surinamês: Sranan), oficialmente chamado de República do Suriname, é um país do nordeste da América do Sul, limitado a norte pelo oceano Atlântico, a leste pela Guiana Francesa, a sul pelo Brasil e a oeste pela Guiana.


HISTÓRIA
Embora mercadores holandeses tivessem estabelecido várias colónias na região da Guiana antes, os neerlandeses não tomaram posse do que é hoje o Suriname até ao Tratado de Breda, em 1667, que marcou o fim da Segunda Guerra Anglo-Holandesa.
Depois de se tornar numa parte autónoma do Reino dos Países Baixos em 1954, o Suriname conseguiu a independência em 1975. Um regime militar dirigido por Desi Bouterse governou o país nos anos 80 até que a democracia foi restabelecida em 1988.
O Suriname é um país de baixa densidade demográfica.


POLÍTICA
O Suriname é uma democracia sujeita à constituição de 1987. O ramo legislativo do governo é a Assembleia Nacional, que consiste de 51 membros, eleitos de cinco em cinco anos. A Assembleia Nacional elege o chefe do ramo executivo, o presidente, através de uma maioria de dois terços. Se nenhum candidato atingir essa maioria, o presidente é eleito pela Assembleia do Povo, uma instituição de 340 membros que é composta pelos membros da Assembleia Nacional e por representantes regionais.
O Suriname é um membro de pleno direito da UNASUL, CARICOM, OEA e CEPAL.


GEOGRAFIA
Antiga colônia holandesa, a atual República do Suriname é um país sul-americano, cujos limites geográficos são os seguintes:
A maior parte do Suriname encontra-se inserida no Escudo das Guianas.

Clima 

Localizado na região equatorial, o Suriname tem um clima tropical muito quente, e as temperaturas médias máximas e mínimas dos dias são praticamente idênticas em todos os meses, em Paramaribo as mínimas médias são 23°C e as máximas médias 28°C. O ano tem duas estações de chuvas, de abril a agosto e de novembro a fevereiro. E tem também duas estações secas, de agosto a novembro e de fevereiro a abril.


SUBDIVISÕES



O Suriname está dividido em dez distritos e cada distrito por sua vez é subdividido em ressorten (singular ressort):

 

DEMOGRAFIA

A população do Suriname é constituída por vários grupos raciais, étnicos e culturais. A maior porcentagem, cerca de 37% da população, corresponde aos chamados hindustani, descendentes de imigrantes indianos que chegaram durante o século XIX. Seguem-se os crioulos, descendentes de escravos africanos frequentemente misturados com brancos, com cerca de 31%, ao passo que os javaneses ("importados" das antigas Índias Orientais Holandesas. hoje Indonésia) representam 15% da população. Os "negros do mato" são descendentes de escravos africanos que fugiram dos seus donos e frequentemente se misturaram com índios e/ou indianos, e constituem 10% da população. O restante é formado por ameríndios, chineses e brancos. Também vive no país uma pequena comunidade judaica, composta por várias famílias, descendentes de sefarditas que haviam fugido da península Ibérica para os Países Baixos. Em tempos, dirigiram uma região autónoma do Suriname chamada Jodensavanne.
Devido ao grande número de grupos étnicos no país, não há uma religião principal. A maioria dos hindustani são hindus, mas o islamismo e o cristianismo também são muito comuns. O cristianismo é dominante entre os crioulos e os pardos.
A língua neerlandesa é a língua oficial do Suriname. Os surinameses também falam outras línguas como o javanês e o indonésio, e o hindi, último muito utilizado pela parcela hindustani da população, além do sranan ou surinamês, idioma crioulo desenvolvido no país a partir do inglês, com influências do neerlandês, do português e de idiomas africanos. Os habitantes ameríndios originais, caribes e aruaques, falam as suas próprias línguas, e o mesmo acontece com os descendentes dos escravos fugitivos que se estabeleceram no interior do país, como o aucano (n'Djuga) e o saramacano.
O inglês é também bastante utilizado, principalmente em instalações orientadas para o turismo.

 

RELIGIÕES

As religiões que predominam no Suriname são:

 FOTOS

Palácio Presidencial


Wooden Church, igreja de madeira em Paramaribo


Nas fotos acima: Ruas, pessoas, casas de Paramaribo, a capital do país 



Algumas mesquitas do país



O país é recortado por grande quantidade de rios, sendo
a rede pluvial um dos principais meios de transporte

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