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quinta-feira, 5 de junho de 2008

Sócrates: o balanço com saldo nulo

O primeiro-ministro José Sócrates enfrenta hoje a terceira moção de censura no Parlamento e mais uma manifestação nas ruas.
Numa conjuntura económica que piora de dia para dia, o Governo já reconheceu que poderá não conseguir cumprir as promessas feitas no início da legislatura.
Apesar de ter reduzido o défice público, é patente que as famosas reformas da segurança social, da administração pública, da simplificação administrativa e da educação apenas se iniciaram e logo ficaram incompletas ou suspensas, com o recuo do Governo perante a contestação dos sectores em causa.

Em 2009 quando enfrentar novamente eleições legislativas, José Sócrates corre sério risco de oferecer nada mais do que quatro anos sem prosperidade económica, com aumento da carga fiscal, subida dos preços dos bens essenciais e o acentuar de desigualdades e pobreza social.

Neste momento, os consumidores estão mais pessimistas do que no início de 2005, ano em que o PS venceu as eleições contra Santana Lopes em Fevereiro: os valores de Maio de 2008 medidos pela Comissão Europeia expressam um pessimismo só registado em 2003, ano da última recessão.
Segundo as últimas previsões de Bruxelas, a economia deverá estar agora a crescer 1,6%, um valor que é praticamente igual ao registado em 2004, ano do consulado repartido entre Durão Barroso e Santana Lopes.

Os grandes números revelam poucos progressos nestes ultimos 4 anos. Ou seja, são 4 anos perdidos: uma legislatura com saldo zero.
A única grande vitória, até agora, é o défice público, mas até essa pode não durar:
A crise da economia pode levar o défice a subir de novo, perdendo-se o esforço feito na primeira metade da legislatura. Além disso, José Sócrates pode cair na tentação de combater a crise com mais despesa ou corte de impostos.
Portanto, é bem provável que até no défice público, José Sócrates vá terminar o seu mandato pior do que começou. Com o que, seria uma legislatura com saldo zero, ou menos ainda....

Censura


O CDS apresenta uma Moção de Censura ao governo Sócrates. Interessa dizer algumas coisas sobre esta Moção.
Primeiro, a Moção estará, salvo grande surpresa, aritmeticamente condenada. Tradicionalmente, a extrema-esquerda não descristalizará e os contestatários de dentro do PS não ousarão falar tão grosso. Restam os partidos do arco da governabilidade e sabemos que CDS mais PSD, tendo obrigação de fazerem uma demonstração de força, impondo à esquerda o ónus da cumplicidade com Sócrates, não chegam para fazer passar a moção.
Perguntar-se-á para que serve a moção. Em política nem tudo se resume a aritmética pura; a prerrogativa da moção, uma por sessão legislativa, é o instrumento mais forte que cada partido com representação parlamentar dispõe para afrontar o Governo. Neste momento, de descalabro absoluto, o CDS entendeu ser a altura para dar o cartão vermelho ao Governo, traduzindo o que entende ser o estado de profundo descontentamento da esmagadora maioria dos portugueses.
Esta Moção surge em plena crise dos combustíveis, com todos os efeitos laterais (das pescas aos particulares), mas é mais do que isso, muito mais. Esta Moção dá corpo ao descontentamento absoluto com a política educativa do Governo, à preocupação com a segurança cada vez mais precária que enfrentamos, ao desacordo com o rumo que a saúde pública tem levado, à discordância com os devaneios das obras públicas, à repugnância do fanatismo fiscal, ao esquecimento dos mais desfavorecidos, em particular os mais idosos. Dando uma imagem, um copo que foi enchendo, tendo agora chegado a gota que o fez transbordar.
Este sinal tem obrigatoriamente de ser dado, credibiliza o Parlamento porque dá formalmente corpo às legítimas reivindicações do povo que representa. Só assim as coisas fazem sentido, esclarece-se quem representa o quê, quem realmente se constitui como alternativa.