“As nossas crenças mais justificadas não têm qualquer outra garantia sobre a qual assentar, senão um convite permanente ao mundo inteiro para provar que carecem de fundamento.”
John Stuart Mill
O cartoon, sem referência de autor, foi retirado deste sítio.
«Como é que filosofamos? É visivelmente apenas a partir do momento em que nos encontramos em diálogo com os filósofos. Isso implica debatermos com eles os problemas (...). Uma coisa é constatar e descrever as opiniões dos filósofos, outra completamente diferente é debater o que eles dizem.»
Martin Heidegger, Qu’est ce que la philosophie?, Gallimard.
Num texto muito conhecido sobre o valor da Filosofia, o filósofo Bertrand Russell diz o seguinte:
“Tendo agora chegado ao fim da nossa análise breve e muito incompleta dos problemas da filosofia, será vantajoso que, para concluir, consideraremos qual é o valor da filosofia e porque deve ser estudada. É da maior necessidade que examinemos esta questão, tendo em conta que muitas pessoas, sob a influência da ciência ou de afazeres práticos, se inclinam a duvidar de que a filosofia seja algo melhor do que frivolidades inocentes mas inúteis, distinções demasiado subtis e controvérsias sobre matérias acerca das quais o conhecimento é impossível (…).
Mas mais, se não queremos que a nossa tentativa para determinar o valor da filosofia fracasse, temos de libertar primeiro as nossas mentes dos preconceitos daqueles a que se chama erradamente homens "práticos". O homem "prático", como se usa frequentemente a palavra, é aquele que reconhece apenas necessidades materiais, que entende que os homens devem ter alimento para o corpo, mas esquece-se da necessidade de fornecer alimento à mente. Mesmo que todos os homens vivessem desafogadamente e que a pobreza e a doença tivessem sido reduzidas ao ponto mais baixo possível, ainda seria necessário fazer muito para produzir uma sociedade válida; e mesmo neste mundo os bens da mente são pelo menos tão importantes como os do corpo. É exclusivamente entre os bens da mente que encontraremos o valor da filosofia; e somente aqueles que não são indiferentes a estes bens podem ser convencidos de que o estudo da filosofia não é uma perda de tempo (…). Na verdade, o valor da filosofia tem de ser procurado sobretudo na sua própria incerteza. O homem que não tem a mais pequena capacidade filosófica, vive preso aos preconceitos derivados do senso comum, das crenças habituais da sua época ou da sua nação, e das convicções que se formaram na sua mente sem a cooperação ou o consentimento reflectido da sua razão. Para um tal homem o mundo tende a tornar-se definido, finito, óbvio; os objectos vulgares não levantam quaisquer questões e as possibilidades invulgares são desdenhosamente rejeitadas. Assim que começamos a filosofar, pelo contrário, verificamos que mesmo os objectos mais comuns levam a problemas a que apenas podemos dar respostas muito incompletas. Embora a filosofia seja incapaz de nos dizer com certeza qual é a resposta verdadeira às dúvidas que levanta, é capaz de sugerir muitas possibilidades que alargam os nossos pensamentos e os libertam da tirania do costume. Assim, embora diminua o nosso sentimento de certeza quanto ao que as coisas são, a filosofia aumenta muito o nosso conhecimento do que podem ser; elimina o dogmatismo um tanto arrogante daqueles que nunca viajaram na região da dúvida libertadora e, ao mostrar as coisas que são familiares com um aspecto invulgar, mantém viva a nossa capacidade de admiração.”Bertrand Russell, Os Problemas da Filosofia, Oxford University Press, Oxford, 2001, pp. 89-94 (Trad. de Álvaro Nunes)
A atitude adoptada por aqueles que reflectem sobre os problemas filosóficos designa-se, habitualmente, como “crítica”. Podemos caracterizá-la, tal com faz Russell, por oposição àquela que é adoptada pelo “homem prático” – o que se recusa a analisar o fundamento racional das suas ideias e a pensar e agir por si próprio.
Este ponto de vista, característico dos que preferem não “fazer uso do seu próprio entendimento” (nas célebres palavras de Kant), pode ser descrito, metaforicamente ou não, de diferentes formas: por exemplo num post deste blogue ("Os filósofos não andam com a cabeça nas nuvens" - http://duvida-metodica.blogspot.com/search/label/Atitude%20cr%C3%ADtica), Platão e Heidegger apresentam, por outras palavras e de modo metafórico, algumas ideias bastante semelhantes a essas ideias de Russell. O que é curioso, pois trata-se de filósofos que, além de terem pontos de vista bastantes distintos, têm estilos de escrita completamente diferentes. Tal facto significa que em Filosofia as mesmas ideias podem ser apresentadas por palavras diferentes. O que importa discutir é a sua verdade e e sua justificação e não aspectos acessórios, como o carácter do filósofo que as emitiu ou as suas posições políticas. Caso nos concentremos nesses aspectos acessórios, não estaremos a fazer aquilo que verdadeiramente importa em Filosofia: o debate racional das ideias.
Citando ainda o texto, já mencionado, do filósofo Bertrand Russell:
“(…) o intelecto livre dará mais valor ao conhecimento abstracto e universal, no qual os acidentes da história privada não entram, do que ao conhecimento originado pelos sentidos e dependente, como este conhecimento tem de ser, de um ponto de vista exclusivo e pessoal e de um corpo cujos órgãos dos sentidos deformam tanto quanto revelam. A mente que se habituou à liberdade e à imparcialidadeda contemplação filosófica conservará alguma desta mesma liberdade e imparcialidade no mundo da acção e da emoção.”
Imagina que pedimos a uma pessoa para ler um pequeno texto (que ela não conhecia) de um certo filósofo. Imagina também que ela já tinha tentado ler outros textos desse mesmo filósofo, mas tinha concluído – supõe que acertadamente – que estes eram pouco claros e desnecessariamente difíceis. Se essa mesma pessoa mal prestasse atenção a esse texto e se apressasse a dizer que também ele (por ser desse filósofo) era pouco claro - revelaria uma atitude crítica? Estaria a pôr em prática a “imparcialidade” que Russell diz ser condição do filosofar?
Imagina que em vez de argumentarmos a favor ou contra uma ideia de um determinado filósofo, nos limitamos a tecer considerações acerca de episódios criticáveis da sua vida (como por exemplo: ter defendido o nazismo, ter sido desleal com colegas e amigos, etc) ou a recordar experiências negativas que tivemos na faculdade quando estudámos este filósofo. Se fizéssemos isso, estaríamos a adoptar uma atitude crítica?
«No diálogo Teeteto, Platão refere: “Conta-se, acerca de Tales, que teria caído num poço quando se ocupava com a esfera celeste e olhava para cima. Acerca disto, uma criada trácia, espirituosa e bonita, ter-se-ia rido e dito que ele queria, com tanta paixão, ser sabedor das coisas do céu, que lhe permaneciam escondidas as que se encontravam diante do seu nariz e sob os seus pés.” Platão acrescentou ao relato desta história, a seguinte afirmação: “O mesmo escárnio aplica-se a todos os que se ocupam da filosofia.” A filosofia é, portanto, aquele modo de pensar (…) acerca do qual as criadas necessariamente se riem.»
M. Heidegger, Que é uma coisa?, Edições 70, 1992, pp. 14-15.
Na linguagem do dia-a-dia a palavra “filósofo” é muitas vezes utilizada, pejorativamente, como equivalente a:
- “aquele que divaga: fala, fala e não diz nada”;
- “aquela criatura irritante que só sabe fazer perguntas”;
- “aquele que só tem teorias e é incapaz de apresentar soluções para os problemas práticos: fala mas não age, critica mas não faz”.
É verdade que esta caricatura descreve alguns daqueles que estudam ou ensinam Filosofia – nomeadamente, os que utilizam um discurso obscuro com uma terminologia filosófica pomposa, e supostamente erudita, que visa ocultar a falta de clareza das ideias ou até a ausência destas.
É fácil perceber porque motivo existe essa imagem negativa do filósofo, cuja tradição é longa (Platão descreveu-a a propósito de Tales de Mileto, considerado o primeiro filósofo). Basta considerar o facto de cada um de nós viver imerso em preocupações quotidianas de natureza prática e de, na voragem do dia-a-dia, o tempo e o distanciamento em relação ao imediato – condições necessárias à reflexão – serem, para a maior parte das pessoas, escassos ou inexistentes. Além disso, vivemos numa época em que a rapidez dos resultados e a mera eficácia prática são critérios essenciais para avaliar o sucesso de qualquer actividade.
Filosofar requer a análise e o questionamento das nossas ideias fundamentais, o conhecimento e o confronto com opiniões diferentes das nossas. Tudo isto surge aos olhos das pessoas “práticas” como algo bizarro e incómodo: Para quê pensar, se é mais fácil obedecer? Porquê adoptar uma atitude inconformista, se beneficiamos mais em seguir a opinião dos que detêm o poder? Para quê questionar as nossas crenças básicas, quando é muito mais fácil seguir as ideias feitas, a tradição, o senso comum, etc?
Por isso, para a maioria das pessoas ligadas a um qualquer poder instituído (seja ele de que natureza for) e aos interesses instalados, os que analisam e discutem ideias são um alvo a abater: é assim agora e sempre assim foi no passado (actualmente em Portugal podemos encontrar, nomeadamente nas escolas e nos partidos políticos, muitos exemplos que ilustram este facto). É natural que a esses importe transmitir da Filosofia e dos que dela se ocupam a visão caricatural a que Platão faz alusão.
Na Alegoria da Caverna, referindo-se à condição humana, Platão descreve o caminho árduo do prisioneiro em direcção à luz e ao conhecimento – no entanto será sempre nossa a decisão de escolher percorrê-lo ou optar por ficar no interior da caverna. Por outras palavras: escolher entre a lucidez decorrente da atitude crítica e uma vida vivida sem reflectir. Aos olhos das “criadas”, trácias ou não, o modo de pensar filosófico será sempre risível e os filósofos andarão sempre com a cabeça nas nuvens.