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quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Mensagem para o futuro

Bertrand Russell

No final de uma entrevista televisiva, em 1959, perguntaram a Bertrand Russell o que gostaria ele de dizer às pessoas do futuro acerca da sua vida e das lições que nela tinha aprendido. Ao responder, Bertrand Russell afirmou que gostaria de dizer duas coisas às gerações vindouras, uma intelectual e outra moral – e falou da objetividade da verdade e da tolerância. Eis um filósofo que, além de amar a sabedoria, alcançou uma boa porção dela.

terça-feira, 13 de agosto de 2013

A educação não impede o mal, mas torna-o um pouco menos provável

A woman and her child are killed as they run across the fields

«O ensino – e, em especial, o “ensino liberal” – é aquilo que torna possível a sociedade civil. (…)

Com “ensino liberal” refiro-me ao ensino que inclui literatura, história e apreciação das artes, atribuindo-lhe um peso igual ao que é dado às matérias científicas e práticas. O ensino nestas áreas oferece-nos a possibilidade de viver mais reflexiva e conhecedoramente, especialmente no que diz respeito à gama da experiência e do sentimentos humanos, tal como existe aqui e agora, assim como alhures e no passado. Isso, por sua vez, faz-nos entender melhor os interesses, necessidades e desejos dos outros, permitindo que os tratemos com respeito e compreensão, por muito diferentes das nossas que sejam as escolhas que fazem ou as experiências que moldaram as suas vidas. Quando o respeito e a compreensão são retribuídos, tornando-se mútuos, as brechas que poderiam suscitar fricção entre as pessoas, e até guerra, são unidas ou, pelo menos, toleradas. E basta o último caso.

A visão é utópica: não há dúvida que havia oficiais das SS que liam Goethe e ouviam Beethoven, e a seguir iam trabalhar para as câmaras de gás – portanto, o ensino liberal não produz automaticamente pessoas melhores. Mas fá-lo muito mais frequentemente do que a estupidez e o egoísmo que acompanham a falta de conhecimento e o discernimento medíocre.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pág. 187.

Lembrei-me destas palavras de Grayling ao ler que “the highest proportion of Nazi party members came from the educated classes” (aqui, no 15º parágrafo).

sábado, 13 de julho de 2013

Malala: “Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo”

O jornal Público publicou o vídeo do discurso que a jovem paquistanesa Malala - vítima de um ataque talibã por defender o direito das raparigas a frequentarem a escola - fez na sede da ONU. O secretário-geral referiu que mais de 57 milhões de crianças em todo o mundo não têm acesso à escola primária, a maioria são raparigas.

«Hoje não é o dia de Malala, é o dia de todas as mulheres, de todos os rapazes e de todas as raparigas que levantaram a voz para defender os seus direitos”, disse ela perante centenas de estudantes de muitas origens numa Assembleia de Jovens e no mesmo dia em que celebrou o 16.º aniversário.

“Não estou aqui para falar de vingança pessoal contra os taliban, (...) estou aqui para defender o direito à educação para todas as crianças”, disse.

“Um aluno, um professor, um livro e uma caneta podem mudar o mundo. A educação é a única solução. Educação primeiro.”

Reclamando a herança de Gandhi, Nelson Mandela e de Martin Luther King, afirmou ainda que os “extremistas fazem um mau uso do islão (...) para seu benefício pessoal, ao passo que o islão é uma religião de paz e de fraternidade”.

Malala falou ainda da importância de se combater o analfabetismo, pobreza e o terrorismo, acrescentando que “os nossos livros e os nossos lápis são as nossas [das crianças] melhores armas”, apelando ainda aos “dirigentes mundiais para mudarem de estratégia política, para promoverem a paz e a prosperidade.»

Ouçam e vejam o vídeo porque vale mesmo, mesmo a pena: AQUI

domingo, 9 de junho de 2013

O que não se deve tolerar

“A tolerância é um crime quando o que se tolera é a maldade.”

Thomas Mann (algures no romance A Montanha Mágica)

Thomas Mann

segunda-feira, 22 de abril de 2013

A tolerância não implica o relativismo

muçulmanos e católicos

Na sequência do post O que é a tolerância?, vou agora defender que sermos tolerantes não nos obriga a ser relativistas.

O relativismo cultural

Segundo o relativismo cultural, o bem e o mal são relativos a cada cultura: o bem é aquilo que é socialmente aprovado e o mal é aquilo que é socialmente reprovado[i]. Assim, se uma ação for aprovada pela maioria das pessoas da sociedade X, essa ação é moralmente correta – para as pessoas da sociedade X. Se essa mesma ação for reprovada pela maioria das pessoas da sociedade Y, essa ação é moralmente incorreta – para as pessoas da sociedade Y. Essa ação não é correta ou correta em si mesma, a sua correção ou incorreção depende da perspetiva cultural dos agentes. Na moralidade não existe o “em si mesmo”.

A verdade ou falsidade dos juízos morais não é, portanto, objetiva, mas sim culturalmente relativa. Uma afirmação como “O casamento de crianças é moralmente errado” não é simplesmente verdadeira ou falsa: é verdadeira nas sociedades que aprovam essa prática e é falsa nas sociedades que a desaprovam.

De acordo com o relativismo cultural, não há diferença entre as pessoas de uma certa sociedade acreditarem que algo é certo ou errado e isso ser realmente certo ou errado, pois é essa crença coletiva que estabelece o que é moralmente certo e o que é moralmente errado.

Os costumes de uma sociedade não são melhores nem piores do que os de outra sociedade, são apenas diferentes. E isso não sucede apenas a alguns costumes, mas sim a todos. Considerar que uns são melhores que outros implicaria um critério neutro de avaliação, um critério transcultural válido para as várias culturas, mas esse critério – segundo o relativismo cultural - não existe [ii].

Por isso, segundo o relativismo cultural criticar os costumes de outra sociedade é uma atitude arrogante e intolerante. E etnocêntrica. Etnocentrismo é o nome que nas ciências sociais se dá à valorização excessiva da própria cultura e ao desprezo pelas outras culturas. Assim, quem hoje critica a lapidação ou a excisão faz algo que é equivalente ao comportamento dos europeus que, há séculos atrás, chamavam “selvagens” aos africanos e aos índios, reprimiam os seus costumes e impunham-lhes os costumes europeus.

Fazer essas críticas em nome dos direitos humanos não permite, segundo o relativismo cultural, escapar ao etnocentrismo, pois os direitos humanos não exprimem valores universais, mas sim ocidentais. Por exemplo, a igualdade de direitos entre homens e mulheres não é uma ideia que faça, ou possa vir a fazer, sentido em qualquer sociedade. Motivada por essas ideias relativistas, a Associação Antropológica Americana criticou a Declaração Universal dos Direitos do Homem, ainda antes da sua aprovação pela ONU em 1948, acusando-a de conter um etnocentrismo “subtil” [iii].

O sociólogo americano William Graham Sumner resumiu as ideias do relativismo cultural de modo muito claro e revelador:

A maneira “certa” é a maneira que os antepassados utilizavam e nos foi transmitida. A tradição é a sua própria garantia. (…) A noção do que está certo está nos hábitos do povo. Não reside além deles, não provém de origem independente, para os pôr à prova. O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo. (…) Quando abordamos os hábitos populares a nossa análise chega ao fim. [iv]

A tolerância não implica o relativismo

As ideias relativistas são defendidas nalguns meios académicos, nomeadamente na área das ciências sociais, mas também fora dos meios académicos, por vezes por pessoas que não sabem bem o que é o relativismo, mas que acreditam que todas as opiniões – nomeadamente no campo da moral - valem o mesmo. Para essas pessoas tolerar parece consistir em não achar nada falso ou errado. Identificam a tolerância com o “respeito” por todas as opiniões e abdicam de avaliar se são verdadeiras ou falsas. Consideram que avaliar as opiniões dos outros e exprimir as próprias opiniões com convicção revela arrogância e intolerância. A ideia de que não se deve criticar os costumes alheios, pois isso seria uma falta de respeito, parece-lhes uma enorme evidência.

Contudo, ser tolerante não implica ser relativista. Por várias razões, das quais vou apresentar três.

1. A tolerância não nos impede de ter convicções e de, eventualmente, achar erradas as convicções das outras pessoas, apenas nos impede de impor pela força física ou psicológica as nossas convicções. Por isso, a tolerância não nos impede de comparar os costumes das diferentes sociedades nem de considerar que, eventualmente, alguns são melhores que outros. Ou seja: a tolerância não nos impede de pensar.

Convém acrescentar que o resultado da comparação não é necessariamente favorável aos nossos próprios costumes: pode perfeitamente suceder que alguém descubra que um certo costume da sua sociedade é pior, por exemplo em termos morais, que um costume estrangeiro alternativo.

A tolerância não só não nos impede de considerar que as pessoas cujos costumes toleramos estão erradas, como, pelo contrário, pressupõe isso – pois consiste precisamente em aceitar que os outros digam e façam coisas que achamos erradas. Sendo assim, o relativismo esvazia de sentido a tolerância, pois diz que no fundo ninguém está errado e que, do seu próprio ponto de vista, todos têm razão, não sendo nenhum ponto de vista melhor que outro. Ora, a tolerância consiste em aceitar a existência de algo que consideramos errado e não em deixar de pensar que isso é errado. Se o relativismo fosse verdadeiro não haveria propriamente nada para tolerar [v].

Quero sublinhar um aspeto. Dizer que na moralidade nem tudo é relativo não é sinal de arrogância intelectual. Defender essa ideia não consiste em dizer “nós estamos certos e eles estão errados”, mas sim que é possível alguém estar objetivamente certo e alguém estar objetivamente errado – nós ou eles. Ou seja: não se trata de defender que nós é que temos a verdade no bolso e que nós é que sabemos tudo, mas sim de recusar a ideia de que nenhum dos lados pode estar errado.

2. A tolerância pressupõe que discordamos das pessoas cujas ideias ou ações toleramos, mas será intolerante dar expressão pública a esse desacordo? Quando toleremos um certo costume deveremos abster-nos de o criticar publicamente? A tolerância será incompatível com a crítica? Vimos que a tolerância nos deixa pensar – mas deixar-nos-á falar? Por exemplo: se um português disser a um saudita que a poligamia é errada pois implica uma desigualdade de direitos entre homens e mulheres, estará a ser intolerante? Penso que não. Contrariamente ao que defende o relativismo cultural, a tolerância não é incompatível com a crítica.

Se a tolerância fosse incompatível com a crítica seria também incompatível com a liberdade de expressão, o que é muito pouco plausível, para não dizer absurdo, pois isso significaria que concedíamos liberdade e direitos aos outros à custa da nossa própria liberdade e direitos.

Quando toleramos abstemo-nos de impor e reprimir, abdicamos de interferir negativamente. Mas criticar uma certa ideia e defender uma ideia alternativa não pode ser visto como repressão nem como imposição, a menos que se recorra à violência física ou psicológica. Caso não seja acompanhada de agressões, ameaças ou chantagens, a argumentação não pode ser vista como uma forma de força. A argumentação racional é, pelo contrário, um diálogo: discordamos de uma pessoa e damos-lhe simultaneamente a possibilidade de discordar de nós, tentamos convencê-la e permitimos que ela nos tente convencer a nós. Criticar, no contexto da argumentação racional, não é ofensivo nem desrespeitoso e não deve fazer parte das coisas que uma pessoa se abstém de fazer por ser tolerante. A crítica não conta como interferência. Criticar não é, portanto, um ato intolerante. Assim, se um português disser a um saudita que discorda da poligamia e tente civilizadamente convencê-lo a mudar de opinião não estará a agir contra a tolerância.

A ideia, muito comum, de que a tolerância consiste em “respeitar as opiniões das pessoas” presta-se a equívocos. O que deve ser respeitado não são as opiniões em si mesmas (ou seja, o seu conteúdo cognitivo), mas sim a sua existência e livre expressão. Respeitar o conteúdo das opiniões que consideramos falsas seria impedirmo-nos de pensar, ou pelo menos de dizer, que essas opiniões são falsas – o que seria uma forma de autocensura e impediria o livre exercício do pensamento. Criticar uma opinião que consideramos falsa não nos impede de a tolerar nem constitui um desrespeito para com os seus defensores, com quem nos disponibilizamos para debater. Desidério Murcho exprimiu essa ideia deste modo: “tolerar é tolerar humanamente, não é tolerar epistemicamente” [vi]. Neste contexto, vale também a pena recordar a célebre afirmação atribuída a Voltaire: “Discordo do que dizes, mas defenderei até a morte o teu direito de dizê-lo”.

3. O relativismo cultural não distingue entre costumes com relevância moral e costumes sem relevância moral, uma vez que o que importa é a aprovação social. Desde que esta exista, a excisão tem tanta legitimidade como as regras relativas ao horário das refeições ou aos talheres usados durante as mesmas. Como disse William Sumner, “O que estiver nos hábitos populares, seja o que for, está certo”. Sublinho o “seja o que for”. Se concordarmos com o relativismo cultural ficamos intelectualmente paralisados e impedidos de pensar sobre os costumes sociais, pois estes são vistos como dogmas, como algo que não pode ser analisado nem questionado. E, mais uma vez, as palavras de William Sumner são reveladoras: “Quando abordamos os hábitos populares a nossa análise chega ao fim.

Essa maneira de pensar não permite perceber bem a tolerância. Como mostrei no post O que é a tolerância?, esta supõe diversas distinções. É preciso distinguir entre aquilo que consideramos moralmente correto e o que consideramos moralmente incorreto mas tolerável. Depois é preciso distinguir entre o tolerável e o intolerável. Por exemplo: A obrigação, existente nalgumas sociedades e grupos islâmicos, das mulheres taparem rosto com um véu é correta, incorreta mas tolerável ou intoleravelmente errada? E, para continuar com exemplos atuais, tem sentido fazer as mesmas perguntas acerca de práticas como a excisão e a lapidação.

A atitude acrítica promovida pelo relativismo cultural não permite analisar e discutir esses casos, pois para essa teoria tudo o que há a dizer é que são práticas aprovadas nalgumas comunidades pelo que, para elas, são corretas. O relativismo cultural, ao considerar a mera aprovação social como critério do bem moral, faz essas distinções desaparecerem e impede-nos portanto de distinguir entre casos que, independentemente do modo como os julgarmos moralmente, se apresentam à partida como muito diferentes e com um impacto muito diferente na vida das pessoas. As consequências de usar um véu que tapa apenas os cabelos e o pescoço são diferentes das consequências de usar um véu integral que só deixa à vista os olhos e são ainda mais diferentes das consequências da excisão, que por sua vez são menos drásticas que as consequências da lapidação. No entanto, para o relativismo cultural todos esses costumes estão em pé de igualdade em termos de legitimidade nas comunidades em que a maioria das pessoas os aprova. Identificar a tolerância com essa aceitação indiscriminada e acrítica das diferenças culturais impede-nos de perceber as próprias diferenças culturais e impede qualquer debate sobre elas. O que, no mínimo, não é nada tolerante.

Por isso, a tolerância não só não implica o relativismo cultural, como, pelo contrário, parece ser incompatível com ele.

Notas:

[i] Gensler, Harry, “Ética e Relativismo Cultural”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/fil_relatcultural.html

[ii] Rachels, James, Elementos Básicos de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 2004, pág. 35 e ss.

[iii] Pojman, Louis, Terrorismo, Direitos Humanos e a Apologia do Governo Mundial, Lisboa, Editorial Bizâncio, 2007, pág. 148.

[iv] Rachels, James, Ibid., pág. 36.

[v] Murcho, Desidério, “Ética e direitos humanos”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/html/valoresrelativos.html.

[vi] Murcho, Desidério, “Tolerância e ofensa”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/html/ed_118.html

sábado, 20 de abril de 2013

O que é a tolerância?

intolerância

A palavra “tolerância” deriva de uma palavra latina que significa suportar e aguentar e isso influenciou o significado que atribuímos à palavra. Assim, dizer que uma pessoa tem uma grande tolerância à dor significa que é capaz de suportar muitas dores. Dizer que um professor revela grande tolerância face à indisciplina significa que ele suporta sem reagir comportamentos incorretos nas suas aulas. Aquilo que é objeto de tolerância é algo que é considerado negativo. Não se diz, por exemplo, uma pessoa tem uma grande tolerância ao prazer.

A pessoa que tolera faz um juízo negativo da coisa tolerada: considera que é uma ideia falsa ou uma ação incorreta, ou então que é algo de mau gosto ou perigoso, etc. Mas não tira consequências práticas desse juízo negativo: não age contra a coisa tolerada, não a reprime, não tenta impedir a sua expressão pública, se é uma ideia, nem impedir a sua realização, se é uma ação. A pessoa que tolera não tenta limitar a liberdade dos outros falarem e agirem como querem e procura coexistir pacificamente com eles, apesar de achar que não estão certos.

A tolerância é, portanto, diferente de aprovação. Tolerar não é o mesmo que concordar. A pessoa tolerante não aprova aquilo que tolera (podendo a desaprovação ter diversos graus), mas suporta a sua existência. Por exemplo: um seguidor da religião A considera que a religião B é falsa mas não tenta impedir ninguém de professar essa religião; um ateu considera que todas as religiões são falsas mas não tenta impedir ninguém de ser religioso.

A pessoa tolerante podia não ser tolerante e não suportar a existência daquilo que tolera, mas decide suportar porque tem razões para o fazer. A tolerância requer razões, motivos para justificar que se aceite algo que não se aprova. Por isso, a tolerância não é o mesmo que indiferença. A pessoa tolerante não é indiferente, não encolhe os ombros perante o assunto, ela considera que a coisa tolerada é errada, mas as razões que tem para a considerar errada pesam menos que as razões que a levam a não reprimir. Devido a essas razões seria errado não tolerar o que está errado.

Há diversos tipos de razões capazes de justificar a tolerância. Nomeadamente, razões morais, como por exemplo o respeito pela autonomia das pessoas; razões políticas, como a necessidade de assegurar a coexistência pacífica de grupos culturalmente distintos; e razões epistemológicas, como o facto de haver incerteza relativamente à verdade das opiniões em confronto.

A tolerância é, portanto, uma complacência com algo considerado errado baseada em razões consideradas mais importantes que esse erro. Por exemplo: uma pessoa acha errado recusar transfusões de sangue mas aceita que os crentes de certas religiões o façam pois considera que a autonomia individual e a liberdade religiosa são valores mais importantes que a saúde.

Se não há boas razões para ser complacente com algo que achamos errado, não há lugar para a tolerância. Se as razões para rejeitar uma certa prática são mais fortes do que as razões para a aceitar, então ela não deve ser tolerada. Ou seja: há coisas tão erradas, tão inaceitavelmente prejudiciais, que são intoleráveis e devem ser combatidas. Se não fosse assim a tolerância levar-nos-ia a aceitar práticas como roubo, o assassinato, a violação, etc. A tolerância tem de ter limites e é preciso distinguir o tolerável do intolerável.

Em resumo, a tolerância implica distinguir pelo menos estas três esferas: o que merece aprovação, o que é tolerável e o que é intolerável.

Quando se chega à esfera do intolerável, deixa de ser errado interferir. Não é, portanto, verdade que a tolerância seja sempre uma atitude correta perante a diversidade de costumes e práticas que existe no mundo. O que coloca, nomeadamente, o problema de saber quais são os meios de interferência adequados, de modo a que a interferência não faça um mal maior que a prática intolerável que se quer impedir.

Quando se diz que uma pessoa é intolerante isso significa que ela não tolera coisas que devia tolerar, por exemplo que os outros tenham crenças religiosas diferentes. Habitualmente não se chama intolerante a uma pessoa que não tolera algo que é intolerável, como por exemplo a pedofilia. (Mesmo que pareça, isto não é um jogo de palavras.)

Escusado será dizer que muitas vezes não é fácil distinguir com objetividade, e muitos menos de modo consensual, o que é tolerável do que é intolerável. Vejamos um exemplo bastante atual. Na comunidade cigana existe a tradição de as mulheres casarem muito novas, por vezes aos 12 ou 13 anos. Em Portugal, e muitos outros países, essa prática é ilegal, mas habitualmente as autoridades “fecham os olhos” e não intervêm. Essa atitude tolerante é apoiada por muitas pessoas, nomeadamente por sociólogos e outros cientistas sociais, mas é criticada por outras – que consideram que o casamento de raparigas tão novas é intolerável, ou seja, demasiado errado para ser permitido.

Leituras:

Gensler, Harry, “Ética e Relativismo Cultural”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/fil_relatcultural.html

Fiala, Andrew, “Toleration”, Internet Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: http://www.iep.utm.edu/tolerati/

Forst, Rainer, “Toleration”, Stanford Encyclopedia of Philosophy. Disponível em: http://plato.stanford.edu/entries/toleration/

Murcho, Desidério, “Ética e direitos humanos”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/html/valoresrelativos.html

Murcho, Desidério, “Tolerância e ofensa”, Crítica: revista de Filosofia. Disponível em: http://criticanarede.com/html/ed_118.html

Rachels, James, Elementos Básicos de Filosofia, Lisboa, Gradiva, 2004.

Walzer, Michael, Da Tolerância, São Paulo, Martins Fontes Editora, 1999.

domingo, 8 de abril de 2012

Intolerância

Vale a pena ver este vídeo e pensar se o uso da força, tão frequente em diferentes épocas históricas, será ou não evitável...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Uma mensagem para as gerações futuras

Num programa de televisão foi perguntado a Bertrand Russell, um grande filósofo e matemático inglês, que mensagem deixaria para as gerações vindouras. A resposta dele foi que diria duas coisas: uma intelectual e outra moral.

Se querem saber quais são vejam o vídeo. É um espantoso testemunho, pela inteligência e pela simplicidade.

Palavras imperdíveis e, verdadeiramente, inspiradoras.

domingo, 31 de julho de 2011

Uma razão para ser tolerante

“Sê tolerante, porque não tens a certeza de nada.”

Fernando Pessoa, Bernardo Soares - Livro do Desassossego.

Lido aqui.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Frutos da tolerância

A tolerância “sustenta a própria vida, porque a perseguição muitas vezes visa a morte, e também sustenta as vidas comuns, as diferentes comunidades em que vivemos. A tolerância torna a diferença possível; a diferença torna a tolerância necessária.”

Michael Walzer, Da Tolerância, Martins Fontes, São Paulo, 1999, pág. XII.

tolerancia religiosa

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Tolerar a diferença

imageA fotografia foi tirada deste blogue (que oferece muitos outros pretextos para ser visitado). 

 

“A humanidade terá muito a ganhar deixando que cada um viva como lhe parece bem, e não forçando cada um a viver como parece bem aos demais.”

John Stuart Mill

sábado, 10 de abril de 2010

A inutilidade da força

“Se alguém sustentar que os homens devem ser obrigados, a ferro e fogo, a professar certas doutrinas e a seguir esta ou aquela forma de culto (…), se alguém tentar converter os heterodoxos à fé obrigando-os a professar coisas em que não crêem” engana-se. O “fogo e a espada não são instrumentos apropriados para convencer do erro as mentes dos homens e elucidá-los sobre a verdade. (…) Se a verdade não arrebata o entendimento pela sua luz, de nada lhe serve uma força exterior.”

Jonh Locke, Carta sobre a Tolerância.