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quinta-feira, 23 de abril de 2015

A máquina das experiências

«Suponhamos que havia uma máquina de experiências que proporcionaria ao leitor a experiência que desejasse. Neuropsicólogos superfixes podiam estimular o seu cérebro de maneira a pensar e sentir que escrevia um grande romance, fazia uma amigo, ou lia um livro interessante. Durante todo o tempo, estaria a flutuar numa cuba, com eléctrodos ligados ao cérebro. Dever-se-ia ligar esta máquina durante toda a vida, pré-programando as suas experiências de vida? Se está preocupado com a perda de experiências desejáveis, podemos supor que as empresas investigaram exaustivamente a vida de muitos outros. O leitor pode escolher a partir da sua imensa biblioteca ou bufete dessas experiências, seleccionando as suas experiências de vida para, digamos, os dois anos seguintes. Após dois anos, poderia passar dez minutos ou dez horas fora da cuba, para seleccionar as experiências dos seus dois anos seguintes. Evidentemente, enquanto está na cuba não saberá que ali está; pensará que tudo aquilo acontece efectivamente. Os outros podem também ligar-se e ter as experiências que quiserem, pelo que não há necessidade de estar desligado para os servir. (Ignore problemas como o de saber quem cuidará das máquinas se todos se ligarem.) Ligar-se-ia? O que mais pode ter importância para nós, além do modo como são as nossas vidas a partir de dentro? Tão-pouco se devia abster por causa dos escassos momentos de angústia entre o momento em que decide e aquele em que já está ligado. O que são alguns momentos de angústia comparados com uma vida inteira de felicidade (se é isso que o leitor escolhe), e porque sentir angústia se a sua decisão é a melhor?
O que tem para nós importância, além das nossas experiências?»

Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vítor Guerreiro, Lisboa, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 74-75.

"What makes our life go best? Is being happy all that matters? Is a life of blissful ignorance a good life? Or is there more to a good life than this? Richard Rowland (University of Oxford) discusses whether we should take the blue pill in 'hedonism and the experience machine’."

Fonte do texto e do vídeo anterior, ver AQUI.

domingo, 28 de dezembro de 2014

A máquina de experiências agradáveis

Ignorance is bliss Cypher filme Matrix

A máquina de experiências de Robert Nozick é uma das experiências mentais mais célebres da filosofia. É referida em imensos livros, habitualmente como objeção ao utilitarismo e à ideia de que a felicidade é o bem supremo. Chegou inclusivamente ao cinema: no filme Matrix, dos irmãos Wachowski, um homem (Cypher) pede para ser ligado à Matrix - um programa de computador muito avançado que simulava a realidade – e para lhe atribuírem uma “vida” falsa muito agradável, mas sem consciência de que não era real.

Eis a máquina de experiências nas palavras de Nozick:

«Suponhamos que havia uma máquina de experiências que proporcionaria ao leitor a experiência que desejasse. Neuropsicólogos superfixes podiam estimular o seu cérebro de maneira a pensar e sentir que escrevia um grande romance, fazia uma amigo, ou lia um livro interessante. Durante todo o tempo, estaria a flutuar numa cuba, com eléctrodos ligados ao cérebro. Dever-se-ia ligar esta máquina durante toda a vida, pré-programando as suas experiências de vida? Se está preocupado com a perda de experiências desejáveis, podemos supor que as empresas investigaram exaustivamente a vida de muitos outros. O leitor pode escolher a partir da sua imensa biblioteca ou bufete dessas experiências, seleccionando as suas experiências de vida para, digamos, os dois anos seguintes. Após dois anos, poderia passar dez minutos ou dez horas fora da cuba, para seleccionar as experiências dos seus dois anos seguintes. Evidentemente, enquanto está na cuba não saberá que ali está; pensará que tudo aquilo acontece efectivamente. Os outros podem também ligar-se e ter as experiências que quiserem, pelo que não há necessidade de estar desligado para os servir. (Ignore problemas como o de saber quem cuidará das máquinas se todos se ligarem.) Ligar-se-ia? O que mais pode ter importância para nós, além do modo como são as nossas vidas a partir de dentro? Tão-pouco se devia abster por causa dos escassos momentos de angústia entre o momento em que decide e aquele em que já está ligado. O que são alguns momentos de angústia comparados com uma vida inteira de felicidade (se é isso que o leitor escolhe), e porque sentir angústia se a sua decisão é a melhor?
O que tem para nós importância, além das nossas experiências?»

Robert Nozick, Anarquia, Estado e Utopia, trad. Vítor Guerreiro, Lisboa, Edições 70, Novembro de 2009, pp. 74-75.

Não esqueça a pergunta de Nozick: ligar-se-ia?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

O que é mais importante que a felicidade?

sound of music música no coração felicidade

«A questão da felicidade é por vezes dramatizada sob a forma de uma pergunta [da autoria de John Stuart Mill]: ‘O que preferia ser: um Sócrates infeliz ou um porco feliz?’ Claro que preferiríamos ser um Sócrates feliz, mas o que se pretende demonstrar é que ter autonomia de espírito, ter consciência do mundo, e fazer escolhas próprias é melhor, de longe, do que ser passivamente feliz em prejuízo destas coisas. É por isso que nós – ou, de qualquer forma, a maior parte de nós – coloca objeções às vias fáceis de acesso à felicidade, como seja ingeri-la sob a forma química, pois desse modo não é muito diferente do esquecimento.»

A. C. Grayling, O significado das coisas, Lisboa, 2002, Edições Gradiva, pág. 96.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Ainda a felicidade

A afirmação “As pessoas querem ser felizes” é uma trivialidade que gera consenso. O mesmo não se passa quando perguntamos: o que é ser feliz? Como se pode ser feliz? Ou será a felicidade alcançável?
A resposta a estas questões é, filosoficamente, controversa. Pode-se defender que a felicidade depende do prazer, do conhecimento, do poder, de Deus, do prestígio social…
Porém, a resposta dada influencia o modo como vivemos o nosso dia-a-dia, as nossas aspirações em relação ao futuro e o facto de sentirmos que nossa vida tem ou não sentido.
Antes da adolescência, eu adorava ouvir uma canção do Caetano Veloso e lembro-me de pensar: como é que podemos saber que “a felicidade se foi embora”, sem sabermos o que ela é?
Não esqueçam as inquietações filosóficas, mas desfrutem o poema e a música!

quinta-feira, 6 de março de 2014

O que é a felicidade?

“Procuremos compreender agora – uma vez que todo o saber e toda a intenção têm um bem por que anseiam – (...) qual será o mais extremo dos bens susceptível de ser obtido pela ação humana. Quanto ao nome desse bem, parece haver acordo entre a maioria dos homens. Tanto a maioria como os mais sofisticados dizem ser a felicidade, porque supõem que ser feliz é o mesmo que viver bem e passar bem. Contudo, acerca do que possa ser a felicidade estão em desacordo e a maioria não compreende o seu sentido do mesmo modo que o compreendem os sábios.”

Aristóteles, Ética a Nicómaco, tradução do grego de António C. Caeiro,Quetzal Editores, Lisboa, 2004, pág. 22.

Mesmo que na conferência As doutrinas da felicidade na Antiguidade Clássica, de António Pedro Mesquita, não seja dada resposta à pergunta “o que é a felicidade?”, o desacordo referido por Aristóteles ficará certamente mais claro e o problema melhor compreendido. Por isso, quem puder ir amanhã, às 10:30h,  à Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, em Portimão, dará por certo o seu tempo bem empregue.

Alexander_and_Aristotle Aristóteles ensinando Alexandre, o Grande gravura de Charles Laplante

Na imagem: Aristóteles e Alexandre, de Charles Laplante.

quarta-feira, 5 de março de 2014

O que era, e o que é, a Felicidade?

As doutrinas da felicidade na Antiguidade Clássica XV 2014 conferência de filosofia da escola secundária Manuel Teixeira Gomes

As doutrinas da felicidade na Antiguidade Clássica, por António Pedro Mesquita.

Eis a XV Conferência de Filosofia da Escola Secundária Manuel Teixeira Gomes, no próximo dia 7, em Portimão.

domingo, 16 de dezembro de 2012

A felicidade é desinteressante?

David Lodge Pensamentos Secretos

«- Foi sempre fiel ao Martin? – perguntou Carrie (…).

- Claro – diz Helen, mostrando-se ligeiramente ofendida. – Se assim não fosse não me sentiria agora tão magoada [Helen, uma romancista célebre, descobriu que o marido a enganava meses depois da sua morte]. Não teria esse direito.

- Com certeza – diz Carrie. – Não quis insinuar… É só que, bem, os seus romances têm bastante infidelidade.

Helen ri-se, algo envergonhada (…). – Bem, como a maioria dos romances, na verdade. Não há grande potencial narrativo no casamento estável e monogâmico.

- Pois é. Como Tolstoi diz no início de Anna Karenina, “Todas as famílias felizes se assemelham…”

- “Mas as infelizes são diferentes à sua maneira. Francamente não sei se a primeira parte corresponde à verdade – diz Helen, franzindo o sobrolho. – As famílias felizes não são todas iguais. O problema é que não são muito interessantes – a não ser que por acaso se pertença a uma delas. A ficção alimenta-se da infelicidade. Precisa de conflitos, desilusões, transgressões. E já que os romances tratam sobretudo da vida pessoal e emocional, de relacionamentos, não admira que a maioria seja sobre o adultério. Ou melhor, a infidelidade, porque imensos casais não se casam hoje em dia – mas isso não parece fazer grande diferença para a sensação de se ser traído, pois não, quando um parceiro engana outro?

- Não.»

David Lodge, Pensamentos secretos, Edições Asa, Porto, 2002, pág. 229.

Pensamentos Secretos Thinks David Lodge

sábado, 15 de dezembro de 2012

Meio caminho andado para a felicidade

Trabalhar naquilo que se gosta não chega para ser feliz e ter uma vida boa. Talvez não seja sequer uma condição necessária. Porém, na maior parte dos casos é, pelo menos, meio caminho andado.

Em Portugal existem muitos milhares de licenciados no desemprego. Como convencer os atuais estudantes de que estudar e aprender é meio caminho andado para no futuro trabalharem naquilo que gostam ou, pelo menos, trabalharem?

cachalote

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Insatisfação

Muitas pessoas quanto mais têm mais querem e nunca se sentem realmente satisfeitas e felizes. Porque será?

Black Friday

Encontra aqui pelo menos uma parte da explicação.

domingo, 11 de novembro de 2012

Felicidade ou mero conformismo?

velho"Não procures que tudo quanto acontece aconteça como desejas, antes deseja que tudo aconteça como de facto acontece. Assim serás feliz."

Epicteto, A Arte de Viver.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

A arte de ser feliz

Nuvem

A arte de ser feliz

Houve um tempo em que minha janela
se abria sobre uma cidade que parecia
ser feita de giz. Perto da janela havia um
pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra
esfarelada, e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre
com um balde e, em silêncio, ia atirando
com a mão umas gotas de água sobre
as plantas. Não era uma rega: era uma
espécie de aspersão ritual, para que o
jardim não morresse. E eu olhava para
as plantas, para o homem, para as gotas
de água que caíam de seus dedos
magros e meu coração ficava
completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o
jasmineiro em flor. Outras vezes
encontro nuvens espessas. Avisto
crianças que vão para a escola. Pardais
que pulam pelo muro. Gatos que abrem
e fecham os olhos, sonhando com
pardais. Borboletas brancas, duas a
duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem
personagens de Lope de Vega. Às
vezes um galo canta. Às vezes um
avião passa. Tudo está certo, no seu
lugar, cumprindo o seu destino. E eu me
sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas
felicidades certas, que estão diante de
cada janela, uns dizem que essas coisas
não existem, outros que só existem
diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a
olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Reler os clássicos: Histórias de Heródoto (2)

baselitz-oberon-remix.1196183916Quadro do pintor Georg Baselitz, intitulado Oberon (Remix)  de 2005. 

Sólon, um famoso legislador ateniense, numa das inúmeras viagens que realizou foi visitar o rei Creso a Sardes. A propósito desta visita Heródoto relata o seguinte:

«À sua chegada, foi hospedado por Creso no seu palácio. Depois, no terceiro e no quarto dia, por ordem de Creso, os servidores passearam Sólon pelos tesouros e mostraram-lhe toda a riqueza e opulência aí existentes. Depois de ter observado e examinado tudo, quando considerou o momento oportuno, Creso perguntou-lhe: “Hóspede ateniense, até nós chegaram muitas vezes relatos a teu respeito, por causa da tua sabedoria e das tuas viagens, como, por amor à sabedoria, tens percorrido toda a terra, levado pela curiosidade. Veio-me agora o desejo de te perguntar se já viste alguém que fosse o mais feliz dos homens”. Interrogou-o dessa forma, na esperança de ser ele o mais feliz de todos, mas Sólon, sem qualquer lisonja e com sinceridade, responde: “Sim, ó rei, Telo de Atenas”. Surpreendido com a resposta, Creso perguntou com interesse: “Porque julgas que Telo é o mais feliz?” E ele explicou: “Natural de uma cidade próspera, por um lado, teve filhos belos e bons e de todos eles viu nascerem filhos e todos permanecerem com vida; por outro lado, depois de gozar uma vida próspera, para o nosso meio, teve o mais brilhante termo de vida. Declarada guerra pelos Atenienses contra os seus vizinhos de Elêusis, ele ocorreu em auxílio, provocou a fuga dos inimigos e morreu da forma mais gloriosa. Os Atenienses sepultaram-no com exéquias públicas no próprio local em que tombou e tributaram-lhe grandes honras.”

“ (…) Ora, no longo tempo de uma vida, há ocasião para ver e padecer muitas coisas que uma pessoa não queria (…). É necessário ver o fim de cada coisa e como se vai concluir. É que a muitos deixa o deus a felicidade e depois os abate sem apelo”.

Ao falar assim, Sólon não agradou nada a Creso e foi despedido, sem dele receber qualquer palavra. Considerava grande estultícia que alguém, sem ter em conta os bens presentes, aconselhasse a observar o fim de cada coisa».

Heródoto, Histórias (livro 1º), Lisboa, 1994, Edições 70, pp. 74-77.

Estas duas concepções opostas de felicidade - de Creso e Sólon – continuarão a dizer-nos alguma coisa?

Ou estarão, do ponto de vista histórico, completamente ultrapassadas?

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Tenho lá fora à minha espera o amor da minha vida!

Numa aula em que terminei a matéria poucos minutos antes do toque de saída, alguns alunos procuraram convencer-me a deixar a turma sair mais cedo. “Não… A menos que me convençam com boas razões – disse-lhes. - E mesmo assim será difícil!”

Então, uma das alunas levantou o braço e disse, com a convicção inabalável dos seus quinze anos: “A professora deve deixar-nos sair porque tenho lá fora à minha espera o amor da minha vida!”

Com alguma admiração perguntei-lhe: ”Como é que sabes tanto sobre o teu futuro?” Ao que ela ripostou: “Eu não sei explicar apresentando razões, mas tenho a certeza”.

É difícil pensar de modo racional sobre o amor romântico quando estamos a vivê-lo: as nossas razões são vencidas pelos sentimentos. No entanto, uma parte significativa da nossa auto-estima e satisfação com a vida depende de uma certa dose, eu diria de sorte, nesta matéria.

Para os leitores perceberem melhor o sentido das afirmações da minha aluna, experimentem a ouvir a canção “Valsinha”, escrita por Vinícius de Moraes e cantada por Chico Buarque.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Citizen Kane: o dinheiro, o poder, a felicidade e o sentido da vida

Citizen Kane

Mostrei nas aulas, a propósito do problema do sentido da vida, o filme “Citizen Kane” (“O Mundo a Seus Pés”, em português) de Orson Welles.

Ainda que alguns alunos tenham achado, inicialmente, uma certa ousadia da minha parte passar na aula um filme a preto e branco realizado em 1941, julgo que maioria deles acabou por não ficar indiferente à história relatada e ao fabuloso desempenho de Orson Welles.

Este filme permite-nos reflectir, entre outras coisas, acerca da relação entre o dinheiro, o poder e a felicidade.

O filme mostra que se pode possuir tudo aquilo que o dinheiro compra, ter poder para concretizar todos os desejos e acabar na mais completa solidão. Sendo assim, o que é verdadeiramente importante na vida?

É espantoso pensar que Orson Welles (simultaneamente realizador e actor principal) tinha apenas 25 anos quando o filme foi feito, tendo sido o primeiro  que realizou.

Bem, chega de palavras. Vejam o filme, que é, na minha opinião, genial.

citizenkane

quarta-feira, 3 de junho de 2009

O dinheiro não traz a felicidade!

“Os filósofos antigos tiveram muito a dizer sobre a felicidade. Supunham que ‘a melhor vida’ e ‘a vida feliz’ eram a mesma coisa, e geralmente aceitavam que a felicidade consistia numa vida de razão e virtude. Epicuro (341-270 a. C.) recomendou uma vida simples, de modo a se evitarem sofrimentos e ansiedades. Os estóicos acrescentaram que um homem sábio não permitiria que a sua felicidade dependesse de coisas que estivessem fora do seu controlo, como a riqueza, a saúde, a boa aparência ou as opiniões dos outros. Não podemos controlar as circunstâncias externas, disseram, pelo que devemos ser indiferentes a essas coisas, aceitando-as como aparecem. Epitecto (c. 55-135 a. C.), um dos grandes professores estóicos, deu este conselho aos seus estudantes: ‘Não peçam que as coisas ocorram segundo a vossa vontade; façam com que a vossa vontade seja que as coisas ocorram como ocorrem de facto, e terão paz.’

Algumas destas ideias podem parecer questionáveis, mas uma parte significativa delas tem sido confirmada pela investigação psicológica moderna.

Moedas mão cheia de dinheiro Consideremos, por exemplo, a ideia de que a riqueza não traz felicidade. Dado que a maior parte das pessoas quer ser rica, poderíamos pensar que há alguma correlação entre a riqueza e a felicidade. Mas não há. Quando Ronald Inglehardt, cientista político da Universidade de Michigan, comparou os níveis de riqueza de países diferentes com aquilo que as pessoas desses países dizem sobre a sua satisfação com a sua vida, descobriu que as pessoas dos países mais ricos não são mais felizes do que as dos países mais pobres. Por vezes acontece o oposto: os alemães ocidentais têm o dobro da riqueza dos irlandeses, mas os irlandeses são mais felizes. Dentro de países específicos, encontrou a mesma ausência de correlação: as pessoas que têm mais dinheiro não são mais felizes que as outras. Portanto, sermos ricos não importa. As pessoas afectadas pela pobreza tendem a ser menos felizes do que aquelas que possuem o suficiente para viver; mas, para aqueles que estão acima da linha de pobreza, o dinheiro adicional faz pouca diferença. O psicólogo David Myers observa que ‘quando se ultrapassa a pobreza, o crescimento económico suplementar não melhora significativamente o ânimo dos seres humanos’.

Os estudos sobre os vencedores de lotarias confirmam isto de forma notável. Como é óbvio, os vencedores de lotarias ficam extremamente felizes quando sabem das boas notícias e a euforia tende a durar alguns dias. Mas, passado pouco tempo, regressam ao seu nível normal de felicidade. No essencial, as pessoas amuadas voltam a ficar amuadas. Podem ser capazes de deixar o emprego e de comprar muitas coisas, mas, no que respeita ao seu nível de felicidade, a riqueza recentemente adquirida não faz diferença. (…)

Então, o que tornará as pessoas felizes? Se não é a riqueza (…) o que será?”

James Rachels, Problemas da Filosofia, tradução de Pedro Galvão, Gradiva, Lisboa, 2009, pp. 286-288.

problemas da filosofia James Rachels

terça-feira, 26 de maio de 2009

“Sair para o mundo e fazer algo que mereça a pena”

«Até à minha chegada a Nova Iorque [em 1973, para dar aulas de Filosofia na Universidade de NI], nunca conhecera ninguém que fizesse psicoterapia uma vez por semana; mas, quando travei conhecimento com o círculo de professores nova-iorquinos e suas esposas, depressa descobri que muitos deles faziam psicanálise diária. Cinco dias por semana, onze vezes por ano, tinham uma consulta de uma hora, que não podia ser cancelada por nada deste mundo, salvo numa emergência de vida ou de morte. (…) E isto não era nada barato. Alguns dos meus colegas, académicos bem remunerados e bem sucedidos, entregavam um quarto do seu ordenado anual aos seus analistas! Isto era para pessoas que, tanto quanto me era dado perceber, não eram nem mais nem menos perturbadas do que as que não faziam análise, e, com excepção do seu empenho na análise, não me pareciam diferentes das pessoas que eu conhecera em Oxford ou em Melbourne.

Perguntei aos meus amigos por que razão faziam aquilo. Responderam-me que se sentiam reprimidas, ou tinham tensões psicológicas por resolver, ou que não viam sentido para a vida.

Deu-me vontade de pegar nelas e abaná-las. Estas pessoas eram inteligentes, talentosas, abastadas e viviam numa das cidades mais estimulantes do mundo. Estavam no centro do maior centro de comunicações da História. O New York Times informava-os todos os dias do estado do mundo real. Sabiam, por exemplo, que em vários países em vias de desenvolvimento havia famílias que não sabiam de onde viria a sua comida para o dia seguinte e crianças que estavam a crescer física e mentalmente atrofiadas pela malnutrição. Sabiam, também, que o planeta podia produzir comida suficiente para cada ser humano ser adequadamente alimentado, mas esta encontrava-se tão mal distribuída que tornava risível qualquer referência a justiça entre nações. (Por exemplo, em 1973, o Produto Interno Bruto per capita dos Estados Unidos era de 6200 dólares e o do Mali 70 dólares.)

Se estes nova-iorquinos capazes e abastados tivessem saído dos divãs dos analistas, deixado de pensar nos seus próprios problemas e feito qualquer coisa quanto aos verdadeiros problemas enfrentados por pessoas menos afortunadas no Bangladesh ou na Etiópia – ou mesmo em Manhattan, umas poucas paragens de metro mais adiante -, ter-se-iam esquecido dos seus próprios problemas e talvez tivessem tornado também o mundo um sítio melhor. (…) [Ou seja:] a solução está em sair para o mundo e fazer algo que mereça a pena» [em vez de apenas olhar para dentro, só preocupados com o próprio umbigo].

Peter Singer, Como havemos de viver? – A ética numa época de individualismo, Dinalivro, Lisboa, 2006, pp. 361-362.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

O paradoxo do hedonismo e o Dia dos Namorados

On A Claire Day by Carla Ventresca and Henry Beckett



“A maioria das pessoas não seria capaz de encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocupar com ninguém nem com coisa alguma. Os prazeres assim obtidos pareceriam vazios e em pouco tempo tornar-se-iam insípidos. Procuramos um sentido para a vida que vá para além do prazer pessoal e sentimo-nos realizados e felizes quando fazemos as coisas que consideramos plenas de sentido. Se a nossa vida não tiver sentido algum para além da nossa própria felicidade, é provável que, ao conseguirmos aquilo que julgamos necessário para essa felicidade, constatemos que a própria felicidade continua a escapar-nos.

Tem-se dado o nome de “paradoxo do hedonismo” ao facto de as pessoas que procuram a felicidade pela felicidade quase nunca a conseguirem encontrar, ao passo que outros a encontram numa busca de objectivos totalmente diferentes.”

Peter Singer, Ética Prática, Gradiva, 1ª edição, 2000, pág. 357.


Ao defender que podemos encontrar a felicidade e o sentido da vida quando tentamos pôr em prática objectivos a que atribuímos sentido e valor, Peter Singer tem em mente objectivos de natureza ética: ajudar pessoas necessitadas, combater a pobreza, combater algumas das várias formas de desigualdade e discriminação existentes no mundo, contribuir para a preservação do ambiente, etc.

A ideia é que o mero prazer pessoal não é suficiente e que precisamos de objectivos mais amplos e mais vastos que a nossa própria vida.

Muitas pessoas não seriam de facto capazes de “encontrar a felicidade ao decidir deliberadamente gozar a vida sem se preocuparem com ninguém nem com coisa alguma”, pois não são psicopatas dispostas a fazerem tudo aquilo que lhes der satisfação pessoal, mas não parecem ter os objectivos de natureza ética valorizados por Peter Singer.

Há muitas pessoas que são como as personagens do Cartoon: valorizam acima de tudo algumas relações afectivas – o amor pelos pais ou pelos filhos, o amor pela pessoa por quem se apaixonaram, etc. Para elas, mesmo que não seja o Dia dos Namorados, a pessoa amada é sempre o centro do mundo. Mas não procuram combater a pobreza nem se empenham na preservação do meio ambiente.

O amor que essas pessoas sentem por algumas pessoas próximas será suficiente para que tenham objectivos mais vastos que as suas próprias vidas ou não passará isso de uma outra forma de procurar o mero prazer pessoal? Ou seja: se não forem activistas de causas eticamente relevantes, estarão essas pessoas condenadas a procurar a felicidade pela felicidade e, por isso, a só encontrarem a amarga infelicidade?


terça-feira, 28 de outubro de 2008