Voltaire (1694-1778) escreveu uma novela chamada “Cândido” em que ridiculariza a ideia de que este mundo é o melhor mundo possível e que foi criado por uma providência sábia, que o governa com bondade e misericórdia. Um filósofo chamado Leibniz (1646-1716), para resolver o problema do mal, argumentara que seria contraditório considerar que Deus é omnipotente, omnisciente e sumamente bom e depois dizer que tinha criado um mundo defeituoso e repleto de mal. Afirma portanto que este mundo, tal como é, é o melhor dos mundos possíveis e que não teria sido possível criar um mais perfeito. (A respeito do problema do mal veja o post Se Deus existe porque é que acontecem coisas tão más?)
Voltaire faz Cândido sofrer toda a espécie de desventuras. Às boas pessoas que encontra só sucedem desgraças, tendo as malvadas normalmente melhor sorte. Perante isso, o Doutor Pangloss, mestre filosófico e amigo de Cândido, procura sempre fazer interpretações optimistas, argumentando como Leibniz: as coisas más que acontecem só aparentemente são más, pois através delas alcançam-se bens maiores.
Um dos lugares que Cândido visita nas suas deambulações é Lisboa, durante o grande terramoto de 1755, que muito impressionou Voltaire.
“Depois de se refazerem um pouco [do naufrágio do navio em que viajavam e do qual sobreviveram apenas três pessoas], encaminharam-se para Lisboa; restava-lhes algum dinheiro, com o qual esperavam salvar-se da fome, depois de haverem escapado à tempestade. Mal entravam na cidade, chorando a morte do benfeitor [um amigo que se afogara], quando sentem o solo tremer sob os seus pés; o mar, furioso, galga o porto e despedaça os navios que ali se acham ancorados. Turbilhões de chama e cinza cobrem as ruas e praças públicas; as casas desabam; abatem-se os tectos sobre os alicerces que se abalam; trinta mil habitantes são esmagados sob as ruínas. (…)
Depois do tremor de terra que destruiu três quartas partes de Lisboa, os sábios do país não encontraram meio mais eficaz para prevenir uma ruína total do que oferecer ao povo um belo auto-de-fé; foi decidido pela Universidade de Coimbra que o espectáculo de algumas pessoas queimadas a fogo lento, em grande cerimonial, era um infalível segredo para impedir que a terra se pusesse a tremer. Tinham, pois, prendido um biscainho que se casara com a própria comadre, e dois portugueses que, ao comer um frango, lhe haviam retirado a gordura: vieram, depois do almoço, prender o Doutor Pangloss e o seu discípulo Cândido, um por ter falado e o outro por ter escutado com ar de aprovação: foram ambos conduzidos em separado para apartamentos extremamente frescos, onde nunca se era incomodado pelo sol”.
O Doutor Pangloss foi enforcado dias depois, mas Cândido escapou e continuou as suas viagens, tentando manter o optimismo e a crença na providência divina, apesar das desgraças constantes que observava. Na actualidade, Cândido teria certamente passado pelo Haiti e, embora não faltem calamidades no planeta Terra, talvez tivesse chegado ontem à ilha da Madeira.
E, nesse caso, além de questionar a providência divina, poderia também questionar as instituições que, em Portugal, determinam onde se pode e não se pode construir casas, bem como as decisões dos próprios cidadãos a esse respeito.
(O excerto do “Cândido” foi retirado daqui.)